DESEJOS

DESEJOS


         O BAILE

            Estava deslumbrante. Unânime esse comentário percorria o salão, feito em cochichos pelos rapazes, pelas mães, pelas colegas. De cabelos aloirados, sedosos, caindo sobre os ombros nus e o vigor adolescente irradiando dos olhos azuis e do sorriso fácil emoldurado pelos lábios bem feitos pintados com o batom rosa, mais escuro que o vestido. E a saia rodava na dança, que só parava nos intervalos da orquestra; e sempre os olhares a acompanhá-la, os rapazes traçando estratégias para tirá-la para dançar. Alguém comentava que Laura lembrava Rita Hayworth, sem exageros, apesar dos cabelos mais claros. Pouco importava que não tivesse sido a primeira da classe. Sem dúvida merecia aquela festa como ninguém. Ela era o melhor da festa.
            Intimidado no smoking preto, igual o de todos os rapazes, Vagner achava impossível que conseguisse chegar primeiro que os outros e tirá-la para dançar na próxima seleção e foi só por isso que tirou Clarice. E também porque achava perfeitamente possível que ela recusasse. Chegaria perto dela, se não ao se aproximar, ao menos quando terminasse a dança. Realmente, quando chegou à mesa e sorriu polidamente para Clarice, mal viu as costas nuas de Laura cobertas pelos cabelos aloirados.
            Clarice, que não tinha dançado a seleção anterior, apressou-se em despir a echarpe preta que cobria as alças do vestido azul claro e o discreto decote em v das costas, tão discreto quanto o do peito, que mal mostrava a ligeira elevação da parte superior dos seios.
            Como sempre era, foi simpática. E discreta. Sorriso tímido, olhar manso, jeito adolescente de quem nem se dá ao esforço de tentar imitar os movimentos e gestos da irmã que tanto admirava. Para ela era natural que Vagner fizesse tantas perguntas sobre Laura e revelasse o fascínio que todos os rapazes mostravam por sua irmã. Laura era linda mesmo, e Clarice se orgulhava de que não fosse apenas ela e a família a reconhecer isso. Já se dava por satisfeita de ter sido uma das primeiras da classe e de ter ajudado a irmã a estudar para que pudesse estar ali brilhando. Laura gostava disso, desde menina, como na festa das rosas, sete anos atrás. E porque a conversa fluiu solta; e porque Clarice não se recusava a conversar sobre nada, nem sobre a irmã; e porque a conversa não se concluiu em uma seleção; e porque ela lhe dava muita atenção, sempre meiga e interessada no que ele tinha a dizer, foi que Vagner pediu-lhe a próxima dança e a próxima, até que Laura fosse apenas sua irmã bonita como uma foto de revista, vazia como uma foto de revista, e até que naquele bolero seus rostos se encontrassem, suas mãos se apertassem discretas, mas firmes, e eles sentissem o calor rosado de seus rostos e uma excitação incontida.

         A INFÂNCIA

            Ninguém diria que eram gêmeas. Irmãs sim, nos traços comuns, no tamanho, em alguns gestos e na amizade. Mas Clarice tinha mais as características do pai, cabelos castanhos, modos tímidos. Laura era loirinha e extrovertida como a mãe, que sempre teve o bom senso de não vesti-las iguaiszinhas, como se costuma fazer com gêmeos. É que pai e mãe reconheciam personalidades diferentes nas duas e souberam respeitar o jeito de cada uma. Amavam-se, sempre juntas nas brincadeiras, com seus espaços definidos nas invencionices de criança. Ninguém na família se lembrava de alguma briga séria que tiveram. Vez ou outra disputavam uma boneca, um brinquedo qualquer, ou se desentendiam sobre a brincadeira que fariam. Porém logo acabavam se harmonizando e esqueciam as pequenas desavenças.
            Na escola acentuaram-se as diferenças. Clarice era mais atenta, tinha caligrafia mais bonita, gostava de fazer os deveres de casa, tinha mais facilidade em aritmética. Já Laura era irrequieta, dava trabalho para que fizesse os deveres de casa e muitas vezes copiava da irmã. Nada que a fizesse uma aluna problema, mas sem as facilidades de Clarice. Era boa em trabalhos manuais e seu gosto pelas brincadeiras se revelaria depois como facilidade nos esportes, principalmente vôlei e natação. Assim, sem muito alarde, Laura era a desportista e a extrovertida; e Clarice, a intelectual, a que gostava de ler e estudar.

