QUINTA CARTA

QUINTA CARTA


            Minha querida amiga

            Já faz uma semana que não conversamos, a não ser o trivial do trabalho, coisas das reuniões e das pessoas. Parece que você sentiu o meu desconforto com suas revelações e tem-me evitado. Também eu, reconheço. Só o que não reconheço mais é a mim mesmo. Alguma coisa se quebrou dentro de mim e não sei o que é. E faz mais de uma semana que não vejo a Carla e três dias que ela parou de me ligar. Para isso, foi preciso que eu dissesse a ela com todas as letras que não queria mais vê-la, que tinha acabado tudo, que era melhor assim... essas coisas que se diz em fim de relacionamento. Estou com um problema, minha amiga, um grande problema; e o pior é que nem sei o que é. É só esta angústia que não passa, que não passa... Procurei me afastar de você porque achei que você era a causa. Porque me contaminei de seu sofrimento como se fosse meu. Então odiei esse Alexandre que não assumiu esta mulher fantástica que você é. Mas não quero sofrer. Amizade não pode ser troca de dores, contágio de desenganos amorosos.
            De nada adiantou. Cada instante longe de você aumenta a minha culpa por fugir ao peso das respostas que não tenho para as perguntas que surdamente você embutiu nos seus relatos amargurados. Hoje, saindo do escritório, propositalmente adiando para além do expediente o término de um projeto, só para poder recusar seu convite para jantar, andei a esmo pelas ruas, até dar num shopping, procurando precisar de alguma coisa para comprar, como se isso pudesse me dar sentido para a vida. Acabei por comprar um par de chinelos — sei lá se inconscientemente eu queria me lembrar de que preciso ter os pés no chão... Quando cheguei em casa, rodei em torno do telefone por horas, tentando me decidir a ligar para você. (Agora sei seu telefone de cor). Finalmente liguei. Já era quase meia-noite.
            Mas você não atendeu. Esperei o telefone chamar doze vezes, respiração presa. Nada. Onde você estava? Teria ido se encontrar com aquele Alexandre? Será possível que tenha coragem, depois do que ele lhe fez? Claro que teria coragem! Esta é uma qualidade que não lhe falta nem um pouquinho. Talvez isso me assuste tanto em você. Essa determinação com que vai até o fim das coisas. Amanhã vou conversar com você, nem que tenha que sequestrá-la. Preciso lhe falar do que acontece comigo.
            Meia-noite e meia tocou o interfone, enquanto eu tentava prestar atenção em um programa de entrevistas. Era a Carla. Melhor deixar que subisse. Veio matar saudades, como disse, porque só eu lhe dava os esquisitos prazeres de que tanto gosta. Na verdade me fez bem. Estou meio carente e por duas horas me esqueci de você. Amanhã falo com você de qualquer maneira. Hoje estou com sono.


                                                                                                          A.

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