ROSA DA COR DELA

ROSA DA COR DELA


            Eu não sei... Sei lá... O senhor me pergunta e eu não sei se respondo... Sei lá se isto é do interesse de alguém além de mim... Por que ando triste? Não vou negar, estou triste sim, tá na cara. Mas não sei se quero falar disso. Sei lá... Mas o senhor perguntou... E quem sabe não seja melhor contar, não sei... Pode ser que seja bom; eu não falei disso com ninguém, e o senhor fica me olhando como quem quer saber mesmo do que se passa comigo, o senhor deve saber mais das coisas do que eu... Quem sabe o senhor me entende, porque nem eu estou me entendendo mais. Sim, estou triste sim, de um jeito como nunca fiquei na vida, e o senhor me olhou nos olhos e parece sincero em querer saber de mim, eu que pensava que o senhor não estava nem aí pra ninguém, ainda mais pra mim, o senhor, homem que já estudou muito, quem sabe me ajuda, porque eu não aguento mais esta tristeza; me dá até medo disto que estou sentindo...
            Pois é, o senhor veja. Até que eu tinha uma vida tranquila, o senhor sabe. Fazia o que tinha que fazer, me divertia nas horas vagas, cumpria meus deveres... É, eu tinha uma vida boa, eu era normal, entende? Então aconteceu. Sei lá como aconteceu: só aconteceu. Já conhecia ela, não é que não conhecesse. A gente se cruzava sempre e ela não era diferente das outras. Na verdade eu nem via nada de especial nela. Até nem gostava muito dos cabelos dela, do corpo, essas coisas. Era só outra, como uma qualquer, sem nada de mais. Mas de uma hora pra outra... é , foi assim, de uma hora pra outra, eu olhei pra ela e vi diferente, assim sem mais nem menos. Não foi que ela olhou pra mim, me provocou; nada disso. Só olhei pra ela e fiquei diferente, me deu uma coisa aqui no estômago, um susto gostoso, uma vontade de não tirar os olhos dela, um não sei quê... Daí achei que tinha que tirar isso da cabeça, estava me atrapalhando, eu tinha mais o que fazer e o que pensar. Só que ela me vinha na cabeça sem que eu quisesse, uma coisa descontrolada, e toda vez dava aquele friozinho no estômago e uma vontade grande de ver ela de novo.
            Não é que nunca eu tivesse me interessado por outras. Sempre me interessei. Já tive namorada, fiquei com uma porção de outras, mas sempre coisa passageira, que eu nunca levava muito a sério. Logo me enchia, e, pra ser sincero, os amigos me davam mais satisfação, eram mais divertidos, sem as frescuras das minas. Elas eram só um divertimento que eu e meus amigos tínhamos, o senhor sabe como é. No mais, eram as obrigações, os trabalhos, o estudo, porque eu nunca fui vagabundo de fazer corpo mole.
            Mas ela foi diferente. Justo ela; por que será? Ela nem é a mais bonita das que eu conheço, ou das que eu fiquei. E ela nem parecia interessada em mim. Mas minha vida mudou. Não tinha vontade de falar dela com ninguém, contar vantagem pros meus amigos, como acontecia com as outras. Nada disso, era uma coisa secreta, só minha, que no começo eu tentei esconder até de mim mesmo e que só agora estou falando pra alguém, pro senhor. E isso foi crescendo, crescendo, tomando conta de mim. De manhã eu acordava e a primeira coisa em que eu pensava era nela. Pensava o dia inteirinho e de noite, até dormir. E virava e mexia, eu sonhava com ela até dormindo, porque acordado era o dia inteiro.
            Isso nunca tinha acontecido comigo e quando eu me encontrava com ela meu coração disparava que nem louco e ainda bem que eu não conversava muito com ela, porque eu ia passar vergonha. Tentei sair com os amigos, arrumar umas gatas daquelas que a gente tinha. Mas cadê a graça? As outras eram sem interesse e eu me sentia traindo ela, pode? Nem tinha compromisso com ela... Então comecei a gostar de ficar sozinho, imaginando estar com ela, começando tudo muito devagar, só sonhando... Esse era o jeito que eu achei de estar com ela, porque eu não tinha coragem de chegar perto e falar o que eu sentia. Justo eu, que nunca tive medo de nada, que sempre chegava fácil nas minas, até naquelas meio metidas, as difíceis, que meus amigos ficavam com medo.
