TALES - OU O MILAGRE

TALES — OU O MILAGRE


            Vá lá que milagres existam. Papas e mais papas os atestam desde aqueles tão propalados do Cristo. E são eles responsáveis pela horda de santos que ilustravam e tinham seus nomes escritos nas folhinhas antigas, cada um no seu dia, às vezes vários num dia. E íamos, dia a dia, destacando uma folhinha com o número do dia anterior, atualizando o desfile de santos e santas, até 31 de dezembro. Ninguém sabia todos os milagres que operaram aquelas beatas e, várias delas, obscuras figuras; mas, se tinham seus nomes na folhinha, era inquestionável sua distinta santidade.
            Particularmente eu nunca havia visto um milagre e nem por isso assumia a atitude cética de São Tomé de ver para crer. Sempre soube que era tudo uma questão de fé — e até nutria uma secreta e mística esperança de um dia observar um fato sobrenatural assombroso, que me fizesse testemunha chave do processo de beatificação de um santo ou santa, que, com certeza, no futuro dividiria um dia da folhinha com outros santos mais, ou menos, votados. Questão de fé...
            Só que minha fé jamais foi tanta que me fizesse supor que presenciaria e participaria de um milagre em São Paulo. Esta cidade, que em si mesma sintetiza Sodoma e Gomorra, parece-me avessa a divinas manifestações, materialista e libertina que é. Aqui se alimenta, isto sim, um inevitável pavor de uma iminente vingança divina, um cataclismo espetacular que torne a vida completamente inviável. E para corroborar nosso pavor, aqui chove, diariamente, em doses homeopáticas, lentamente letais, enxofre e chumbo, sem contar a chuva ácida e o diabólico fumo repleto de gases mórbidos que a cidade exala por escapamentos e chaminés.
            Naquele dia chovia, por certo chuva ácida. Certamente o aguaceiro intermitente que chegou no princípio da tarde lavava o ar da cidade, a julgar pela lama escura que a enxurrada empurrava nos meios-fios e pelo odor que o rio Tietê exalava. Marginal do tempo — como era de se esperar — eu esperava. Engrenava a primeira, andava uns metros e parava intermináveis segundos, suficientes para que eu limpasse com um pano de flanela azul o vapor d´água que embaçava os vidros fechados do carro.
            Qualquer pessoa de bom senso em São Paulo sabe que se devem evitar as Marginais na hora do rush. E a qualquer hora, se estiver chovendo. Pois eu estava na Marginal do Tietê na hora do rush... Bem que tentei demover o Tales da absurda ideia de me fazer ir ao Aeroporto de Cumbica numa hora dessas. Mas quem consegue mudar as determinações do Tales... Ao contrário, ele me convenceu de que tudo é possível quando somos decididos. Expliquei que minha determinação não era tanta, a ponto de me fazer levitar ou alugar um helicóptero, até porque nenhum helicóptero sairia do chão com um tempo daquele.
             — Ninguém anda nesta cidade num dia assim e a esta hora, Tales...
       — Como não? Não seja pessimista! Então eu não vejo quantas pessoas estão chegando ao Aeroporto?
            — Elas devem ter saído de casa ao meio-dia... Pegaram trânsito bom. Eu, se sair agora, não chego aí antes da meia-noite.
            — Mas eu acredito em você, Gilson. Tenho fé em você. Sei que se a gente somar a sua vontade de chegar e a minha de ver você, certamente vencerá todos os obstáculos e chegará aqui antes de meu avião partir. Onde está aquele Gílson que desafiava todas as dificuldades?
            — Mas eram dificuldades políticas, Tales...
            — Então você quer dizer que eram menores que um simples probleminha de trânsito?
          E com argumentos igualmente despropositados acabei me envolvendo muito mais do que deveria com o clima emocional da conversa ao telefone; e cedi. O Tales era um chantagista emocional nato. Dessa forma conseguiu escapar da prisão, enquanto eu sofri um mês de cana e tortura; dessa forma conseguia conquistar as mais incríveis mulheres, inclusive a Sílvia, com quem acabou se casando. Sempre, enfim, conseguia as coisas aparentemente impossíveis, por lhe faltar o freio moral e emocional, como todo bom chantagista. No seu defeito o seu fascínio. Parecia uma pessoa sempre de bem com a vida e tinha pelos amigos um afeto incondicional que nos cativava. Só ele mesmo poderia me fazer acreditar que fosse possível chegar ao Aeroporto de Cumbica àquela hora.
            Conferi mais uma vez a hora no relógio do painel do carro e calculei que às sete e trinta, quando seu avião partia, eu estaria, naquele ritmo, mais ou menos sob a ponte das Bandeiras — isso, se a chuva não tivesse alagado a pista, como costumava acontecer. Depois telefonaria para o Tales quando ele chegasse a Salvador e o xingaria, de consciência tranquila, por ter-me metido neste inferno molhado. Com certeza se comoveria com meu esforço e num tom de ator de quinta categoria de melodramas de circo mambembe agradeceria aos céus o grande amigo que tem. Desculpar-se-ia e me convenceria de que não teve culpa alguma, pois, afinal, fui eu quem tinha decidido ir ao seu encontro. Bem sei como ele é. O que não sei é o que decidi fazer na Marginal do Tietê àquela hora. Deveria ter dado uma desculpa, inventado uma aula naquele horário, desligado o telefone, fingindo que a linha caiu, qualquer coisa...
        O carro da frente andou e parou cinco metros adiante; acompanho. Lá fora, sob a chuva, os motoristas pararam de buzinar e comportam-se com a mesma calma neurótica que eu aparento. Diviso-os resignados atrás dos vidros embaçados. Então penso nas exortações do Tales e concluo que São Paulo é uma cidade avessa a milagres. Entendo por que o Tales se mudou para Salvador. Como representante de uma empresa de fabricação de estatuas de barro de santos da Umbanda, viaja o Brasil inteiro satisfazendo a fé de milhões de fieis e aumentando o faturamento da empresa e o seu próprio. Poderia morar em qualquer lugar do país, mas Salvador era, sem dúvida, a cidade mais adequada.
            Agora, pelo que me disse ao telefone, estava de passagem por São Paulo, numa escala de um voo vindo de Porto Alegre. Sei lá se é verdade. A chuva e um defeito qualquer retiveram a aeronave; e os passageiros foram dispensados por duas horas. Por isso Tales exigiu que eu fosse ao seu encontro, porque só os desígnios divinos explicariam essa nossa inesperada proximidade. No seu roteiro a praça de São Paulo só seria visitada três meses mais tarde. Então era imprescindível que eu fosse.
            A chuva amainou, mas não parou, anunciando uma noite chuvosa e fria de outono paulistano. E a lenta procissão de increus tocava a velocidade de tartaruga seus carros, ônibus e caminhões, com certeza amaldiçoando São Paulo, urbe infernal a macular seu santo nome. Ali todos pagavam pecados, mesmo os implausíveis puros, que, se por ali houvesse, estariam oferecendo ao futuro de suas bem-aventuradas almas inevitável penitência. E a corroborar (ou a expressar) o clima pecaminoso e mefistofélico — além do cheiro, pior que o do enxofre, o do Tietê — uma sirene urrava desesperada mais atrás.
