História sem destino certo 2

            Mais um dia normal como quase todos. De novidade apenas o anúncio, pelo dono, de que foram contratados dois novos atendentes para trabalho temporário, já que se aproximava o Natal e era época de muitas vendas de papeis de presente, de caixas, de quinquilharias disponíveis na papelaria, de coisas que abasteceriam os muitos amigos secretos dos escritórios da região. A ele caberia treinar os novatos e amanhã teria que chegar meia hora antes para mostrar a distribuição dos produtos pela loja, como consultar rapidamente a tabela de preços, caso tivessem dúvidas, como usar o computador para remeter a comanda ao caixa, como lidar com clientes em dúvida, enfim, tudo que compõe sua rotina de trabalho. No meio da tarde o chefe o chamou para apresentar os dois, um rapaz e uma moça, prometendo emprego definitivo aos dois, se tivessem um bom desempenho. “Mentira” pensou. No ano passado disse a mesma coisa e ninguém foi contratado. Do mesmo modo que no ano anterior e no outro e no outro...
            A caminho de casa, pensava nessa futura tarefa e esperava que os temporários deste ano fossem mais espertos que os do ano passado, lerdos para aprender. Aparentemente eram. O rapaz (“como era o nome dele mesmo?”) parecia atento às ponderações do chefe e dono da papelaria e a moça (“puxa, nem perguntei o nome dela”) também. Talvez aprendessem logo e o deixassem fazer seu trabalho em paz. Já o haviam atrapalhado hoje, com fregueses esperando para serem atendidos, enquanto o chefe dissertava sobre suas mentiras e verdades pela metade.
            — Como foi seu dia hoje, filho?
           — Normal. De novo, só dois temporários que o patrão está contratando pro Natal, daqueles que ele manda embora em janeiro.
            — Dois rapazes?
            — Não, um rapaz e uma moça.
            — E ela é bonita?
            — Quem?
            — A moça!
            — Sei lá, nem reparei...
            — Não reparou porque ela é feia ou porque não prestou atenção?
            — Eu estava preocupado com fregueses esperando para serem atendidos...
            — Mas nem olhou pra moça?
            — Olhei, claro.
            — E então, era bonita ou feia?
            — Acho que não é muito bonita nem muito feia. Se não, eu tinha reparado. É, ela não é feia...
            — Então é bonita...
            — Que papo é esse, mãe!
            — Você não se interessa por moças?
          — Como assim? Você quer saber se eu sou gay? Não, mãe, eu não sou gay. Não tenho o menor interesse por homem.
            — E por mulher?
            — Como assim?
            — Você nunca se interessou por nenhuma mulher, nunca namorou? Você é virgem?
            — Mãe! Vamos mudar o rumo dessa prosa sem graça. Não quero falar sobre isso.
            — Mas quando quiser conversar sobre esses assuntos, pode falar comigo, viu, filho.
            — Tá bom. Quando eu quiser, eu falo. Você tá de vestido novo, mãe. Vai sair?
            — Você gostou?
            — Tá um pouco curto, mas gostei...
            — Fui eu que fiz.
            — Como? Você não tem máquina...
          — Fiz na confecção. O seu Laércio deixou que eu ficasse uns vinte minutos depois do expediente usando uma mesa pro corte e uma máquina, enquanto ele fechasse as portas, desligasse as máquinas, essas coisas. Em uma semana eu terminei o vestido. Ficou bom, não ficou?
             — Ficou, só está um pouco curto...
         — É como as moças usam. Eu queria mostrar pra elas, fazer propaganda, entende? A vizinha já perguntou onde eu tinha comprado. Sou boa modelo. Vou dar uma desfiladinha pra você ver.
            — Tá engraçado, mas para com isso, mãe.
            — Então, quando eu tiver a minha máquina, vou costurar em casa. E se a freguesia for grande, paro de trabalhar na confecção e ganho muito mais, sem contar que não vamos mais precisar comprar roupas, porque eu mesma faço.
            — Se você quiser, eu compro a máquina.
            — Com que dinheiro?
            — Compro a prestação.
         — Nada disso! Nada de dívida, de prestação. A gente não deve nada pra ninguém e quero que continue assim.
            — Com o dinheiro do 13º e este mês a comissão aumenta...
         — Nada disso. Seu dinheiro é seu. Estou guardando um pouco todo mês, quando completar eu compro a máquina, isso não tem urgência.
            — Você que sabe. Se quiser comprar logo, pode contar comigo.
            — Fala a verdade: sua mãe sabe costurar bem, não sabe?
            — É, sabe. Mas o comprimento...
