OITAVA CARTA

OITAVA CARTA


            Minha amada

            Você viu nesta manhã a fachada que projetei para aquela casa? O cliente só faltou ajoelhar-se aos meus pés e disse que era impossível não ser feliz numa casa como aquela. Mal sabe ele que eu simplesmente parti das linhas do seu corpo, de sua harmonia física, para desenhar. Será uma casa única, para pessoas viverem felizes, uma criação do melhor de minha memória de você. Ainda sinto o cheiro perfumado do seu corpo nas minhas narinas e seu gosto de mel ligeiramente salgado em minha língua. Por que não posso mais ter seu corpo?... Há dias que você me evita, mas não esconde a necessidade de que eu a espere. Ainda bem que o médico receitou-me umas pílulas que controlam minha ansiedade. Avizinha-se o momento da decisão e não há nada mais que eu possa fazer senão esperar. Agora estou mais calmo e procuro confiar em você. Definitivamente eu a amo e preparo meu corpo e meu espírito para você. Você saberá fazer a escolha certa, confio em você. Se não fizer, sofrerá muito, eu sei. Porque estive dentro de você e deverei nascer de novo Alvanel, meu nome, meu ser que busca a luz do seu. Você tateou as trevas de Alexandre e agora compreendo sua dor. E você lhe dirá que vá embora, que finalmente me encontrou e eu sou o amor, o que se dá a você sem querer saber dos seus descaminhos, porque penetrei fundo em você e amei essa mulher que transcende as circunstâncias do sofrimento. Alexandre é o infeliz, o que a perdeu sem possibilidade de volta, o que a desrespeitou, o assassino potencial, o que destruiu os sonhos e lhe ofereceu a lama à beira de um riacho de águas límpidas. Agora está chegando a hora do encontro definitivo de vocês dois e a ele só resta a procura de outra mulher que lhe resgate a possibilidade de amar.
            Somente um ato seu pode me afastar de você. No momento da escolha definitiva você não pode mostrar-lhe a cicatriz do tiro, tão bem disfarçada em seu ventre, num último e desesperado ato de desamor. Por favor, deixe-o ir sem mágoas e sem rancores. Amor e desamor sempre estiveram entre vocês dois misturados. Pelo amor de Deus lhe aceite o arrependimento e o liberte da culpa. Se você não acreditasse nisso, o teria entregado à polícia tempos atrás. Ele sabe que é fraco, que errou e que a perdeu. Mas ele é a morte que parte para sempre de sua vida. Por isso deixe-o expiá-la, como seu último e verdadeiro ato de amor a ele. Não se sinta tentada a cometer o gesto insano que o prende a você para sempre pela culpa. Porque amor, minha amada, é o que lhe ofereço, esculpido do fundo dos infernos da minha loucura e dos desertos do seu sofrimento. Acredite, foi muito duro, para mim, aceitar esse Alexandre tão infeliz, aceitar o seu amor por ele, apesar de ele tentar matá-la, aceitar que você pudesse ficar em dúvida entre o amor desse homem e o meu, eu, que lhe ofereci rosas e brinquedos de pelúcia. Tive que amá-lo também, compreender seu despreparo de homem, muito maior que o meu, porque o amor que você exige é de uma grandeza quase insuportável. Agora estou voltando recuperado da clínica, refeito nos pilares que sustentam o meu ser. Mas não o acusei nem o julguei, não o denunciarei, como pensei em fazê-lo, para ver se a livrava desse peso. Ele tem uma chance nova que só você pode lhe dar. Para isso, converse com ele e o estimule a ir. Bem sei que você sofrerá de novo a dor da perda, a dor da bala que matou para sempre sua inocência infantil. Mas não lhe lembre do passado, ainda que disfarçado em ato amoroso; deixe-o ir. Só pense no futuro. Pense em mim, no amor construído por este Alvanel, sem disputas, pura troca de seres que renascem um para o outro e nada mais, sólidos como as casas e prédios que projetaremos e construiremos juntos, com esse respeito e admiração que nos dedicamos. Calma, meu amor, calma. Eu não a deixarei nem a agredirei, confia em mim.
            Mas se você falhar neste momento, se sucumbir ao seu tão contido desejo de vingança, não sei o que vai ser de mim. Já fui longe demais com você nestes poucos meses de lhe aceitar. Rompi barreiras que me impediam de amar, porque você, com sua exigência surda, com seu peso de destino, me exigia mais e mais, sempre me negando, exigindo e negando, como se meu amor fosse sempre insuficiente, até que eu pensasse que estava louco e me internasse na clínica de repouso. Finalmente saí de lá com a certeza de que este meu sentimento é mais lúcido do que todas as doidas e sofridas circunstâncias de sua vida e da minha. Não falhe, faça o que tem que ser feito, porque, se ceder, você será pior que Alexandre e se deixará marcar pela morte. E então não poderei aceitá-la, não depois de que, em completo respeito ao seu sofrer, aceitei Alexandre com seu desatino de homem fraco.
            Não quero mais a paixão inconsequente daquela transa solitária. Ainda guardo seus cheiros, a suave textura da sua pele e a beleza amada do seu corpo como as relíquias mais queridas da minha alma. Sim, poderemos ter o resto de nossas vidas desta calma relação que se completará muito além de desejos e orgasmos, de toques e beijos, de suspiros e olhares. Esta é a sua decisão: o passado ou o futuro, a obsessão ou a harmonia, a morte ou o amor. Porque ódio, minha amada, é morte, e, se você falhar, escolherá a morte. Não posso ser conivente com isso; seria contrariar meu próprio amor, seria negá-la.
            Neste momento você deve estar se encontrando com ele. Não o mate. Não me mate. Não se mate.
                                               Com todo meu imenso amor

                                                                                              A.

2 comentários :

  1. É uma carta grandiosa, de amor grandioso, e mais não sei...

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  2. Que virada!! Atropela o leitor, quase não dá tempo de respirar...verdadeiro.

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