            É que aquilo que eu sentia era o desconhecido, então eu só conseguia imaginar o que poderia ser. Deveria ser igual às outras, mas completamente diferente, entende? E eu sonhava em segurar as mãozinhas dela — ela tem mãos pequenas, sabe? — e andar com ela de mãos dadas... Olha que babaquice!... Beijar era um sonho distante, muito longe. E eu, sempre tão metido, fiquei tímido que nem moleque. E o sorriso dela... Meu Deus aquele sorriso, aqueles olhos... Até o cabelo dela ficou bonito, tudo ficou bonito nela. O andar dela... Nunca vi ninguém andar tão bonito, parece que ela desliza acima do chão e o vestido se move pra lá e pra cá, bem suave, ela andando, vindo na minha direção, flutuando em cima do mundo, com seus pezinhos pequenos, suas sandálias de couro marrom ou seus sapatinhos pretos, ou seus tênis brancos... Vindo em minha direção e dizendo um “oi” de quem só me conhece de vista e de conversas bestas.
            Virou minha cabeça de um jeito e me tomou o corpo todo. E eu que sempre achei esses negócios românticos uma puta frescura, coisa de babaca ou de bicha, comecei a dar valor. A lua. Que coisa bonita a lua! Aquela bola branca prateada no céu, dando uma cor para a noite que eu nunca tinha percebido. Uma noite, eu passei horas na janela do quarto olhando a lua e pensando nela, ela a lua, distante, bonita, iluminando cor de luar a minha alma. Veja o senhor, eu falando de alma... Mas ela me fez sentir a alma, um dentro no dentro do corpo que suspira, um suspiro sem querer, que vem do fundo do fundo do peito e faz o olhar da gente querer ir longe, lá na lua. Eu entendi o que querem dizer quando dizem que uma pessoa fica no mundo da lua. Porque eu fiquei assim, tomado pela lua — ela.
            E de dia era o sol. O sol a gente não olha de frente, mas vê o dia e tudo que existe no dia. O mundo. Sem que pensasse nisto, passei a ver o verde das folhagens, as folhas todas, o verdinho do broto, o verde escuro das folhas da mangueira, quanto verde, meu Deus, quanta vida que eu só passava por ela e pisava em cima e agora se mostrava tão diversa para mim — eu, que via o mundo com os olhos dela, que me perguntava como seria ela olhando aquela folha, aquele galho, porque com aqueles olhos tão bonitos ela só podia ver tudo bonito e eu precisava ter olhos bonitos como os dela pra ver bonito — ela e o mundo todo. Parece loucura, não é? Acho que sim, acho que isso é loucura; mas que loucura boa, meu Deus! Se uma folha seca me deixava emocionado, o senhor imagina então uma flor... Ai, se meus amigos me ouvem falando uma coisa dessas, com certeza vão começar a passar a mão na minha bunda, achando que eu virei veado... Antes, eu mesmo faria isso, se um deles viesse com frescuras de flor; e tiraria o maior sarro do infeliz. Mas as flores, quando a gente vê com esses olhos meus/dela que eu via, são indescritíveis, de uma perfeição que não dá pra acreditar, de umas cores que só pode ser obra de uma coisa muito, muito superior, que eu nunca entendi e nem vou entender. Uma rosa... Certa vez eu vi uma rosa num jardim, de uma cor que eu nem sei o nome; não é cor-de-rosa, nem vermelho, nem amarelo e é tudo isso, sei lá. E eu dei o nome dela pra aquela rosa, porque ela é assim, única entre todas, diferente, linda. Tive vontade de pegar aquela rosa e dar pra ela — a flor é tão mulher, só agora que eu entendo isso. Também entendo por que nas músicas se fala tanto de flor e de mulher. Mas eu não tirei a rosa da roseira, ali era o lugar dela, e o lugar da minha flor tão amada era dentro do meu coração. Eu me lembro bem desse dia, teve sol e depois uma chuvinha fina e no céu de fim de tarde voavam muitas andorinhas que vêm pra cá no verão. E cada andorinha era um pedaço de mim, como se fosse um sentimento meu voando no céu, como se fosse uma coisa que nunca para e nunca se acaba... A rosa iria murchar e as andorinhas iriam embora, mas tudo sempre vai começar de novo, outras rosas, outras andorinhas, um movimento eterno, sei lá... Então essas besteiras me vinham na cabeça junto com uma vontade tão grande de mostrar como os olhos dela dentro dos meus, e os meus no dela, só podiam ver coisas que valem à pena na vida, porque são a própria vida, a própria vida...  que nasce, renasce, sei lá... O senhor está entendendo o que eu estou falando?