            A FESTA DAS ROSAS

            Setembro, primavera. Neste aspecto a escola era muito adequada ao temperamento de Laura; festejava todas as datas favoráveis a festas, com exposições, quermesses, festejos. Dia das mães, dos pais, São João, primeiro de maio, sete de setembro, dia da criança, dia do índio e tantas mais que oferecessem oportunidade para o que a direção considerava exercícios de socialização e de cidadania. Mas Clarice dava-se melhor com as atividades que exigiam capricho e criatividade. Desenhava bem, fazia belos trabalhos manuais. Por isso seus trabalhos se destacavam nas exposições. Laura gostava dos jogos, das danças, das representações teatrais, embora fosse muito criativa nos trabalhos manuais, mesmo que não tão caprichosa como a irmã.
            Aquela Festa das Rosas era uma comemoração da chegada da primavera. Cada ano tinha o nome de uma flor ou de uma árvore. Desde que começaram o primário, já tinham participado da festa da hortência, da festa do pau-brasil, da festa das árvores frutíferas e neste ano era a Festa das Rosas, a flor preferida das duas, Laura gostando da rosa rosa e Clarice da rosa amarela. Já estavam com dez anos, os seios começando a apontar no peito, as duas meninas muito bonitas, mas Laura já evidenciando a beleza que seria deslumbrante, sete anos depois, no baile de formatura do colégio.
            A Festa das Rosas deveria ser a festa da espontaneidade, como sugeriu a direção pedagógica da escola, porque a natureza era espontânea e as crianças também. É certo que as professoras ajudaram muito nessa espontaneidade, sugerindo as atividades que as crianças tinham a sensação de inventar e com muito tato convencendo os meninos de que lama é bom na natureza e para os porcos, não para uma guerra de lama entre a 3ª A e a 3ª B. Então acabaram prevalecendo as mesmas atividades da Festa das Árvores Frutíferas, que foram as mesmas da Festa do Pau-brasil. A diferença foi que desta vez seriam plantadas azáleas (não “azaleias”, insistiram as professoras) e roseiras; e haveria o festival do Canto Feliz, sugestão de duas meninas da 2ª A.
            No Festival do Canto Feliz, a criança que fosse sorteada teria cinco minutos para preparar-se e cantar. Cantaria num microfone para a escola inteira ouvir, com sua voz amplificada nos muitos alto-falantes espalhados pelo pátio. A cada quinze minutos uma criança seria sorteada. Todas receberam um número ao chegar à festa, que servia não só para o sorteio da criança cantora, mas também para vários prêmios que ganhariam no fim da música, além de meia dúzia de rosas vermelhas. Os prêmios iam de cadernos a lapiseiras douradas; de balas a caixas de bombons. Quase todas as crianças tinham passado a semana ensaiando uma música em casa para não fazer feio no seu canto espontâneo. E todas tinham o direito de serem acompanhadas ao piano pela tia Luciana, a professora da 1ª B. Algumas crianças chegaram até a trazer partitura, para auxiliar o acompanhamento, que mães zelosas traziam guardadas dentro de suas bolsas.
            Também Clarice e Laura ensaiaram uma música em casa, mais Clarice que Laura, e preferiam, se fossem sorteadas, ganhar uma caixa de bombons. Mas isso era pouco provável, já que jamais tinham ganhado nada nos poucos sorteios de que tinham participado. Achavam que não levavam sorte para essas coisas.
            O Festival do Canto Feliz acabou sendo o grande sucesso da Festa das Rosas. Aos poucos foram esvaziando as exposições de bordados, as salas com colagens, as de experimentos de germinação de feijão, as de vasos de flores, avencas e samambaias, as de jogos feitos pelos meninos; de modos que logo estavam todas as crianças, as mães, uns poucos pais e as professoras o mais próximo que conseguiam do palco armado na parte coberta do pátio. Talvez pela novidade, talvez porque fosse muito divertido ouvir aquelas vozes trêmulas de crianças tímidas, ou os meninos desafinados e fora do ritmo, para desespero da tia Luciana, que buscava desvairada a nota certa que nunca encontrava para os semitons esquisitos que os moleques entoavam. Ou talvez porque havia mesmo naquele show improvisado certa espontaneidade, evidenciada pelas várias crianças que esqueciam a letra da música e olhavam com pavor para a mãe aflita fazendo mímicas exageradas, como um ponto de teatro improvisado. O fato é que quem chegasse para dar uma olhada na origem daquela voz de criança que ecoava pela escola não arredava mais pé dali, certamente torcendo para que não fosse seu/sua filho/filha a próxima criança a cantar, enquanto as crianças, na sua maioria, lutavam internamente entre o desejo dos bombons e a vergonha de se exporem.
            Essa luta não existia em Clarice. Ao ver tanta gente se juntando em torno do palco, bendisse a sua má sorte em sorteios. Bombons ela compraria quando pudesse; melhor era divertir-se com o fiasco alheio. Só que próximo ao fim da festa, restando apenas um jogo de caneta e lapiseira e três caixas de bombons, foi chamado seu número. As pernas bambearam e um tremor incontrolável sacudiu-lhe o corpo. E o número foi chamado pela segunda vez.
            — Não vou — balbuciou.
            — Vai, boba! Você ensaiou tão bem! — animou baixinho, mas enfática, Laura.
            — Não vou!
            — Vai sim. Eu fico aqui torcendo por você. Você canta tão bonito!
            — Não vou, não vou e não vou! Eu vou chorar...
            E inesperadamente Laura abriu-lhe a mão direita fechada que amassava o papelzinho, e quando tia Luciana chamou pela terceira vez o número 71, ergueu o papelzinho amassado e gritou:
            — Sou eu!
            Clarice suspirou aliviada e amou mais ainda a irmã que a livrou do vexame. E viu-a esgueirar-se entre crianças e mães e subir no palco, sorridente e linda no seu vestido florido. Surpresa, ouviu-a cantar a música que ela própria deveria ter cantado, balançando suavemente os quadris que jogavam a saia do vestido pra lá e pra cá, afinadíssima, graciosa. Tia Luciana entusiasmou-se ao piano e solou parte da música, até dar a deixa para que ela repetisse, desta vez soltando as mãos do suporte do microfone, acrescentando gestos harmônicos. Por instantes Clarice invejou a desenvoltura da irmã, seu carisma, que silenciou a plateia fascinada. Mas o sentimento de gratidão foi mais forte, e o que sentiu quando a plateia explodiu em aplausos foi um emocionado orgulho daquela irmã tão bonita. E foi assim emocionada que a ouviu cantar a música que havia ensaiado para si e uma terceira que nem sabia que ela cantava, atendendo aos assovios dos meninos e aos bis dos adultos. Laura acabou com o Festival do Canto Feliz, porque depois dela nenhuma criança ousou assumir o número sorteado. Nunca mais Clarice iria esquecer o abraço que se deram quando se reencontraram, as duas chorando muito, sem se incomodar com as caixas de bombons e o jogo de caneta e lapiseira que caíram no chão.

