PALAVRA

PALAVRA

Doer a palavra dói
quando penetra exata
naquilo que me corrói.
Dói
porque faca
avessa a qualquer defesa
insinua-se dilacerante
nas feridas do ser.
E
combina sua química abstrata
confunde o que é dor de fato
e o ato de padecer
na fala, no tapa, no ver.
Palavra
permuta desesperada
do gesto que se conteve
da recusa dos meus olhos
pelo silêncio de mim.
Mas
sabê-la palavra inclui
desnudá-la de belezas
esquecê-la beija-flor
manhãs ensolaradas
regatos e frutos doces...
Lembrá-la — isto sim —
torturas, ruas, esgotos
sabê-la nas cáries
nas grutas
nas gentes perdidas das noites.
Palavra descarnada
senti-la no osso (e nos ossos)
amá-la gengiva ou mucosa
gelatina, viscosa
corrosiva, bruta.
Destemê-la, se insulto
perdoá-la, justo.
Sofrer palavra
porque disso nos fizemos
(sofrer sem os desmandos
dos moços poetas de outrora).
Buscar palavra
palavra sem quimera
palavra vera
a que se esconde nos cantos
nos becos
nos mantos a desvelar.
E elaborá-la em imagem
feito quadro na parede
feito rito de passagem
feito todas as coisas
que sempre revelam dois lados
este de dentro, de dores
e o de fora, dos fados
como fruta madura no quintal
ou como a dura gravura de Segall.
Palavra farta de oferta
sem que se escondam as dores
frequentes dores do ser
frequentadoras do viver.
Oportuna palavra
que do precário se exala
mais lixo que livro
mais texto que fala
mais vidro que cristal.
Esta de que se serve
na mesa do trivial
no dia-a-dia trabalho
no desgosto do salário.
Palavra fome
que se decifra
ou nos devora.
E dita assim: sempre agora
porque o que foi, será
e o que é se esvai
perdido e desnutrido
se não captado e dito.
Empunhar esta palavra
na espada-lápis-caneta
e cravá-la na carne do papel
fazê-la sangrar futuros
doer-se em todos os furos
do nosso rosto mudo
que a expele para fora.
Se espada ou se fruta
se faca, fel ou mel
sentir a palavra na língua
cuspi-la, se inconsequente
desconfiá-la nos textos oficiais
das entidades culturais
das insanidades mentais
dos perjúrios e que tais
das mentiras monumentais
dos que se arvoram seus donos
dos que não gemem nossos ais.
O gosto da boa palavra
a revela solidária
mesmo que pobre, precária
desdentada, descamisada
desconsolada e só.
Porque o ato de possuí-la
é só
o sol é só
o eu é só
e só no só
se revelará o vário
o preclaro, o raro
o solidário, o partidário:
ovário
o originário de mim
o que me diz sim.
E
quando confuso no dentro de mim
isto que de fato sofre
e aquilo que a palavra põe fim,
permitir que ela aflore
seja verso
seja fala
ou gesto certo que cala.
Ela
a palavra corpo e sentido
de quatro lados feita
(objeto fora — precisa
inverso dentro — ferida
completa agora — incisa
envolvimento — partida).
Total no que se oferece
além da oferta ou suplício
desincumbir-se da dor —
nunca em sentido fácil
da troca do fardo
pelo fútil;
desincumbir-se transcendente
(como pessoa ou Pessoa)
(como um chacal ou Chagal).
Porque doer-se faz parte
como o parto
doloroso e inevitável
porque nascer é doloroso.
E
menos ainda resumir-se
num inútil masoquismo
de crer-se que sofrer faz parte
e se nasce doente no parto
inevitável e doloroso.
Assim se é:
a dor que dói a palavra
é prenhe
dor de si despojada
lúcida dúvida carregada
das dores comuns
de todos que a fizeram
desde sempre.
Palavra
parto sem mãe nem pai conhecidos
nessa orfandade assumida
por quem dela se apossa e quer;
porque é a dolorosa saída
da dor de ser

da dor vida.  

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