MARCÍLIO - OU O VIVER


            Os alunos redigiam absortos. Só uma ou outra conversa em tom baixo, logo reprimida por psius ou olhares de reprovação, e os desatentos sentiam-se em poucos momentos estranhos na classe, esforçando-se por retomar o trabalho. Nem havia necessidade de que eu interviesse. Logo começaram a entregar os textos, sempre fazendo um comentário qualquer: sobre a proposta de exercício, sobre a própria redação ou sobre a próxima atividade. José Luis aproximou-se de cara amarrada; colocou a folha redigida sobre as que já haviam sido entregues e resmungou:
            — Ele é um chato!
            Perguntei a ele o que o irritava e em voz baixa começou a arrolar muitas reclamações sobre o Henrique, o colega que se sentava a seu lado: que o perturbava, que tinha umas brincadeiras sem graça, que lhe “enchia o saco”, enfim. Sorrindo, ouvi, esperando que terminasse para retomar a leitura de um trabalho de aluno. Mas ele concluiu perguntando o que fazia para se livrar do “pentelho”. E não era uma questão retórica. Havia em seu olhar uma sincera expectativa de que eu lhe desse uma resposta satisfatória — um jeito de filho que pergunta ao pai como resolver um impasse. Lentamente recolhi o sorriso, baixei os olhos, e me veio forte a lembrança de Marcílio. Perguntei:
            — Será que não é você que é chato?
            Ante o esforço defensivo para justificar-se, interrompi suas argumentações e deixei que a lembrança e a saudade me impregnassem, contando sobre minha adolescência e a semelhança com a situação que ele vivia.
            Nossa memória é povoada de fantasmas — a minha é. Assim, pessoas, objetos, situações são entidades viventes, ativas na existência, como se não houvesse passado. Acontece-me isto nas reiterações dos fatos e dos sonhos, de voltarem com perturbadora presença essas revivências. E então me reapaixono por uma antiga namorada, sofro velhos sofrimentos, reacendo ausentes amizades — e me frustro ante a impossibilidade de retê-los. Não há como re-ter. Por isso me escudo do passado, recuso revivências, evito saudosismos e dispenso nostalgias. O passado é o tempo que mais pesa, como, na fogueira, a lenha. E estar aqui e agora — hic et nunc — como cada palavra, carregado de minha história e das memórias todas, são crônicas de mim mesmo, matéria prima do ser e do porvir. Mas eu falava do Marcílio.
            Sim, ele era um chato. Era dessas pessoas que vão convivendo conosco e a cada dia somam à sua imagem a lembrança da sensação de transmitir uma carga negativa de energia, até se tornarem profundamente insuportáveis. Como todo bom adolescente eu tinha a minha turma e ele, lamentavelmente, fazia parte dela. Não éramos agressivos, pelo contrário. Mas o Marcílio era tão inconveniente, tão impregnado das partículas de ch, de que fala Guilherme de Figueiredo no seu “Tratado Geral dos Chatos”, que começamos a evitá-lo; a princípio com discrição, marcando encontros às escondidas (dele); depois essa fuga ao chato passou a ser ostensiva, a ponto de sairmos correndo pela cidade assim que o víamos. Americana era então uma cidade pequena e não havia muito onde nos escondermos, ainda mais à noite, que nós, aprendizes dos boêmios em que nos transformaríamos, povoávamos com nossa presença insólita. Inútil dizer a ele: “você é um chato, não queremos saber de você” ou outras frases do tipo, que insultariam e humilhariam qualquer pessoa normal. Não ele, que sempre tinha uma evasiva, respondendo com sua ironia chata que sabia que não éramos sinceros ou que isso não tinha importância e que nos oferecia a outra face.
            Quando viemos para São Paulo, cursar uma Faculdade, livramo-nos por algum tempo dele, por um ano e meio. Mas um dia ele apareceu e, diante de nossa perplexidade, anunciou solene no meio da sala do apartamento em que morávamos:
            — Oi turma, eu vim morar com vocês.