            E com tudo isso, eu não sabia mais quem eu era, se eu era eu ou se eu era ela; e se eu era eu, então eu era bonito como ela, porque eu era ela. Eu não sou bonito, o senhor sabe, o senhor vê. Bem sei que eu não tenho nada de muito especial. Até tenho umas mãos bonitas, mas quem repara em mãos de homem... E tenho esse jeito meio abusado e às vezes falo as coisas certas. Meus amigos me acham inteligente, bom companheiro... Mas bonito não sou não. Aí é que está. Eu me sentia bonito, ela me fazia bonito, o mais bonito, não bonito como flor ou como lua — que isso era boniteza dela —, mas bonito como sol, que você não vê olhando direto para ele, mas olhando as coisas bonitas que ele mostra, que só se vê com o dia, com a luz do sol. Então eu era o sol e ela a lua. A gente não se encontrava, mas ela aparecia porque eu iluminava — e é por isso que à noite um homem sente mais falta de uma mulher, não é? Me diz o senhor, que sabe mais do que eu dessas coisas, o senhor que é mais vivido que eu, que de certo já viveu tudo isso; me diz que eu não fiquei louco, lunático, estropiado por dentro. Daí eu me sentia bonito e comecei a me ligar nas roupas que eu vestia. Por isso eu queria roupa nova, entende? Eu queria um sapato novo, uma meia nova, uma camisa nova. E comecei a fazer a barba todo dia, mesmo tendo pouca barba, o senhor vê, eu que nem me preocupava muito com isso. Eu escovava os dentes cinco, seis vezes por dia e passava desodorante, porque eu queria ficar perfumado, limpo, bonito, acho que puro, sei lá... Já ela não me importava que cheiro tivesse. Fosse o que fosse, era o cheiro dela, e tanto fazia que ela fosse ao banheiro, como todo mundo vai, e que aquilo cheirasse mal, como de todo mundo, tudo fazia parte do mundo e o mundo era ela.
            Foi então que eu comecei a pensar em casar com ela — veja o senhor quanto eu gostava dela. Claro que não seria fácil; eu nem tinha pegado na mão dela... Mas isso me vinha na cabeça, isso de viver a vida inteira com ela, de trabalhar para ela, de cuidar dela, de ficar com ela, não do jeito que eu ficava com as outras, mas pra sempre. Veja o senhor, eu queria ela pra sempre, justo eu que achava isso uma tremenda babaquice. Minha vida não tinha mais sentido sem ela. E eu — me dá até vergonha de falar uma coisa destas — eu queria ter um filho com ela. Assim, do nada, eu percebi o que é isso de ter filho e de ser filho e pensei muito nisso, e tudo isso misturado com as flores, as andorinhas, os animais, porque tudo que existe e tem vida quer ter filho, continuar, sei lá...
            O que estou contando pro senhor aconteceu assim, dentro da minha cabeça, do meu peito, da minha alma, do meu corpo, enfim. E eu vendo meu corpo se transformando, crescendo por dentro, como se eu não coubesse mais dentro de mim. O senhor pode até achar que eu estou exagerando, eu mesmo estou estranhando dizer essas coisas, porque eu nunca disse pra ninguém. Pra falar a verdade, é estranho falar assim certinho como eu estou falando, porque não era assim certinho que eu pensava e sentia. Era tudo misturado e muitas dessas coisas que lhe falei eu nem tinha pensado com palavras, só sentido; é como se eu pensasse a primeira vez. E o senhor me perguntou por que eu andava tão triste e eu não lhe respondi. É que saiu assim, o senhor entende, acho que eu precisava falar essas coisas para alguém, para não ficar doido. Mas eu vou responder, pode deixar que eu respondo, apesar de que o senhor, inteligente que é, já deve ter percebido o que aconteceu.
