AS IRAS

SÓ PARA ESCLARECER: os dois contos que vou postar a seguir se originaram de uma proposta para redação de conto que usava e ainda uso nos meus cursos. Pedia para os alunos se dividirem em grupos de sete e sortearem um dos sete pecados capitais para cada um, tomando o pecado sorteado como tema de seus contos. Por duas ocasiões aconteceu de o grupo ter seis componentes e os alunos me pedirem para ser o sétimo. Aceitei. Assim surgiram esses contos, um tendo como tema ira e outro, inveja. O de inveja redigi de uma semana para a seguinte. Já o de ira demorou um ano para ser concluído, em razão de falta de tempo e, sobretudo, de dificuldade em lidar com a história e com o tema. É este que vem a seguir. Nele brinco um pouco com metalinguagem, com Guimarães Rosa e com Machado de Assis. E no final me remeto a Bergman de “A Fonte da Donzela” — cineasta, a propósito, que não está entre os meus preferidos. Depois virá o de inveja, ambientado em Americana e São Paulo, realidades que conheço bem.






AS IRAS



I

            Que ele era, no aparente, pessoa de quem estórias não se contam, isso era visto. Desdo seu tipo, de pouco porte, se bem que não franzino, mas presença de quase sem importância, se aparecido num lugar qualquer, tal e qual os que comparecia. Sua vila, longe das grandes, mal e mal visitada pelos caminhões que de tempos em tempos traziam os feitos, os confeitos — enfim, os produzidos nas grandes urbes de que se ouvia falar por lá. Assim, apacatado vilarejo mineiro daquelas bandas, sem miséria muita e sem riqueza do mesmo modo, ou, mais certo dizer, riqueza só de uns poucos que herdaram terras, onde mais pastavam vacas de leite que bois de corte, de conforme com o sempre acontecido por lá. Vira-Vira chamado o lugar, Vila Vira-Vira, desde que, ninguém se alembra muito bem quando, ali vieram uns coronéis assim chamados, donos de terras, que mudaram o nome, por pilheria, de Vila do Santo Pedro da Igreja Maior, para o apelido, só porque saíram uns homens de vira-casaca do então coronel intendente, desgraçado na política daquelas eras.
            Ali, alheio a essas estórias antigas, e irregular ouvinte das mesmas outras que viajavam as lembranças dos homens comumente dispostos a contá-las ou ouvi-las, entre uma talagada e outra de cachaça, virada com caretas no manso das tardes na venda — ali ele, mais ouvinte que inventor, enchia poucos copos e seu tempo de assim às vezes estar.
            Se conhece todo mundo nessas bandas e poucos forasteiros chegam para mudar os assuntos. E ele, conhecido por pouco apego ao trabalho, chamado e aceito com nem bom nem mau grado, para biscates e trabalhinhos de sobras da preguiças dos outros. Enfim, ele mais ou menos assim. Homem moço nada demais, como tantos outros por lá. De nome Vieira, herdado do pai pouco conhecido, o mesmo da mãe, a dona Elvira Vieira, penitente de Santa Terezinha, a do trabalho com roupas lavadas, batidas e quaradas na beira do ribeirão, perto daquele lado da cidade onde os homens iam gastar seus cobres de vez em vez com as mulheres-damas de divertimentos esperados — melhores que éguas, cabritas e outros bichos de que mais vezes esse Vieira se servia, na sua mocetude sem apego a quase nada.
            Nem apego à mãe, morta faz três anos, do bócio, que lhe calou a fala e, por final, o ar no peito. Morte sem lágrima e de descendente nenhum, que não esse Vieira, dito Miguel. Assim sendo Miguel Vieira deixava a vida ir-se passando, e quando cumprimentado “como vai?”, respondia com funda e sincera verdade o que se dava com ele: “vai-se indo, vai-se indo”. E se ia para seus biscates que pagavam cachaça, fubá do angu, mandioca pro porco e pro prato, e pouco mais que só isso.
            Este que vos conta busca atenção e reparo para esse Miguel Vieira, que se imagina mais ou menos isso, ainda que, contando, eu não tenha a fala famosa e faceira; que nem Guimarães sou, quanto mais Rosa. Inda que assim, e a e de propósito, empresto um pouco do jeito daquele distinto e famoso João, para que vosmecê, que me vê em escrito ou me escuita, ponha reparo nesse Vieira, de nome Miguel, dito Migué, ou Migo, ou Miguelim da Elvira, ou Vieirinha, ou Vieira, ou Migué Vieira, pelos de sua intimidade e os de nem tanto, que, por pequeno, eram quase todos do lugar. Por gentileza, siga olhando ou ouvindo a estória do moço, e se previna para as façanhas pouco comuns, que por desígnios o destino às vezes prepara.
            Aconteceu que um dia, como outros tantos, foi-se Miguel Vieira satisfazer-se em pecados com as moças, no perto de sua tapera, lá no Beco do Borra-botas. Assim chamavam o lugar, por causa do barro que fazia por ali no tempo das chuvaradas. Nada estúrdia sua presença lá. Era só mais um homem no seu de vez em quando de vontade e dinheiro em combinação, procurando mulher parceira para bom pecado da carne fraca, como satisfação, primeiro, e como assunto de confissão e penitência, depois. E estavam elas naqueles gracejos de oferta de seus mimos, sabedorias e fingimentos, atiçando o homem para que desempenhasse e por fim pagasse os sustentos de uma delas, mais seu homem, mais seus talvez filhos-sem-querer, mais talvez mãe e outros possíveis.
