"UM DIA, UM GATO"

“UM DIA, UM GATO”


            Ainda me lembro de algumas cenas do filme tcheco que vi em meados dos anos 60. Principalmente ficaram na memória o encantamento das cores mágicas e o título bonito. Anos depois, pensando em temas para crônicas dos alunos, resgatei o título que até hoje costumo oferecer como opção entre outras tantas propostas de redação que eu mesmo invento. E o gato, que no filme o é latu sensu, vira rapaz bonito na crônica de algumas alunas; nessa ambiguidade inerente aos felinos, convenhamos que até fica bem.
            Só que nunca me ocorreu que eu pudesse escrever uma crônica com o tema; é que as imagens do filme — com o gato revelando em cores as personalidades das pessoas — eram muito fortes e bloqueavam qualquer possibilidade de uma situação original. Mas um dia, o Duba. O Duba é original, se não fosse por nada, pelo rabo ao menos. Ninguém sabe de onde ele veio. Simplesmente apareceu e miou. E um miado mais para o esgarçado do que para o rouco, feio, antipático, com sutis toques de repugnância. Não provocou dó, piedade, solidariedade, ternura ou qualquer sentimento que se associe a filhotes, por exemplo. Mesmo porque o Duba não é um filhote. E não chegou doente, magro, sujo: parecia um gato que abandonou seu dono ou dona ou — o que é mais provável — que tenha sido expulso de alguma casa.
            Chegou e ficou por razões até hoje não muito claras. Por certo há apenas o fato de que meu filho, profundamente mergulhado na mais típica adolescência, o adotou. Não cometeria a maldade de afirmar que o fez por identificação. Não! Ou nem tanto... Nem exageraria dizendo que o acolheu por sentimentos humanitários, que, como já expliquei, o Duba não desperta, nem mesmo num adolescente, ainda mais se esse adolescente for meu filho. O fato é que o gato ficou.
            Chama-se Duba em homenagem a Asdrúbal, um ex-gato do vizinho, ou melhor, um gato de um ex-vizinho, que tinha esse nome e este apelido: Duba. Aquele Duba sim, um gato normal, simpático, com rabo normal, muito diferente deste que se instalou em minha casa. Talvez não seja bem “homenagem”, mas falta de imaginação, já que Duba, este que meu filho adotou não o ex, não inspira nome algum. Não é que ele seja propriamente feio, o que poderia ser inspirador, mas também não é bonito. É que... não sei... ele tem aquele pedaço faltando no rabo, uns três dedos de tamanho talvez... Não que fique muito estranho ou asqueroso, não é isso... Ele é meio gordo, não muito, meio... Sei lá!
            É daqueles gatos rajados de amarelo e branco, desse amarelo meio desbotado de gatos amarelos desbotados. Sempre achei bonitos os gatos amarelos, mesmo os desbotados. Mas o Duba... Lembra o Garfield. É, lembra o Garfield!... Claro que não tem a graça do Garfield, o ar blasé do Garfield. Digamos que tem uns longes do Garfield. Muito longe, melhor nem comparar... Sua origem só pode ser distante daqui onde moro, na zona oeste. Talvez São Miguel Paulista, Carapicuíba, Vila Talarico ou São Caetano do Sul, pois tenho certeza de que se fosse mais perto o Duba voltava. Um gato gordo como ele não iria largar uma casa como a que tinha. Com certeza foi deixado por aqui, provavelmente numa soturna madrugada, numa calada da noite, lugar-comum que desapareceu completamente desde que ele chegou. Hoje o que temos são as gatadas das noites, com aqueles miados horrorosos que talvez só os veterinários sexólogos possam justificar. Se é que podem...
            Mas há de se convir que até este ponto, nada de mais. É um caso comum de um gato numa casa, que foi adotado. Em verdade, todos nós sabemos, os gatos é que nos adotam; e depois, como um modo de garantir a comida que lhe damos, ele nos seduz com aquelas esfregadas na perna e com aquele ronronar típico dos gatos. No mais, dorme, só acordando quando quer comer novamente ou sair para a boemia, também típica deles. Nossa casa é seu território, e o Duba, a não ser que eu o leve para Vila Talarico ou para Cangaíba, por exemplo, decidiu que a minha é a sua casa. Aliás, o meu poder de decisão neste caso é nulo. Descobri isso quando me vi, pela primeira vez na vida, procurando a seção de alimentos para gatos em um supermercado — uma grande variedade, tendo em comum, além de embalagens estampando gatos simpaticíssimos, em nada parecidos com o Duba, os preços escorchantes. Em todo caso, mais baratos que o bife de contrafilé que vi meu filho furtar, qual um gato, da geladeira.
            — O coitado não pode morrer de fome! — Argumentou.
            — Antes ele do que eu! — Retruquei.
            — Então compra comida pra ele...
            — Eu? Compra você! O gato é seu, não é?
            — Com que dinheiro?!
            — O da sua mesada, ora.
            — Então você quer matar nós dois de fome! A minha mesada eu gasto em lanche...
         Sempre digo a meus alunos que não devem usar o recurso do diálogo com conversas fúteis, sem apelo, essas coisas... E eis-me caindo na falha... Até porque o final já se sabe: eu comprei a comida do gato. Cabe a pergunta: por que eu? Por que não minha esposa, que é quem vai mais ao supermercado? Não consigo conter uma sonora gargalhada mental. Só quem não conhece a minha esposa poderia fazer uma pergunta dessas. E aqui está o maior problema com o gato. Ela detesta gatos; detesta porque tem medo. E não é um medo pequeno, racionalizável. É um medo pânico, um horror formidável, arcaico, ancestral, desses traumaticamente adquiridos na infância. Assim como há quem tenha medo de ratos, de baratas, ou aracnofobia, ela tem gatofobia. Pedir para que ela aceite um gato em casa seria semelhante a pedir para alguém que tenha medo de avião e de altura que salte de paraquedas. Só mesmo se apelássemos para um suposto masoquismo, que ela não tem.       
