TERCEIRA CARTA

Querida amiga

            A sua ideia de sairmos hoje da balbúrdia coletiva dos colegas no fim do expediente veio de encontro aos meus anseios. Mas não escolhi bem o bar, é verdade. Ali também havia muito barulho e aquele som de FM de rock impedindo frases em tom mais baixo, como convém às manifestações mais íntimas. Mais uma vez peço desculpas. Levei-a ali só porque o chope é bom, da marca que eu prefiro. Claro que tinha um pouco de onipotência da minha parte, desvios de machista, necessidade de sempre competir e vencer as mulheres, essas coisas típicas de homem que teve a criação que eu tive. Mas, enfim, falamos algumas coisas de nós mesmos — ou pelo menos eu falei, já que você, com o silêncio atento dos seus olhos, me provocava a que falasse mais. Percebi logo-logo esse desencontro de expectativas, mas decidi deixar assim mesmo. Pelo menos, quem sabe, me conhecendo mais, ganhe confiança para falar de você.

            Nem sei por que lhe falei tanto do meu casamento desfeito, que não está mais na base de minhas mais intensas preocupações. Vá lá que um casamento que termina sempre vá ter um peso grande na vida de quem viveu essa experiência frustrante. Só que eu queria lhe falar sobre a Carla, esta sim mobilizando meus humores, temores e amores. Mas, sei lá, pareceu-me que a Carla não lhe interessou muito, como se você quisesse me avisar de qualquer coisa, como se soubesse alguma coisa que eu não sei. (Incrível como, mesmo com maior intimidade, há indefinições em nossa amizade! Veja a quantidade de palavras indefinidas como “coisa” há nesta carta...). O que será que seu silêncio sorridente queria dizer? Realmente meu caso com a Carla não me deixa satisfeito, é verdade. Algo no fundo, não sei. (De novo palavras vagas... Acho que eu é que ando meio indefinido, sei lá). Eu e a Carla nos encontramos, transamos, mas o papo não rola legal, sempre eu dizendo mais e ela só me ouvindo. Mas é diferente de você. Você tem um silêncio provocador e cheio de intenções. E a Carla tem um silêncio vazio...

            Será que depois de amanhã, no novo encontro que você marcou, você me dirá o que parece querer dizer? Será que poderei falar mais explicitamente sobre a Carla e você me revelará o que seu silêncio escondia? E será que saberei do seu problema, além de saber que o nome do seu caso é Alexandre? Começa com A, como o meu.

                                                           Beijos

                                                                                  A.

5 comentários :

  1. Estou me tornando voyeur das cartas....rs. Muito gostosas de serem lidas
    beijos

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  2. É tão gostoso ler cartas dos outros... Ainda mais assim qdo não é politicamente incorreto.
    Aguardo a próxima.

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  3. É engraçado as cartas são para a amiga, mas no fundo não são! Muito legal Gilson!

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  4. Legal ler cartas dos outros...

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