            Miguel gostava desses primórdios e brincava também com elas com seus ditos jocosos e gracejos, e espichava os momentos, bebericando aqui e ali, jogando conversa fora, fazendo pose e valorando sua presença. Se numa casa tinha música, quase sempre de rádio e caipira, ele dançava com variadas moças, se rindo muito e passando a mão no traseiro delas. Assim, ia-se dando uma importância que não tinha e deixando seu cachaço alto, metido, se preparando para as mais grandes satisfações de depois disso.
            Diferenciado dos demais acostumados às frequências da zona, Vieira não tinha mulher preferida. Ia com aquela que lhe parecesse mais disposta, ou que risse mais alto, ou que estivesse mais sem-vergonha, ou por nenhum motivo desses ou outro qualquer que, no dia, desse azo às suas vontades. Nesse dia que se conta neste agora foi semelhante. Ele deste modo estava como sempre, folgazão. E pegou aquela lá só porque ela enfiou a língua no seu copo de pinga e o beijou, metendo a língua anestesiada em sua boca. Gostou dessa sem-vergonhice dela e achou, como sempre achava e acontecia, que lhe daria bons divertimentos.
            Nem reparou que com aquela uma nunca tinha ido; e nem ela cuidou de reparo parecido, mesmo porque pra ela todos eram quase que os mesmos. Os dois só estavam mesmo seguindo os conformes da vida deles, ela na sua ocupação de mulher-dama e ele nos seus descaramentos do de-quando-em-vez sobrava umas patacas para isso. E ela até pensava que naquele hoje daria um pouco mais pro sustento desavergonhado do Amâncio Farias, seu homem pra quem trabalhava. As janotices de Miguelim Vieira anunciavam homem de prazer apressado, sem força prum segundo ou terceiro. Desde menina nessas labutas de meretriz, conhecia os tipos de-cor e desse jeito lhe pareceu.
            Mas deu-se que, naquele dia, Vieira estava com muita vontade, depois de bolinar variadas mulheres. E, de fato, aprazerou-se depressa, mas não largou a corcova daquela égua xucra nem da segunda vez, nem da terceira. Pois aquele homem que não lhe largava mais deixou a mulher desesperada e ela berrou que ele largasse dela, mas ele agarrou seus desgrenhados cabelos e calou-a com um beijo arretado, cavalgando a moça sem sossego. Foi por sentir a firmeza dos braços e das mãos dele, que se enganchavam nela, esmagavam suas tetas, cutucavam seu traseiro e puxavam seus cabelos sem dó nem piedade, que ela abandonou o corpo para aquele cavalo/cavaleiro. E sem querer, porém sem que segurasse, também ela acabou gozando, como só acontecia com Amâncio, que ela queria.
            Vieira não desgrudava dela. Porque estava bom aquilo, inda mais quando ela virou ele de costas na cama, montou por cima e decidiu que aquele pé-rapado ia lhe dar mais prazer. O galo cantou seus anúncios de dia, no momento em que ela abandonou-se de bruços na cama, para que ele, chamando ela de vaca braba, usufruísse também do seu traseiro empinado. Por finalmente resfolegou e deixou seu peito suado grudar nas costas dela, resmungando na sua orelha: “Deus que me perdoe, mas pecar é bom demais”. E de bruço ela dormiu, sem ver Miguel voltar para a lida e nem Amâncio entrar para recolher o pagamento tratado. Só acordou de tarde e não era mais a mesma. Bartira queria que queria aquele homem de volta, aquele bicho do mato que a tinha feito tremer além de qualquer outro. Na noite de depois dispensou trabalho e Amâncio, que a encheu de bofetadas; mas correu quando ela pegou um punhal pra lhe cortar seus trens de homem.
            Mulher, quando não se quer, pode-se com algum custo livrar-se dela. Mas mulher, quando não quer, homem nenhum pode forçar querer. Assim com Amâncio. Não adiantou botar autoridade, ameaçar tundas, prometer vinganças. Só podia matar, mas ela sabia que ele não era homem pra isso. Porém ele sabia que ela era mulher pra isso. E acabou se acomodando com Maria Eugênia, a Geninha, não tão bonita e lucrativa como Bartira, mas submissa às suas vontades.
            E Bartira queria mesmo aquele Miguel Vieira e foi fácil tê-lo, já que ele não tinha nada a perder. Logo se acostumou aos mimos da mulher. Aceitava sem culpa o dinheiro que ela lhe dava todas as madrugadas e ia gastá-lo mais tarde nas bebidas, no baralho, nas roupas e nas botas. Além do mais, dormir com ela em pecados era muito melhor que as éguas, as vacas e as cabras. Nem precisava sair pelo pasto atrás de égua barranqueira ou ficar cercando cabra pra satisfazer suas necessidades. Vai daí que ele, fora os mimos, ainda comia melhor, com carne quase todo dia, feijão tropeiro, couve picadinha, ovos, franguinho de leite, vez ou outra um leitãozinho à pururuca e mais bolacha Maria nas horas de fome pequena. Com tudo isso encorpou, corou, ficou mais bonito, arranjou os dentes e os cabelos bem lavados, e satisfeito abençoava aquela vida mansa. Mas não tinha jeito de dono de mulher. Nada de ciumeira ou de ficar escolhendo quem podia ou não podia se deitar com ela. Ao contrário, até arranjava ele mesmo uns fregueses para ela, contente por dividir seu prazer com os amigos, como dividia a pinga e o torresmo.


