SEXTA CARTA

SEXTA CARTA


            Incrível como uma mulher pode fragilizar um homem e recompô-lo novamente! Saber que você tinha ido visitar uma amiga afastou de mim os temores que eu fingia a mim mesmo não ter. E quando você me disse que eu parecia ter adivinhado que queria falar comigo ao ligar para você, as partes desconjuntadas da minha alma se ligaram e vi que não sou só eu que penso em você. Sem dúvida você pensa em mim. Isso nunca deixou de ser óbvio, só eu que não percebia. Por que a gente acha que nossa amizade é maior que a do amigo? Por que a gente sempre pensa que a pessoa amiga penetra mais em nós do que a gente nela?
            Há quanto tempo eu não trabalhava com tanto prazer! Fez-me bem discutir com você o novo projeto, ouvir suas sugestões para soluções de espaço e perceber sua admiração por algumas boas sacadas que tive na disposição dos componentes estruturais. É que, você sabe, visualizar um prédio antes dele existir sempre me fascinou; é a parte que mais gosto do nosso trabalho. E depois ir imaginando os detalhes, a possível disposição dos móveis, as pessoas circulando e ocupando os espaços, enfim, o projeto ganhando vida. Mas o que me agradava mais era o fato de estarmos juntos elaborando o projeto, você com suas sugestões sensíveis e eu podendo lhe mostrar a competência que sei que tenho no meu trabalho. Você me disse que sempre me admirou por isso e que aprendeu muito comigo. Quem diria, eu lhe ensinando alguma coisa... Pois é, comumente achamos que somos inferiores às pessoas que admiramos. Pelo menos é assim comigo. Como é difícil me sentir igual!... Ou me acho superior, como com a Carla, ou inferior, como com você. Será que um dia me sentirei um igual com você? E como será quando isso acontecer?...
            Houve aquele momento, aquele breve instante em que você permitiu que eu segurasse a sua mão por poucos, mas infindáveis segundos. Embora não planejasse esse gesto, percebi que o preparava há tempos, sem que me desse conta. Nem tanto o gesto em si; o que me perturbou foi essa percepção, que não sei se foi um mero ato oportunista e machista que os homens em geral estão sempre alertas a cometer, ou se tem um significado mais fundo, a traduzir um desejo inconsciente de me aproximar de você de uma forma mais completa. Seja o que for, não acho bom, e de novo me atemorizo, porque não quero perder este sentimento de amizade que começa a se consolidar.

            O telefone está tocando. Deve ser você. Até já, então.

Um comentário :