            Mostramos com ênfase a óbvia impossibilidade de mais alguém morar naquela superpovoada república e custou muita conversa convencê-lo a procurar uma pensão. Só aceitou quando nos comprometemos a encontrar um lugar para ele ficar, o que fizemos logo a seguir, telefonando para um colega de faculdade que morava numa pensão na Liberdade (nunca fomos perdoados pelo colega por isso). Mas ele vinha quase todos os dias nos “visitar”, quando não aparecia na Faculdade, entrando nas aulas, se metendo nas discussões e participando das assembleias. Nessa época decidiu que iria fazer Ciências Sociais, como dois amigos meus, e por conta disso, antes mesmo de prestar vestibular, frequentava as aulas regulares do curso, para desespero dos professores e alunos.
            E essas novas facetas do Marcílio nos levaram a compreendê-lo. Claro, não foi de imediato. De surpresa em surpresa fomos construindo a única lógica possível capaz de explicá-lo. Em pouco tempo ele agia e argumentava como um sociólogo (chato), discutindo Weber e Durkheim tal qual um expert, ainda que não tivesse lido nada mais do que alguns poucos artigos, meia dúzia de capítulos e uma porção de orelhas de livros. Meses depois, expulso do curso de Ciências Sociais, começou a frequentar o de Filosofia. E lá estava ele, em algumas semanas, como se fosse um filosofo, com cabelos longos e desgrenhados, uma barbicha ridícula e os óculos na ponta do nariz adunco, discutindo Espinosa, Sartre e Platão, formulando uma estranha teoria que os aproximava de Marx.
            Formou então outros círculos de “amizades”, que tinham em comum a mesma rejeição por ele. E em todos pontificava com seu jeito autossuficiente, como se cada um dos interesses de cada grupo fosse o central de sua vida. Assim, era exacerbado militante de um partido clandestino de extrema esquerda, um dedicado participante de um grupo de teatro, um amigo de um grupo de sambistas que se reunia nos fins de noite numa boate da Galeria Metrópole, um filosofo, um sociólogo, um psicólogo (em função dos interesses de uma namorada que arrumou), um teórico da Literatura (quando conversava comigo) — em todas as atividades um chato de galocha, que suportávamos por razões que um dia resolvemos investigar.
            E foi uma situação específica que nos permitiu entendê-lo definitivamente. Eu e o Zé Roberto fomos assistir à estreia de uma peça teatral de um grupo estudantil do qual tínhamos participado até o ano anterior. Claro, o Marcílio convidou-se e nos acompanhou, como se fôssemos nós seus convidados. A frente do teatro estava cheia de convidados e no horário marcado ainda não haviam sido abertas as portas de entrada. E nós, porque já tínhamos vivido aquela situação, sentíamos a inquietação do público e comentávamos sobre as tensões das estreias e o estado de excitação em que deveria estar o elenco. Antes que o segurássemos, o Marcílio decidiu ir saber qual era o motivo do atraso. Sumiu na multidão, enquanto eu e o Zé Roberto observávamos, através das portas de vidro do saguão, o corre-corre apressado de atores e diretores do grupo: o diretor arranjava o cesto com os programas que seriam vendidos; o cenógrafo ajeitava os painéis distribuídos pelo saguão; vários atores apareciam, olhavam o público aglomerado do lado de fora e voltavam para a sala, de onde tinham saído. E então vimos, preocupado e tenso como todos, aparecer o Marcílio com mais programas, auxiliando o diretor, com quem conversava a sério e com gestos intensos.
            Rimos e o Zé Roberto comentou que aquela era uma imagem típica dele. Pela primeira vez entendemos claramente seu jeito camaleônico de ser, como se fosse um ente vazio que se impregnasse do ambiente em que estava. Nessa época Woody Allen não havia feito Zellig — aliás, não havia feito filme algum. Mas nós convivíamos com uma personagem parecida, um estranho ser profundamente despersonalizado, sem princípios, sem desespero, sem perspectivas (ou com todas e quaisquer perspectivas). Naquele momento ele poderia estar do lado de fora e fazer coro com os que já começavam a reclamar da demora do início da peça; ou poderia estar dentro, como estava, e impregnar-se das preocupações de atores e diretores. E poderia estar em qualquer lugar do mundo, sendo qualquer um, e em todo lugar seria verdadeiramente nenhum. Ele não era, radicalmente, ninguém; e nisso estava seu ser. Inevitável a conclusão:
            — Zé Roberto, nós somos uns chatos! Uns puta chatos...