         O NAMORO

            O vestibular era em dezembro, a primeira fase, e em janeiro, a segunda. E elas iam prestar só para ver como era. Melhor fazer um ano ou seis meses de cursinho — ainda não haviam decidido — e aproveitar as férias na casa da praia, em Ubatuba. Por isso Clarice entregou-se sem remorsos ao namoro com Vagner, pela primeira vez apaixonada de verdade. Já Laura teve vários namorados, desde os quatorze anos, nenhum que durasse mais que oito meses — o tempo que namorou Fernando, aos quinze anos. Na época do baile estava decidindo entre três, mas aberta para uma quarta possibilidade mais interessante. Isso sem contar que vivia recebendo bilhetes, presentes, flores e as mais diversas bugigangas dos fãs ardorosos.
            Para Clarice a descoberta do amor foi uma poção mágica que a transformou por completo. Cuidou-se melhor, tinha uma energia nova que se revelava nos gestos, no sorriso fácil, no bom humor. E o mesmo com Vagner. Passavam a maior parte do dia juntos, iam juntos ao clube, a passeios, ao cinema, às festas, à praça. À noite, contava para a irmã cada minúcia do dia, se aconselhava, trocava confidências. Foi por influência da irmã que teve, vinte e três dias depois do baile, sua primeira relação sexual, ali mesmo em seu quarto, numa tarde em que todos saíram. E assim nos dias seguintes a mesma coisa, na casa dele, no quarto dela, até na garagem.
            Também para Vagner era a primeira vez e ele se perguntava como pôde passar dezoito anos de sua vida sem transar e por que tinha tanto medo de uma coisa tão boa. Talvez tenha sido por isto, porque Clarice despertou nele o macho intimidado e escondido, que não fez nenhum esforço para evitar o assédio de Laura. Afinal seria dos poucos “homens” naquela cidade a comer a mulher mais cobiçada. Além do mais, era só sexo, não tinha nada a ver com o amor que sentia por Clarice. Um homem precisava conhecer muitas mulheres para que a escolhida como companheira de toda a vida fosse de fato valorizada. Para ele deu-se diferente do normal dos homens. Já tinha a mulher que seria sua esposa amada, Clarice; mas não conhecia as outras que a valorizariam muito mais. E Clarice também ganharia, porque iria ter um homem mais experiente e conhecedor das coisas do sexo e do amor. Anos depois, no casamento, ele se lembraria dessas bobagens adolescentes e não conseguiria controlar o choro convulsivo.
            Quando Clarice chegou do cabeleireiro, bem penteados os cabelos castanhos, três dedos mais curtos, na altura dos ombros, tinha um sorriso de felicidade pelos pensamentos em Vagner e certa ansiedade em saber se ele gostaria, embora tivesse sido sugestão dele que cortasse um pouco. Não esperava encontrá-lo em sua casa, muito menos no quarto de Laura e menos ainda nu, abraçado com ela.