            — E daí... Eu tenho umas pernas bonitas. Não tem nada de mais mostrar...
            — Mas os homens ficam olhando.
            — E quem disse que eu não gosto que os homens olhem pra mim?...
            — Mãe!
            — E você: não olha pras pernas das moças, não? A nova temporária tem pernas bonitas?
            — Eu sei lá. Não olhei nem pra cara dela, quanto mais pras pernas...
            Que será que estava acontecendo com sua mãe... Nunca teve uma conversa dessas com ele, nada sobre mulheres, nada sobre sexo. E por que andava encurtando os vestidos, se pintando, mudando o cabelo... Será que está namorando? Bem que poderia ser; nos seus quarenta e poucos anos ainda é uma mulher bonita. Vá lá que não é nenhuma miss, mas também não é de se jogar fora... E agora vem com esse papo de namoro, de mulher... Será que ela quer que ele se case, vá embora, pra ela trazer um homem pra dentro de casa? Melhor conversar direito com ela. Parece que na verdade é ela que quer falar sobre esses assuntos, não ele. Melhor conversar com ela. Mas não hoje. “Hoje preciso dormir, que amanhã tenho que me levantar mais cedo pra ensinar aqueles dois.”
            De fato a moça era esperta; já o rapaz... Em quinze minutos mostrou o depósito nos fundos da loja, como e quando pedir reposição dos produtos mais vendidos, a localização de cada item comercializado, o registro das vendas, enfim, os aspectos dinâmicos do trabalho, tudo feito sem preguiça, com paciência. Também, para facilitar o trabalho deles, disse de cor os preços dos produtos mais vendidos e ponderou que seria bom se eles decorassem, o que logo aconteceu com a moça e nem de longe com o rapaz. Ainda sobravam uns quinze minutos para a loja abrir e a moça sugeriu que fossem até o bar em frente tomar um café. Vacilou, mas aceitou. Já o rapaz, preferiu ficar tentando decorar a lista de preços dos itens mais vendidos.
            — Vamos, dá tempo — ela insistiu.
            — Tá bom, vamos. Só que eu trago o dinheiro certo pro almoço e pra condução...
       — Tudo bem, eu pago. É o mínimo que eu posso fazer pra agradecer sua gentileza e paciência.
            — Só estava fazendo o meu trabalho...
       — Não. Seu trabalho é como vendedor e não trabalhar meia hora a mais para ensinar novatos.
            — Eu considero que faz parte do meu trabalho.
            — É sempre você que ensina?
            — De uns anos pra cá, é.
            — O patrão deve confiar muito em você.
            — Acho que sim, senão já tinha me mandado embora...
            — É que você é bom, Robson.
            — Todo mundo diz que eu sou bonzinho...
            — Bonzinho não, Robson. Você é bom, muito bom. Por isso o patrão confia em você. E não é só bom no seu trabalho. Eu vi, quando o patrão nos apresentou, que você ficou o tempo todo preocupado com os fregueses esperando atendimento. Você acha que o patrão não vê isso? Depois eu fiquei observando você trabalhar — o patrão pediu pra que eu fizesse isso, para ir aprendendo —. Você é rápido, sem deixar de ser atencioso, você resolve tudo muito depressa e o freguês sai satisfeito. Você também é bom de caráter, dá pra ver isso.
            — Obrigado...
            — Há quanto tempo você trabalha nessa papelaria?
            — Cinco... não, seis anos.
            — E não pretende fazer outra coisa? Você estudou, estuda?
            — Fiz o colégio...
            — Não pretende fazer faculdade?
            — Nunca pensei nisso. Precisei começar a trabalhar com dezessete anos e fui ficando...
         — Também preciso trabalhar, minha família é grande e o pai ganha pouco. Mas eu vou fazer uma faculdade. É só arranjar um emprego fixo, que eu volto a estudar.
            — Vamos que o patrão já vai abrir a loja.
            — Robson, obrigada.
            — De quê?
          — Você me mostrou o que eu tenho que fazer para garantir este emprego. Eu sei que o papo do patrão de que contrata depois é pra enganar trouxa. Já tive outros trabalhos temporários. Mas desta vez eu vou brigar pra valer pra ficar. Obrigada.
            — Boa sorte... Espera, como é seu nome mesmo?
            — Martina.