II


            E a estória podia seguir assim, sem susto. Só que o narrador tem pouco domínio sobre suas criaturas. Elas exigem que o mundo siga suas voltas e que aquilo que lhes é de destino se cumpra. Então eu lhe pergunto, leitor, ouvinte, se não seria de melhor razão que se parasse aqui? Se melhor não faria o narrador, se cortasse o fio das sinas com a faca de sua pena ou com o machado de sua imaginação? Pobre narrador!... Tão longe está seu machado do de outro, do de Assis... Este sim sabia muito das façanhas e dos acontecimentos inevitáveis! Sabia, como exemplo, que “cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica”, como disse pela boca do seu Jacobina.
            No entanto Manoel Vieira segue a sua vida e decido acompanhá-la, dispensando o leitor ou o ouvinte dessa ocupação, caso se lhe tenha abatido o enfado que meus relatos bem podem estar gerando. Nesse caso busque, leitor, ouvinte, papeis avulsos, varias histórias, histórias sem data, páginas recolhidas, e tenho certeza que estará mais bem servido. Se não, saberá que pela rua principal de Vila Vira-Vira, hoje por nome Vila das Iras, vinha vindo, uma tarde, Jacira, que haveria de mudar os rumos dos passos do Vieira.
            Nenhuma cartomante, nenhum oráculo, ninguém previu este fato. Por volta das três da tarde, descendo das bandas norte do vilarejo, ela vinha. Não tinha, na aparência, uns braços que despertassem anseios inconfessáveis num adolescente desprevenido que a visse. Talvez seus olhos, e apenas talvez, tivessem uns longes de ressaca, provavelmente para se equilibrarem com a luminosidade da tarde.
            Manoel Vieira dispensava as próximas partidas de canastra, nos fundos da taberna, a que chamavam venda, e se preparava para ganhar a rua em direção ao Borra-Botas, quando ela vinha. Nem tinha ganhado, nem tinha perdido, e, apesar dos apelos dos parceiros de boemias e aleivosias, sentia um inusitado enfado por tudo aquilo e cogitou procurar Bartira para as carícias de que ela tanto gostava. Antes de seguir caminho batendo os tacos da bota na calçada quente pelo sol de verão, encostou-se ao balcão da venda para uns últimos goles de cachaça.
            Ironia é defeito dos homens. Mas sina é desígnio divino ou encomenda do demo. Que faria esta Jacira ali? Por que, momento azado, exatamente ali naquele instante? Eles vão se encontrar, Jacira e Miguel Vieira. Como não pensar nos acasos deste fato, nos aparentes acasos desta vida. Bastava que Jacira não decidisse enxugar e guardar os pratos, panelas e talheres de alpaca antes que atendesse ao pedido do pai para que fosse até a botica do Isidoro comprar a água boricada. Mas ela, ainda que moça-menina de apenas doze anos, gostava das coisas arrumadas e não deixa para amanhã o que pode fazer hoje. Por certo, modo de ser é destino. Pouca idade não parecia que tivesse, vendo-se seu corpo de seios já formados e mais ainda vendo-se a casa sempre limpa e bem arrumada que ela deixava, assumindo os deveres que seriam de sua mãe. Alguém precisava ocupar o vazio deixado pela deficiência visual do pai, pois a vista cada vez mais obnubilada o impedia de tocar os trabalhos do sítio. E lá ia a mãe em seu lugar, plantar, arar, cuidar da criação. A casa ficou tarefa de Jacira e, por querê-la sempre em ordem, atrasou-se um pouco mais para a compra do remédio. Em verdade, preferiria passar roupas e maldisse o descuido do pai, que dias antes derramou metade do vidro da água boricada.
            O encontro que está para acontecer não existiria, não fosse esse descuido. E menos ainda, se o pai tivesse tratado os olhos aos primeiros sinais da doença. Ou se ela não tivesse dormido um pouco mais nesta manhã; e se ele cedesse à insistência de mais uma partida de canastra; ou deixasse a cachaça para ser bebida no bar da zona; ou... Destino. Todas as considerações se rendem ao fato. Ao sair, ele a viu.
            Ela não. Simplesmente passou em direção ao boticário com seus passos leves e o zanzar suave da saia do vestido, acompanhando o movimento harmônico dos quadris. Rosto firme à frente, coluna ereta, longos cabelos negros bem lavados, menina cabocla.
            — Quem é essa? — perguntou o Vieira ao dono da venda.
            — Sei não. Deve ser de algum sítio por aí. 
            A pinga desceu queimando, enviesada na garganta. E Vieira saiu sonâmbulo, seguindo de longe a moça. Ela não se deu conta dele, e ainda que se desse, o veria como a um estranho, como de fato o viu, quando ele, nos seus rastos, entrou na botica. Hipólito já se tinha se embrenhado nos dentros da farmácia em atendimento ao pedido da moça. No sol quente da tarde e no calor do rosto, Manoel Vieira buscou o assunto óbvio:
            — Calor, né?
            No soslaio, ela indicou a resposta, nada mais que o aceno quase imperceptível da cabeça, gesto de quem limita a fala deliberadamente. E já que nenhum outro assunto lhe vinha à cabeça, repetiu em outras palavras as vazias fáticas considerações sobre o tempo, para uns olhares que se perderam curiosos nos vidros de Coty, sem desejos de prosas, alheios. Jeito de íntimo do lugar, o Vieirinha adentrou o balcão e pegou um frasco.
            — Cheira.
            Cheirou, deixando escapar, por um segundo, um ar feminino, mais ingênuo que sensual.
            — Pega. É seu.
            Ela pousou rápido o frasco sobre o balcão e séria afastou nariz, olhar e corpo dali, até que assumisse por completo a lembrança do boticário ausente.
            — Não. Não tenho dinheiro.
            — Pega, eu pago.
            — Não.
            O olhar seco dava a conversa por finda, e só alguém a quem faltasse senso crítico manifestaria insistência.
            — Sei que não conheço a moça. Mas é como se conhecesse. Aceite, por favor. Assim vou saber seu cheiro, quando quiser lembrar...
            — Não carece lembrança.
            A presença de Hipólito cortou a vontade de insistir.
            — Seu remédio, moça. Vinte cruzeiros.
            O dinheiro saiu de um bolso na saia do vestido simples, chita estampada de florezinhas desbotadas pelo uso. Por certo deveria ter sido de sua mãe. O olhar apatetado de Miguelim Vieira em direção aos seios que se acomodavam com folga no corpete do vestido levou-a a juntar o pacote com o remédio ao peito e ganhar rápido a rua ensolarada.

            — Quem é essa, seu Hipólito?
            — Uma daí de um sítio, filha do seu Zé Labão. Sabe quem?
            — Sei não.
            — Doente da vista, coitado. Bom freguês. Triste ver um homem trabalhador desse jeito...
            — Que jeito, seu Hipólito?
            — Quase cego, coitado. A mulher é que pega no pesado e essa aí cuida dos pequenos e da casa. Moça trabalhadeira, coitada. Quase menina já com tarefas de mulher.
            — Quase uma moça, seu Hipólito, quase uma moça...
            — Não me diga que está de olho gordo pra cima da menina?...
            — Que é isso, seu Hipólito...
            — Pra que que você quer essa coitadinha. Pra pôr pra trabalhar pra você no Borra-Botas?
            — Que é isso, seu Hipólito! O senhor me conhece!
            — Conheço sim. Por isso é que acho bom você ficar longe da coitada da moça. Já não basta pro coitado do Zé Labão ter aquele olho lesado; só faltava ver a filha — se é que ele vê alguma coisa — convertida em mulher-dama.
            — Ô, seu Hipólito... Eu não ia fazer uma coisa dessas com a moça... Eu...
            — Você o quê? Por que você está interessado na coitada da menina?
            — Eu não sei... Por nada... Eu sei lá... Eu vi ela passar e fiquei com vontade de saber quem é. Só isso.
            — Eu lhe conheço, Miguelim Vieira, eu lhe conheço. Primeiro corria atrás de cabrita. Agora adonou-se de mulher-dama. Pra você é a mesma coisa: cabrita, vaca, égua-barranqueira, mulher-dama... Mas essa coitadinha não merece ter você como destino.
            — Eu só queria saber o nome dela...
            — É, não é? Eu vi como você pôs reparo nos peitinhos da coitadinha.
            — Ela é mulher e eu sou homem, né, seu Hipólito?
            — Ela é menina honesta e trabalhadeira e você não é homem pra ela.
            — O senhor tá parecendo pai dela...
            — Olha o respeito, Miguelim...