            O grito estridente e uníssono anunciava a urgência de seu propósito. Um carro de bombeiros na pressa para salvar afogados? Um carro da polícia no encalço de meliantes contumazes? Ou uma ambulância carregando no seu útero um moribundo enfartado?... Aproximava-se, eu ouvia.
            Inúteis os espelhos retrovisores. Mas aos poucos percebi que vultos de veículos encontravam inacreditáveis espaços para faróis em luz alta e luzes vermelhas piscantes, na medida em que o som se aproximava de mim. Até que a meu lado, meu carro a centímetros de um Honda à minha direita, passa uma C14 da polícia, com aqueles homens fardados, meio corpo encharcado para fora da janela, berrando e batendo com uma mão na lataria do veículo e a outra segurando ostensivamente a metralhadora.
            Aonde iriam? Chegariam a tempo? Que miserável merecia aquele esdrúxulo aparato repressivo? Estaria escondido naquele mar de veículos ou numa das favelas próximas da Marginal? E antes que a razão me sugerisse abandonar perguntas tão idiotas e meramente retóricas, engrenei a primeira, fiz cantarem os pneus molhados e me pus a acompanhar a viatura.
            Todo motorista de automóvel tem suas fantasias esquizoides. Uns sonham correr num fórmula 1; outros, dirigir um ônibus ou uma carreta; outros, dirigir um Lamborghini ou uma Ferrari com uma loira do lado; outros, um trator, ou uma moto potente, ou um Mercedes, ou apenas um carro mais novo que o seu, ou terem um chofer particular, ou sei lá quantas fantasias um doido que dirige em São Paulo é capaz de conceber. A minha — confesso com timidez envergonhada, porque essas coisas não se confessam — é dirigir uma ambulância às seis horas da tarde pela Avenida Paulista, levando uma mulher prestes a dar luz.
            Ali não era a Paulista, nem eu dirigia uma ambulância, mas a sensação era bem semelhante à da minha fantasia. Qual um ator ganhador de Oscar, pus na face uma cara de policial à paisana, meti a mão na buzina e colei na viatura. A velocidade, de quase zero, passou a quarenta. E atrás de mim, como não poderia absolutamente deixar de acontecer, um táxi branco, um Gol, teve a mesma ideia.
         Assim íamos os três, num pequeno cortejo de dementes, desafiando as leis da Física, da Meteorologia, do bom senso e do Código Nacional de Trânsito. Eu a um metro da viatura; o Gol branco a meio metro de mim. E freei, derrapei, engrenei, gritei, ri, vociferei, buzinei, insultei e me travesti definitivamente de marginal da lei, enviando positivos pensamentos de graças ao Tales, que me havia propiciado este papel de cruzado moderno ou de Indiana Jones da pauliceia.
            Com a velocidade, desembaciaram-se os vidros e pude ver pelo retrovisor, em relances, o sorriso maquiavélico e psicótico do motorista de táxi e a expressão lívida e catatônica de sua letárgica passageira. Logo nos identificamos. Ele aplaudia, batendo na porta, cada manobra mais ousada que eu fazia e eu retribuía, colocando o braço para fora e dando sinais para que me seguisse. Em poucos minutos atravessávamos por baixo da ponte da Vila Maria. Aí o trânsito já fluía um pouco mais. A velocidade aumentou para oitenta ou cem e as manobras eram mais perigosas.
            Numa ultrapassagem repentina, a C14 deslizou com os quatro pneus carecas na pista, num cavalo de pau espetacular, antes de chocar-se levemente com a traseira de um caminhão. E eu, completamente tomado por meus reflexos de piloto, corrigi a derrapada, surfei entre dois caminhões e em segundos estava cem metros adiante. O táxi freou a meio metro da C14, manobrou rápido e saiu para a pista da direita, por espaços quase inexistentes.
            Antes que pensasse seriamente em parar, meu pé direito pisou fundo no acelerador, driblei dois caminhões e um ônibus, mão na buzina, abrindo caminho para a polícia. Recebi vivos acenos para que prosseguisse e, amparado pela lei, rolava em instantes pela Airton Senna a cento e quarenta, motor do meu carro gemendo em desespero. Cem metros distante, tentando nos acompanhar, via ao longe o táxi branco.          
            Mas aonde iam esses policiais? Por que me seguiam? Será que esses acenos não seriam de estímulo? Tremi. Paranoico, senti-me perseguido. Seria possível que também eles estivessem indo para o aeroporto? Nessas alturas o velocímetro marcava acima de 150. Se não me estimulavam, por que não usavam as metrancas. Gelei. E se usassem? Não, não podia ser eu; se não, já teriam me parado na marginal.
            Por um instante medo e razão se cruzaram em meu cérebro conturbado e instintivamente aliviei por segundos o pé do acelerador, jogando o carro para a pista da direita. A velocidade caiu para cento e vinte e a C14 passou rosnando o motor e gemendo a sirene ao máximo. Cabeça para fora, um policial berrou “valeu!” e em segundos já livrava cem metros de distâncias de mim.
            O táxi passou em seguida, buzinando um biii rouco e pneumônico, quase mais baixo que o gemido agônico do motor. Ainda pude ver a passageira, uma moça bonita de uns trinta anos, olhos fixos na estrada à frente, rosto desmaiado, mordendo com força a alça de uma bolsa. O taxista colocou o braço esquerdo para fora e fez sinais para que o seguisse. Claro, obedeci. A curiosidade, creio, me levaria até o Rio de Janeiro, se necessário, para saber aonde iam esses tresloucados, aos quais novamente eu me juntava.
            Só podia ser milagre (ou mandinga do Tales). O carro da polícia pegou o desvio para o Aeroporto de Guarulhos. Atrás dele, o táxi; e atrás do táxi, eu. Toda essa insana correria não tinha durado nem meia hora. Eu consegui o impossível, embora não creia que seja um milagre suficiente para que eu seja canonizado...
            Na entrada da ala nacional outros carros de polícia já haviam chegado. Em breve outros se juntariam — o aeroporto parecia uma praça de guerra. Bem aventurado Tales que me proporcionou tão belo espetáculo! Sentia-me um perfeito paulistano: indo ao aeroporto sem ser para viajar, assistindo a uma confusão com a polícia, ou melhor, participando dela... Só faltava um incêndio para que a diversão fosse completa.
            Pelo saguão circulavam policiais armados, entre passageiros, funcionários e pessoas que esperavam passageiros, como eu. Alguns estavam assustados; mas a maioria, inclusive eu, curiosa. No zum-zum dos curiosos, fiquei sabendo que deveriam chegar uns traficantes ou uns mafiosos ou uns terroristas ou uns ladrões internacionais ou outras versões menos plausíveis que circulavam pelo saguão. Melhor eu mesmo tirar as dúvidas e procurar a verdadeira razão daquele aparato policial. Busquei um dos policiais da C14 para confabular com um companheiro de aventura. Mas fui seguro pelo braço e, ao me virar, encontrei o abraço do Tales.
