SEGUNDA CARTA

Cara amiga

            Por favor me desculpe, mas não pude resistir. Tive que avançar seus limites e dizer-lhe de minha preocupação. Na reunião de hoje seus olhos se perderam por três vezes das discussões (acho que até o diretor de vendas percebeu...), e quando você olhou o jardim pela janela por quase cinco segundos, não contive a frase: “preciso falar com você”. O seu imediato “fale” quase me desarmou, porque senti que você me desautorizou qualquer conversa que não fosse pública. Claro, arrependi-me no ato. Mas quando fomos todos para o bar bebericar e petiscar, deliberadamente sentei-me ao seu lado, com o propósito oculto de lhe dizer o que acabei dizendo. Entrei nas brincadeiras e gozações dos colegas, bebi três copos de cerveja e comi um pedaço daquela pizza horrorosa. Entretanto não foi mera brincadeira quando comentei com você “esta pizza parece a vida”. Seu sorriso de novo entrou em descompasso com o olhar nesse momento e então eu lhe falei disso e da tristeza que você sentia. “Não é nada não, eu só estou cansada...”, você respondeu. Mas de novo seus olhos disseram outra coisa e pousaram fundos nos meus, como que querendo adivinhar até que ponto eu sabia dos sofrimentos que a afligem.
            Agora, neste momento em que lhe escrevo esta carta que não lhe será enviada, estou seguro de que fiz a coisa certa e, ou muito me engano, ou seu beijo de despedida na minha face direita teve uma leve tensão um pouquinho além dos beijinhos triviais de despedida. O meu beijo não; foi cauteloso e formal. Mas você sentiu minha mão esquerda pressionando com leveza, mas com firmeza, seu braço direito. Tenho a sensação de que amanhã ou depois de amanhã nos falaremos com outro tom de voz e outro modo de nos olharmos, que marcarão certamente esta amizade que estamos construindo.
            Talvez eu exagere em minhas avaliações, mas não consigo deixar de lado esta percepção intuitiva de que as provas de amizade são marcadas por indícios sutis, como um toque com mais firmeza no braço ou um beijo no rosto que dura um segundo a mais. E menos ainda consigo ignorar que há um desejo oculto de que se amplie o universo dos assuntos que permeiam nossas conversas, para que se tornem um pouco mais íntimas e falemos do que realmente nos importa. Com certeza desejo isso. Já você, pode ser, acho que sim, talvez... Tenho tanto a lhe dizer...
            Até amanhã ou depois.
                                                           Um beijo

                                                                                  A.

5 comentários :

  1. Ah, Gílson, muito curta.
    A gente fica uma semana inteira esperando e a carta vem curtinha assim?
    Quero textos mais longos.bj

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    1. Em compensação está indo logo outra... Grande beijo! Saudade! Quando você vai fazer o seu blog?

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  2. Respostas
    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Abraço, Luís. Até poderia ser romance, se eu tivesse desenvolvido mais a história. Mas não chega a tanto. Bom ter você como leitor.

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