         O VESTIBULAR

            A mãe veio correndo abraçá-la, com o jornal na mão, que trazia impresso seu nome entre os classificados para a segunda fase. Mas sorriu sem entusiasmo ante a euforia da mãe, a mesma reação que teve quando o pai desligou o telefone, ciente do resultado que os jornais só dariam no dia seguinte, dos aprovados na segunda fase. Parecia saber que seria aprovada e aceitou como normal o abraço forçado e o “tudo de bom” de Laura. Provavelmente estaria sentindo o mesmo que ela. Agora iriam separar-se e ela sabia que para Laura seria mais difícil, já que não teria mais sua companhia, seu estímulo e suas explicações para estudar. Para ela as dificuldades seriam de outra ordem: mudar-se para São Paulo, enfrentar sozinha a USP, as novas colegas de quarto, de classe, de universidade.
            Vagner era um passado dolorido e distante. Ante o entusiasmo da mãe manteve o sorriso meigo e bebeu com a família uma taça de champanha que o pai abriu para comemorar. E depois alegou cansaço e foi para o quarto, ainda trazendo no bolso da calça jeans a carta esquecida. Ao trocar-se para dormir, lembrou-se dela. Tirou-a do bolso e jogou-a no cesto de papel ao lado da escrivaninha. Apenas mais uma que jogava fora sem abrir, como acontecia quase todos os dias. Deveria ser mais um poema ou mais um pedido de desculpas ou mais uma invencionice qualquer de Vagner para que ela o perdoasse. Mas Vagner agora era passado e ela não perdoaria nunca sua traição. A irmã ela perdoou. Aliás, nem a culpou de nada, sabia como era. No seu entender, para Laura, Vagner era apenas um rapaz, igual a tantos outros com quem se relacionou e que deveria ter ficado mais excitante com os relatos que ela fazia das transas. Vagner é que não podia ter feito o que fez. Que Laura era sedutora ele bem sabia. Quantas vezes ela contou sobre o jeito da irmã. Ele é que deveria ter resistido, imposto respeito e, sobretudo, respeitado o amor que ela lhe declarava várias vezes ao dia. Não, não havia perdão possível, nem quando Laura intercedeu. A resposta foi seca e definitiva: “isto é entre mim e ele. Não se meta”.
            Agora, no quarto, pensava que ao menos isso tudo teve um benefício. Após o desespero daquela tarde e daquela noite em que se trancou no quarto chorando sem parar, decidiu afundar-se nos livros, estudando tudo que pudesse nos cinco dias que faltavam para a prova da primeira fase. Muito do que estudou nesses dias caiu na prova e seu nome estaria impresso nos jornais do dia seguinte. Amanhã iria para Ubatuba e lá esqueceria definitivamente Vagner e se prepararia para cursar o primeiro ano de Psicologia na USP. É... O mundo era muito maior do que Vagner e do que Americana...