            Desse dia em diante, passamos a ver de modo diferente Marcílio, que meses depois veio morar conosco. Era nosso espelho, o alter-ego de nossas preocupações, de nosso humor e incertezas. Somatória de nossas amizades, transformou-se num ser fascinante, criativo e divertido, ampliando aquela fase que vivíamos. Ele nos devolvia o que projetávamos nele, como sempre fez. E como se fosse uma imagem extremada de nossas buscas sentimentais, casou-se, após um namoro de algumas semanas, suficientes para provocar aquela paixão fulminante em Laura, uma estudante de Química que tinha conhecido. Na verdade ela casou-se com ele, decidida a não perdê-lo. Acredito que ele nunca questionou seriamente seu casamento, nem o verdadeiro sentido dos filhos que tiveram depois. Jamais teve um emprego que durasse mais que alguns meses, sempre atraído por outra atividade, para ele igualmente importante.
            — O que vocês estão conversando aí?
            Diferente dos outros alunos que entregavam discretamente suas redações, Henrique foi logo se imiscuindo na conversa. José Luis respondeu rápido, olhando-me com cumplicidade:
            — Nada que lhe interesse. Vamos sair que eu lhe pago um cafezinho.
            Disse isso colocando o braço esquerdo sobre o ombro do colega, que se perturbou ligeiramente com o inesperado gesto de cordialidade. Mas seus olhos brilharam e um contido sorriso que parecia brotar do fundo da alma encheu seu rosto de uma expressão nova, que desarranjava as feições normais do chato, sua marca mais comum. Timidamente despediu-se de mim e meio sem jeito correspondeu ao gesto afetuoso do amigo, agradecendo o convite com humildade tocante. Eu os vi sair, imerso em meu próprio olhar, até me perder no imenso vazio da sala em que os últimos alunos, compenetrados, terminavam seus textos. Dentro de mim um espaço maior ainda, feito desses ecos e lembranças que sempre afloram descontrolados. Invadiu-me a saudade de Marcílio.
            Tampos depois ele voltou para o interior, de onde, vez ou outra, eu tinha alguma informação sobre sua sempre indefinida vida. Soube que foi vendedor de imóveis, devoto de uma seita amazônica que cultua uma bebida alucinógena, assessor político de um candidato a deputado, chofer de táxi, traficante de drogas, empregado numa empresa multinacional... E a última notícia que tive dele foi que havia sido demitido dessa empresa, onde ocupava um cargo de chefia, depois que faltou uma semana para acompanhar uma banda de rock numa excursão, fazendo o trabalho de iluminação. Já estava separado de Laura e estou certo de que foi ela que se separou dele, porque Marcílio jamais veria motivo suficientemente forte para abalar sua condição de marido, ainda que ele tivesse uma ou outra amante, como sempre teve. E também com toda certeza deve ter aceitado tranquilamente o descasamento, substituindo Laura por qualquer coisa que lhe passou por perto na época.
            Não sei o que anda fazendo agora. Quem sabe não se filiou a alguma religião e se transformou em pregador, enchendo de inúteis esperanças centenas de humilhados sofredores deste mundo. Ou virou agricultor e anda empenhado na pesquisa de um utópico alimento capaz de acabar com a fome. Não estará buscando ouro num garimpo da Amazônia? Será um músico? Um operário? Um vendedor? Um gigolô? Tomara esteja convivendo com pessoas que o preencham da dignidade que sua pureza merece. Só espero que não me procure agora, neste momento de minha vida. Ele seria um chato. 

3 comentários :

  1. Tarefa árdua a de não culpar os outros por aborrecimentos que são nossos. Gostei da forma como o texto me lembrou disso.

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  2. Meu amigo, Renato Limão e eu estamos com um projeto de reeditar um fanzine chamado "Não Funciona". Gostariamos de publicar sua crônica
    "A Feijoada e o Sonho". O fanzine terá distribuição gratuíta então o fim será apenas de divulgação. Se for do seu interesse e nos autorizar a publicar a sua crônica, envie também uma mini-biografia. Meu contato alceuvitorpx@gmail.com --- Alceu.

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  3. Muito interessante o Marcilio, foi muito bom conhecer um pouco sobre seu amigo, olhe, eu não acho que ele é um chato! risos

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