            Depois de reafirmar que nunca duvidou de que eu chegaria a tempo, puxou-me em direção ao local das bagagens. Contou-me que o motivo da movimentação policial era a denúncia da chegada de grande quantidade de cocaína, conforme havia apurado com o chefe de segurança do aeroporto, com quem tinha feito amizade. E entre notícias da Sílvia e de seus negócios, de perguntas sobre todos os amigos de São Paulo e sobre mim, pediu-me para ajudá-lo a carregar as malas, porque todas as bagagens de todos os aviões seriam revistadas, que eu não me preocupasse em passar pelo portão, porque ele já havia conversado com seu amigo da segurança que autorizou minha entrada.
            — Mas eu não posso entrar aí, Tales — insisti.
            — Não se preocupe. Já falei com o Nogueira e ele autorizou.
            — Quem é o Nogueira?
            — O chefe da segurança.
            — E por que você mesmo não pega todas as bagagens? Usa um daqueles carrinhos...
           — Tenho muita coisa, Gílson, e são coisas delicadas, frágeis, sabe como é. Tenho medo de quebrar. E com essa crise nem santo está vendendo. Então eu trouxe de volta uns pacotes devolvidos. E agora tem esse transtorno inesperado de revistarem as bagagens... Era para eu ir direto a Salvador; lá não teria problema. Mas não se preocupe com os pacotes e nem com minha bagagem pessoal. Eu só quero que você carregue uma valise verde que tem uma imagem de santa muito frágil e muito valiosa que eu tenho medo que se quebre.
            Na esteira de bagagens só rodavam as do Tales. Ele foi pegando os pacotes, duas malas de couro e ajeitando tudo num carrinho. Só faltava a valise verde que eu peguei, seguindo suas instruções. Depois pusemo-nos numa fila, já pequena, dos que teriam suas bagagens revistadas. Tales acenou para um homem meio gordo, bigode denso bem aparado, que o chamou para que passasse à frente na fila.
            — É o Nogueira. Você fica aí que eu vou levar um papo com ele e ver se já pegaram os traficantes.
         A uns metros de distância vi o próprio Tales abrir um de seus pacotes de onde surgiram Iansans, Pombasgiras, Xangôs, Iemanjás, Trancarruas e outros santos. Insistiu para que o Nogueira aceitasse uma Iemanjá, que, depois de fingidas recusas, acabou pegando e agradecendo comovido. Da mala, debaixo das roupas nada revolvidas, tirou uma guia azul e branca, colocou-a no pescoço do constrangido policial e escondeu-a, delicadamente por dentro da camisa. Apertaram-se efusivamente as mãos e abraçaram-se como velhos amigos. E o Nogueira ainda o ajudou a arrumar os pacotes.
            Quando chegou minha vez, apresentei a valise e pedi que a abrissem com cuidado. De fato, dentro, bem acondicionada numa caixa de madeira, envolta em panos azuis de um tecido macio, talvez seda, havia uma linda estatueta com a imagem de uma Nossa Senhora não sei de quê. O rosto tinha uma expressão beatificada, olhos para o céu, e a cabeça era encimada por uma coroa filigranada de ouro. De ouro me pareceram também os bordados das vestes e os cabelos do anjinho em seu colo. Sem dúvida era uma peça rara e valiosa. Em soslaios o Tales observava a revista, enquanto prosseguia seu papo animado com Nogueira.
            O policial alfandegário que examinava a santa chamou o Nogueira. Sérios, confabularam em voz baixa, olhando para mim. O Nogueira aproximou-se:
            — O senhor queira me acompanhar.
            Olhei para o Tales que sorriu e deu de ombros.
            — Algum problema, seu Nogueira?
            — Como é que você sabe o meu nome?
            — Foi o Tales, meu amigo, que me disse.
            — Ah, o Tales é seu amigo... O Papa também?
            — Não. O Papa eu não conheço.
            — Pois seria bom que conhecesse.
            Ladeado por dois seguranças, segui o Nogueira até uma saleta abafada, em que havia apenas uma cadeira.
            — Tira a roupa e senta!
          Olhei para os lados e para trás, pateticamente procurando alguém que não fosse eu como destinatário da ordem.
            — Não se faça de besta! Tira a roupa!
            — Mas... por quê?
            — Vai tirar ou quer que a gente rasgue!...
            Lívido e constrangido, obedeci. Lembrei-me da prisão política no final da década de sessenta. Só não via o pau-de-arara e a máquina de choque. As roupas coloquei-as no encosto da cadeira, com um capricho digno de elogio de mãe, e sentei-me submisso, coluna reta, cabeça baixa, mãos cobrindo o sexo e pernas cruzadas. Mas uma bofetada levantou-me a cabeça. Uma bolha de indignação, de traumas e ódios recalcados, formou-se na alma, materializou-se no estomago, subiu pelo esôfago, inflou o pulmão e explodiu num grito:
            — Pera aí, porra!
            Ante os olhares descrentes dos policiais, levantei-me blasfemando, enfiei as meias (não sei por que as meias), a cueca e de cueca e meias subi na cadeira e berrei ameaçador:
            — Filho da puta nenhum vai botar outra vez a mão em mim! Quero meu advogado! E juro por Deus e por essa Nossa Senhora não sei de quê, que vou meter todos vocês na cadeia!
            Meu discurso fez certo efeito; percebi que a palavra “advogado” tinha provocado uns olhares de dúvidas. Mas Nogueira contratacou:
            — Quem vai em cana é você, ladrãozinho de merda.
            — Eu? Ladrão? Ladrão de quê?
         — Não se faça de Migué pra cima de mim, não! Por acaso era sua mãe que tava com a santa? Ladrão de santa só merece pau mesmo.
          — Sem essa! — Disse enquanto vestia a camisa já de olho na calça — Eu só estava fazendo um favor a um amigo, o Tales, carregando a maleta que ele...
            — O Tales de novo?
            — Quem é o Tales, Doutor Nogueira?
            — O Tales é um amigo meu, um santo que leva a fé por este Brasil de Deus.
            — O Tales santo? Ele me pôs nesta fria. Me fez sair de casa, enfrentar o trânsito e a chuva pra isto? Esse desgraçado é santo?
            — O que você quer dizer com sair de casa?
            — Chefe... Não tinha nenhum bilhete na roupa dele não...
            — Vai ver ele comeu...
            — Comi o quê?
            — Onde está o seu bilhete?
            — Que bilhete?
            — Não queira me fazer de trouxa...
            A conversa sobre o bilhete de embarque durou todo tempo em que vesti a calça e os sapatos, ainda meio úmidos por andar do estacionamento até o saguão. Em vão eu tentava convencer o Nogueira a chamar o Tales, que ao que parece tinha o corpo fechado, trancado, com a proteção de todas as falanges de exus e orixás. Tales, o intocável, o verdadeiro santo do pau oco. Em meio ao bate-boca alguém bateu à porta. Um dos seguranças abriu a porta, enquanto o Nogueira tentava tampar a minha boca para evitar minhas ameaças. Entre surpreso e indignado, vi o Tales meter a cabeça pelo vão da porta semiaberta e com movimentos do indicador chamar o delegado. Cochicharam uns segundos e saíram. E ficamos eu, os seguranças e a santa, um olhando pro outro, para as paredes, para a santa...