III


            É certo que os caminhos da vida de qualquer um são muitos. Lhe digo com certeza. Às vezes avesso ao desejo, até. Você passa todos os dias por um mesmo lugar que lhe parece em tudo o mesmo. Porém acontece uma coisa qualquer, inesperada, e seu rumo de vida muda. No momento até pode parecer que não; mas no seguido... Assim se deu com esse tal de Miguel Vieira. E desse modo se dá com o que conto e com tudo que chamamos conto. Viés da vida. Bem se poderia chamar assim.
            Indo da farmácia, voltou para a zona. O coração aperreado por transtornos nunca sentidos, uma vontade sei-lá-de-quê. Quase de sonho a sensação, torpor na alma, um jeito de embriagado por dentro: coisa isso que chamamos paixão. Comeu Bartira sem convicção. Assim meio burocrático, cumprindo obrigação. Ela achou que ele estava cansado. Então deixou pra lá. Voltou pro trabalho, atenderia três fregueses naquela noite.
            Já pra ele o sono não vinha de jeito nenhum. Aquela menina rondando a cabeça, a esquisitice na alma. Daí saiu andando sem destino pela zona, pela cidade, pela zona de novo e por fim parou num bar e encheu a cara até cair. Conhecido, não deixaram que cachorro viesse lamber sua boca. Foi levado desacordado para a cama de Bartira, que ainda dançava com um fulano. Quando ela chegou, ele ainda dormia, babando no travesseiro. Bem que tentou acordá-lo. Baita besteira. O porre era pra valer. Então o cansaço bateu e ela deixou que viesse. Tirou o vestido vermelho e dormiu ao lado dele. Afinal aquela porcaria ainda era seu homem e bem que podia encher a cara de vez em quando.
            Sol pra lá do meio-dia, ela acordou. Ele não estava mais ao seu lado. E nem apareceu à tarde, nem à noite, nem nunca mais. Sumiu, moscou-se, escafedeu-se. Outro dia disseram que ele arranjou serviço num sítio, meio longe dali. E nesse dia quase não se falava mais dele, nem na cidade, nem na zona. Porém ela jamais iria esquecer aquele Miguel Vieira que a fez gozar como nenhum outro. É, paixão de puta é caso serio, é coisa pra valer...


IV


            Azul. Azul é o céu do interior do país nesses dias ensolarados. E um azul como não se vê em lugar nenhum, de um ar seco e desempoeirado, bonito que só vendo. Nada de azul das águas, que água de interior ou é sem cor, limpinha, correndo nas pedras dos córregos, ou saída fresquinha do poço; ou é barrenta, amarronzada, dos rios de águas barrentas, dos rios cheios de água de chuva, ou das enxurradas erodindo as terras; ou meio suja dos bebedouros dos animais. Assim azul os rios são só nos mapas, não são como mar, esverdeado ou azul. Nada disso; azul é o céu, que cobre um verde de tantos tons, como daquele lugar todo que cerca de sítios e fazendas a vila do Vira-Vira. Miguel Vieira olhou aquele despropósito de azul quando passou o braço na testa para enxugar o suor que escorria perto do olho. Mas por pouco tempo. Logo em seguida retomou a lida. É que gente do interior não tem tempo pra ficar olhando céu, a não ser que busque nuvem de chuva ou lua certa para plantar. O que se tem de olhar está ali, debaixo dos pés, a terra, que a tudo sustenta. Antes que o sol se pusesse, ele tinha que acabar de arar o resto de terreno que faltava. E amanhã, bem cedinho, iria semear o milho, pra mor de aproveitar a chuva que mais dia menos dia ia cair, que já estava no tempo. E logo-logo teria um roçado cheio do melhor milho da região. Ali a terra era muito boa.
            A sombra do burro que puxava o arado já se espichava pela terra. Então desarreou o animal e levou-o para o pasto. Solto, deu umas corridas desordenadas, meneando a cabeça, antes de calmamente se pôr a pastar. O sol começava a se enfiar por trás da colina, quando ele chegou em sua casa. Ah, a sua casa! Suspirou satisfeito, mas não entregou o corpo a preguiças. Antes da noite escura, céu coalhado de estrelas, restava uma luminosidade bastante para que ele trabalhasse um pouco mais no alpendre da casa. Lixava uns caibros que comprou com sua pequena parte da safra passada. Quando estivessem brilhantes do capricho da lixa, iria espetá-los no chão na distância certa, não sem antes passar piche na parte que seria enterrada, prevenindo o apodrecimento precoce. A próxima safra lhe daria as ripas e as telhas, e no ano seguinte, se Deus quiser, Jacira se mudava para a casa dele, construída palmo a palmo com seu trabalho, seu suor, seu carinho.
            Lenta, a noite desceu com seus grilos, seus pios de coruja, sua revoada incerta de morcegos. E o azul do céu virou-se em negro marejado das estrelas da Via Láctea, do Cruzeiro do Sul, das Três Marias. Acendeu o candeeiro e requentou a comida do almoço. Como vinha fazendo há algum tempo, Jacira deu jeito de ponhar um pão escondido no forno do fogão de lenha. Quase perfeito. Para que assim fosse, bateu um pouco mais a manteiga quase preparada na noite de ontem e comeu o pão com manteiga, uma lasca de queijo meia-cura e um resto de feijão com farinha que ainda sobrava. Comeu satisfeito e em silêncio, num pensar sem pensar em Jacira, no seu corpo rijo da mulher que agora ela era nos seus dezenove anos. Sim, sete anos de trabalho duro compensaram. Agora estava perto e seu Zé Labão não tinha do que se queixar.
            Puxou o candeeiro para a beirada da mesa a fim de conseguir maior luminosidade. Debaixo do guarda-comida tirou a caixa de ferramentas e foi separando as que iria utilizar: a plaina, o martelo, a grosa, o serrote, a régua, o formão, as lixas. Só faltava aquela cadeira para completar quatro. Com certeza estava ficando mais bem feita que as outras. Ele daria para ela, mas sabia que com o tempo ela lhe devolveria a gentileza e a cadeira seria sua. Hoje faria entalhes no encosto e acertaria um pé ligeiramente manco. Tiraria imperfeições só perceptíveis por ele e lixaria novamente tudo, com uma lixa pouco abrasiva. Amanhã teceria o assento de palha de milho e depois envernizaria, várias demãos de verniz claro e bem diluído, por vários dias. Só faltariam, então, louças, panelas novas, talvez uns copos ou canecas e quase mais nada. Mas o principal estava pronto há muito tempo: a mesa e duas cadeiras, o fogão de lenha com forno, todo cimentado em vermelhão, e o quarto, com cama de casal, guarda-roupa e arca para as roupas pesadas de cama. Já a penteadeira podia esperar. O espelho quadrado comprado na feira dava conta, por enquanto. Talvez viesse logo um filho e aí seriam outras as prioridades nas construções.
            Sonhando com ela, sonhando com um filho, Miguel Vieira pousou seu corpo cansado no colchão de paina, para acordar com os cantos dos galos no dia seguinte. Amanhã cedo tomaria o banho relegado no fim da tarde, para espantar de vez as preguiças da cama.


