O PRATO DE COALHADA

O PRATO DE COALHADA


         Qualquer filósofo de botequim afirmaria que a vida é feita de acasos. Radical, sem ser frequentador dos bares da vida, eu afirmaria que a do professor é um acaso. Ou seria um equívoco? Pelo menos no Brasil ser professor foge a qualquer racionalidade, ainda mais um professor de colégio, como eu.
            Reflexões amargas como essas povoavam meus pensamentos humilhados naqueles primeiros anos da década de 80. Tempos de crise — o que, aliás, poderíamos falar da década de 90, da de 70, da de 60, de quase todas as décadas enfim. Professor de escolas particulares, opção razoável para os ridículos salários da escola pública, fui apanhado, eu e meus colegas de infortúnio, pela debandada dos alunos para a rede pública — medida de contenção de despesas dos pais, também atropelados pela recessão econômica. Minhas aulas se reduziram a menos da metade e o salário, que ia pouco além do suficiente para sobreviver, decretou minha incapacidade de sustentar a família. Então eu, a esposa, também profissional da mesma área, a filha recém-nascida e o filho pequeno formávamos o quadro emocional típico da família de classe média em crise.
            Para ser sincero, nunca me arrependi de ter “virado” professor, apesar de, na adolescência, ser essa uma escolha profissional completamente descartada. É que fui aluno problema, daqueles que estudam o mínimo necessário para ser aprovado, fazem da escola um ambiente de diversão e relacionamentos, perturbam os professores e se ligam mais nas atividades extraclasse que nas aulas. Por isso costumava dizer que a última coisa que seria na vida era professor, pois me repugnava a ideia de ter que suportar alunos como eu e minha turma. Mas o acaso (ou o destino) me pôs nessa vida e contrariando as convicções juvenis, acabei assumindo a profissão que começou como “bico” de universitário desempregado. E de crise em crise ia cada vez mais encontrando prazer em iniciar adolescentes na arte de redigir.
            Só que colocar em risco a sobrevivência da família era demais. Afinal colocavam nas costas do professor “os destinos da nação”, “o futuro do país”, como sempre afirmavam todos os ministros e secretários de Educação e os candidatos a presidente e a governador. Para poder dar as minhas aulinhas e conservar meus ideais de professor, via-me na iminência de esmolar ou qualquer ato semelhantemente degradante. Então urgia uma solução.
            Pensei em procurar aulas nos colégios do Estado, mas os salários ínfimos me desestimulavam, sem contar que não havia concurso previsto. Talvez aulas particulares fosse uma saída, pois eu mesmo estipularia os preços. Melhor ainda seriam cursos de treinamento em empresas — já que teria que me vender, que fosse ao menos por um bom preço. O problema é que ninguém tinha dinheiro para pagar aulas particulares e as empresas também estavam em crise, despedindo empregados, contendo despesas. Só havia uma saída: mudar de profissão. Qual?
            Matutei dias, tendo à minha disposição todas e nenhuma profissão como alternativa. Com certeza não me acostumaria com terno e gravata, nem com a situação de ficar trancado numa sala ou repartição, nem com a obrigação de fazer uma mesma coisa o dia inteiro... Assim ia descartando as diversas atividades para as quais tinha algum possível preparo. E foi após um preocupado banho, abotoando minha camisa azul preferida, que encontrei a solução. Roupa. Sim, eu venderia roupas! Raciocinei que, com crise ou sem crise, as pessoas tinham que comer e se vestir. Até poderiam diminuir as compras, mas certamente ficariam atraídas, se os preços fossem convidativos. Originário que sou de cidade com muita indústria têxtil, não seria difícil encontrar uma confecção que me oferecesse produtos de qualidade por um bom preço. E com a crise, certamente os preços e os prazos deveriam estar a caráter. Quanto à freguesia não haveria problemas. Afinal eu tinha centenas de alunos, milhares de ex-alunos, muitos amigos, colegas e vizinhos. Só me faltava a vontade e o estímulo; e que estímulo era mais forte do que a paranoica imagem dos meus filhos passando fome e minha esposa num cruzamento, com minha filha no colo, pedindo esmola, enquanto eu, sentado na sarjeta, contava os centavos arrecadados?
            Saí do banho purificado e ungido pela esperança. Logo fui contar a milagrosa saída para minha esposa que preparava mamadeiras. Ela me fulminou com seu pragmatismo revoltante:
            — De onde você vai tirar dinheiro para comprar as roupas?
