História sem destino certo 3



            Chegar em casa naquele princípio de noite não foi como sempre. Ainda pesavam em sua cabeça muitas incômodas perguntas que nem ousava se fazer, o desconforto do aperto naquele vagão do metrô, antes nem percebido, a identificação com aquelas caras cansadas de passageiros anônimos como ele e a sensação da bosta caindo sobre seus cabelos. Bem que queria encontrar a mãe, ao chegar. Mas, como andava acontecendo ultimamente, ela não havia chegado, e foi inevitável a sensação de solidão. Antes, ansiava pelo momento de ficar sozinho em seu quarto, após responder as quase sempre mesmas perguntas que a mãe costumava fazer quando ele chegava. Não desta vez. Sem dúvida precisava de alguém para conversar, ainda que fosse para responder as mesmas velhas perguntas. Por isso não foi para o quarto e nem tomou banho, como fazia quando o dia tinha sido quente tal qual aquele. Sentou-se no sofá da sala, de olho na porta que deveria se abrir logo.
            Nem tão logo assim. Só quase oito horas a mãe entrou sorridente ao vê-lo, carregando com esforço vários sacos de supermercado.
            — Demorou!
            — É, precisava fazer compras. Me ajuda aqui, filho.
        Na cozinha, enquanto a mãe guardava as compras num armário e na geladeira, permaneceu em silêncio, observando cada gesto da mulher.
            — Tudo bem. Pode voltar pra sala. Já já preparo a janta. Hoje comprei bife de filé!
            Não disse nada, nem saiu da posição em que estava.
            — Já sei. Tá querendo conversar; conheço essa cara...
            — É.
            — Não quer esperar eu fazer a janta? Estou com fome...
            — Mãe, um passarinho cagou na minha cabeça.
            — O quê? E você não foi tomar banho pra lavar essa cabeça?
            — Eu lavei no banheiro do metrô.
            — Mesmo assim. Lá não tem xampu.
           — Depois eu tomo banho, isso não interessa. A porra do passarinho cagou na minha cabeça! E eu vi que a minha vida é uma puta merda!
            — Deu pra falar palavrão agora?
           — Caralho, mãe! Eu tô falando que a minha vida é uma merda e você fica preocupada com palavrão e com cortar cebola!
            — Sua vida não é uma merda. É um pouco sem graça, mas não é uma merda.
            — Um pouco? Não tem graça alguma, isso sim!
            — Mas isso se resolve, né filho.
            — Como?
           — Ah, isso eu não posso responder por você. Por isso mesmo eu perguntava a você se não pensava em arrumar uma namorada.
            — E arrumar uma namorada melhora a vida?
            — Se não melhora, ajuda. Pronto, o bife já está temperado, é só fritar. Pega o feijão aí na geladeira pra eu esquentar. Agora é só o arroz secar, fritar o bife e vamos comer. Você quer salada?
            — Não! Eu quero entender o que está acontecendo comigo!
            — O que está acontecendo com você é muito bom.
            — Bom? Eu falo que a minha vida é uma merda e você acha bom? Que porra de mãe é você?
            — Olha o respeito!... Isso é o primeiro passo, filho. Comigo também aconteceu isso; eu percebi que alguma coisa tinha que mudar, que do jeito que estava não podia continuar.
            — E o que você fez? Arranjou um namorado?
            — Mais ou menos...
            — Mais ou menos? O que é um namoro mais ou menos, um caso?
            — Mais ou menos...
            — Você está tendo um caso, mãe?
            — Mais ou menos.
            — O que é então?
            — Vai lá se sentar pra gente comer. Eu já vou fritar o bife.
            — Fala logo, mãe!
            — Eu conheci um rapaz.
            — Um rapaz? Ele é mais novo que você?
            — Uns dois anos. Mas é muito sério.
            — E vocês estão tendo um caso?
          — Mais ou menos, ainda não é um caso. A gente conversa, ele é muito respeitoso, o máximo que aconteceu foi ele segurar a minha mão e beijinho no rosto. E antes que você me pergunte, ele é separado como eu, a mulher largou dele, igual seu pai, e não está interessado em ter somente um caso comigo. Ele quer namorar e se a gente se entender bem — o que não é nada difícil, ele é um cara muito bom —, ele quer se casar comigo.
            — Casar? E eu?
            — Ele sabe de você, não se importa, ele também tem uma filha adolescente que mora com ele. Até já trouxe a filha pra gente se conhecer.
            — Você vai morar com ele? Onde? Aqui ou na casa dele?
            — Calma, a gente nem namora ainda.
            — É, mas ele já trouxe a filha pra você conhecer. Você gostou dela?
           — Gostei sim. É uma menina muito educada, tranquila como você, só que mais esperta. Ela me falou que o pai está apaixonado e pôs a maior pilha pra que eu aceite, porque desde que a mãe dela foi embora, era a primeira vez que ela via o pai tão feliz.
            — Ela é melhor que eu?