            Dizem que nós, do signo de Libra, temos habilidades para equilibrar situações. Se isso é verdade, não sei. Mas eu me vi involuntariamente na situação chata de apartador de briga, correndo o risco de levar sopapo de qualquer um dos lados. Temia que a situação se encaminhasse para radicalizações do tipo “ou eu ou o gato” ou então “se o gato não fica, eu vou embora”. E acabei conseguindo a quase impossível mediação: meu filho ficaria com seu gato rabicó, mas fora de casa; em troca, eu compraria a comida. Minha esposa aceitaria o gato nessas condições, “mesmo porque,” — argumentei — “se o gato decidir ficar em frente de casa, não há o que o afaste. Gato é bicho territorial. Só se a gente arranjar um cachorro...”.
            — Oba, pai! Legal! Arruma um fox-terrier! — A intervenção foi de minha filha, apaixonada por cachorros, desde que começou a colecionar o álbum de figurinhas Todos os Cães do Mundo.
            — Não! Prefiro um gato fora a um cachorro dentro fazendo cocô no meu tapete! — Sentenciou definitiva minha esposa.
            Enfim, no tratado de paz, o único que perdeu fui eu, tendo que comprar as caras comidas de gato, dos mais diversos sabores, como exigia meu filho. E durante duas semanas de armistício o gato não perturbou a paz familiar, contendo-se (ou sendo contido a vassouradas) nos seus limites exteriores. Vez ou outra ele miava a meio metro de distância de minha esposa, provocando seus gritos apavorados e a inevitável violência da porta, acompanhada de imprecações anti-felínicas; e algumas vezes ensaiava, nas noites, aquela sua arrepiante serenata com alguma parceira ou rival, que mais parece um choro de criança faminta. (Para minha esposa parece um coral de almas do outro mundo).
            Mas sorrateiramente, com velada deliberação unilateral, maquiavélico, traiçoeiro como um rato (ou como um gato), meu filho traçava seus planos de trazer o bicho para dentro de casa: esquecia “sem querer” a porta da sala aberta, colocava o Duba para dentro quando eu e minha esposa não estávamos (minha filha dedou), sentava-se com o gato na soleira da porta... E assim, de pequenos atos em pequenos atos, um dia o gato estava deitado no tapete da sala, e a guerra se reiniciou. Intervim. Bravo, fiz valer com autoridade os termos do tratado e de novo o Duba, inconformado por ter de abandonar tão aconchegante espaço recentemente conquistado, voltava para a frente da casa, não sem a ardorosa e solidária defesa de meu filho. Mas eu sabia que aquela era apenas uma batalha vencida de uma guerra que iria continuar. Então me preparei.
            Diferente do que eu pensava, o primeiro novo movimento ofensivo veio de minha esposa, que numa noite tentou convencer-me a levar o gato embora. Bastava colocá-lo no carro e soltá-lo no meio da Marginal Tietê... “A natureza faz o resto”, argumentou “e assim, do mesmo jeito como ele apareceu, ele some...”. Em vão tentei lembrá-la das promessas que fiz ao meu filho, do trauma inverso ao dela que isso poderia causar. Inútil. Meus argumentos eram derrubados um a um. Por fim, sacanamente, concordei:
            — Tudo bem. Leve você o gato embora.
            A simples imagem de andar com um gato no carro calou-a e não se falou mais nisso.
          Mas conheço meu filho, sem figuras de linguagem, desde que ele nasceu. Sabia que logo retomaria seus propósitos de introduzir o gato dentro de casa. E o clima de pós velório que encontrei em casa na volta de uma viagem de fim de semana ao interior denunciou o novo fim da trégua. É que meu filho foi dormir de madrugada, deixando o gato na sala. De manhã minha esposa acordou — conforme me narrou aos berros — “com pavorosos e nojentos miados de gato no quarto”. Saltou da cama e correu apavorada, seguida pelo não menos apavorado gato, quase pisando no “monte” de fezes do gato na sala.
            — Foi humilhação demais! Foi desrespeito demais! Eu, às oito horas da manhã de domingo tendo que limpar bosta de gato na minha sala! Você ponha pra fora desta casa esse gato e o seu filho!
            — Eu? Que culpa eu tenho se o gato fez cocô as sala!
            — Cínico! Calhorda! Etc.! (impublicável).
            — Mas a gente não tinha acertado que esse gato não entraria mais?
            — Foi só uma experiência, pai. Eu queria ver o que acontecia se ele ficasse aqui dentro...
            — Agora já viu, né?
            — Não viu não, porque eu limpei!
            — Tá bom. Da próxima vez eu limpo.
            — Não vai haver próxima vez, porque esse gato não entra mais aqui. E tem mais: se ele fizer isso de novo aqui dentro, eu o levo embora. Entendeu?
            Parece que mais uma vez havia contornado a situação de conflito. Então pude dar ao meu filho os quilos de comida de gato que eu tinha comprado no interior pela metade do preço de São Paulo.
          A casa voltou a ter algumas semanas de paz, ligeiramente arranhada pelo iodo que meu filho derramou no banheiro ao fazer um curativo num ferimento que o Duba deve ter ganhado numa briga e por algumas provocativas entradas do bicho no colo de meu filho — sempre prontamente repudiadas e repelidas pela mãe. E lá ficava ele, miando seu miado desengonçado de gato incompreendido por humanos usurpadores de seus espaços de conforto, mas devidamente do lado de fora.