V


            Miguel Vieira cumpriu à risca o contrato feito com seu Zé Labão. Quando bateu na casa do quase cego pedindo permissão para assunto muito sério, portou-se como homem de bem. Zé Labão sabia das famas desse Vieira e pôs o moço para fora. E assim foi por muitos dias, até que um remédio novo, recém-chegado na botica, trazido por Miguelim, amoleceu as defesas do homem. Além disso, ofereceu suas economias dos presentes da Bartira para que ele fosse a Belo Horizonte consultar médico de fama, o doutor Tostão. Mas não recebeu a menina de graça não. Só a teria se, após sete anos de trabalho, pusesse o sítio a funcionar, com plantação e criação, para que ele, quase inválido da visão, pudesse juntar dinheiro para a operação da vista que teria que ser feita em São Paulo, no Hospital das Clínicas.
            E pôs-se esse Miguel Vieira a desbastar as fruteiras do pomar, a cuidar dos rebanhos e a arar a terra para plantações de roças. O sítio era grande para trabalho de um homem só, mas ele, a cada enxadada, a cada lance de semente na terra pronta, ia solidificando seu amor por aquela que por destino de Deus seria sua mulher.
            De começo ela ficou assustada com a fama do tal Miguelim e tinha medo dele, torcendo para que a tarefa impossível dada pelo pai fosse mesmo impossível. O medo passou logo-logo, ao ver que ele não se insinuava para ela, sempre a cumprimentando de longe com muito respeito. Só um dia, dois anos e meio depois, ele segurou a mão dela e arrastou-a até a casa que estava construindo perto do riacho. Mas foi só para mostrar a alegria de ter terminado o quarto, com a cama e o guarda-roupa, e mostrar os planos para o resto da casa. E ao ver em volta a plantação viçosa e as poucas cabeças de gado gordas, teve muita admiração por aquele homem determinado que fazia, pacientemente, um castelo e um reino para ela. Respeito virou vontade de amizade e amizade virou amor. E agora levava um pão, uma broa, um doce de leite ou de banana, um franguinho, às escondidas, como suas tímidas manifestações de afeto. Seu corpo crescia proporcional e roliço com são os corpos das mulheres; seus olhos viam nas mãos calejadas daquele homem os prazeres que um dia lhe daria. Por isso passou a torcer para que ele conseguisse.
            Já fazia mais de dois anos que o sítio dava lucro, desde que Miguelim tinha acabado com as ervas daninhas e o mato sem serventia, iniciando uma cultura diversificada que lhe permitia safra o ano inteiro. A mulher de Labão e as meninas comercializavam as safras na feira, produtos de boa qualidade, de venda fácil. E ele trabalhava duro na terra, de manhã até o fim do dia, e no começo da noite na casa de pau-a-pique, que caprichoso ele era.
            Findos os sete anos, Labão se foi para São Paulo cuidar dos olhos. Acabou conseguindo a operação que lhe devolveu a visão da vista esquerda. Para a outra teria que entrar numa fila de espera de anos ou pagar. Mas cumpriu seu trato e deu sua filha em casamento conforme o prometido.
            Daí foi-se uma felicidade dessas que se vê só em casais predestinados e completos um no outro, uma vida feita de trabalho e sem-vergonhices noturnas, agora abençoadas pela Santa Madre Igreja. Miguelim lembrou-se de seu aprendizado com Bartira e foi além, estimulado pela brejeirice de Jacira, sempre pronta a satisfazer seu homem. Que se saiba, nenhuma briga, nenhum ciúme. O que passou passou. Ali era um do outro e acabou.