            Dia difícil aquele. Difícil se concentrar no trabalho e ao mesmo tempo ficar supervisionando o trabalho dos novatos, principalmente o rapaz (“como é mesmo o nome dele? Como é o seu nome, que eu esqueci? Vagner, tá bom, Vagner, as tintas ficam naquela prateleira do fundo, a última de cima”) a todo momento perguntando a localização da mercadoria, o preço (“consulta a lista quando não se lembrar”), quanto falta pra hora do almoço... Mas o que o incomodava mais eram as conversas, primeiro com sua mãe e agora com essa Martina. Futuro. Nunca tinha pensado muito no futuro. Sempre reagiu às situações, buscando um equilíbrio duramente conquistado quando seu pai foi embora, quando se estabilizou no emprego, quando se livrou das dívidas da casa... Agora estava tudo bem, por que mudar?
            A memória do pai lhe veio forte à mente, a ponto de não prestar atenção ao pedido de um freguês. “Tá no mundo da lua, Robson?” “Me desculpe. Fim de ano, cansaço, sabe como é... O que é mesmo que você pediu?” O pai teve a coragem de mudar radicalmente sua vida. Não que achasse o que ele fez certo, mas ele teve muita coragem, apesar da calhordice. Isso não se podia negar. Só que ele não estava de saco cheio da vida que levava, diferente de seu pai. Então por que a conversa com Martina tinha mexido tanto com ele? Que se lembrasse, fora a mãe, era a primeira vez que alguém o elogiava, que dizia que ele era “bom”. Não “bonzinho”, “bom”! Se era bom assim, por que mudar?... Não era nenhuma vida de rei, mas estava bom assim. Pra que mudar? Tinha uma casa razoavelmente confortável, não passava necessidades, nada nem ninguém que o perturbasse. Pra que estudar? Tinha um bom emprego, o patrão gostava dele, o salário era suficiente... “O futuro a Deus pertence”, sua mãe sempre dizia isso.
            — Como estão se saindo os dois novos?
            — O rapaz é um pouco devagar, mas a moça é bem esperta.
        — Eu reparei. É rápida, atende bem aos fregueses, é simpática. Veio até um freguês elogiar. Vai ver tá paquerando ela...
            — Acho que não, patrão. Ela manda bem mesmo. Mas deixa eu voltar pro balcão; tem freguês esperando.
            — Vai lá, Robson, vai.
            Agora pegar o metrô e voltar para casa. De certo a mãe chega depois dele, por conta de suas costuras fora de hora. Será que é isso ou ela anda tendo caso? Melhor conversar com ela. “Minha vida é boa, não quero que nada estrague isso. Pra que estudar, pra que arrumar complicação?” Andava no seu ritmo de sempre, sem prestar atenção no mundo em sua volta, também como sempre. Só o que mudava é que a cabeça não estava vazia como sempre. Ainda persistia uma incômoda preocupação com a conversa com a tal Martina. Será que ele era melhor do que pensava, ou ela apenas estava puxando seu saco na sua luta para garantir o emprego? Afinal ela sacou que o patrão gostava do trabalho dele... Pensava essas coisas, quando sentiu um pingo grosso na cabeça. Automaticamente olhou para o céu, procurando nuvens de chuva e só viu um céu azul de fim de tarde de verão. A mão direita deslizou pelos cabelos curtos e tocou alguma coisa pastosa, morna. Levada ao nariz, a mão revelou um inconfundível cheiro de bosta. Um passarinho, talvez uma pomba, cagou em sua cabeça. Alheio às pessoas que transitavam próximo à estação República do metrô, alheio aos carros e ônibus, alheio a qualquer coisa que o pudesse reprimir, deixou sair a fala arranhada na garganta tensa do tenso dia que estava vivendo:
            — Puta que pariu! Minha vida é uma merda!
            E se foi para o banheiro da estação lavar aquela sua cabeça suja.



            Para que eu continue, escolha duas das seguintes opções:

A – Ele conta para a mãe que está confuso e que está achando sua vida uma merda.
B – Ele se acha muito ignorante e decide que nas férias fará uma viagem para o exterior.
C – Ele conversa com Martina e pede conselhos a ela.
D – Ele decide fugir de casa, como o pai.
E – Ele exige que a mãe use vestidos mais compridos.
F – Ele decide fazer um curso à distância.
G – Martina o convence a mudar de vida.
H – Ele pede Martina em namoro, mas ela já tem namorado.
I – Ele compra cinco livros, dois de autoajuda e três romances. E os lê.
J – Ele descobre que sua mãe está tendo um caso.

L – Ele deixa crescer o bigode. 

6 comentários :

  1. Bem, talvez eu seja previsível mas fico com a opção F...
    Está sendo muito bom participar do texto...
    bel

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  2. Sugiro F e J.
    Gostei bastante, foi ótimo para iniciar a semana!

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  3. Meu voto é para a letra "J"
    Estou adorando!

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  4. Escolho as opções A e J.
    Aguardo ansiosamente a continuação da história.

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