          — Para com isso! Não existe filho melhor que você. Você é o meu filho e eu te amo muito muito muito! Nunca tenha dúvida disso! Você me apoiou no momento mais difícil da minha vida, me fez cair na real quando eu me sentia perdida, nunca me deu trabalho, pelo contrário, sempre me ajudou. Você é o filho que qualquer mãe queria e eu te amo desde o primeiro dia que você nasceu.
            — Você nunca me disse isso...
           — É verdade. A gente não fala muito do que vai dentro da gente... Eu até queria falar muitas vezes, mas você sempre teve esse jeito reservado e eu respeitava.
            — Mas agora eu quero falar. Antes, você fala. Como é que você conheceu esse cara? O que ele faz? Como é que vocês começaram a namorar?
            — Já disse que a gente não namora...
            — Ah, vá, mãe. Tá na cara que ele está afim de você e você dele.
            — Mas eu nunca começaria a namorar sem antes falar com você. Ele quer conhecer você...
            — Mas eu não quero conhecer ele. Acho que ainda não estou pronto pra aceitar esse namoro.
         — Você perguntou como a gente se conheceu. Ele tem uma oficina de automóveis perto da confecção. Sempre que eu entrava ou saia, ele ficava me olhando, até que um dia, tava calor, eu parei no bar que tem ao lado da confecção pra tomar um guaraná gelado. Ele chegou, muito educado, pediu pra se apresentar e se podia conversar comigo. Desse dia em diante a gente conversava quase todo dia, ele me acompanha até o ponto de ônibus, sempre no maior respeito, e a gente foi se conhecendo, se gostando, e é isso.
            — Parece que você gosta de homem com carro, né mãe. O pai era taxista e esse aí é mecânico...
       — Mas ele é diferente do seu pai. Mais educado, mais bonito... Mas fala, filho. O que está te atazanando, fazendo sua vida parecer uma merda...
            — Não sei... A Martina fez umas perguntas, falou bem de mim...
            — Quem é Martina?
            — A temporária. Falei dela.
            — Agora você sabe o nome dela. O que ela perguntou?
            — Negócio de estudo, se eu pretendia estudar, essas coisas...
            — E por isso sua vida é uma merda?
        — Não, mãe. Eu não tenho futuro, entende? Se eu continuar assim, o que vai ser de mim? Vou continuar a vida inteira trabalhando na papelaria? E agora ainda tem essa: se você se casa com esse cara, o que é que eu faço? Vou morar junto com você, o cara e a filha dele? É, não bastava eu não saber o que fazer e ainda tem essa do seu casamento...
            — Já falei que a gente nem namora!
           — Mas é questão de tempo. Se não for esse vai ser outro. Uma mulher bonita e interessante como você, vai aparecer um cara afim; ainda mais usando esses vestidos curtos que você anda usando...
            — E essa Martina, filho; está interessada em você?
            — Fala sério, mãe. Você acha que alguma mulher pode se interessar por mim?
            — Por que não?... E ela não falou bem de você?
           — Ela só estava puxando meu saco, porque sacou que o patrão gosta de mim e ela tá muito a fim de ser contratada em definitivo pra pagar os estudos, só isso.
            — É de uma mulher assim que você precisa, filho, uma que mexa com a sua cabeça, que tire você desse comodismo em que você meteu a sua vida.
            — Você me acha acomodado?
            — Eu nem preciso achar nada. Você mesmo está percebendo isso.
            — Mas o que eu faço da minha vida, mãe?
          — Será que precisa outro passarinho cagar na sua cabeça pra você achar o que fazer? Vai tomar banho, vai. Depois eu esquento de novo a janta e frito o bife pra você.
            A rotina de sempre não parecia a rotina de sempre. Atrás do balcão, ele atendia os fregueses com a mesma presteza e eficiência, mas havia uma inquietação submersa nos gestos e passos quase mecânicos na tarefa de atender os compradores. Nem tudo estava certo ali, agora ele via. As vitrines estavam erradas, expunham os produtos errados, e havia alguns entre os mais vendidos que ficavam no fundo, em vez de estarem à mão. Já outros, de pouca saída, ficavam mais perto, ou seja, perdia-se um tempo desnecessário, trombava-se com outro vendedor. Errado. Com certeza não era só ele que andava errado.
            — Patrão, por que o senhor não põe na vitrine os produtos de mais apelo, em vez das canetas que quase ninguém usa mais, os grampeadores que pouca gente compra e aquelas outras coisas que quase ninguém compra?
            — É pra ver se alguém se interessa e compra...
            — Mas a vitrine deve servir para atrair o cliente. Depois, se ele entrar, a gente poderia tentar vender os encalhados, quem sabe dando um desconto pra evitar capital empatado.
            — Deu pra entender de negócio agora, Robson?
         — Não, que é isso, patrão. Só estou interessado em que a loja fature mais, assim aumenta minha comissão.
            — Tá certo, Robson, vamos mudar a vitrine pra ver o que acontece. Pode mudar.
