MUDANÇA 3, MUDANÇA 4

MUDANÇA 3


Estou mudado
não estou mudo
estou muda e broto.
Em mim
a terra fértil
a luz do sol.
O que muda não se confina estático
elabora no seu bojo o expandir-se
mais que semente
mais que latente
é o que se desdobra:
lençol limpo sobre a cama
caldo de cana
maré cheia.
O que muda não se permite medo
abre-se pleno em desejos
feito favo de mel
feito lua no céu;
é o que interfere:
tempero de arroz cheirando no almoço
manga chupada até o caroço
chuva de verão.

Alusão ao infinito
no que há de pessoal
mergulho no íntimo
onde o eu confunde-se em tu
a somatória do mim
mínimo e máximo
o dentro é mar
e gesta vida
aparentemente escuso
o dentro aflora
mar de praia
oceano de regiões pelágicas
abissais
o mar mais que ondas
mais que vagas,
o mar mar
água e água e sal
incontido nos seus limites infinitos
o mar do amar
das formas várias
das estrelas do mar.

E se esse mar aflora,
esse mar é flor
suas pétalas de água
como as que vertem os olhos,
seja choro, seja olhar,
o de dentro aflora e se derrama.

E se é flor e se derrama,
esse derramar é perfume
o invisível, o inaudível
o oloroso das flores
o de dentro que emana.

Emana de mim o que muda
(muda, muda e muda)
o pólen dos sentimentos
profundos fundos de mar
que me tu em mim
duplo uno do mar
a ofertar palavras-peixes
as que se movem vivas no mar
que a mim gesta
ato pleno de enfrentar
as procelas e intempéries
a violar-me os limites
correntes marinhas de mim
a revelar-me em muda.

Inda que o tempo seco do fora
suprima as águas da sede —
o me conter em mar —
derramar-me;
não o derradeiro
o definitivo
espraiado muito aquém
da linha do horizonte;
sentir-me nos estuários
na foz, nos deltas, nas ilhas.

Inda que o tempo seco do fora
evapore-me os olhares —
hoje não chove
e minha alma seca está estendida
nos varais do tempo —
inda que o parco das pedras
dos seixos dos leitos dos rios
me deserte em meu dar,
inda assim,
mudar,
porque o que muda,
como estrela se formando na noite,
como barco que navega para o porto,
o que muda corrompe o inerte
o que muda verte
olho d’água raiz de rio
geração de chuva benfazeja
a arrebentar sementes
e tudo que é imenso em seu porvir.

Gota a gota alimentei este mar
e me encontrei no que te me dou
eu que sou
amanhecente em albas
renascente em algas
no que é em si milagre
porque fértil em flor.

O que muda em si já transmutado
gera e anuncia futuros
como o início de um sorriso
ou como gargalhada de rio.

E assim me anuncio:
cio de mim
profundamente vivo
enfim.    









MUDANÇA 4


O deus mu dança
o deus mu Gil
muamba de mus no Brasil
mucufos dos mucufas
deus Gil dança
muda dança
muda Brasil mudo

dança Brasil dança.

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