            O TRABALHO DE APROVEITAMENTO

            Gislene acabou de ler a última página datilografada e disse convicta:
            — Isto aqui vai ser dez, Clarice. Dezaço!
            — Você é sempre exagerada.
          — Exagerada? Quer apostar? Aposto as obras completas do Freud contra um Pato Donald que você tira dez. Está o máximo!
            — Você acha mesmo que está bom? Não sei, aquela parte das fobias dos trabalhadores da indústria está pouco fundamentada, meio chutada...
            — Você está no terceiro ano da faculdade, menina! Não está defendendo uma tese. O meu trabalho, que está muito inferior ao seu, eu acho que vou tirar dez... O seu, então, vale onze!
            Das muitas colegas do pensionato, no primeiro ano da faculdade, Gislene foi a que se transformou na melhor amiga. Já tinha se decidido pela Psicanálise, diferente de Clarice, que ainda não tinha definido o que fazer quando terminasse a faculdade. Como certeza tinha a Psicologia. Gostava do curso, de estudar e ler sobre o assunto. Por isso comprava e lia muitos livros, bem além dos que eram indicados pelos professores. Para ela, as diversas linhas lhe pareciam interessantes e de fundamentos sólidos, mas não conseguia ter a certeza por Freud que Gislene tinha. Jung, Lacan, Melanie Klein, todos tinham seu fascínio. Se tirasse dez naquele trabalho, seria mais um dos que sempre a avaliavam. Mas aquele professor tinha a fama de rigoroso e por isso esforçou-se para fazer o melhor possível. Confiava em seus critérios. 
            Semanas depois, quando foi chamada pelo professor em sua sala, para comentar o trabalho, sentiu-se insegura, preparando-se para ouvir as críticas sobre as partes que considerava fracas e que com a demora da correção do texto lhe pareciam cada vez mais insustentáveis. E foi assim, tímida e insegura, que se apresentou na hora marcada.
            O professor Joélson Esteves estava sentado à mesa e não levantou os olhos do texto que lia, quando ela abriu a porta e o cumprimentou. Ainda sem olhar para ela, pediu que se sentasse na cadeira oposta à sua, que a deixava desconfortável com os joelhos encostados no tampo frontal daquela mesa/escrivaninha ampla. Esperou longo minuto e meio que ele acabasse de ler um texto que não era o seu e por fim tirou os óculos de leitura e abriu um sorriso de simpatia.
            — Desculpe. Queria acabar de ler este trecho para não perder o fio da meada.
            — Tudo bem.
            O professor Joélson Esteves deveria ter entre trinta e cinco e quarenta anos, entradas pronunciadas anunciando a inevitável calvície, uma barba bem aparada, e aparentava a segurança de um intelectual sério, de quem tem as coisas da vida sob domínio. Também assim parecia sua sala, vista em detalhes no minuto e meio em que esperou que se dirigisse a ela: organizada, arrumada, sem excessos de organização.
            — Li o seu trabalho... Aqui está. — Entregou a ela, tirando o texto de uma gaveta.