            — Bonita santa, né?
            — Hum, hum...
            — Que santa é?
            — Sei lá, acho que é Santana Mestra...
            — E o anjinho...?
            — Não é anjinho, é a Nossa Senhora.
            — Então a Nossa Senhora não é a Nossa Senhora é o anjinho?
            — É, seu burro. A Santana é a mãe de Nossa Senhora.
            — Pra mim Santana era só um bairro, onde moram a Bel e a Elizete...
            — Quem são essas? Suas cúmplices?
           E o papo furado rolava por aí, quando o Nogueira voltou arfante, seguido pelo Tales. Dirigiu-se a um dos seus ajudantes, mantendo sua pose de chefe:
            — Ô Fernandes... Melhor “limpar” esta sala, que eu vou precisar dela pra coisa mais importante...
            — E o que eu faço com ele?
            (“Ele” era eu).
            — Sei lá, manda “ele” embora. O Tales disse que ele é gente boa.
            — E a santa, chefe?...
            — Pode deixar com o Tales. Ele sabe cuidar.
            — Mas chefe... É objeto roubado...
            — Eu sei, porra! Faz o que eu estou mandando, saco!
          O Tales, que parecia nem notar a minha presença, já acondicionava com carinho a imagem de Santana na valise.
            — Pode deixar, seu Fernandes, eu a devolverei a Santana do Deserto, de onde nunca deveria ter saído.
            Fiquei curioso. Que tramoia ele tinha aprontado desta vez.
            — Que “deserto” é esse, Tales?...
           — Santana do Deserto, caro amigo. Fica em Minas. Quando eu passar por lá, devolvo a Santana ao pároco.
            — Que pároco?
            — Padre Ricardo, um padre nissei, grande amigo meu, grande freguês.
            — Um padre nissei, freguês seu? Ele também é umbandista?
            — Não! Ele é muito católico! Ele quebra uma imagem por missa para combater a Umbanda. Você precisa ver o show que o cara dá! Até eu quase me convenço de que Umbanda é fria...
            Também o Fernandes, o Nogueira e o outro policial prestavam atenção na história do Tales. É que ele tem essa capacidade de atrair a atenção com sua narrativa, qualquer que seja a situação narrada, inventada ou verídica, nem sempre se pode precisar. Mas a abertura brusca da porta interrompe a fala do Tales. E uma moça algemada, em prantos, é empurrada por um policial para dentro em direção à cadeira. Olha para mim apavorada, tenta dizer alguma coisa, mas entra num choro convulsivo. Autoritário, o policial a ameaça e ela se atira em meus braços. O PM berra:
            — Senta aí, sua vaca!
            Com desespero expresso no rosto molhado, ela se senta, encosta-se em mim e me agarra com as mãos algemadas. Sinto a força de seu desespero contaminar minhas partes agarradas e gemo com igual vigor. E todos berram: o PM berra, ela berra e eu berro. O Tales segura a valise com a Santana do Deserto; o Nogueira puxa o revólver; e o Fernandes olha para mim e ri histericamente, como se fosse ele a me torturar.
            Nova abertura brusca da porta me alivia. Mais um PM chama o companheiro para ajudá-lo a prender outro meliante. A mulher me solta e eu me sento no chão ao lado da cadeira. Só o Fernandes ri, como que tomado por um Exu. Mas o Nogueira ordena que ele se cale. Lentamente me levanto e a moça ajoelha-se aos meus pés. Rápido, seguro suas mãos antes que me agarre de novo. Ela soluça:
            — Por... favor... Pelo amor... de Deus!... Por Nossa... Senhora... Explica... Fala... que eu... não sou... quem eles... pensam...
            — Cala a boca, piranha!
            Era o Nogueira.
            — Pi... pi... ranha?!..
            E a moça cai em novo pranto convulsivo. Sinto seu rosto trêmulo em meu baixo ventre. À minha frente, o Tales sorri, maroto, mudando a posição da valise agarrada ao peito. O Nogueira guarda o revólver e me olha enigmático. E o Fernandes volta a rir seu riso baixo astral, murmurando “morde”, “morde”. Procuro delicadamente erguer o rosto da moça e vejo minha calça molhada pelo pranto da infeliz. Como que possuído, o Fernandes não segura uma gargalhada de prazer, aponta o local molhado e recita seu mantra safado:
            — Ele gozou, ele gozou...
            Controlo o constrangimento e olho o rosto lívido e úmido da moça, olhos olhando para nada, dentes mordendo a algema. Então me lembro.
            — Pera aí... Eu conheço essa moça.
           — Ah é? Eu sabia que você era bandido. Meu faro policial não se engana. Pode ir tirando a roupa de novo!
            — Essa não! Só tiro a roupa se meu advogado mandar!
            — Advogado, advogado... Você vê como esses meliantes são espertos, Tales?
            — Calma aí, Nogueira. O Gílson eu conheço. Ponho a minha mão no fogo por ele.
            — Mas ele acabou de confessar que é comparsa da cadela...
            A palavra “cadela” tirou a moça da catatonia e não pude evitar que voltasse a chorar agarrando minha calça. Bem que eu tentava levantá-la, puxando-a pelos braços, mas ela segurava tão firme que era quase impossível. Menos mal que dessa vez apenas ela sofria. Sem deixar de se abraçar à valise, o Tales continuava a conversa com o Nogueira.
            — Vamos pelo menos ouvir a história que eles têm pra contar.
          — Eu já estou de saco cheio de histórias, Tales. Mas se você me pede... Conta aí, cara, de onde você conhece a galinha...
            A palavra “galinha” fez a moça levantar-se e atirar-se num choro lamentoso em meus braços, agarrando com força minha camisa — senti o maço de cigarros esmagar-se e vi voar um botão.
            — Calma, moça, calma, que eu já vou livrar você desta.
            Minha fala pareceu acalmá-la e criou tensa expectativa nos outros.
            — Fala logo!
            — Eu a conheço do táxi.
            — Táxi? Que táxi? E por que ela se agarra em você e não no Fernandes ou no Tales?
            — Chefe... — Era o Fernandes.
            — Não enche o saco, que agora eu tô começando a entender. Táxi aéreo, não é?
            — Não, táxi táxi, um Gol eu acho...
            — Chefe...
            — Que é Fernandes, porra!
            — Não tem bilhete na bolsa dela...
            — Não? E recibo de táxi aéreo?
            — Também não...
            — Vai ver ela comeu...
          — Deixa eu explicar, seu Nogueira. Eu sei que o senhor está tentando fazer seu trabalho da melhor maneira possível, mas se o senhor...
            — Para de me puxar o saco e vai direto na sua história.
            — Não é história, é verdade, embora eu mesmo tenha dificuldade em acreditar...
          Eu ia começar a falar, desde o congestionamento na Marginal, contando agora com acenos afirmativos da moça, mas a porta abriu-se novamente e um sujeito baixinho e atarracado é atirado para dentro da saleta, indo parar no peito do Fernandes que o empurra com violência em direção à parede. Meio zonzo ele escorrega até o chão e de quatro levanta lentamente a cabeça, vai olhando um por um, assustado, até dar com meu rosto penalizado. Suas feições mudam, abre-se num sorriso.