            — Mas não sou eu quem vai comprar. São meus fregueses!
           — Sei. E de onde você vai tirar dinheiro para comprar as roupas que seus fregueses vão comprar...?
            — Ora!... Isso depois eu vejo. Eu estou falando da coisa em princípio, entende?
            — Não. Não entendo.
          Conversava comigo impassível, sem se desconcentrar do preparo das mamadeiras e sem me olhar nos olhos. Insisti:
            — O que eu quero dizer é que nós poderemos ir vendendo devagar, aumentando aos poucos...
          — “Nós”, não. Não me ponha no meio disso que eu tenho meu trabalho, um bebê e uma casa pra cuidar.
            — Tá bom! “Eu” vou vendendo. Além do mais, posso fazer isso nas muitas horas vagas, sem parar de dar aulas. Quando a coisa melhorar, paro de vender e pronto. Isso se eu não gostar de vender roupas. Quem sabe não acabo desistindo dessa profissão desgraçada de professor...
            — E quem é que vai comprar as suas roupas?
            — Não são “minhas” roupas. São as roupas “deles”. Eu já expliquei pra você: todo mundo se veste, ora!
            — Por falar nisso, a nenê está precisando de uns casaquinhos.
            — Mas já? Você não fez o enxoval dela?
         — Ela está crescendo. Não sei se você já percebeu que as crianças crescem. Por falar nisso, o menino também precisa de roupa de frio...
            — Tá vendo? É o que eu disse! Todo mundo precisa de roupa!
            — É, mas você tem dinheiro pra comprar?
            — Não tenho, mas vou ter!
            Ruminei a indignação pela falta de apoio por algumas horas, imaginando que venderia muitas roupas para provar que eu estava certo. Então me lembrei da velha história da moça faminta que ganhou um prato de coalhada e decidiu vendê-la em vez de comer. Com o dinheiro compraria uma galinha. A galinha botaria ovos e ela criaria mais galinhas e venderia frangos e ovos; compraria, com o lucro, uma vaca e faria coalhadas e queijos; compraria mais vacas, depois um sítio, e quando já se imaginava uma rica fazendeira, tropeçou numa pedra e derrubou o prato de coalhada. Sim, eu deveria prestar atenção onde pisava. Não deixaria cair meu prato. Mas minha esposa me fez cair na realidade. Por isso deveria pensar muito bem para que a empreitada desse certo.
            Comecei “pesquisando o mercado”, ou seja, as pessoas de minha relação, e verifiquei que ninguém estava pensando em comprar roupas. Apenas uma aluna me disse que a vizinha de uma amiga de sua mãe tinha contado que a cunhada dela tinha aproveitado as liquidações e renovado metade de seu guarda-roupa. Daí deduzi que as mulheres eram mais acessíveis como freguesas potenciais; eu venderia roupas femininas. Passei então a prestar atenção nas roupas que as mulheres usavam, procurando alguma lógica naquele vestuário de infinita variação de cores e modelos. Mas não vi lógica alguma e concluí que qualquer coisa serviria, desde que estivesse “na moda”. E a “moda” era um conceito absolutamente incompreensível, a não ser para iniciados e pelas próprias mulheres. Confiei que as confecções deveriam saber o que era “moda”; bastava que eu comprasse e vendesse. Apenas eu precisava de uma estratégia de vendas e nisso concentrei meus esforços.
            Nesse ponto quase desisti. Percebi que não tinha jeito para venda. É que a ideia de auferir lucros, só porque eu tinha ido a uma confecção e comprado mais barato, me parecia um roubo deliberado. Via o mundo capitalista como uma grande quadrilha da qual eu estava prestes a participar. E acabei por incorporar uma dialética calhorda que me aplacou a consciência: “se todo mundo me rouba, por que eu não vou roubar também?” Sem remorsos decidi que teria o máximo de lucro possível, porque o lema capitalista em época de crise era “salve-se quem puder”. Eu me salvaria. Quanto à minha timidez para vender, achei, a princípio, que a superaria assim que sentisse o dinheiro na mão; depois, pensei em fazê-la a marca da minha estratégia, acreditando que despertaria nas pessoas uma dose certa de piedade e confiança, algo parecido com o que nos despertam alguns mendigos quando pedem esmolas (sorri maquiavélico ao ter essa sacada genial). Só faltava arranjar as roupas.