            O ENCONTRO

            Laura estava atrasada, como sempre. Às seis e meia, o Bar da Praça começava a receber as pessoas para a happy hour e havia ainda muitas mesas vazias. Clarice já tinha bebido metade da garrafa de água mineral que tinha pedido e escolhia no cardápio alguma coisa para comer, quando Laura chegou.
            — Me atrasei de novo, né?
            — Como sempre.
            Beijou a irmã no rosto e foi logo reclamando do curso, da faculdade, das pessoas, de tudo. E Clarice ouvia com paciência, mas ansiosa para contar as novidades. Na primeira oportunidade, depois do “e aí? E você?”, disse sorrindo:
            — Vou me casar.
            — Mas já?
        — Nem tão já assim. A gente namora há quase dois anos. E se for contar o quase um ano de enrolação...
            — Você tem certeza?
            — Claro que tenho.
            — Bem, então só me resta desejar boa sorte, irmã. Me dá cá um abraço.
            Desde que Laura tinha vindo para São Paulo, elas se encontravam pelo menos uma vez por semana. Porque não quiseram morar juntas; as duas achavam que era melhor construírem seus próprios círculos de amizades, já que estudavam em áreas diferentes. Clarice já estava no terceiro ano da Psicologia, quando Laura conseguiu passar no vestibular, e mesmo assim na FAAP. Bem que tentou Comunicações na USP, mas não conseguiu passar no exame da primeira fase em nenhuma das três vezes em que prestou. Seu desempenho na faculdade era sofrível e agora no terceiro ano já trazia duas dependências. Sempre reclamava da faculdade e do curso e várias vezes falou em fazer Psicologia como a irmã.
            — Mas você só namorou o Joélson, depois do Vagner...
            — O Vagner nem foi namoro. Só uma paixão de adolescente.
            — Sabe que ele ainda é apaixonado por você, não sabe? Quando souber que você vai se casar, vai morrer.
        — Não posso fazer nada. Mas da última vez que estive em Americana ele estava com uma namorada...
            — Noiva. Vai se casar com ela.
            — Então descurtiu a paixão.
            — Que nada. Se você lhe der uma chance ele larga a noiva. E mesmo que se case, ele abandona.
            — Deixa o Vagner pra lá. E você? Ainda está com o Ronaldo?
            — Não. Ele era um chato. Só falava de publicidade, essas coisas...
            — O Jô só fala de Psicologia e eu gosto...
            — Este é que é o problema. Não sei se gosto do que estou fazendo. Não gostei de fazer teatro, não gostei de fazer cinema, não gostei de escrever roteiro...
            — Mas e daí? Depois do Ronaldo já tem outro em vista?
            — Em vista sempre tenho vários. Mas nada que me comova.
       — Faz tempo que quero lhe perguntar uma coisa, desde a adolescência. Nenhum desses seus namorados lhe provocou um sentimento mais profundo? Você nunca amou ninguém?
            — Dependendo do sentido da palavra, eu diria que amei todos. Mas só um... Deixa pra lá.
            — Fala.
            — É muito difícil dizer.
            — Desde quando alguma coisa é difícil de dizer para você...
            — Isto é. Um dia talvez lhe fale.
            — Vai, já começou, fala.
            — Tá bom. Vagner.
            — O Vagner?!
            — É. De início era só tesão, sabe como eu sou. Mas não sei, foi ficando, querendo mais...
            — E por que você não falou com ele?
            — Falei, escrevi, fiz de tudo. Ele nem quer mais falar comigo há anos.
            — O Vagner é um trouxa mesmo. Nem sabe o que está perdendo.
            — Sem essa, Clarice. Você sabe muito bem que eu sempre perco tudo pra você.
            — Você? O que você está falando?
            — Já que estamos falando a verdade, vamos falar a verdade pra valer! Você, com esse jeitinho de quem não quer nada, sempre teve tudo o que quis. Sempre a primeira da classe, sempre a mais elogiada...
            — Eu?! As pessoas só me elogiavam com medo de que eu me sentisse inferiorizada, só isso. Por que você era a mais bonita, a mais brilhante. Quer saber por que o Vagner veio dançar comigo no baile de formatura? Quer? É porque não tinha coragem de tirar você. Veio dançar comigo só para chegar perto de você. Ficou a seleção inteira perguntando de você! Na escola era de você que todo mundo gostava; eu só ia junto, ficava com a sobra...
            — É. Mas por quem o Vagner é apaixonado até hoje? É por mim? Comigo os homens só querem transar. Com você querem casar. Você entrou antes de mim na faculdade e no curso que quis. O papai gosta mais de você do que de mim. Se eu vou lá e você não vai, ele só pergunta de você, nem se interessa por que eu estou fazendo.
            — E a mamãe? Quem é que tinha sempre o vestido mais bonito? De quem ela passava mais tempo penteando o cabelo?
            — Você não gostava de pentear o cabelo.
            — Não gostava? É que me pentear era uma obrigação. Pentear você era prazer.
            — Você está sendo injusta com mamãe!
            — E você está sendo injusta com papai.
            — Injusta? Quando eu entrei na faculdade ninguém abriu champanhe...
            — Pudera, você fez aquilo parecer uma condenação...
            — E você? Não parecia uma condenada quando entrou na faculdade?
            — Condenada, não, Laura. Eu estava triste, decepcionada com o que você fez comigo. Mas você é minha irmã e tenho que amar você como você é. Você sempre tinha quem queria, o que eu podia fazer. Quis o Vagner? Ficasse com ele então.
            — Tá vendo? Você sempre superior, a mais inteligente, a mais compreensiva. Por que não brigou comigo, não ficou de mal? Eu faria isso, mas você, claro que não...
            — E de que adiantava? Já estava feito mesmo...
            — Ao menos lhe fiz uma coisa de bom. Mostrei que o Vagner não prestava. Aliás, homem nenhum presta...
            — Presta sim, Laura. Tem homem que presta sim. O Vagner mesmo é um homem que presta. E o Joélson também. Você é que não presta e estraga qualquer um que chega perto.
            — Agora sim estou vendo minha irmãzinha abrir o jogo!...
         — E por falar em jogo, Laura, nunca mais tente seduzir o Joélson. Pensa que eu não sei? Ele me contou dos telefonemas e de suas insinuações.
            — Eu seduzir? Ele que se insinuou.
          — Não foi não. Ele sabe do Vagner e me preveniu de que seria bem possível que você tentasse a mesma coisa com ele, isso antes de você se insinuar. É um homem de caráter. E não precisa me provar que ele não presta. Prove a você mesma que presta para alguma coisa. Em vez de fazer Psicologia, como vive falando, você deveria pensar em fazer uma boa análise.
            — Agora é a doutora me dando conselhos...
            — Não sou doutora.
            — Mas vai ser logo. E vai tirar dez com louvor, como no mestrado.
            — As moças querem fazer o pedido?
            — Eu não vou comer. Me traz uma água, como a dela.
            — Eu vou comer sim. Traz este salmão aqui.
            — Eu também quero um salmão igual ao dela.

