CARTAS DE A. - PRIMEIRA CARTA

RECADO: Às vezes me acontece isto. Eu me esqueço de textos que escrevi. É que estou sempre escrevendo e os textos vão se acumulando, até que acabo por guardá-los numa das muitas pastas que tenho para esse fim. Assim foi com algumas crônicas que postei no blog; estavam apagadas da memória, mas guardadas numa das pastas azuis. Bom avisar que escrevo sempre a mão, com caneta, porque não gosto de redigir direto no computador, como expliquei em O Analfabeto Funcional. Nessa procura de crônicas escondidas, encontrei o texto que decidi postar (eu preferiria dizer “publicar”) a seguir. Estava lá, completamente esquecido, mas guardado, e foi muito interessante essa sensação de ser leitor de mim mesmo já que não me lembrava nem de onde o redigi, muito menos da história contada. Como gostei do que li, resolvi “passá-lo a limpo” no computador, antes que se perca de vez. E por que não publicá-lo no blog?
                Então dou um tempo com as crônicas e vou postar as Cartas de A. Não sei como classificar esse texto, se como conto, se como novela ou simplesmente cartas. Mas é uma história contada em cartas de uma personagem para outra e mais parece um diário, já que as cartas não são enviadas. Como são várias cartas, o texto é relativamente longo, por isso decidi ir postando (aqui sim o verbo “postar” fica bem) aos poucos, uma carta de cada vez. E farei isso na medida em que for digitando, ou seja, conforme o tempo disponível e minha lerdeza permitam. Obviamente espero que gostem da história. Se sim ou se não, serão bem vindos seus futuros comentários.  





CARTAS DE A.


            Cara amiga

            Recebi suas mensagens de desamor e de sofrimento que consegui resgatar de uns olhares indubitavelmente beirando o triste. Bem conheço a linguagem dos olhos, e quando você se foi, não pude deixar de sentir que alguma coisa precisava ser dita a você com a maior urgência, porque li nos seus olhos futuras lágrimas, talvez então inconsoláveis, por ser tarde demais. Mas você, sei lá, você tem esse seu jeito reservado de ser, essa aparência de tranquilidade e umas mãos hábeis em afastar quando a gente se aproxima muito. Acho que só posso mesmo aguardar os acontecimentos inexoráveis que se avizinham, no máximo procurando estar por perto, mesmo porque você não me permite a intimidade necessária para que eu me inteire dos fatos, que nem sei se existem, que só adivinho naquele olhar que repentinamente se perdeu nas pontas dos sapatos, alheio a tudo que acontecia à nossa volta. Ou aquele descompasso do seu sorriso, do gesto de desalento das mãos e do olhar, inesperadamente perdido num passado imperscrutável. Queria lhe dizer, cara amiga, que eu percebi que nem tudo anda bem com você e que de um lado meu, que pouco transita em nossa amizade, manifestou-se uma pequenininha pontada de dor, produto de uma identidade e de uma solidariedade que o relacionamento amigo gera.
            Até pensei em ligar para você. Mas não sei em que papel anotei seu telefone e, além disso, o que eu diria? Provavelmente “oi, como vai?”. E se você respondesse “tudo bem...”, o que eu faria? Tomaria ares invasivos dizendo “tudo bem mesmo?”. Ainda que eu me arriscasse, você certamente responderia “tudo bem sim, por quê?”. E o que eu faria em seguida? Diria que li seus olhares naquela reunião, sem que você me desse sinais claros de que está querendo dividir sua tristeza comigo? Percebe, estou sem ação. E não é só isso. Mesmo que você me revele sua dor, o que eu poderei fazer? Só me vem à cabeça uma porção de frases idiotas, do tipo “a vida é assim mesmo...” ou “sofrendo é que se cresce”. Acho que não há nada a fazer, ainda mais, amiga, que meus olhos andam tristes também e você bem os perceberia se notasse com atenção, sobretudo naquele momento em que fiquei longos três segundos olhando pela janela o jardim lá fora.
            Amanhã nos encontraremos novamente e ficarei atento aos gestos seus e aos seus olhos. Amigos de verdade devem ser atentos comas pessoas que prezam. Provavelmente acharei um jeito de avisá-la da minha solidária atenção, talvez, quem sabe, porque, no fundo, no fundo, eu gostaria que fizesse o mesmo comigo. Mas se nada acontecer de extraordinário, eu mesmo vou escancarar meus olhos ante você, porque sinto que você pode me dar consolo para os problemas que me entristecem. É, é isto mesmo. Amizades crescem nos consolos e desconsolos, e até se você me disser “a vida é assim mesmo, o que se há de fazer”, eu aceitarei de bom grado, isento de julgamentos, atento aos sentidos ocultos das suas palavras, que hão de ser os de me confortar.
            Esta carta não lhe enviarei não, em respeito ao meu pudor e aos justos limites que você me coloca à nossa amizade. Quem sabe um dia você a leia. Daí tudo isto será passado e nos riremos deste princípio de reconhecimento de nossa amizade. Quem sabe estaremos numa mesa de restaurante, você com seu namorado, eu com minha namorada, todos sem tristezas nos olhos, rindo ironicamente daquele passado (que é este presente) em que nossa amizade era só um esboço...
                        Um abraço afetuoso

                                                           A.

4 comentários :

  1. Gostei muito da primeira carta. Aguardo, ansiosa, as próximas.
    Noêmia

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  2. Como a Noêmia, vou ficar ansiosa, aguardando o correio...

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  3. Adoro cartas. Jávou para a segunda!

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