SÉTIMA CARTA

SÉTIMA CARTA


            Amada

            Já são 23 dias que pego inutilmente esta caneta tentando concatenar minhas ideias para lhe escrever. Nem sei que compulsão idiota é esta de registrar em cartas sem destinatário meus sentimentos por você. E você jamais saberá destas cartas, isso eu sei. Então pra quê? Acho que tenho um medo muito grande de pirar. Desde o início acho que foi isso. Porque sentia que alguma coisa muito forte me prendia ao seu olhar naquela tarde em que pela primeira vez vi sua alma num olhar triste perdido num infinito além das pontas dos sapatos — suas pernas estendidas para frente, você sentada na cadeira na sala de reuniões. Perco meu senso tentando atinar com o que você quer de mim e só percebo que este sentimento meu cresce e cresce a cada dia e eu a desejo cada vez mais. E cada vez mais me desconheço, buscando sentido para minha vida sem você, como se fôssemos uma unidade indivisível que estivesse dividida. Acho que estou enlouquecendo e é bom finalmente poder escrever o que sinto, sabendo que ninguém vai ler, despreocupado com a caligrafia ou com qualquer recurso de estilo; escrevo para mim mesmo, como se eu fosse outro eu, aquele que escreve e aquele que lê estes textos de duração tão curta, de atualidade mais efêmera que notícia de jornal; dois eus em transformação acelerada, amando, amando, amando como nunca imaginei que eu ou qualquer outra pessoa pudesse amar, mergulhado no mistério desse sofrimento, dessa perda irreparável desse Alexandre, que talvez a tenha viciado em drogas. Será que é isso? O que ele lhe fez que lhe domina a alma desse jeito, que a fez chorar no meu ombro, que a empurra tão forte para mim, apesar de suas mãos me afastarem, de seu corpo não desejar o meu. O que você quer de mim? Você sabe da dimensão do meu amor por você. Por que não devolve os sentidos que eu via nos prédios que construía, sempre tão sólidos e bonitos? Para que servem as casas, os prédios, a cidade, se só o que vejo são paredes a me separarem de você. O que você e esse seu Alexandre querem de mim? Que eu absorva o sem sentido da vida de vocês? O quê? O que você quer de mim? Por que tem que me contar esse sofrimento aos pouquinhos? Haverá outro em sua vida, pior que Alexandre? E esse, o que foi que lhe fez? Por que eu não posso saber tudo de você? Eu só queria uma amiga, uma confidente que me fizesse entender por que não fui feliz com a Carla, com minha ex-mulher, com todas as ex-mulheres. Também queria compreender sua alma de mulher infeliz e juntos, quem sabe, nos preparássemos, eu para alguém que viria a me amar e você para seu alguém, sei lá quem. Não, não era para ser você. Você nem tinha um cabelo que eu gostasse, nem umas costas que eu gostasse, só tinha uma profundidade sem corpo no olhar. E por que você me é inteira necessária agora? Por que, se havia esse mistério e Alexandre entre nós, você me deixa com esta solidão imensa, do tamanho da cidade e do mundo? O que eu faço com estas cartas, minha amada? O que eu faço da minha vida? O que eu faço com tanto amor?


                                                                                              A.

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