            Na hora do almoço de uma quarta-feira, eu cheguei faminto, depois de cinco aulas. Segui meu ilógico ritual de tomar um cafezinho e fumar um cigarro antes de almoçar. Também meu filho veio comigo da escola, certamente com fome como eu. Minha esposa comia com visível prazer um bife acebolado, uma salada e o arroz com lentilha. No forno um provável suflê deveria estar chegando ao ponto. Certamente minha filha deveria estar ajeitando os materiais em sua mochila ou dando os últimos retoques no uniforme de escola e já deveria ter almoçado. Fomes saciadas, saciantes e por serem saciadas uniam a família de horários conflitantes.
            Eu tomava meu cafezinho, quando vi meu filho entrar na cozinha e ir direto ao pote tomar água, atitude nada habitual dele. Em sua fisionomia havia um estranho ar de “eu não fiz nada...” Ele abria a torneirinha do pote, quando o Duba, com ares de “pensam que são só vocês que sentem fome?” entrou na cozinha. Bem que tentei avisar minha esposa, mas um gole de café entrou-me atravessado goela abaixo me inutilizando a fala. Humildemente e persuasivo, o Duba decidiu esfregar-se nas pernas dela, caprichando no que provavelmente ele considerava seu mais comovedor miado, misto de carinho, de interrogação, de sedução e de “vê se me dá logo um pedaço disso que eu estou sentindo o cheiro”.
            Enquanto o exagerado gole de café escorregava queimando esôfago abaixo e meu filho virava-se ao meu lado com seu copo de água, assisti inerte a inevitável consequência do inesperado embate Duba versus minha esposa. O grito dela veio do mais recôndito do inconsciente, trêmulo de pavor e bife:
            — Mãe...!
        Inevitável apelar-se para a mãe nos momentos de pânico. Em conjugados e impensados gestos as pernas dela se levantaram bruscamente, ao mesmo tempo em que idem os braços baixaram sobre a mesa. Inevitável que não se pense nessas horas. A mão esquerda desceu firme sobre a borda do prato. Inevitável que a comida voasse pelos ares. E a rigidez do corpo empurrou o espaldar da cadeira para trás. Tudo inevitável: ela de costas no chão, o bife caindo em seu peito, o Duba com as patas dianteiras em sua barriga de olho no bife, o completo desespero dela estampado no rosto respingado de arroz e lentilha, meu gesto instintivo de socorrê-la, a fuga do Duba com o pedaço de bife na boca e a divisão do meu ego, que não me permitia decidir se limpava a comida do rosto dela, se corria atrás do gato ou se dizia impropérios para meu filho. Evitável era a frase dele, dita num tom de reprovação:
            — Deixa de ser escandalosa, mãe!
       Ainda de pernas pro ar, vi o rosto dela passar do pânico à indignação, da indignação à ira e levantando-se lépida e solerte como um repórter (“solerte” é sempre um adjetivo de repórter...) sentenciou definitiva:
            — Ou eu ou esse gato!
            Novamente me dividi, sentindo que ali não havia mediação possível. Meu filho contratacou à altura:
            — Se o Duba vai embora, eu também vou!
            Ela tirou-me de minha a duras penas conquistada neutralidade, envolvendo-me no conflito:
            — Fique você, seu filho e esse monstro que vocês chamam de gato, que eu vou embora desta casa onde nem comer se pode mais!
           — Se você quiser ir, vai, mas meu gato fica e pronto! Ele não tem culpa de eu ter uma mãe neurótica e escandalosa.
            Decidi aceitar as provocações e entrei com tudo na batalha, bombardeando pesado:
            — Nada disso! Nem você, nem você vão embora desta casa. Quem vai embora sou eu! E decidam vocês o que fazem com essa briga que certamente Freud explica!
            O bate-boca de quem, afinal, ia embora de casa já havia passado da cozinha para a sala, quando minha filha, arrumadinha para a escola, veio assustada descendo a escada:
            — Quem é que vai embora?
            Como um jogral bem ensaiado, os três responderam ao mesmo tempo, enfáticos e coléricos:
            — Eu!
          — Bom se todo mundo vai embora, eu também vou, né... O que eu vou ficar fazendo sozinha aqui em casa...
            O primeiro a se desarmar fui eu, vendo a carinha desconsolada da menina. Agora minha esposa só chorava e meu filho voltava a pôr no rosto aquela cínica máscara de “eu não fiz nada...”. Próximo à porta ainda aberta vi o Duba lambendo os bigodes e miando com jeito de “quero mais bife”. Corri em sua direção e empurrei aquele felino conflito bruscamente com o pé, enquanto fechava a porta. Só minha filha condoeu-se:
            — Coitado, pai; ele não tem culpa de ninguém gostar dele só porque falta um pedaço de rabo e tem uma ferida na perna. Quando eu crescer vou ser veterinária...
            Uma envergonhada trégua invadiu o ambiente. Na cozinha, a empregada procurava apagar os vestígios da batalha com uma vassoura e um pano com detergente. Minha filha ingenuamente propôs a paz definitiva:
            — Então ninguém vai mais embora?
            — (Silêncio).
            — Vai ou não vai?
            Tomei coragem e respondi baixinho:
            — Não, filha. Ninguém vai.
            — Então eu vou, que está na hora da minha perua passar. Tchau!
            E foi saindo, carinhosamente segurando o Duba para que não entrasse.
         Silenciosos, os outros foram cada um para seu lado. Eu fui para a cozinha almoçar; minha esposa subiu para o quarto com a cara emburrada que resistiria ainda três dias; e meu filho ligou a TV num programa de esportes, mantendo no rosto a máscara de “não aconteceu nada”, a que sempre usa após suas mancadas.