         A OCUPAÇÃO

         Dois anos depois do casamento de Clarice e um ano depois de formada, Laura foi trabalhar como jornalista de modas na Cláudia, onde é uma das editoras. Antes fez uns frilas para a Contigo! e para o Suplemento Feminino do Estadão. Fez como ouvinte uns cursos na Psicologia da PUC. E chegou a viver um ano com Rodrigo, jornalista da Contigo!. Nunca mais conseguiu nada com Vagner, que se casou seis meses antes de Clarice. Há dois anos viaja para a Europa, fazendo a cobertura dos lançamentos mundiais da moda.

         O CASAMENTO

            Naquela tarde Vagner divertia-se em olhar as mulheres dando pulinhos para tocar os pés da enorme imagem de Santo Antônio sobre o nicho, fazendo depois seus pedidos e se persignando. A igreja estava lotada — o pai de Clarice tinha distribuído muitos convites — e havia aquele burburinho de conversas em voz baixa, na expectativa da entrada da noiva. Durante um mês jurou que não iria, mas a esposa dele insistiu, porque era um casamento muito comentado na cidade. Agora estava ali, terno cinza e gravata vermelha, respondendo com monossílabos as observações da esposa sentada ao lado, curioso para ver como ela seria vestida de noiva. Viu o noivo e os padrinhos tomarem suas posições em frente ao altar-mor. E o noivo parecia seguro, sem mostrar ansiedade, como se soubesse que o atraso da noiva fazia parte da cerimônia, tanto quanto o coral que entoava músicas líricas, ou as alianças.
            Lembrou-se de quando era ele naquele lugar, da insegurança que sentia, do desejo reprimido de responder “não” à pergunta do padre. Mas teria sido muito diferente se fosse ele agora no lugar daquele homem de barba aparada rente ao rosto. Com certeza também se sentiria seguro como ele e feliz como ele deveria estar se sentindo. Correu os olhos pela igreja, como quem procura ocupar-se de alguma coisa enquanto espera. Realmente a matriz de Santo Antônio estava lotada. Sentado no meio da igreja, junto ao corredor central, para ver a noiva bem de perto, ele decidiu olhar tudo, para guardar na memória aquele momento indesejado, resultado de sua inconsequência adolescente. E no lento movimento da cabeça, já quase direcionando o olhar novamente para o altar, três fileiras à frente, deu com os olhos de Laura, virada para trás, olhar fixo nele. Tentou sorrir, mas não conseguiu; porque sentiu raiva dela.
            A marcha nupcial anunciou a entrada da noiva. Todos se levantaram e se voltaram para trás. Mas Vagner só via aquela aparição deslumbrante, muito mais do que Laura no baile de formatura. “Aquele sorriso, meu Deus, aquele sorriso...” Ela passou por ele com os olhos fixos no altar, como se não existisse ninguém à sua volta. E ao ouvir o farfalhar do vestido, ver os passos lentos e firmes, sentir o leve odor do perfume, ele mal teve tempo de cobrir o rosto com as duas mãos para esconder o choro incontrolável que vinha do fundo da alma.

