MUDANÇA 1, MUDANÇA 2

MUDANÇA 1


O que mudar seria?
A noite mudada em dia?
Aquilo que deixaria
em calma a correria?
Seria
os trapos da hipocrisia
o trato da cantoria
a fome da anorexia?
Seria mudar seria
o cheiro da maresia
luzeiro da ardentia
os custos da primazia?
Seria
no centro a periferia
ou cheia a panela vazia
ou sujo que limparia?
E seria
aquilo que foi ou iria
final da tirania
liberdade inda que tardia?
O que seria?
Deixar o que se sofria
mostrar dentes de alegria
cuidar da pele sadia?
E a gosma da covardia
e o medo de entrar em fria
em que se transformaria?
Seria mudar polia
que multiplica a agonia
da vida sem serventia?
Seria?
Descuidar-se da estria
a ruptura sombria
de um mundo sem fantasia?
Mudar o que é que seria?

(Olhando a cercania
sentindo o que me arrepia
vejo:  não muda
tudo o que se queria.
Mudar não é o seria
nem ouro de alquimia
nem mãe sem sua cria.
É cores em harmonia
em passos de travessia.)
    


MUDANÇA 2

O que muda
num museu é mudo.
Foi novo e ovo
geratriz do vindouro
sementes únicas e lúcidas
de povo.
Ali, ex-obra,
o fixo do mutável
o inexorável
imortal mortal.
Na obra (ex-) o estagnado:
o que foi futuro,
passado;
o presente inerte,
o fado.
Mudo museu
em si desprovido de porvir
memória resignada
do que ousou interferir.
Hoje e ontem
povoado de fantasmas
que passeiam sem sustos
nas salas calmas
na busca sem desespero
de suas almas.
Mas
há no exposto ainda
um gérmen mal resolvido
de revolta
muda escolta de abantesmas
que se nutrem do sido.
E isto — o ido —
é o que cutuca
com sua vida congelada
a inércia oculta dos passantes.
Recusa da volta e da morte
latente na obra (inda que ex-),
aos olhos cobra
de quem quer ver
o que muda
num museu.

Museu (eu) mudo.   

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