NONA CARTA

NONA CARTA


            Lúcia Helena

            Perdoe-me se fui duro ao telefone. É que eu precisava ser. Tinha que fazê-la parar. Porque você precisava ouvir com toda clareza alguém lhe dizendo da burrice que fez. Ainda que Alexandre fosse cirurgião, não havia remédio que pudesse curar o estrago que você lhe fez na alma. Era preciso que você compreendesse isso e tentasse consertar o erro. Mas eu a entendo, infelizmente eu a entendo. É da condição humana. E então você, a inquisidora, a que naqueles momentos se supôs acima do bem e do mal. Você e seu senso de justiça perverso, torturando, com pernas abertas, boca ávida, entrega total desse seu corpo lindo, o indefeso Alexandre. Por que você não o deixou ir? Não, queria possuí-lo até o fim, como o inquisidor, que antes de condenar à fogueira o infiel, o torturasse na dama de ferro, dizendo ladainhas de amor a Deus. Alguém — e só eu poderia ser — precisava lhe mostrar sua perda de razão.
            Você quis matá-lo no que o infeliz tinha de mais significativo, no arrependimento sincero de tê-la um dia magoado: sua esperança. Condenação final: “sua culpa, canalha, você atirou no meu ventre e não tem perdão”. Você não perdoou, encheu-se de tesão e ódio, desse amor sem compaixão, e sedutora barata, de pernas abertas para ele o matou; matou a ele e a quem mais, além de mim?
            Sim, eu precisava deixar claro que me perdeu, Lúcia Helena. Precisava mostrar-lhe todas as perdas que lhe acarretam suas escolhas de ódio. Tanto sofrimento para nada, ir até os infernos e voltar com ele na alma em vez de merecer a vida.
            Desculpe-me se fui duro dizendo-lhe essas coisas que você não queria ouvir. Talvez me quisesse cúmplice de seu absurdo justiciamento do infeliz. Mas não posso, como lhe disse, ser conivente com isso. E você não merece o meu amor. Fez sua escolha e falhou. Sem piedade afastou-me de você, a mesma piedade que me pedia como consolo.
            Não quero mais você, a mulher que me exigiu tanto e me negou pela última vez. Como poderei indicá-la para construir uma casa para uma família morar? Como poderei confiar um filho meu a uma mulher ferida assim tão fundo? Como acreditar que você possa me amar com a verdade que a amei?
            Meu peito está vazio. Porque você subtraiu de mim todo amor tão sofridamente construído, minha descoberta de mim como o homem que queria integralmente essa mulher que eu adivinhei, vi, e esperava que se fizesse minha. Só que o tiro de Alexandre matou a menina inocente, mas não atingiu a criança cruel. E esta prevaleceu na Lúcia Helena carregada de rancor, inferior. Meu peito está vazio da mulher que amei até à loucura, como vazio está o mundo nesta madrugada, triste por meu amor abortado.
            Em nenhum momento você pensou em mim? Eu fui o quê, para você? O confidente oportuno que você usou para elaborar sua estratégia de vingança? Quem é você para julgar que a apaixonada noiva do Alexandre não era mulher para ele? Eis que a inquisidora, travestida de mulher única, onipotente, decide ser a juíza de sua condenação, a curadora de seus próprios valores inaceitáveis, a persona mal disfarçada de mensageira do Ades. E eu? E meu sofrimento por esperá-la, por confiar em você, por me entregar? Onde você escondeu aquela mulher que eu amei tanto e tanto? E quem é esta que me pede compreensão? Compreender o quê? E eu? Quem me compreenderá? Quem me aceitará? Adeus, Lúcia Helena. Cuidarei sim de você, como se cuida de um doente quase estéril de vida. Mas amá-la, não. Só Deus, se é que Ele existe, teria tanto amor assim.


                                                                                  Alvanel.

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