ÚLTIMA CARTA

ÚLTIMA CARTA


            Minha amada Lúcia Helena

           Esta longa noite está quase no fim. Mais uma que passo em claro, pensando, pensando... Daqui a pouco um sabiá e uns bem-te-vis começarão a cantar, uns galos trocarão seus cantos de galo, sons da natureza que logo se perderão nos barulhos dos carros, dos ônibus, da cidade desperta. Eu farei a barba, tomarei um banho, colocarei roupa limpa e irei até a padaria da esquina tomar o café da manhã. Depois, antes de voltar para apanhar o carro na garagem e ir para o escritório, colocarei esta carta na caixa de correio, endereçada a você. Passarei o dia com muito sono e evitarei falar com você, mas estarei atento e disponível, como estarei amanhã e depois de amanhã e depois e depois...
            Agora que você tem esta carta nas mãos deve estar se perguntando por que razão eu a escreveria. Vejo seus olhos curiosos correndo rápidos pelas linhas, querendo chegar logo ao essencial do que tenho a lhe dizer. Ah seus olhos... Como deixar de pensar neles... Como não notar-lhes as marcas das lágrimas destes últimos dias... Como ignorar a alma que eles expressam tão bem.
            Na verdade, minha amada, esta é a última de uma porção de cartas que escrevi para você sem intenção de lhe enviar. Você não as lerá. Com certeza eu as queimarei assim que terminar esta. Pegarei na cozinha uma pequena bacia de alumínio, acenderei meu isqueiro, queimarei a primeira página e assim uma a uma até a última das mais de vinte páginas que escrevi. É que elas não interessam mais, são passado, e por mais que o passado doa, eu preciso me livrar dele. Aprendi com você o quanto é difícil livrar-se da dor; — Alexandre precisava ser morto em você, agora entendo.
            Curioso o modo como estou me sentindo. A minha caneta predileta desliza ágil pelo papel e não me preocupa a qualidade da minha caligrafia nem se estou escolhendo as palavras certas. Talvez o hábito de escrever as cartas anteriores, sem destinatário, tenha se entranhado em mim e me deu essa liberdade de escrever despreocupado. Você sabe do meu rigor estético com as coisas; você sabe do meu rigor. Também isso se relativiza agora. Olho a sala do apartamento e sinto uma necessidade muito grande de mudá-la. Porque ela está certa demais, é produto de outro olhar que não é mais meu. Acendo mais um cigarro e fico pensando que em pouco tempo o sol vai surgir. E o sol é a luz; e a luz é Lúcia. Finalmente você sairá das trevas e inundará o mundo com sua vida. Deveria existir um mar nesta cidade e o sol nasceria de modo mais condizente com você, se brotasse imenso de dentro do mar. Como estou sentindo falta de olhar um horizonte! E como seria magnífico vê-la correndo na areia da praia e entrando devagar na água do mar até que uma onda arrebentasse em sua cintura e lhe provocasse um sorriso satisfeito de quem enfim se encontra com sua natureza de mulher! Deveria existir um mar nesta cidade...
            Ontem, enquanto almoçava, eu olhava sem olhar, através do vidro, a rua em frente ao restaurante. Do outro lado da rua, vi que duas mulheres escondiam-se atrás de um orelhão. Uma delas falava ao telefone, a outra deveria escutar a metade da conversa. E uma menininha de uns três anos, que estava com elas, decidiu atravessar a rua, curiosa sei lá com o quê. Um carro freou forte e não atropelou a menina assustada. Então a que deveria ser a mãe, uma mulher jovem, largou o telefone para a outra e correu acudir a menina paralisada, sem dar atenção para os insultos do motorista. Nervosa, puxou a menina para a calçada e bateu, bateu e bateu muito nela, no bracinho, no ombrinho, cabecinha. Fiquei revoltado, comida enroscada na boca, com vontade de consolar a menina e advertir a injusta mãe, que voltou ao telefone e fez a menina ficar agarrada ao ferro que sustenta o orelhão, chorando sem consolo. Então me lembrei de você. Coloquei o garfo e a faca sobre o prato, sem fome.
            Também o meu quarto precisa ser mudado, não só porque você não gostou dele; é que não gosto mais da minha casa como está. Mas não são razões meramente estéticas, Lúcia Helena. Não sei como lhe explicar isso, porque não se trata somente de mudar a casa, do mesmo modo como ontem comprei uma camisa nova, por necessidade de mudar meu guarda-roupa, por não me identificar mais com as velhas roupas. Por certo há outro Alvanel sendo gestado dentro de mim, mais emotivo, mais forte, mais determinado, sei lá, acho que mais humano. Minhas incompletudes começam a me incomodar muito. Nunca tinha amado ninguém como amo você. Na verdade eu nunca tinha amado.
            Ontem, depois de comprar a camisa, fui procurar Carla. Conversei horas com ela e pela primeira vez a amei. Mas não transamos, nem nos tocamos, apenas conversamos. Pedi que me perdoasse por nunca tê-la amado de verdade e que só agora, com você, eu sabia o que era isso. E falei muito de você para ela, sem citar seu nome, sem nenhum detalhe. Depois fiquei pensando na curiosa ironia dessa conversa. Quando me aproximei de você, queria uma amiga com quem confidenciasse meus problemas com a Carla. Agora é Carla a confidente, a amiga. Você — você é a mulher que eu amo.