            — Aí, companheiro! Você é bom, hein? Bem melhor que o da polícia...
            — Ora, que é isso... Eu só estava querendo ajudar...
           — Não, meu, que nada. Aquela que você passou entre dois caminhões depois de derrapar com as quatro não é qualquer um que faz não!
            — Eu dei sorte...
            — Sorte nada, meu! Se não fosse você, eu não fazia nem metade do que eu fiz. Mas aí eu pensei: se ele faz, eu faço também, e fui tocando, fui na sua, cara, podes crer! Não é, moça? Eu não falei pra você um monte de vezes que o cara era o máximo?
            Ela assentiu com a cabeça e eu senti seu corpo tremer, como que recordando o pânico que deve ter passado.
            — Você conhece esses dois, seu vagabundo?
           — Que é isso, chefia. Eu não sou vagabundo não. Sou trabalhador. Pergunta pro piloto aí. A gente tava dando uma força pra polícia. Não fosse a gente, os homens não tinham chegado a tempo aqui. É ou não é, companheiro?
            — Também nem tanto...
          — Sem essa de bancar o modesto, companheiro. Precisava ver, chefia, o cara pilota demais! Que Massa que nada. Dirigir em pista qualquer um faz. Queria ver o Massa às seis e meia na Marginal em dia de chuva...
            — Faz sentido, Nogueira. Porque eu telefonei ao Gílson às quinze para as cinco e quinze para seis eu o encontrei no saguão do aeroporto.
            — E onde você estava às quinze para cinco?
            — Eu estava em minha casa, em Higienópolis.
            — O quê?! Você veio de Higienópolis até aqui em uma hora, às seis da tarde, com chuva?
            — Em quarenta e cinco minutos, seu Nogueira, se descontar o tempo que eu demorei pra sair mais o que demorou pra encontrar o Tales...
            — Eu não acredito. Você acredita, Fernandes?
            — O cara deve ser bom no volante...
          — É. Mas tem um monte de perguntas sem respostas aqui. Por que ele estava com a Santana das Areias?
            — Do Deserto, chefe...
            — Que seja. E por que esses dois traficantes que estavam com uma mala de cocaína no carro foram logo se engraçando com ele? E o que tem esse cara a ver com meu amigo Tales, um cidadão acima de qualquer suspeita? E por que ele tinha tanta pressa? Não será para usar o Tales como escudo de seus cambalachos?
            — Meu caro Nogueira...
          Sem diminuir a intensidade do abraço à valise verde, o Tales assume aquele seu ar pomposo de quem vai dizer coisas definitivas. Fiquei aliviado, certo de que ele arrasaria uma a uma as absurdas ponderações daquele Sherlock de Guarulhos.
            — Não há a menor dúvida, amigo Nogueira, de que sua assertiva faz muito sentido, muito sentido mesmo! Precisamos de urgentes respostas a essas questões cruciais, porque me preocupa muito ter dedicado extremosa amizade a um indivíduo sobre quem paire a ignominiosa suspeita de ter-se servido de mim para desrespeitar a lei deste meu amado Brasil. Logo eu, cidadão de fé e cumpridor de meus deveres, que sou incapaz até mesmo de burlar, ainda que minimamente, o imposto de renda! Esclareçamos pois, Nogueira, que me dói a alma a mera suspeição de que eu tenha, ainda que involuntariamente, participado de uma hedionda falcatrua!
          Completamente perplexo ante aquele disparatado discurso, devidamente encerrado com um vigoroso aceno de cabeça que poderia ser traduzido por “tenho dito”, consegui apenas exclamar:
            — Tales!...
           — Você, pelo amor de Santana Mestra, não me dirija a palavra até que se esclareça este “rendez-vous”!
            — Chefe, o que é “randevu”?
            — Cala a boca, Fernandes. Não está vendo que eu estou na iminência de solucionar este intrincado caso?
          O Nogueira andava lentamente de um lado para o outro, cabeça baixa, senho franzido, mãos cruzadas nas costas, qual um Hercule Poirot dos trópicos, a acionar todos os neurônios numa busca determinada de decifrar o ridículo enigma que ele mesmo se propôs. Cada tentativa de intermediação ou de explicação ou mesmo um soluço mais exagerado da moça era prontamente repelido com um autoritário “cala a boca!”. Na sala só se ouviam os rangidos dos sapatos dele. Todos tinham no rosto uma expressão de muda interrogação, menos o Tales, que sorria triunfante, agarrado à valise. Por fim para subitamente; encara um por um dos presentes e num gesto teatral aponta para mim, para a moça e para o taxista:
            — Você, você e você: tirem a roupa!
            A moça entrou novamente em choro convulsivo e se agarrou ao meu braço esquerdo; o motorista protestou, dizendo que não dava para tirar a roupa algemado; e eu, outra vez tomado de divina ira, controlei meus impulsos de voar no pescoço do Tales e carreguei toda minha revolta nas palavras:
            — Tira a roupa você, seu Sherlock de aeroporto! E põe uma camisa de força no lugar! E manda esses seus capangas amarrarem bem forte e o internarem num hospício!
            — Ah!... Agora é desacato à autoridade também!
           — Eu não quero nem saber se você é autoridade ou deixa de ser! Quem não deve não teme. Eu não fico nem mais um minuto nesta merda de sala sem um advogado (acentuei bem a palavra), porque, se tem alguém aqui que está sendo desacatado, esse alguém sou eu!
        Como das outras vezes, a palavra “advogado” desarmou o Nogueira. O Fernandes ria seu riso escroto; a moça tremia, lívida, agarrada ao meu braço; o Tales balançava positivamente a cabeça, como a se deliciar com a confusão que armou; o Nogueira procurava uma frase de efeito, mais contundente que a minha; e o chofer de táxi, sorridente, batia curtas palminhas algemadas, comentando triunfante:
            — Eu não falei que esse cara era porreta? Quem faz o que ele faz no volante não se entrega fácil não! Dá-lhe do volante, dá-lhe duro!
            — Cala a boca, panaca!
          — Pare de nos insultar, Nogueira! Lembre-se de que, se não provar suas acusações, quem vai entrar em fria é você. E chega de papo, que eu vou telefonar pro meu advogado.  O doutor Tiago há de pôr tudo no lugar e o meu lugar não é aqui. — E você: quer largar o meu braço que já está doendo! Larga! Fica fria que o doutor Tiago livra fácil a gente deste rolo.
            Consegui livrar-me das mãos da moça e fui em direção à porta, determinado a ir embora. Mas o outro segurança postou-se de braços abertos, obstruindo minha passagem. Pedi que saísse da minha frente e, como não se movesse, falei para o Nogueira que ele podia mandar seu capanga me acompanhar, que eu precisava consultar uma lista telefônica ou um computador, já que não me lembrava do telefone do Tiago. Só então me dei conta do risco que corria, ao ver a arma dele apontada para minha cabeça. Mas não podia voltar atrás; senti que ele também não. E os longos cinco segundos de silêncio foram interrompidos pela abertura da porta.
