O PRIMEIRO BEIJO

O PRIMEIRO BEIJO


            Percorrer a tua geografia
            neste dia
            Os versos ficaram parados na folha de papel, encarando-me com seus olhos brancos como a folha em volta deles. Mas pareceram-me sem originalidade, pobres para traduzir o que eu sentia. Onde mesmo os li ou ouvi? Cavouquei na memória, logo descartando meus poetas prediletos. Só poderia ser música popular, talvez Guilherme Arantes ou Erasmo Carlos... Lembrei: não exatamente como eu tinha escrito, mas parecidos, muito bem encaixados na música de Kleiton e Kledir, fortes.
            Isto me acontece às vezes e corrobora a convicção de que esse papo de inspiração é muitíssimo furado. Dentro de mim ebulição, um sentimento borbulhante, frisante: lava de vulcão, água fervente, champanha, copo de chope, polenta na panela. Inspiração a dar com pau, poesia pura; crepitar de lenha em fogueira, emoção. Se dependesse de intensidade de sentimento, eu pariria um poema esplêndido, eterno. Mas, saco, só o que me vem é no máximo plagiar os irmãos gaúchos!...
            “Não faças poesia sobre acontecimentos.”
            Sábio Drummond, provavelmente sem inspiração alguma, suponho... Mas por que tenho que escrever?... E por que um poema?... Já não me basta este sentimento denso, talvez “infenso à efusão lírica”? Isto que me alonga os lábios num leve sorriso, que me sorri inteiro, dos pés à cabeça, das unhas aos cabelos? Escrever uma crônica então nem pensar! Acho que não há razão alguma que justifique expor-me esse tanto. Aqui não há como fingir, enganar, inventar. Fingir que é verdade aquilo que é verdade. Sem dor.
            Abro a persiana do quarto numa fresta de dois dedos, o suficiente para que o sol lá fora fure a penumbra e me ilumine por inteiro os olhos abertos: a fresta, a festa.
            “Luminosa manhã
            pra que tanta luz?
            Dá-me um pouco de sol
            mas não tanto azul.
            Dá-me um pouco de festa
            não esta
            que é demais pros meus anseios.”  
            A voz de Elizeth Cardoso me ilumina a memória nos versos de... de quem? Seria Evaldo Gouveia e Jair Amorim? Acho que sim. Minha memória seria uma colcha de retalhos, se os pedaços se juntassem... Enfim a fresta invade além de mim, além dos olhos que sinto brilhantes, vívidos, captantes das luzes da manhã, irrefreáveis, ávidos. Pobre de adjetivos, me substantivo neste imenso sentir concreto, em que escrever só poderia ser insuficiente paliativo. “Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar para fora de mim, onde estão os assuntos que merecem uma crônica.” Não sou Fernando Sabino e estou pleno. E meus olhos veem.
            Nenhuma negrinha balança as perninhas finas numa mesa de bar, como na crônica do Sabino. Pela fresta que se abre vejo tanto de fora em mim que me avisa que navegar é preciso e viver vale a pena. Mas não me descrevo, só me encontro neste limiar apenas entrevisto em brechas, frestas. Procuro o inexistente substantivo exato que fizesse a ponte entre o sentir e o dizer-me. Por certo sei, agora, que escrever é nem sempre... Falta-me: um pouco mais de carência, de incompletude, para que sinta a fome de quem me leia. Invejo Cecília:
            “Eu canto porque o instante existe
            e minha vida está completa.”
            Vêm-me à mente aulas e eu dizendo para os alunos que a palavra “felicidade” é brega. Sei lá se é isso que me nomeia. E se for, que me valeria repetir? E a quem interessaria?... Tão ruim ou pior que plagiar Kledir... E assim percorro este limiar do que é poema e do que é crônica; do que se quer dizer e não se encontra a palavra e do que não se diz porque íntimo demais.
            E esta necessidade de reter eternamente o que é momento, como a pera de uma crônica ou como a pera que “se esquece deitada numa fruteira”. As palavras precisam ser sempre de uma felicidade atroz — e me despenco de vez em lugares-comuns. Muito estranho isto: que tão novo sentimento só se consiga revelar em dejà-vus...
            Talvez valesse a pena dar indícios da situação que me provoca esta manhã no peito. Sempre soube que quem redige é vulnerável; e deixar-me invadir por olhares alheios, um pouco mais ou um pouco menos, pouco iria alterar em mim. Mas que importância teria, para quem me lesse, se o que me deságua em letras é uma carta, ou um abraço, ou uma surpreendente descoberta de mim mesmo, ou um primeiro beijo, ou uma criança, talvez filha, que, inconsciente de seu potencial, me desnudou a alma como uma bruxa? Que importa o fato, se o que me amanhece de longo sono e pesadelos deu-se concretamente antes deste indefinível concreto sentir-me assim?
            Olho as paralelas da fresta da persiana azul, amanhecer solar mal e mal divisado, sem necessidade de saber o que acontece exatamente lá fora. Por certo pássaros procurarão sementes e migalhas; minhocas cavarão a terra em seu existir larvar; plantas responderão em fotossínteses aos apelos matutinos de luz; e a vida se fará concreta, como só e sempre se revela. Quanto a mim, que culpa ou sorte eu tenho de viver?
            Daqui a pouco levantarei em movimentos ritmados as lâminas da persiana e a manhã invadirá o quarto em luz. Minhas pupilas se dilatarão e eu verei as formas definidas dos móveis do quarto. Então mergulharei no dia, invadindo-o eu mesmo de minhas luzes ainda tênues, que talvez sejam captadas por olhos e peitos atentos à minha quase plenitude. E tudo se desvendará num segundo, num átimo de meu tempo, neste encontro solar. Meus pés pisarão o chão equilibrando as forças do meu corpo com a terra e meus gestos e atos se sintonizarão com o que muda ou se transforma no mundo.
            Agora vejo que tudo cabe em mim no desmesurado do tempo e no indefinido do texto — contexto cru do meu existir neste instante, como um fruto inevitável desta busca do equilíbrio que diviso em tudo. Sou um Aleph subdesenvolvido, um devir em ação, pequeno, pleno e completo, como aquela formiguinha que há milênios carrega a mesma migalha de vida extinta para dentro de seu espaço na terra, na certeza de que o alimento gerará dali a nova vida repetida.

            Sim, sou esta matriz que imprime no teu corpo o mapa da procura do que buscas, olhos e ouvidos atentos, pele sensível e boca em oferta, como se fosse este o meu/teu primeiro beijo, como se esperasses de mim a última palavra.

Um comentário :

  1. Muito bonito. E me deu saudades de suas aulas, professor! Beijos.

    ResponderExcluir