            Será que é possível? Será que este Alvanel emergente atrairá você? Será que minha capacidade de amar será suficientemente grande para aceitá-la no dia-a-dia como a aceito agora? Será que você terá paciência para esperar que eu reforme a casa, mude o guarda-roupa, pague minhas dívidas e me prepare para recebê-la? Será que essa força que mostrou em afastar-se de Alexandre vai perdurar? Será tudo isso possível? Será que este seu novo olhar de amor pelo mundo e pela vida pousará sobre mim e se aquietará satisfeito? Será que lhe dará prazer encher meu corpo de carinho, minha casa de carinho, minha vida de carinho? Será que suas mãos que afastam as minhas inverterão a tensão e me procurarão? Será que você vê, neste mesmo Alvanel, o construtor dos seus sonhos, depois de tudo que aconteceu? Será que me perdoa por não tê-la pegado no colo e consolado seu susto quando o carro quase a atropelou? Será você a percorrer solta e à vontade minha futura nova casa? Será que o vaso de violetas que lhe darei sobreviverá aos nossos cuidados? Será que você é capaz de respeitar-me os limites, de deixá-los se ampliarem com a paciência que é necessária? Será que você confia que os prédios e casas que irei construir terão sempre a marca do meu amor por você? Poderei ser o homem da sua vida? Saberei acompanhar seu crescimento? Saberemos vencer as distâncias que ainda nos separam?
            Tantas e tantas perguntas sem respostas imediatas. Como me receberá esta Lúcia Helena que renasce ainda mais bonita? Só sei de uma coisa: desta vez é preciso correspondência. Nada de amor egoísta, doentio, ciumento, ansioso, de homem pequeno que fui.
            Houve um momento, tão duramente contado na penúltima carta que lhe escrevi (e que será queimada), em que lhe disse ao telefone que você tinha me perdido. Só não contava que você me dissesse que, no momento em que mais precisava do meu amor, eu a abandonava. Não esperava nenhum gesto de humildade ou de reconhecimento seu. Como aconteceu desde o começo com relação a você, me vi desafiado a amá-la ainda mais, a rever mais fundo meus princípios de vida, e encontrar no dentro de mim uma porta qualquer fechada, que eu abrisse para você entrar. Até que ponto você quer que eu a ame, Lúcia Helena? Já não basta aceitar como minhas as sombras do seu passado? E a sua imensa capacidade de amar? Agora sou eu que a quero, do tamanho que você me exigiu, ainda que nos ofereçamos o tempo necessário para a aprendizagem — que este amor surge de dentro para fora, na integridade do nosso ser.
            Mas não quero voltar atrás — o homem cético e amargo que desconfiava que nunca seria aceito, porque não se aceitava. Eu quero poder andar com você por praias desertas e riachos de águas claras. E quero senti-la ao meu lado no meio das multidões. Também quero suas saudades na minha ausência e sua presença em cada momento da minha vida. Não temo mais suas mágoas e nem as minhas. Só não quero que me magoe por não me aceitar assim mesmo como eu sou, não um Arquiteto, mas um Alvanel. Quero que me queira, como eu quero um sol nascendo no mar, na manhã. Você me quer, Lúcia Helena, você me quer? Porque, se não me quiser, meu futuro será tão nebuloso como é hoje o meu passado e muito, muito da minha vida perderá o sentido. Você me quer? Você me ama?
            Here comes the Sun! Você não faz ideia do impacto dessa música dos Beatles quando apareceu. Pela janela iluminada da sala olhei o dia, e apaguei a luz. Está chegando a hora de sair daqui de dentro e ganhar o mundo. Sem saudades, ponho os Beatles na memória. Só os sons harmônicos das vozes perfeitas, da guitarra do George Harrison, e sinto que trago do passado emoções que devo conservar, tudo que enfim deve fazer parte de mim e converge para este momento da minha vida em que me encontro, neste limiar do que virá. Nem sempre as coisas são simples como Carla costuma fazer e imaginar. Há pessoas que têm uma dimensão de vida muito grande, como você, e que por isso têm grandes sofrimentos. Mas há também as coisas simples ou aquelas que conseguimos simplificar com o sofrimento. Here comes the Sun! E ficarei tentado a comer uma empadinha na padaria e a palitar os dentes depois... Também gostarei do gosto do cafezinho expresso passado novo e da primeira tragada do cigarro em seguida. Here comes the Sun! Precisarei apagar com a borracha o traço imperfeito do projeto que estou desenhando e terei que parar várias vezes para atender ao telefone. E pode ser que você queira caminhar comigo nesta vida e então terei que ensiná-la a cozinhar algumas coisas e a colocar seus papeis em ordem; e tentarei corrigir o seu beijo, para que me dê mais prazer, para que me permita sentir na mesma intensidade seus lábios e sua língua; e irei com você comprar sapatos, palpitarei nas peças íntimas, trocaremos ideias sobre os filmes, sobre os livros, andaremos de mãos dadas, faremos fofocas, lavaremos as verduras das saladas, comprarei os sabonetes e pastas de dentes importadas, flores... Here comes the Sun! A vida me aguarda e nela você está. Assim eu quero que seja. Você quer?

                                                                                  Com amor


                                                                                              Alvanel.

Um comentário :

  1. Mas qual é a mulher amada, a verdadeira ou a idealizada?
    Muito bom, gostei da insegurança dele.

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