          Como a moça da coalhada, decidi que seriam poucas peças, de início, mesmo porque eu não poderia comprar muitas. Aproveitaria parte do meu minguado salário e investiria em blusas. Mas a razão de escolher blusas era subjetiva. Sei lá por que achei que blusas eram mais fáceis de serem vendidas. Com o pagamento na mão, peguei a parte que seria a do aluguel e rumei para Americana. O proprietário da casa que esperasse. Afinal em poucos dias eu o pagaria com multa e não estava fora de cogitação a hipótese de que em um ano ou dois eu lhe comprasse a casa pelo preço que ele quisesse. Se meus planos dessem certo, em meses eu teria uma equipe de vendedores domésticos de roupas, ficando eu apenas com as compras no atacado. Futuramente, talvez eu abrisse uma loja ou, quem sabe, uma cadeia de lojas. Mas por enquanto o melhor era me ocupar daquelas primeiras peças.
            Passei o dia em Americana visitando várias confecções, comparando preços, modelos e tecidos. Aos poucos fui descobrindo qualidades e defeitos nas roupas e comecei a assimilar a complicada coerência que se materializa nisso que chamam “moda”. Mas foi o suficiente para que me considerasse um expert e não só afastou-me os últimos resquícios que restavam de insegurança, como me deu a ideia de que no futuro seria eu a lançar modas. No meio da tarde já havia feito as devidas avaliações e escolhido a confecção ideal, levando em conta, inclusive, o potencial de aumento de produção, já que em poucos meses eu seria, com certeza, seu principal revendedor.
            Considerei normal minha primeira decepção de negociante. Infelizmente a confecção só vendia no mínimo doze peças a preços compensadores e meu dinheiro só dava para cinco. Insisti de todos os modos, elogiando a mercadoria e me oferecendo como um futuro grande freguês; mas o máximo que consegui foi entender mais uma característica do negócio: neste ramo não há emoções; é preciso ser frio, um toma-lá-dá-cá na base de “se tem dinheiro, leva; se não tem, não leva”. Por fim a vendedora pareceu sensibilizar-se com minha aflição de quase ver o meu prato de coalhada esparramado pelo chão; chamou-me num canto, dizendo que tinha umas peças que sobraram de um pedido grande e poderiam ser vendidas, desde que eu mudasse um pouco a escolha dos modelos... Animei-me e quis ver, principalmente quando ela me disse que estavam em oferta por se tratar de ponta de estoque.
            Só que não foi fácil superar minha segunda decepção. Realmente as peças custavam pouco, mas era impossível que custassem mais e mais ainda imaginar que alguém pudesse usá-las. O “modelinho” das blusas até que tinha seu charme, com um decote quadrado entre o discreto e o ousado; e as roupas eram confeccionadas em malha de boa qualidade com um acabamento primoroso, como todas daquela fábrica. Mas as cores... Quatro eram roxas e três cor de abóbora. E não era um roxinho, um lilás; nem um abobrinha que uma freguesa entusiasmada pudesse chamar “cenoura”. Era um roxo-velório e um abóbora-cheguei, espantosamente feios. Sem perder um sorriso que eu diria de satisfação, a vendedora percebeu meu desapontamento e passou a dissertar sobre as qualidades das blusas, destacando o acabamento, a qualidade do tecido, o modelo, ou seja, tudo que eu já tinha visto.
            — O problema é a cor...
            — A cor? Que é que tem a cor?
            — Esta aqui ia bem para um enterro. Esta não ia bem para situação alguma...
       — Mas estas cores estão na última moda! O senhor viu alguma outra blusa nestas cores nas prateleiras? Não viu. Sabe por quê? Porque vendemos todas...
            — Você usaria uma blusa destas?
            — Claro que usaria, por que não?
            A expressão “última moda” me fez vacilar e eu, que já me julgava um entendedor, voltei à ignorância de antes. Definitivamente eu não entendia nada de moda. Mas já olhava as blusas com certa simpatia. A vendedora pôs uma blusa em frente ao corpo e falou com tanta sinceridade da beleza da roupa que a desconfiança de que ela estivesse me empurrando umas peças encalhadas desapareceu. E acabei por achar que essa coisa de mau gosto com cores era preconceito meu, acatando a lógica da vendedora: “que seria do amarelo, se todos gostassem do vermelho?...”. Pedi que embrulhasse, não vendo a hora de chegar em São Paulo e iniciar minha carreira de vendedor.