           Ladeado por dois PMs entrou um homem de terno, algemado, que parecia ser peruano ou boliviano, com seus traços indígenas. Era jovem e bem vestido. Como parecia ser o modus operandi normal deles, os PMs o empurraram para a cadeira e o preso, ar altivo, olhou para o Nogueira e exigiu:
            — !Quiero mi abogado!
            — Essa não... Outro?...
            O Nogueira pareceu-me sinceramente desconsolado.
            — Quem é esse individuo?
            — !Me llamo Davi y quiero mi abogado!
            — Você cale essa boca que eu não falei com você.
           — Señor Tales. Pidales mi pasaporte y saque el papelito com el telefono de mi abogado. Por favor, señor Tales.
            — Você conhece também este meliante, Tales?
            — Bem... Conheço, né...
            — De onde?
            — De Santa Cruz de La Sierra...
            Todos os olhares convergiam agora para o Tales, que rapidamente se recompôs, segurando firme a santa na valise verde. Com profunda decepção expressa no rosto, o Nogueira finalmente guardou o revólver e num gesto automático levou a mão para dentro da camisa, acariciando com a ponta dos dedos a guia azul e branca que o Tales lhe deu. O desabafo saiu sincero e espontâneo.
            — Meu Deus!... Não se pode confiar em ninguém hoje em dia...
            Recomposto, Tales reagiu indignado:
         — Não estará o amigo pensando que eu... Não! Não posso crer que paire sobre mim outra ignomínia. Eu não quero advogado. Eu quero o testemunho de Deus, de Xangô e de Nossa Senhora, filha de Santana do Deserto! Eu quero que um raio me parta ao meio neste instante se tal perjúrio esteja eu a cometer...
            — Mas o que é que você foi fazer em Santa Cruz de La Sierra, Tales!
            — Meu caro amigo Nogueira. Que faço eu para sobreviver?
            — Até onde eu saiba você vende santos de Umbanda...
           — Pois então! Eu fui lá levar minha fé — porque não me considero um mero vendedor de imagens...
            Aí não pude me conter. Não é possível que alguém consiga convencer um policial com história tão inverossímil:
            — Vender santo de Umbanda em Santa Cruz de La Sierra, Tales! Não vá me dizer que eles veneram Iemanjá na Bolívia...
            — E por que não? É das mais veneradas! Você sabe que os bolivianos têm uma histórica disputa com o Chile para conseguir uma faixa de costa. Eles amam o mar! E você acha que espíritos só existem no Brasil? Lá também tem centro de Umbanda, não tem, Davisito?
            — Por supuesto que si. Sarabá!
            — Sarabá, Hermano.
            — Sarabá?
        — É, eles trocam o v por b; espanhol, você sabe... Tenho bons fregueses na Bolívia. Pagam em dólar... Mas por que os senhores estão prendendo Davisito?
            Reconheci no PM que respondeu um daqueles que estavam com meio corpo para fora da C14.
         — Devemos a prisão deste perigoso traficante a duas pessoas: em primeiro lugar a mim mesmo, graças à minha astucia, que sem ela ninguém teria visto este bandido abandonar a mala no táxi, ao sentir o aparato policial. Percebi tudo, seu olhar muito suspeito, de um lado para o outro, para ver se ninguém observava...
            — ?Yo sospecho? ?Sospecho de qué?
            — Fica quieto, traficante barato!
            — !Quiero mi abogado!
            — Você vai em cana com abodado ou sem abogado. Não me atrapalha! Continuando: prendi esse traficante, o que deve me valer uma promoção e uma citação de mérito, o que, convenhamos, modéstia a parte eu mereço. Mas nada disso seria possível, se não fosse este valoroso homem — e segurou firme meu ombro —. Não fosse ele a abrir caminho no trânsito num momento em que nossa viatura ficou avariada e não teríamos chegado a tempo de participar desta operação e eu não teria presenciado este gringo tentando se livrar da muamba.
            — O táxi era um Gol?
            — Era.
            — Então, se não fosse eu estar com meu Gol, ele não teria posto a mala com a muamba dentro e o futuro cabo aí não teria prendido o traficante, né?
            — Bem... acho que devemos dar algum mérito a você também...
         — E eu? Eu só queria ir para Guarulhos de táxi, porque estava chovendo. E vim parar aqui, com esses homens horríveis me chamando de nomes que nem ouso pronunciar e me mandando ficar nua...
       — Desculpe, moça. A segurança do Aeroporto se encarregará de levá-la à sua casa com todo conforto, bem como ressarci-la de eventuais prejuízos...
            — Tirem essas algemas de meu braço e me deixem ir embora. É só isso que eu quero.
            — Fernandes. Liberte os dois, rápido.
            Liberta, a moça não foi embora. Pegou rapidamente a bolsa de um canto da sala e voltou a segurar meu braço. Sei lá por que eu deveria ser naquele momento, para ela, a única pessoa confiável no mundo. O motorista de táxi esfregou os pulsos visivelmente aliviado e em segundos já parecia em casa:
            — E cadê a muamba, seu Nogueira?
            — Eu não lhe devo satisfações!
          — Mas ela estava no meu táxi, não estava? Então eu tenho direito de ver, ora. Minha nossa... Quando eu contar pra minha mulher tudo que me aconteceu hoje, ela nem vai acreditar!... Mostra a muamba aí, vai, seu Nogueira...
            — Pensando bem, nem eu vi essa muamba... Cadê a mala, Fernandes?
            — Tá lá na sua sala, acho...
            — Quiero mi abogado. Señor Tales, llame mi abogado, por favor!
            — No, señor Davi. Si tu eres mismo um traficante, no tendrás mi beneplácito!
            — O que é “beneplácito”, chefe?
            — Isso não interessa. Vai buscar a mala!
            — E nós? Podemos ir embora?
         — Claro, claro. E nos desculpem. Mas no cumprimento do nosso dever às vezes precisamos ser duros...
            — Nada disso, piloto! Não vamos embora não. Não agora que só está faltando ver a muamba. Eu só vi pacote de coca em noticiário de polícia na televisão. Ao vivo é a primeira vez. Não perco isso por nada.
            — Então você fica...
            — Vai me dizer que você também não está curioso...
         Na verdade eu estava, e muito. Sobretudo queria ver se os policiais tinham engolido a história do Tales, que permanecia agarrado à valise, com cara de quem não tinha nada a ver com aquilo. O boliviano seguia pedindo seu advogado, agora para mim; os policiais contavam suas bravatas numa rodinha no canto da sala, devidamente acompanhados pelo taxista. E eu continuava com a moça pendurada em meu braço e aproveitei para me apresentar. Chamava-se Gabriela e pareceu-me que teve realmente muito prazer em me conhecer. Não demorou muito e Fernandes chegou com a mala, uma mala grande que parecia pesada. Mandou o boliviano levantar-se e a colocou na cadeira. Em instantes um círculo de curiosos formou-se em torno da cadeira. O Nogueira fez suspense:
            — Esta mala é sua?