VI


            Bem que poderia ser esse o alvissareiro desfecho do que se conta. Que mais dizer dessa felicidade tanta? Contar que lhes nasceu Maíra, perfeitinha, bonitinha como a mãe? Pois nasceu, coisa de nove meses depois do casamento. E ficou única, porque eles acharam que estava bom assim, por enquanto. Melhor esperar uma safra boa para poder construir outro quarto que acoitasse os filhos outros que viriam. O que plantavam dava justo para as necessidades e os confortos das duas famílias, já que Zé Labão se acostumou na coitadice de cego, ainda que agora só pela metade, e o máximo que se permitia era ordenhar as vacas, bater manteiga e preparar os queijos. Quem dava duro mesmo era Miguel Vieira e dona Zaíra, a mulher de Zé Labão. E as outras meninas faziam os serviços da casa e estudavam na escola da vila, seguindo os conselhos de Jacira, que não teve esse benefício.
            Mas estava bom. Ninguém se queixava de trabalho e a poupança da Caixa Econômica já avizinhava o necessário para o conserto do olho de Zé Labão, que queria porque queria ter os dois olhos de volta. E foi esse desejo do velho que o levou a aceitar a oferta de Dermógenes Pereira. Já estava ficando velho e dois três anos de vida faziam falta.
            Só que não aceitou assim de pronto, que esperto para negociar ele sempre foi. O homem foi fazendo propostas cada vez mais tentadoras para ter o sítio, e ele alegando que nem o genro e nem a filha queriam vender de jeito nenhum. Mas Dermógenes Pereira jogou duro. Homem de muitas posses, queria mais ainda aumentar o patrimônio e dar as terras para o filho de quinze anos, a fim de que aprendesse no pequeno sítio a lidar com suas grandes fazendas. No dia em que mais que dobrou a oferta inicial, “pra não se falar mais nisso”, Zé Labão aceitou. Até aceitou a condição de se mudar dali o mais cedo possível. E aceitou também a exigência de que Miguel Vieira continuasse trabalhando as terras. Zé Labão não era homem de perder bom negócio. E foi-se embora uma semana depois para São Paulo, levando a mulher e as filhas, menos Jacira. Lá, sabe-se que se operou da catarata e comprou um boteco na vila Ré. Nada mais se sabe dele e da família.
            Miguelim sentiu-se apunhalado pelo sogro, pois tinha criado afeição pelo sítio, que fez ressuscitar com muito trabalho. E agora que estava bonito, todo plantado, criação sadia e produtiva, o desgraçado tinha passado nos cobres, como se ele não fosse mais que uma vaca sua. Por isso amaldiçoou o traidor e pensou em ir embora, quem sabe para Goiás, quem sabe para um garimpo, mas Jacira ponderou que ali estava a casa deles, levantada com tanto carinho e sacrifício, e que afinal o novo dono oferecia ameia para ele. Trabalhador ele era. Mas gastador, não. Então, com sacrifício e economia, quem sabe, mais uns anos de trabalho, eles comprariam terra própria. E assim foi que ele ficou.


VII


            Amarelo. Mais de uma dúzia de caixas o amarelo das laranjas cobria. Maíra descascou uma e chupou, enquanto esperava o pai encher a última caixa. Ainda o amarelo carregava boa parte das laranjeiras, o que anunciava mais alguns dias de trabalho para dar conta da safra. Miguel Vieira só parou porque se acabaram as caixas disponíveis. Mais tarde a caminhonete do patrão passaria e levaria as caixas todas para serem comercializadas. Metade do lucro seria sua, descontados os gastos com fertilizantes, com herbicida, com os defensivos, com as caixas, com o transporte, com o empréstimo bancário, com a taxa de seguro e com tantas outras coisinhas que Dermógenes enumerava uma a uma numa longa lista batida à máquina, quando prestava conta para Miguelim. Mas Maíra não sabia nada disso. Só estava ali, como todos os dias, para chamar o pai para o jantar. Não que precisasse. Era só prazer de criança, modo de mostrar afeto.
            — Pai, vamos. A comida já tá pronta.
            Miguel deu outra ajeitada nas caixas e abriu sorriso para a filha. Depois colocou seus pertences da lida sobre o ombro esquerdo e pousou a mão direita no ombro da filha de nove anos. Difícil saber se seu coração amava mais aquela menina que a mãe. Com o braço esquerdo ela enlaçou a cintura do pai e foram-se os dois cantarolando uma música, rindo-se muito. A fumaça da chaminé da casa anunciava o sustento. Mas antes ele passaria no rio e ficaria só de cueca, para o banho a que estava acostumado. Enfim entraria, brincaria com Jacira e com a menina e comeria o angu com linguiça de porco que a mulher tinha preparado. Só iriam dormir depois de ouvir o rádio, hábito que adquiriram desde que Dermógenes mandou instalar a luz elétrica.
            De novo naquele mês as contas deram negativas. Além dos gastos com a plantação e com a criação, tinha a parcela da instalação da luz elétrica e do rádio. Miguel Vieira já nem sabia quanto devia ao patrão, mas havia de ser muito. Só tinha uma saída; era trabalhar mais e mais. Há muito tempo não sabia o que era domingo e feriado. Até em noite de lua cheia ele trabalhava e nada da dívida diminuir. A mulher e a filha também ajudavam no que podiam, criando patos e galinhas, vendendo ovos. Mas quando Dermógenes Pereira soube desses trambiques exigiu metade, conforme o combinado, e achou de incrementar a criação comprando ração, que logo roubou o lucro delas.
            Manhã de chuva de agosto, e mesmo assim Miguelim foi cuidar da plantação de café. Quando voltou, de tardezinha, já tinha febre. Gemeu, delirou, tresandou, e de madrugada Jacira arreou a carroça para buscar seu Hipólito da botica. Três dias depois as injeções e os remédios puseram-no sem febre. Mas carecia de repouso e de muita canja de galinha. E foi aí que Dermógenes quis falar de dívidas. Chamou Miguelim pro terreiro e embaixo da mangueira de manga espada mostrou a papelada. Junto com ele o filho de dezessete anos. E fez a oferta final, era pegar ou largar, conforme assim falaram:
            — Olha aqui, Miguel Vieira. Cê num tá dando conta do recado e sua dívida só faz aumentar. Como é que eu faço?
            — O senhor vê. Trabalho de sol a sol. Tem vez que trabalho inté de noite. Acho que suas contas não tão certas...
            — Tá me chamando de ladrão, safado?
            — Não, que é isso, quem sou eu pra duvidar do senhor! Só tô dizendo que a conta não tá certa. A gente das veiz se engana, sabe como é...
            — Pois já fiz e refiz essas contas mais de mil vezes. Até nem descontei os dias parados em que ficou doente e a gente perdeu café.
            — Lhe agradeço, mas só sei que o sítio produz como nunca e eu trabalho o mais que posso.
            — Isso é tudo que você pode trabalhar? Então não vai ter jeito, não vai ter como me pagar.
            — Que mais o senhor quer que eu faça? Se ao menos o senhor pusesse um peão pra me ajudar...
            — Um peão, Miguelim Vieira, um peão? Um peão vai pagar as suas dívidas? Ele vai é aumentar, porque você teria que pagar o salário dele. E você sabe quanto custa um peão?
            — Sei não.
           — Tá bem, seu Vieira. Tá bem. Já vi que desse mato não sai coelho. Mas eu sou generoso e lhe dou uma chance de acabar com a dívida.
            — Com ela toda?
          — Todinha, até o último tostão. E mais: ainda lhe dou a caminhonete pra você comercializar sua parte da safra. Aí você vai ter lucro de verdade.
            — Então o senhor me diga que milagre é esse, Deus do céu! Eu não aguento mais essa agonia de dever pro senhor.
            — Milagre nenhum, Miguelim Vieira, milagre nenhum. É coisa muito simples.
            — Pois o senhor me diga, então.
            — É esse meu filho, tá vendo? Eu acho, e a mãe dele também, que ele já tá na idade de conhecer melhor as coisas boas da vida.
            — É sim, se o senhor acha...
            — Eu também quero o meu ganho. Eu não posso sair no prejuízo...
            — O senhor vai logo ao assunto, que eu não estou entendendo nada.
           — Pois bem, seu Miguel Vieira. Vou logo ao assunto. Você deixa a gente, eu e o meu filho, se deitar com sua mulher e sua filha e pronto, acabou-se a dívida.
            — O senhor pegue já esse traste do seu filho e pica a mula daqui antes que eu alcance meu facão. Me dá aqui esses papeis com as contas. Eu pago isso nem que tenha que trabalhar a noite inteira. E os recebimentos o senhor faça no tabelião, porque se eu pegar um dos dois por aqui eu mato, seu filho da puta!
            — Calma lá, Miguelim. Cê tá nervoso, mas isso passa. Pensa no futuro. Pra que se matar de tanto trabalhar? Pensa bem...
            — Vai embora, traste do inferno!
            E levantou-se em direção à casa para pegar o facão. Quando voltou, os dois não estavam mais ali.