            Fiz suspense ao abrir o pacote para minha esposa. Certamente ela estava mais atualizada com a moda. Eu até já estava preparado para resistir, caso ela insistisse em ficar com uma das blusas. Futuramente lhe compraria quantas quisesse, mas aquelas seriam vendidas com 100% de lucro, o que ainda as deixava mais baratas que as das lojas, conforme me instruiu a vendedora.
            — Roxa? Você comprou blusas roxas?
            — É! É a última moda!
         — Você está enganado. Roxo há muito tempo está na moda, desde que as pessoas começaram a usar roupas e morrer. Se bem que o roxo se usa mais para os caixões. As pessoas usam preto...
            — Pare com sarcasmos. Blusas roxas vendem como água!
            — E as cor de abóbora? Vendem como quê?
            — Como água, também!
      — É verdade. Eu notei mesmo que todas as mulheres estão usando roxo e cor de abóbora ultimamente...
            — Pare de gozação. Elas não usam, mas vão usar. É que é a “última” moda, entende?
         — Não, não entendo. Na verdade eu morreria de rir, caso você não tivesse gasto o dinheiro do aluguel nessa viagem e nessas tralhas!  
            Em seguida, desfiou um longo rosário de queixas sobre mim, sobre o casamento, sobre a situação do país e sobre a infelicidade de depender de um professor trouxa como eu. Terminou dizendo que eu não me preocupasse, porque pediria dinheiro emprestado a meu sogro para o aluguel e as blusas poderiam servir para pano de chão ou para serem doadas aos mais pobres que nós, se é que alguém teria coragem de usá-las. Num misto de insegurança e brio, respondi num tom ameaçador:
            — Você verá que essas blusas serão o início da solução de nossos problemas financeiros!
          — Pois se você conseguir vender o suficiente para reaver o dinheiro do aluguel, eu prometo que usarei uma das suas blusas um dia inteiro. Mas não se preocupe em me expor ao ridículo, porque isso não vai acontecer.
            — Puxa... é tão feia assim?
            — Mas o que aconteceu com seu senso estético? Estou preocupada; afinal você me acha bonita...
            Nos dias seguintes tentei inutilmente juntar coragem para procurar compradoras para as blusas, mas não conseguia de jeito nenhum afastar da mente a primeira impressão que tive ao vê-las na confecção. Desvaneceu-se a conversa da vendedora, esta sim de competência inquestionável. E num intervalo de aulas comentei a situação com uma aluna com quem tinha alguma amizade, relatando a frustração de meu prato de coalhada no chão. Contei dando um toque de humor aos fatos, mas ela leu o que havia de trágico e se condoeu solidária. “Talvez minha mãe...”, comentou. Perguntou-me se eu não queria mostrar as blusas para sua mãe que tinha um gosto meio extravagante para se vestir. Quem sabe ela compraria alguma... E também sua irmã mais velha herdou um pouco do exotismo materno.
          Cheguei ao apartamento devidamente imbuído de minha estratégica timidez, carregando uma sacolinha com as blusas. Ao entrar, susto. Era um apartamento enorme e me pareceu muito improvável que alguém que morasse ali pudesse usar aquelas blusas. E a timidez deixou de ser meramente estratégica... Minha aluna me esperava com sua simpatia habitual e me fez sentar num dos sofás. Logo a mãe chegou, sorridente e extrovertida, vestindo uma bata indiana e uma calça de algodão cru. Os cabelos longos e crespos amarrados com uma fita e as sandálias de couro cru completavam o gênero hippie que a mulher fazia. Mas era uma mulher alta e um pouco gorda. Com certeza as blusas não serviriam.
            Iniciou uma longa conversa sobre as filhas, comparando as duas e insistindo que a minha aluna levava a grande vantagem de saber redigir e isso ela devia a mim. E elogiava a escola, elogiava a mim e elogiava os textos que a filha produzia nas aulas. Eu aproveitava para exercitar minha humildade e timidez, esperançoso de que talvez para a filha mais velha as blusas servissem. Mas ao comentar que soube que ela e a filha tinham gostos parecidos, soube também que eram fisicamente parecidas; desconsolei-me de vez. Quando finalmente a simpática mãe quis ver as roupas, disse que não mostraria de jeito nenhum, pois achava que ela não iria querer. Ela insistiu, dizendo que era ela quem decidia o que serve ou não, até que envergonhado entreguei-lhe a sacolinha.