            — Si, es.
            — E o que tem dentro dela?
            — Abra usted mismo y vea.
            — Cadê a chave?
            — Está em el bolsillo isquierdo de mi pantalon.
            — Cadê o paletó dele?
            — Pantalon é calça, Nogueira.
            — Ah sei... Fernandes, pega a chave e abre a mala.
            A mala foi aberta e mostrou umas roupas masculinas — blusa de lã, camisas, cuecas, pijama, uma calça — todas as peças bem arrumadas e bem passadas. Uma a uma foi sendo tirada por Fernandes, que num inesperado respeito à ordem em que estavam, ia amontoando com cuidado, uma em cima da outra, no chão, ao lado da cadeira. Nem as ordens de Nogueira o apressaram e muito menos os apelos ansiosos do taxista. O boliviano permanecia impassível e resignado. Só o Tales é que me parecia um pouco inquieto. Finalmente, embaixo de uma toalha de banho, surgiu a “muamba”.
            Eram imagens de Umbanda e de Quimbanda — Iemanjás, Pretos Velhos, Exus, e uma inexplicável Nossa Senhora também não sei de quê, hereticamente junto com uma Pomba Gira.
            — Ay está mi muamba, señor.
            Todos se entreolharam e depois olharam para o Tales, que, sem largar a valise, deu de ombros. O boliviano estendeu os braços para que lhe tirassem as algemas. Decepcionado, Nogueira meneava a cabeça. O PM estava branco como a parede.
            — Chefe, vai ver a muamba está dentro dos santos...
            — É. Pode ser. Quebra uma imagem!
            — Qual?
            — Qualquer uma, sei lá... Um Exu.
            — Alto lá, Nogueira. Não faça isso!
            — Por que não, Tales? É meu dever.
            — Não posso permitir tal desfaçatez.
            — Quebra sim! Isso pode valer minha promoção. Deixa que eu quebro!
           — O amigo é que sabe... Mas antes pense bem se uma miserável promoçãozinha vale o resto da vida de azar que vai ter. Isso, se sua vida durar muito...
            O PM vacilou com uma Iemanjá já à altura da cabeça. Mas o Fernandes não vacilou: colocou com cuidado o Preto Velho de volta na mala.
            — Desculpe-me, caro Nogueira. Mas não posso deixar que sua brilhante carreira de paladino da lei, da justiça e da ordem pública seja, por um involuntário gesto de desrespeito às leis do além, irremediavelmente derrubada, quiçá à custa de sua própria vida, o que, bem sei, traria profundas mágoas àqueles que o amam — suas mulheres, seus filhos e seus amigos, dentre os quais humildemente me incluo!
            Na medida em que o ardoroso discurso do Tales evoluía, o PM ia lentamente baixando a Iemanjá e, no final, a estatueta de uns trinta centímetros estava à altura de seu peito e ele a olhava perplexo. Teve um tremor de susto quando o Tales lhe dirigiu a palavra:
            — E tu, valoroso soldado! Que sabes tu dos imperscrutáveis desígnios divinos? Quem sabe este affaire não será um aviso desta santa que empunhas, agora com o devido respeito, para que de incréu passe a ser seu servidor e recebas em troca as benesses da fé que te farão não um simples cabo, mas um futuro e garboso tenente ou capitão. Tende fé, irmão, creia nela, em vez de agredi-la com a sandice de um momento intempestivo!
            Ao término desse arremedo de discurso sacro, digno de um desses pastores dessas discutíveis igrejas de periferia, sempre com o gesto de cabeça como se fosse um “tenho dito”, o PM segurava a Iemanjá junto ao peito com o mesmo cuidado e fervor com que o Tales segurava a valise verde, e um silêncio meditabundo e inquieto fez-se no recinto. Decidi provocar aquele pregador barato, não porque quisesse envolvê-lo em maus lençóis, mas só para testar sua incrível capacidade de resolver contradições e desdizer-se sem parecer um mentiroso.
            — Mas Tales, você não disse que o padre nissei quebrava estátuas? E não são as mesmas que você vende?
        Ele me fuzilou com o olhar, como se me dissesse “por esta você me paga!”, mas não perdeu a compostura. Enquanto respirava fundo e meneava a cabeça, simulando enfado, olhares interrogativos dos presentes reforçavam com vigor minhas perguntas. Óbvio, o Nogueira sentiu a necessidade de retomar seu papel de detetive e refez as perguntas.
            — Isso mesmo. Você afirmou que o Padre de Santana das Areias...
            — Do deserto, chefe...
           — Que seja. Esse padre aí compra suas imagens para quebrá-las à frente dos fiéis. Por que ele pode e nós não?
         — Oh corja de infiéis! Com que então vocês querem comparar os desideratos do nobre padre Ricardo de Santana do Deserto, padre, aliás, a quem terei a subida honra de entregar a Santa que agora cinjo ao peito, querem comparar, eu dizia, um ato de fé, merecedor de todo respeito, porque cada caco, cada caquinho que o sacristão varre humildemente depois, simbolicamente vai se juntando a outros cacos, aos milhares, para compor o monumental mural, qual Siqueiros redivivo, o mural da fé em Santana do Deserto. Querem comparar tal fervor iconoclástico com um gesto tresloucado, um gesto patarata, eu diria, de quebrar estas imagens bentas em sete terreiros da Bahia?
            — Sete, seu Tales?
        — Sete sim, Fernandes. Sete, número mágico da Cabala hebraica e de todas as fés, da mística pitagórica e do oriental Tao. Mas deixemos de vãs tergiversações. Se de mim duvidam, continuem com o vandalismo. Vamos, quebrem não uma, mas todas as imagens. Só que depois não venham dizer que não foram avisados — se é que conseguirão ter voz para dizer alguma coisa...
          O PM colocou de volta a estatueta de barro cozido como se fosse de cristal e afastou-se da mala persignando-se. Finalmente Tales soltou o braço esquerdo da valise, estendeu-o para frente, mas não disse “heil Hitler!”; exclamou enfático:
            — Saravá!
            E todos, menos eu, que a custo segurava o riso, responderam em coro:
            — Saravá!
         Sem muita convicção o Nogueira decidiu desincumbir-se da última pergunta que seu destroçado detetive interior ainda formulava:
            — Mas o que faz este boliviano de Santa Cruz de La Sierra com uma mala de santos de Umbanda em São Paulo?
            — Não sei. Pergunte a ele, caro Nogueira.
            — Gracias, señor, por dejarme hablar.
            O boliviano foi até a mala e pegou um dos santos.
            — ?Ves, señor? Hay pequeños defechos em los santos. ?Lo ves?
            — Não, não vejo nada...
            — Acá, señor, bajo los pies. Hay defechos...
            — É. Parece que alguém abriu um buraco e depois tampou...
            — Si. Son los defechos.
        — Às vezes acontecem esses pequenos defeitos de fabricação, meu caro Nogueira. Mas damos garantia integral dos nossos produtos. Nem para o padre Ricardo que vai quebrar os santos enviamos imagens defeituosas.
            — Mas por que você não despachou as imagens?
            — Bien...
