QUARTA CARTA

QUARTA CARTA


            Minha querida amiga

            Jamais pensei que iria sentir ansiedade por este encontro. Curiosos os caminhos da amizade. E você não parecia nada ansiosa, talvez porque tenha escolhido o bar, que sem dúvidas é mais aconchegante do que aquele que escolhi, apesar do chope horroroso. Mas não tem importância, a cerveja estava boa. Fui para lá determinado a controlar minha ansiedade e ouvi-la, a enfrentar seu silêncio se necessário, sem forçar a barra. Fora os muitos cigarros que fumei, acho que iludi bem você com minha aparente tranquilidade.
            Não pude deixar de notar seus lábios discretamente pintados e seu vestido bonito de estampas em tons pasteis. É, você me pareceu bonita e é cada vez mais agradável olhar para você. Só não esperava que você se abrisse tanto e tão depressa e isso me deixou confuso. Sou um homem experiente no relacionamento com mulheres, mas pela primeira vez senti o outro lado, o seu lado, e soube, então, que o pressentimento que tive, na primeira vez que vi seu olhar perdido, era verdadeiro. Ainda bem que o garçom me salvou quando eu ia lhe dizer da minha perplexidade e total incompetência para ajudá-la nesse caso tão triste. Só o que tenho certeza é que precisarei crescer muito interiormente para alcançar respostas às perguntas embutidas no seu sofrimento. Isto é tão novo para mim que me mobilizou a mente insone e o dia inteiro hoje. Que espécie de mulher é você, que tem esse poder? Na Carla nunca consegui pensar além de dez minutos. Só o que dura mais são as transas, apesar (ou por causa) das estranhas preferências sexuais dela, e as brigas cada vez mais constantes. Sinceramente, querida amiga, estou com um pouco de medo de você. Parece que você pede de mim uma amizade numa dimensão que ainda não consigo alcançar.
            Por isso hoje me deu muita vontade de recuar, transformar esta amizade nas conversas triviais e corriqueiras que tínhamos sobre o trabalho. Até que nos tornássemos novamente quase estranhos e eu não prestasse mais atenção a esses seus olhares vindos do fundo da alma. Mas tem um lado meu muito e muito interessado em ver em que isso vai dar, e quer saber mais de você. Você percebe em quantos sentimentos novos você me mete? Vou da ansiedade ao medo, da curiosidade à repulsa, tudo num só dia. E é como se enfrentasse uma briga interior, um lado meu mais sensato exigindo que me afaste de você, que eu já tenho problemas demais, e outro, extremamente curioso, também exigindo que vá fundo e me posicione frente a esse canalha do Alexandre, que não conheço e nem quero conhecer, que é problema seu; se vire com ele. Não sei não quem vai ganhar essa briga...

                                                           Um abraço e um beijo

                                                                                              A.

2 comentários :