            — Roxa? Você não me disse que era roxa...
            — Sabe o que é, mãe. Se eu dissesse, a senhora não iria nem querer ver. E eu estava curiosa para ver como é que eram.
            — E por que você não pediu pra que ele lhe mostrasse?
            — É que eu senti pena dele; desculpe, Gílson.
         — Desculpe, professor. Eu detesto roxo. E pra ser sincera, esta cor de abóbora também... Se ao menos fosse cenoura... Não tinha outras cores lá onde você comprou?
            Nem respondi nada. Estava com a cara enfiada entre as mãos e os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando fixamente os desenhos geométricos do tapete, imaginando uma maneira de sumir dali. Mas salvou-me a empregada que chegou com o café. Na verdade salvou-nos, porque as duas estavam também muito constrangidas ante aquele esdrúxulo colorido que jazia desarrumado sobre a mesa de centro. Voltamo-nos ávidos para as xicrinhas salvadoras, confabulando sobre quanto açúcar poríamos no café. Então pensei em aproveitar o momento em que devolvesse a xícara à bandeja para apanhar rapidamente as blusas e escondê-las na sacolinha. A empregada permanecia imóvel, talvez pressentindo o favor que nos fez. Sutilmente a senhora agradeceu:
            — Pronto, Guilhermina. Pode deixar que depois eu levo a bandeja. Pode ser que o professor queira mais.
            — Não, obrigado, uma xicrinha basta.
            Mas a empregada não se moveu. Parecia curiosa com minha presença, o que me deixou ainda mais constrangido.
            — Você quer alguma coisa, Guilhermina?
            — Será que eu posso olhar essas blusinhas?
            Mãe e filha olharam para mim com olhos que misturavam interrogação e esperança. Sem falar nada, peguei as blusas todas e dei para a moça, que sorria fascinada.
            — Que linda esta roxinha.
            — Verdade?
            — O senhor está vendendo?
            — É...
            — Quanto custa?
            — Bem... Isso depois se vê... Você quer experimentar?
            — Posso? Mas quanto custa? Eu preciso ver se posso comprar.
            — Experimenta pra ver se fica bem. Depois a gente vê o preço.
            A moça morena sumiu para dentro do apartamento, carregando uma blusa roxa e uma cor de abóbora. Na sala, três pessoas sem saber o que dizer olhavam-se sorridentes. A senhora hippie assumiu um jeito bonito de mãe e me disse que um professor como eu não poderia ser vendedor e perguntou se eu não estaria interessado em dar aulas particulares para sua filha mais velha. Já estávamos nas tratativas de horários e honorários, quando a empregada voltou trazendo as blusas como quem carrega um filhote. Dei-lhe o preço original e ela ficou tão triste, que baixei o lucro para 50% antes que falasse alguma coisa. Se eu baixasse um pouco mais, ela disse que compraria duas e que venderia outra para sua amiga do andar de baixo. Fechei negócio com 30% de lucro, o que quase completava o pagamento do aluguel, se sua amiga comprasse duas blusas. Não só comprou como ainda vendeu outras duas para uma colega de outro apartamento.
            Fui embora com o dinheiro do aluguel e algum lucro da venda das seis blusas e com a perspectiva de uma aula particular que me renderia bem mais que o eventual lucro da blusa roxa que levava de volta. Nas semanas seguintes recebi o convite para dar aulas à prima da minha aluna, que depois me indicou um amigo cujo pai era gerente de uma empresa que me contratou para cursos, de tal forma que dois meses depois eu já tinha meu salário recomposto e me sobrava algum dinheiro para extras que uma família sempre está a solicitar.

            Exigi, então, que minha esposa cumprisse a promessa de usar a blusa roxa. A contragosto ela escolheu um dia em que não sairia de casa. Só que, para minha satisfação, umas amigas vieram visitá-la. Mas a vida tem acasos às vezes espantosos: a blusa fez enorme sucesso entre elas, que queriam a todo custo saber onde ela havia comprado. Estava lançada a moda do roxo...

5 comentários :

  1. Deliciosa a crônica. E realmente não te imagino vendedor, seja qual for o produto e a cor...
    bel

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  2. Legal e angustiante, mas encontrei um "algo". Imagine-me com um sorriso maquiavélico, por favor.

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  3. Puxa, Gílson, Não sobrou nenhuma para mim?

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