            A FESTA DE NATAL

            A Rua 30 de Julho estava repleta de gente fazendo as últimas compras de Natal. Quase quatro horas, tarde quente de 24 de dezembro. Ela ia subindo em direção à Papelaria Apolo para comprar o último presente que faltava, para o sobrinho. E o que pretendia era um presente simples, desses que a irmã jamais compraria para o menino de três anos, como um revólver de plástico ou uma bola de futebol. Para a sobrinha já tinha comprado uma Barbie, que a irmã também não compraria. Os sobrinhos adoravam os presentes que ela dava; nada de brinquedos educativos, livros de pano... Mas ela teve a sensação de que o encontro com ele, na porta da loja, não foi casual, como se ele a tivesse seguido em suas andanças pela cidade movimentada.
            — Oi, Laura.
            — Oi, Vagner.
         Eram quase oito horas quando chegou à casa dos pais e colocou os presentes sob a árvore. Na cozinha e na copa a movimentação dos preparativos para a ceia, as crianças na sala de TV, vendo uma bobagem qualquer. Laura procurou os olhos de Clarice, revelando ansiedade. Sem dúvida elas se entendiam bem. Clarice acabou de colocar os pratos na mesa grande da copa e puxou a irmã para o quarto que foi seu.
            — Vai, conta aí o que está deixando você com essa cara de moleca que andou aprontando.
           Como na adolescência, detalhou o encontro com Vagner, a sensação de que não foi casual, tudo. Era a primeira vez que tinham conversado pra valer. Primeiro ele quis saber de Clarice, mas aos poucos foi mudando, perguntando sobre ela, falando de si mesmo... Acabaram indo beber um chope, dois, três... E terminaram numa casa que ele tem no Iate Clube, à beira da represa. Lá aconteceu tudo, minuciosamente relatado com entusiasmo, cada beijo, cada toque, as duas vezes em que foram para a cama, com paixão. Laura estava feliz. Por fim disse que ele ligaria à noite, cumprimentando pelo Natal e que gostaria de falar com Clarice, que não havia mais motivo para não se falarem; era hora de esquecer o passado.
            — Claro, claro, Laura. Sem problema mesmo. Que bom que vocês se acertaram!
           — Também não é assim, né... Ninguém falou de futuro. Foi tudo muito presente. Mas foi bom, muito bom.
            Os presentes já estavam sendo distribuídos, as crianças primeiro, quando Vagner ligou. Antes dele, vários parentes e amigos da família telefonaram desejando feliz Natal. Havia na casa aquela alegria natalina e Clarice exibia o anel com diamantes dado por Joélson. E Vagner falou uns cinco minutos com Laura, até que Clarice viu o sinal discreto da irmã chamando-a para falar. Disse que iria atender na extensão do quarto, onde não havia a algazarra das crianças. Na porta do quarto, Laura ouvia a irmã ao telefone:
            — Pra você também.
            — (...)
            — Não, nada, sem rancores. O que passou, passou.
            — (...)
          — É, quem sabe. Vou ficar uns dias por aqui. O Joélson deve voltar amanhã. Vai com as crianças para a praia. Eu vou depois.
            — (...)
            — Não. Melhor eu ligar. Eu ligo para você.
            — (...)
            — Não sei. Amanhã, depois de amanhã... Depois de amanhã pode ser, dia 26. É... É melhor.
            — (...)
            — A Laura disse que você tem uma casa no Iate Clube...
            — (...)
          — Sim. Pode ser lá. Acho que lá a gente pode ficar mais à vontade... Mas agora vou desligar, preciso voltar para a festa.
            — (...)
            — Ligo sim, não se preocupe.
            — (...)
             — Outro pra você. Tchau.
            Os últimos presentes eram oferecidos na sala. Num átimo, Clarice viu o olhar de ódio da Laura ao perceber que o pai tinha gostado mais do chinelo de couro macio que deu, do que da camisa de seda que a irmã havia trazido para ele da França... Sorriu.

            

5 comentários :

  1. Nossa! Muito legal, final imprevisto. Adorei.

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  2. Também gostei, bastante envolvente, bem verdadeiro e humano.

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  3. Olá, Gilson.

    Tentei seguir o seu blogue e não conseguir. Não encontrei a ferramenta de seguimento. Tenho um muito simplório. Tenho interesse em seguir-te, para contatos profissionais futuro. Lanço um livro no fim do mês, texto para teatro, e quase sempre preciso de revisores. Se houver interesse, ajude-me, em como seguir o seu blogue e ficarmos em evidencia. Um abraço.

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  4. Caro José Maria,
    Tente inscrever-se por e-mail para seguir meu blog. Se não conseguir, volte a me escrever que vejo o que está acontecendo. Deixe o endereço do seu blog também para eu acompanhar seu trabalho.
    Gílson

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    Gílson

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