            Mas uma matéria na Folha de São Paulo, publicada uma semana depois do sério incidente, encerraria definitivamente a guerra. Minha esposa leu e contou a descoberta de uns cientistas de que gato pega e transmite AIDS. Hipocondríaco que é, meu filho ficou apavorado, já achando que a ferida na perna era uma evidência inquestionável de que o Duba era aidético.
            — Esse gato não é mais meu. Se quiserem levar embora, podem levar. Eu não cuido mais dele. Será que ele já me contaminou?... Será que isso no meu rosto é AIDS?
            — Não, filho. Isso é uma espinha...

            Minha filha sugeriu que eu o levasse para um hospital de gatos aidéticos, para que ele pudesse se curar. Já minha esposa, satisfeita com a vitória final, esqueceu, como os outros, a existência do gato. E eu? A mim tem cabido a tarefa de alimentar o bichano, dar-lhe água e tratar a ferida constantemente renovada em outras brigas. Acho que não sou dessas pessoas que abandonariam um aidético à sua própria sorte, mesmo que fosse um gato, ainda que não fosse meu. Alguém tem que cultivar esse espírito de solidariedade em minha casa, nem que seja do lado de fora, onde sempre estão os mais carentes.

5 comentários :

  1. Nessa crônica você foi o gato, chegou de mansinho, vai conquistando a nossa vontade de continuar a leitura e no final estamos completamente envolvidos. Muito boa de ler.
    bel

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  2. Adorei, Gilson, principalmente porque no final o gatinho acabou ficando por ali...

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  3. Era só um gatinho inofensivo :(

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  4. Tomando um café – saboroso – e vendo o panorama – esplêndido – da chegada do inverno li essa crônica – deliciosa –.

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