         — Eu? Não!... O senhor deve contratar um especialista em vitrine, gente que entende disso. Vai gastar um pouco mais, mas tenho certeza que é um bom investimento. E patrão, a gente precisa racionalizar a disposição dos produtos nas prateleiras, colocar mais perto os mais vendidos, mais na vista do freguês, e a gente não precisa se deslocar tanto, perdendo tempo.
            — Faz sentido. Você faria isso?
            — Até faria. O problema é o tempo...
            — Você viria num sábado? Pago hora extra.
            — Posso pedir pra alguém me ajudar?
            — Pode. E Robson; valeu, hein...
            A mudança nas vitrines iria de fato aumentar as vendas e a reorganização das prateleiras funcionaria como o esperado. E depois daquela conversa, pela primeira vez, desde o dia anterior, ele sentia alguma coisa próxima da satisfação. Mas a satisfação maior veio no fim do expediente, quando Martina o convidou para ir a uma livraria. Queria comprar um romance que costumava cair no Vestibular. Na conversa, a caminho da livraria, lembrou-se do que disse uma professora de Português do colégio, que ler era muito importante, que quem lê é uma pessoa melhor, argumentos vivamente reforçados por Martina. Também ficou sabendo que ela tinha um namorado, referido por ela de forma negativa, o que o fez se conter na curiosidade de saber mais.
            Ela logo comprou o livro que queria e ele andou indeciso pela livraria, perdido entre tantos livros.
            — Queria comprar um livro para ler. O que eu compro?
            — Compra o que te agradar, o que você tem alguma referência...
           É, parece que as mulheres são assim, nunca dão uma resposta objetiva. “Mãe, o que eu faço?” “Não posso responder por você.” “Que livro eu compro?” “Compra o que lhe agradar...” Dispensou Martina, que demonstrava sinais de pressa, e continuou passeando pela livraria, esperando que algum livro lhe chamasse a atenção. Na cabeça se misturavam os livros comentados no colegial e a incômoda sensação de que tinha mudado as coisas na papelaria, mas na sua vida tudo continuava igual. Até que leu sobre uma estante “autoajuda”, e se interessou. Ao pagar no caixa, levava cinco livros, dois de autoajuda e três romances, que comprou porque queria também uma leitura que lhe desse prazer. E nas duas próximas semanas leria os cinco livros, muitas vezes até de madrugada, a princípio porque se obrigava e depois de alguns dias porque estava gostando mesmo, a ponto de algumas vezes não ver a hora de chegar em casa. Claro que a mãe estranhou essa súbita mudança de hábitos do filho, mas não interferiu nem sequer comentou, preocupando-se apenas quando ele ia dormir muito tarde.
            Dos livros que comprou, pouco aproveitou os de autoajuda — “A Vida É o que Você Faz Dela” e “Como Aumentar Sua Autoestima”. Depois comentaria com Martina que “se fosse tão fácil mudar como os livros ensinavam ninguém teria problemas, bastava ler um livro”. Já os romances — Memórias Póstumas de Brás Cubas, Vidas Secas e Os Deuses Chutam Lata na Consolação — o tocaram mais. Nem tanto “Os Deuses”, que achou apenas divertido e “Memórias Póstumas”, que achou um pouco deprimente. Mas Vidas Secas pegou pesado nele. Identificou-se com Fabiano, sua incapacidade de reagir, sua submissão aos acontecimentos e às pessoas (“governo é governo”), suas dificuldades para mudar seu destino. Não, não seria um Fabiano, não se submeteria aos acontecimentos resultantes das ações dos outros, como se sua vida fosse determinada pelos outros, seu pai, sua mãe, seu patrão, Martina, seus professores, seus governantes, todos que sempre determinavam para onde sua existência deveria seguir. Agora era sua vez de decidir. Já sabia o que “não” queria. Mas o que ele queria?
            Então ele toma duas decisões:
A – Arrumar uma namorada.
B – Ler muitos livros.
C – Conhecer o namorado da mãe.
D – Preparar-se para fazer um curso de Letras.
E – Pedir aumento, com a intenção de comprar um apartamento.
F – Abrir uma pequena empresa e fazer um curso no Sebrae.
G – Preparar-se para fazer um curso de Administração de Empresas.
H – Cantar Martina.
I – Ir pra cama com uma prostituta.
J – Convidar Martina para jantar com ele no Boi na Brasa e levá-la ao cinema.

L – Conhecer a filha do namorado da mãe.

6 comentários :

  1. O conflito está bem interessante. Já estou ansiosa para ler o próximo capitulo.

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  2. Bem eu fico com as alternativas F e G

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  3. Ainda não li a crônica, mas adorei o site. As folhas de caderno picotadas e o cinzeiro no fim (também sou um ser em extinção...fumante). Parabéns e boa sorte. P. S - tente postar uma vez por semana pelo menos. Abraços.

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  4. Escolho as alternativas A e G. Parece que o local apropriado para a votação não está computando corretamente os votos, já que embora tenha escolhido a alternativa A nos resultados não aparece nenhum voto...

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