VIII


            Laranja. O alaranjado do céu da aurora já encontrou Miguelim erguendo as estacas para os pés de quiabo da horta. Ali iria passar o dia, colhendo as cenouras e os tomates verdolengos que seriam levados à tarde para o entreposto na vila. Depois aproveitaria o produto da venda para acertar com o tabelião mais uma parte da dívida que diminuía pouco a pouco. Aprendeu a entender as contas, o que tinha reduzido bastante os débitos, descontados os erros grosseiros, talvez propositais, do patrão. Desse modo, mais alguns meses e zeraria a conta.
            O tabelião, seu doutor Zenóbio Silva, tornou-se um aliado, quando soube das indecências de Dermógenes Pereira. E suportou a pressão do fazendeiro e as tentativas de suborno. Era homem respeitado e espalhou sua inimizade com Dermógenes, de modos que este não se atreveria a uma tocaia, pois todos saberiam o mandante. Mas jamais deixou de dar a metade de tudo para o dono da terra. “A César o que é de César”.
            Não havia horário de trabalho; Miguelim só parava umas poucas horas da noite para dormir. Por exemplo, o almoço comia frio, embaixo de qualquer árvore, e juntando o que produzia com os ovos, as galinhas, o queijo e a manteiga que a mulher e a filha produziam, tudo se encaminhava para que no Natal eles comessem a leitoinha assada com a felicidade dobrada por não dever nada. E já faziam planos de um segundo filho, quem sabe um homem, Miguelim como ele. Ou outra menina, Alzira, que lhe desse tanta felicidade quanto Maíra.
            Dermógenes não apareceu mais e parecia que tinha se aquietado. Também, não tinha do que reclamar. Seu sítio era o mais bem cuidado da região. Até a antiga casa de Zé Labão, sempre fechada, era de vez em quando fachinada por Jacira; estava mais bem cuidada do que quando o pai morava lá. E os lucros do sítio eram crescentes, na mesma proporção em que diminuíam as dívidas.
            Miguelim ganhou confiança e a vida feliz retornou à sua casa. Sabendo lidar melhor com os ganhos, assoalhou o quarto e pôs cerâmica na cozinha, antes de terra batida. A menina tinha jeito com planta e cuidava de um jardim de roseiras, sempre-vivas, dálias, margaridas, boca-de-leão e saudades, sempre viçoso e florido. Boa menina, devolvia com tanta beleza os mimos do pai e os conselhos da mãe. E todas as tardes ia buscar o pai na roça, via-o tomar banho no riacho e esperava sentada na cadeira mais bonita umas orações que a mãe dizia antes do jantar. Família bonita, de um pai e uma mãe que nunca ralhavam com ela. E ainda aprendia na escola, para que na velhice dos pais pudesse sustentá-los.