            — Sabe o que é, Nogueira... A Todos os Santos & Cia. Ltda., prestigiosa empresa da qual tenho a subida honra de ser representante para o Brasil e exterior, além de diretor presidente, cargo a que cheguei com muito suor e, modéstia à parte, competência, a Todos os Santos & Cia. Ltda., como dizia, exige a presença do freguês junto às eventuais imagens defeituosas. Caso verifiquemos que a falha foi nossa — como me parece na presente situação —, nós não só trocamos as imagens como também arcamos com todas as despesas de viagem e estadia do portador. Faz parte do nosso marketing, entende? Assim podemos mostrar nossa linha de produção, bem como as inenarráveis belezas da Bahia...
            — Parece que, a julgar pelo tanto de imagens que ele traz, vocês devem ter muito prejuízo...
            — Não, não! Isso é incomum, embora ocorra. Mas também, Nogueira, convenhamos: ninguém olha pé de santo, né? Esses bolivianos são muito exigentes!...
            — Acontece muito?
            — Com os bolivianos sim. Quase todo mês recebo uma devolução de santos.
            — E é sempre o pé?
            — Sempre o pé...
            — E por que ele está aqui em São Paulo e não na Bahia?
            — No hay vuelos de Santa Cruz para Salbador, señor...
            — É... Foi pura coincidência nos encontrarmos aqui, não é Davisito?
            — Si, verdad, señor Tales, um agreable acaso.
            — Amanhã vou levá-lo ao Pelourinho e à Igreja do Senhor do Bonfim.
            — !Qué rico! Llevaré muchas fititas para Santa Cruz. Los bolivianos las aman.
            — Sim, muchas fititas, amigo.
            — Como você não vai à falência sustentando um boliviano por mês?
            — Ah... Não só não tenho prejuízo, como tenho lucros! Aliás, não só eu, a Bahia inteira!
            — Não entendi...
            — A verdadeira riqueza da Bahia não é a petroquímica, não é o coco, não é o cacau. A verdadeira riqueza são seus mistérios e seu povo. Os mistérios fazem as religiões e o povo faz a música e a dança. As religiões e a dança atraem os turistas e os turistas trazem riquezas. Daí eu ter conseguido um acordo com a Secretaria de Turismo da Bahia, que arca com as despesas de estadia e de viagem, mas não com as de alimentação, passeios e diversões. Claro, esse turista se multiplica e leva seus familiares, seus amigos. É um investimento, digamos assim, do qual o governador insiste em dar-me pequena porcentagem, apesar de minha insistência em afirmar que faço isso com total desinteresse pessoal, mas o governador repele minhas recusas...
            — Você conhece o governador?
          — Grande amigo meu! Somos ambos filhos de Xangô. Aliás, Nogueira, você desde já está convidado a passar uns dias lá, no hotel de sua preferência, você e a acompanhante que quiser levar. E se não quiser levar nenhuma, deixe tudo por minha conta...
            — Ora, que é isso, Tales...
            — Isso é o mínimo que eu posso fazer pelo amigo.
         — Fernandes, arruma a mala do moço. Vamos mostrar que paulista também trata bem os seus turistas.
            — Chefe; e os trinta quilos de coca pura que a Interpol garantiu que chegaria hoje da Bolívia?
            — Acho que passou por nós, Fernandes, infelizmente...  
            O PM pediu a Iemanjá que ia quebrar, mas o Tales convenceu-o de que aquela era defeituosa e levou-o até sua bagagem para presentear-lhe com uma perfeita, embora um pouco menor, “mais portátil”, segundo suas palavras. Depois foram todos para o gabinete do Nogueira beber um uísque, “oferta da casa”. Menos eu, que o Tales incumbiu de cuidar de sua bagagem (com exceção da maleta verde) e Gabriela, que não largou mais o meu braço, nem quando fui tomar um café e comprar cigarros desamassados. Só soltou meu dormente braço esquerdo quando a vontade de ir ao banheiro tornou-se inevitável, mas não sem antes me fazer jurar por todos os santos que a esperaria na porta. Foi nesse momento que o Tales chegou, como sempre sorrateiro, por trás.
            — Tales, você não existe! Como é que consegue engambelar as pessoas desse jeito?
        — Caro amigo: as pessoas gostam de se sentirem boas, gostam de presentes, gostam de se ser prestativas. Veja você: não fez o impossível para chegar até aqui?
            — Seu canalha! Se eu soubesse que você ia me meter nesse rolo...
            — Que é isso! Veja pelo lado bom. Você ganhou aquela morena de coxas roliças, por exemplo.
            — Que morena? Que coxas?
            — Vai me dizer que nem reparou naquela mulher...
            — Eu não. Tinha outras preocupações, preocupações, aliás...
          — Que se acabaram. Comigo ninguém tem preocupações. E você está convidado para ir quando quiser à minha casa. Nem se preocupe com a passagem. Basta me avisar que eu mando. A Sílvia ficaria felicíssima em revê-lo.
            — E você arruma um hotel para mim, naquele cambalacho com o governador, não é?
            — Não, caro amigo, minha casa mesmo. Tenho uma mansão em Itapoã, linda, você vai gostar.
            — Mansão? Mas você era um duro!
            — Tem razão, eu era. Mas com o suor do meu trabalho pude construir um pequeno patrimônio...
            — Suor, Tales?
            — Digamos assim. E com um pouco de sorte e a ajuda de Deus.
            — Para com essa demagogia, que eu não tenho medo de quebrar seus santos.
            — Olha, a moça já vem vindo. Dá cá um abraço e obrigado por sua inestimável ajuda, amigo.
            — Não estou muito convencido de que seja boa coisa essa ajuda...
            Despedimo-nos. Antes que se afastasse, quis matar uma derradeira curiosidade.
            — E a Santana do Deserto, Tales; você vai devolver?
            Ele virou-se para trás, mãos presas no carrinho de malas, deu um sorriso e respondeu seco:
            — A Santana Mestra? Mas é claro que não!


         Tentei, depois de muito refletir, denunciar à polícia o “sacro” esquema de tráfico de que fui testemunha. Mas deu em nada. Meses depois, Tales passou por São Paulo e fez questão de me pagar um jantar num restaurante caro, mesmo eu lhe contando de minhas tentativas de denunciá-lo. Ele só sorriu e comentou: “Gílson, você não aprende mesmo...” e contou-me de seus planos de levar a fé dos terreiros para outros países. “Em negócios é preciso sempre crescer”, filosofou. Deu-me notícias do Nogueira, que continua no aeroporto garantindo que as imagens defeituosas da Bolívia, da Colômbia e do Peru cheguem intactas a seus destinos. E o tal PM da Iemanjá, depois de passar uns dias em Salvador, a convite do Tales, virou Pai de Santo na zona leste, com o terreiro inteirinho financiado por ele. E ainda teve a cara de pau de me convidar para ajudá-lo no negócio de arte sacra, por que ele não estava dando conta de fazer tudo. Obviamente recusei.
            Na verdade repudio tudo daquele diabólico dia. Só continuei aceitando, de bom grado, as atenções da Gabriela, que agora me agarra sem me machucar... 

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