            Um dia eu resolvi falar tudo pra ela. É que eu não aguentava mais ficar longe dela. Estava com muito medo, porque me parecia que eu era pra ela um qualquer. Nem sabia direito se ela gostava de outro cara. E se gostasse? Ai, como eu sofri pensando nisso... Mas ela não namorava ninguém, nem nada. E fosse lá como fosse, eu tinha que arriscar e acreditar que o que eu sentia era tão forte, tão grande, que não era possível que eu sentisse aquilo tudo sozinho. Passei mais de uma semana tomando coragem, ensaiando o que falar, onde falar, como falar, que roupa vestir, tudo... E marquei o dia cinco, porque assim não tinha jeito de eu fugir. Por que dia cinco? Sei lá, era um dia que eu tinha certeza de que ia me encontrar com ela e era um dia suficientemente longe e perto para eu me preparar.
            O que programei foi acontecendo certinho, até me encontrar com ela. Aí, tudo quanto era discurso preparado sumiu da minha cabeça. Tudo eu esqueci, as frase bonitas, o raciocínio armado que nem problema de Matemática, tudo. O coração veio parar na garganta, eu sei que fiquei branco que nem papel branco, eu tremia e suava ao mesmo tempo, as mãos ficaram molhadas e só o que saiu da minha boca, quase sussurrando, engasgado, lábios tremendo, foi: “você quer ser minha namorada?”. Ela olhou pra mim meio espantada, não muito. Talvez tenha percebido o que se passava comigo, que era sério. Sorriu aquele sorriso que só ela sabe sorrir e foi muito gentil comigo. De leve acariciou meu braço esquerdo, me olhou com muito carinho e falou um monte de coisas de que quase não me lembro mais. Eu só queria ouvir uma única palavra, a palavra que me transformaria no cara mais feliz do mundo, uma palavrinha simples, pequenininha: um “sim”. Mas não foi isso que eu ouvi; foi um “não” que me fez em pedaços. Senti que eu iria chorar muito e me deu uma vergonha muito grande. Até segurei o que eu pude, mas a vista turvou. Eu não disse nada. Só queria sair dali e vir aqui pro meu quarto, pra chorar tudo que eu precisava. Nem me despedi dela. Virei as costas e saí correndo, sem olhar pra trás.
            Por isso eu não tenho saído daqui. Não tenho vontade, entende? Também não tenho vontade de comer, nem de fazer nada. Ainda bem que estou de férias. Qualquer trabalho, estudo ou obrigação agora seria complicado demais. Agora o senhor entende por que estou triste? Tristeza é uma palavra besta pra isso. Mais certo é dizer que o que eu estou sentindo é o contrário daquela rosa que tem a cor dela. Não tem nome, é só um sofrimento do tamanho do mundo.

            E se o senhor quer me ajudar, meu pai, me diz o que é que eu faço com isso... Vou ao banheiro, vomito e dou a descarga? Claro que não dá pra fazer isso. Só queria que esse sofrimento acabasse, que o tempo passasse depressa, quem sabe o tempo cura, como já ouvi dizer. Então fico pensando que se eu tivesse lembrado o discurso certo, talvez ela se convencesse. Só quero que o tempo passe, que eu volte a dormir direito, que eu tenha logo trinta anos, quarenta anos, sei lá, quarenta e um como o senhor. Mas me diz, pai, o que eu fiz de errado, o que há de errado comigo para ela não gostar de mim como eu gosto dela... Ela, me lembro, falou qualquer coisa de idade, de diferença, mas que diferença é essa, que importância tem que ela tenha catorze e eu doze? Fala pra mim, pai. Como é que eu saio dessa? Será que um dia passa? Será que ela pode mudar de ideia? Será que precisa ter tempo certo para sentir o que estou sentindo?

2 comentários :

  1. Quem não passou por isso na adolescência não é muito normal. Gostei muito.

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  2. Nossa! Quanta delicadeza, muito lindo. Adorei. Parabens!

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