IX


            Vermelho. As mãos ágeis raspavam os galhos do cafeeiro dos grãozinhos maduros. Depois, na peneira, separar as folhas e a palha e juntar na saca. Mais uma. Vermelho já o céu, crepúsculo das nuvens esparsas, vermelhas. Sempre Maíra falava alguma coisa admirada daquela vermelhidão, coisas sobre Deus, sobre belezas da vida. Mas não veio, como de costume, buscar o pai para jantar e andarem abraçados, depois do banho no riacho, até a casa onde lhes esperava o jantar e os chamegos noturnos. Miguel Vieira juntou os pertences sem reparar na algazarra sonora de um bando de cardeais e foi-se brigando com a cabeça para não se preocupar. De certo não havia de ser nada, coisas da casa, assim, assim. Mas apertou os passos, antes que se apertasse o coração.
            Os bandos de pássaros buscavam pouso no vermelho da tarde quase finda, garças indo para seus charcos, maritacas barulhentas voando para as matas de galeria, tico-ticos de voos curtos se ajeitando nos arbustos. Já de longe a casa, viu, não soltava fumaça pela chaminé. Largou peneira, encerado, enxada e sacaria e correu sem pensar em direção à casa. Naquela tarde vermelha o coração pulava para a boca.
            Nenhuma luz acesa na casa. Agoniado, chamou por Jacira, chamou por Maíra. Escutou. No quarto um gemido, um choro abafado. Gritou o nome delas, parou na porta do quarto, sussurrou o nome delas. E calou-se. A mulher soluçando, travesseiro tampando o rosto, encolhida no canto mais canto da cama. Ao lado dela a menina, gemendo, agarrada no braço da mãe, vestido rasgado, cabelo desgrenhado.
            — O que foi, Jacira, o que foi? Minha filhinha, o que aconteceu?
          — A menina largou o braço da mãe e atirou-se no pescoço do pai num choro copioso, soluçado, medroso, apavorado.
            — O que aconteceu aqui, meu Deus?
            Então viu a mancha vermelha no vestido da menina e um fiozinho de sangue secando na coxa. Abraçou-se às duas, pressentindo o conforto e o consolo de que careciam. E assim ficou por minutos, ninando as duas com todo carinho que conseguia arranjar no mais fundo do peito. Devagar as acalmou, sem falas, somente passando as mãos grossas pelos cabelos delas. Por fim deitou-as na cama, ainda soluçantes baixinho, e pediu que esperassem.
            No poço, puxou dois baldes de água fresquinha e limpa que tinha o poço dele e encheu com aquela água duas bacias. Achou no guarda-roupa um lençol branquinho, que fez em pedaços e lavou as pernas da filha, primeiro, e assim, subindo, limpou com seu carinho de pai a pombinha ferida da menina. Do mesmo modo a mulher. Voltou ao poço e trouxe mais água limpa, refazendo as mesmas coisas. Depois, do guarda-roupa, tirou os vestidos que ele achava mais bonitos e vestiu suas mulheres, a sua e a filha. E com o mesmo carinho de tudo que já tinha feito, penteou-lhes os cabelos com muito jeito.
            — São bonitas as minhas meninas...
            Da gaveta da cômoda tirou dois terços, ofereceu a elas e pediu para que rezassem enquanto ele tomava banho; que se acalmassem, que nada mais iria lhes acontecer.
            Sem pressa foi para o rio e tirou toda a roupa. Já se esmaecia o crepúsculo num vermelho escuro de sangue venoso que se refletia nas águas do riacho. Minuciosamente lavou-se, como no dia do casamento, ensaboando cada parte do corpo. Depois iria aspergir-se água de cheiro. Também sem pressa voltou nu para casa, deixando no tanque de lavar a roupa suja. As mulheres sussurravam uma Salve-Rainha. No guarda-roupa escolheu a camisa branca, a calça bem passada dos dias de festa, as botas engraxadas. Penteou-se os cabelos com zelo e com carinho beijou a testa das mulheres que rezavam uma Ave-Maria. Bem mais calmas ele as sentiu, então disse que esperassem, que ele iria resolver tudo que precisava ser resolvido. E que rezassem, porque Deus limpa todas as maldades dos homens. O amor daquele Miguel Vieira acalmou de vez as duas, que foram acender uma vela junto à santinha da sala.
            Com calma, Miguel Vieira escovou os pelos de sua mula de montaria, até que os pelos escuros brilhassem com o luar que despontava. Vestiu o animal com os arreios e a sela e amarrou sua mula numa estaca do curral. Daí voltou à casa e olhou com ternura Jacira e Maíra que ainda rezavam, a menina já sonolenta, encostada no ombro da mãe. Foi ao quarto e pegou o facão, como usava fazer quando caminhava à noite, pra mor de se defender, se necessário. No rancho junto ao curral, amolou-o com esmero, parando de quando em quando para sentir o fio da lâmina no polegar. Por fim embainhou-a, subiu na mula e foi-se.
            O rapaz estava sentado num banco do alpendre da casa, quem sabe ruminando o jantar que devia ter acabado do comer. Nem viu Miguel Vieira sorrateiro se aproximando pelo seu lado esquerdo, sossegado que estava naquela refestelança. Quando viu, o facão estava no limite para descer em direção à sua garganta. Gritou “mãe!”, mas a palavra foi cortada no final, ecoando pela casa, enquanto sua cabeça rolava pra perto da porta. De dentro veio uma resposta aflita de mulher. Miguel Vieira limpou o sangue da lâmina do facão na camisa do moleque decapitado e em estertores. Assustada, a mulher chegou à sala e ele chutou a cabeça pra perto de seus pés paralisados.
            Aí foi que Miguel Vieira reconheceu Bartira naquela mãe apavorada e pôde entender todo o sofrimento, toda humilhação, toda lenta e autoritária tortura que aqueles lá tinham feito a ele e a sua família passarem. Ainda ela falou: “não faz isso”, mas ele fez. O facão desceu no pescoço junto ao ombro e ela urrou, caindo de joelhos. E um segundo golpe decepou a cabeça que ficou presa por uma pele junto ao tronco. Arrancou-lhe a saia, com que limpou uns respingos de sangue no braço e no rosto.
            — Dermógenes Pereira! Vem aqui que eu vou lhe pagar a dívida!
            Dermógenes apareceu com meia cara ensaboada de sabão de barbear, sem camisa. Nas mãos uma espingarda de caça. Encarou Miguel Vieira e armou a cartucheira. Mas, ao ver a poça de sangue em que estavam a mulher e a cabeça do filho, vacilou, bambeou as pernas, e antes que retomasse o juízo, um golpe de facão decepou-lhe a mão esquerda que levava a arma para o ombro, se posicionando para o tiro. Até tentou fugir, mas rápido Miguel Vieira golpeou-lhe a perna direita e ele caiu, vomitando, mijando, se cagando todo. A queda da arma disparou o tiro que furou o teto e uma empregada veio correndo. Ao ver a cena, ficou paralisada.
            — Dá o fora daqui, infeliz, antes que eu te mate.
            A mulher sumiu-se gritando por Nossa Senhora e ele chegou-se devagar no homem gemente e desesperado que tentava se arrastar.
            — Volta aqui, filho da puta!
            — Me mata de vez, corno do inferno!
            Miguel Vieira arrastou o traste junto ao corpo da mulher.
            — Lambe, desgraçado! Lambe o sangue dessa cadela!
            Forçou a cabeça do infeliz que se lambuzou de sangue, sabão de barba e um vômito de bílis.
            — Me mata, seu lazarento!
            — Não vou te matar assim, não. Vou te deixar sangrar pra que vejas tua família, filho da puta do inferno!
            E decepou-lhe os dois pés e a mão que restava.


X


            Antes de partir, Miguel Vieira passou para se despedir de Zenóbio Silva, relatar o acontecido e anunciar o fim das dívidas. Esta estória ainda se conta na agora chamada Vila das Iras. Quanto a Miguel Vieira e a família, ninguém sabe para onde foram. E nem, que se saiba, alguém foi atrás.


fim
             

3 comentários :

  1. Uma história muito bem contada, envolvente.
    “cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
    Ótima!
    bel

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  2. Se eu soubesse que era tão bom, tinha lido antes!
    E-x-c-e-l-e-n-t-e!!

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  3. Uma historia, envolvente com uma trama muito bem elaborada e a linguagem fascinante. Parabéns.

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