PALAVRA 2, PALAVRA 3

PALAVRA 2


Abra a alma em palavras.
A face clara dos significados
escancara as mágoas,
mas vale tal fardo.
As palavras, fartas,
a revelar na carne e no traço
seu lado espaço de vale, graça,
sua claridade, orvalho,
em falas calmas como tardes dominicais.
Ou mágicas viagens
a mares de imagens vastas
olhares enluarados
de magos em dádivas
e fadas aladas.
Mas aceitar as palavras
se facas a cutucar as marcas
ou navalhas a torturar os lábios.
Palavras qual sábias estradas
a indicar os pactos
e qual entradas para o real.
Amá-las, se alvas e cálidas.
Aceitá-las, se drásticas e tardas.
Mas jamais impasses
porque as verdades
invadem qualquer embate
alagam em vagas
cravam estacas na fala
e estraçalham vácuos.




PALAVRA 3


Pego a palavra onde quer que esteja
e se tão distante que não a veja
invento uma língua
e digo meu dizer num papel qualquer.
O que se funda em meu peito
é de tal ordem imenso e bom
que não me desdigo por nada
nem por cachaça da boa
nem por cerveja gelada.
Sei da palavra e seu poder
e de quem quer me enganar.
Por isso recuso o chope sem colarinho
renego a carne muito passada
repudio gestos dissimulados
não me entrego aos cagaços
e aos abraços fáceis.
Abro-me claro como as manhãs claras
e entro na noite como quem sai do metrô.
As palavras
as chaves do meu corpo e do mundo
as imagens que me circundam
que me penetram
e as que eu expulso de mim
se me machucam injustas e desmerecidas.
Achei na rua outro dia
uma aliança de prata enegrecida
que poli com calma e me revelou ametistas incrustadas e o claro da prata e o brilho da prata e a pureza do metal e das pedrinhas.
Acho que sou assim
recuso as más palavras
as negativas e as falsas
e cultivo uma fúria irada
por quem me afasta de mim.
Eu sou assim
acho uma pena
que não se saboreie o sanduiche do Viena
que se faça a palavra tão pequena
e não se veja a luz que emana de mim
e se tente cortar meu pique
e não se goste do bauru do Ponto Chic
e se desdenhe do pé e do rabo na feijoada
e não se alegre com quase nada
e não se entenda que eu amo a palavra
que eu dou brilho na prata
e tenho no peito a luz do sol.
Às vezes me perco no dentro do dentro de mim
e sofro muito e choro muito
me deprimo numa dor sem fim.
A palavra me resgata
e me enfureço puto da vida
por me deixar enganar nas falas más.
Eu sou assim
meu ser verdadeiro é generoso das palavras
que oferto, como agora,
tiradas fáceis do mais fundo de mim.
Oferto palavras como se fossem a chapa fumegante do Mey Ken
não importa a quem;
mas me enfureço pelas recusas
como se cuspissem em meu prato.
As palavras
minha riqueza muito além da pobreza aparente do meu carro, do meu cigarro, do meu apartamento;
as palavras que eu sei ou que eu invento.
Há na casa dos meus pais um lugar
que é meu
que encontrei
um degrau de uma pequena escada de dois degraus
no quintal
onde me sento e vejo telhados da cidade,
prédios, a torre da igreja distante e as palmeiras da avenida Brasil.
Ali me encontro comigo mesmo
na minha sabedoria de quem achou um lugar para si sobre a Terra;
ali se juntam pensamento e sentimento
corpo e alma ser e palavra.
As palavras
que ali, plenas de mim,
me mostram o brilho do sol no quintal
e a vida se fazendo
e eu vendo e sentindo
a mim e a tudo — as palavras —
e há no quintal uma roseira única
que dá rosas de cor única
que eu oferto a quem quiser
e a quem eu quiser.
Eu nem plantei a roseira nem nada
só a descobri com meu amor às palavras
como expressão de mim, da vida, do amor, das palavras
que me fazem assim
eu sou assim.
Sou este homem com olhar de menino
o que descobre as palavras
o de amar desmesurado
que achou um lugar sobre a Terra
que gira em torno do Sol
que dá vida a rosas únicas
com minha profunda consciência das
palavras
como tutu de feijão à mineira com couve batidinha
como arraia do Ici
como minhas aulas no Segall
como meu cantinho no quintal
eu sou assim
este homem de boas palavras
avesso aos sentimentos de recusa
que se enfurece se lhe recusam seu ser.
Minhas palavras
que eu pego onde estiverem
desde que ofertem rosas únicas
como as que dou:
testemunhos vivos do meu amor

às palavras. 

3 comentários :

  1. Realmente você tem o dom das palavras.

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  2. O que escreve é tão bom que qualquer comentário parece pequeno. Palavra 2, meu favorito. abs, Fabiana Novello

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