OLHOS SECRETOS



         É impossível conhecer São Paulo. Nem mesmo os choferes de táxi, acredito, têm completo domínio da cidade. Duvido que até os prefeitos, que têm que conhecê-la por um dever de ofício e por imposição das campanhas eleitorais, tenham noção das verdadeiras dimensões deste monstro urbano, desorganizado nos seus bairros, vilas, recantos, guetos e becos. Sempre me pareceu um milagre que as pessoas consigam se identificar com a cidade, tal a já decantada multiplicidade de seus aspectos.
            A sensação que tive ao me mudar para cá, vindo do interior para estudar, foi a de perda de identidade. E olha que a cidade era bem menor naquela época... Misturado anonimamente ao turbilhão de gente que andava quase correndo pelas calçadas, desde a rodoviária, via tudo excessivamente exagerado: gente, carros, prédios e ruas. Quantas ruas, meu Deus! Depois, além da identidade, eu me perdi sem metáforas. E foram muitas vezes, sempre dependente das informações que, envergonhado, me via obrigado a pedir, para achar os caminhos de casa, do trabalho, do cinema, da escola, da vida. Certa tarde perdi-me na Praça da República, sem atinar para que lado estava a Avenida São João (que fica a um quarteirão, como qualquer paulistano sabe), e então tomei duas sábias decisões: comprei um guia da cidade e passei a fazer constantes viagens no ônibus Circular Avenidas que percorria as principais avenidas periféricas do centro. Pretendia ter um referencial, a partir do qual iria explorando os bairros, até dominar este labirinto que é São Paulo.
            Mas minha certeza da impossibilidade de conhecer esta cidade veio uns três anos depois, quando me arranjaram um “bico” na pesquisa que se fazia na época para a construção do metrô. Ganhava por entrevista que marcava para os pesquisadores da equipe que eu coordenava — que me pressionava para que eu andasse desvairadamente de Vila Sônia a Tremembé, de Vila Talarico a Mangalô, comendo poeira ou amassando barro pelas adjacências dos bairros mais distantes do centro, confusos grupamentos de casas e barracos surgidos dos milhares de loteamentos clandestinos que esta cidade tem. Ninguém, absolutamente ninguém, pode conhecer todas as ruas “A” ou as “1” que existem em São Paulo. Agora mesmo, em pranchetas mal ajambradas de imobiliárias da periferia, podem estar surgindo umas duas ou três, que em alguns anos talvez estejam desenhadas nos mapas da cidade. Por isso eu posso afirmar, com a convicção de quem andou pelos mais recônditos mocós desta mega-urbe, que é impossível conhecê-la inteiramente.
            Quando Mônica me convidou para a festa de aniversário, pedi que anotasse o endereço na capa do talão de cheques, único papel que eu tinha disponível naquele momento. Estávamos num intervalo de aula, em meio à algazarra dos alunos, e senti seu empenho para que eu fosse. “Claro, Mônica. Vou sim” — disse-lhe contente com o convite, porque Mônica era dessas alunas arredias, que custam a assumir a cumplicidade que meu trabalho suscita. Iria comemorar os dezoito anos muitíssimo bem distribuídos no seu bonito corpo moreno, que pela primeira vez se aproximava de mim carregando um olhar amigo. Na festa poderia ficar mais próximo dela e de seus colegas de classe, que certamente estariam entre os convidados. É, seria um sábado bom, fora da rotina dos cinemas e dos papos de bar, junto a pessoas diferentes do normal dos meus fins de semana.
            Mas entendi o jeito defensivo de Mônica ao ler o endereço. Eu conhecia a Rua Benta Nogueira desde meus tempos de pesquisador do metrô. Como poderia esquecer meu corpo estatelado no barro daquela ladeira? Maldisse até a décima geração dessa Benta Nogueira, seja lá quem tenha sido a infeliz que se transformou em nome daquele atoleiro da Vila Nova Cachoeirinha. Por certo já estaria asfaltada, mas ainda permanecia no mesmo lugar, uma baixada de casas tristes e gente pobre. Normalmente os alunos da periferia têm um ranço de inferioridade ante os professores de cursinho, como eu era. Aos poucos a proximidade do trabalho mostrava-lhes a inconsistência dessa atitude. Parece que era isso que tinha acontecido com ela.
            Mas São Paulo não se conhece, mesmo quando se conhece. Os dez anos que me separavam do tombo da primeira visita tinham modificado completamente o lugar. Agora a rua Benta Nogueira, que antes iniciava seu lodaçal numa rua cheia de poças de água barrenta, era uma ladeira asfaltada e larga, que começava numa avenida movimentada, ladeada de prédios e casas comerciais. Aproveitei o sinal vermelho do semáforo para me localizar. Rapidamente olhei o endereço rascunhado no talão de cheques com caligrafia insegura e só então me preocupei em verificar o número, que me pareceu à primeira vista 125, mas poderia ser 225 ou 725. Só que não havia 125 na rua; tentei o seguinte, que ficava perto de uma esquina onde havia uma dessas padarias de bairro, com seu sempre movimentado bar.
            O 225 era uma casa do tipo muito comum na periferia, que através dos anos, traduzindo o sucesso profissional de seu dono, vai passando por sucessivas reformas, com modificações de fachada, inclusão de uma garagem, troca das grades e janelas, até se transformar numa miscelânea arquitetônica de gosto sempre discutível. E era dessas casas construídas em ladeira, que com a urbanização acabam ficando abaixo do nível da rua. Estava às escuras. Mas havia uma entrada lateral que dava para os fundos, de onde vinha um alarido de festa, de trás de uma porta fechada. Decidi ir até a padaria confirmar. Certamente conheceriam a Mônica; quem ignoraria uma moça bonita como ela...
            Encostei-me ao balcão, pedi um cafezinho e perguntei sobre a festa ao rapaz franzino que me atendeu.
            — Eu não sei nada não. Pergunta pro patrão.
            Ao pagar, no caixa, refiz a pergunta:
            — O senhor sabe se ali no 225 está tendo uma festa?
            — Eu não sei de nada não, moço. Não sei de festa nenhuma.
            O homem parecia assustado com minha pergunta. Intrigado, insisti:
            — Mas é logo ali. Certamente eles devem ter comprado as bebidas aqui. Que tem festa tem, eu ouvi o barulho. Eu só queria confirmar se é a festa que estou procurando.
            — Se tem ou não tem, eu não sei; você que está dizendo. Eu não sei de nada. Eu só cuido do meu negócio.
            Falava comigo olhando para os lados, num tom alto, como se quisesse que dois homens que bebericavam cachaça ouvissem. E um deles, um mulato esguio e bem vestido, com um cordão de ouro reluzindo no pescoço e a camisa de seda vermelha bem passada e aberta nos dois primeiros botões do peito, aproximou-se e perguntou para o homem:
            — O que é que ele quer?
            — Ele perguntou de uma festa e eu disse que não sei de festa nenhuma.
            Visivelmente tenso, o dono da padaria dirigiu-se para um armário do lado oposto, fingindo arrumar os pacotes de cigarros que guardava estocados. O mulato me encarou com jeito de quem puxa briga:
            — Por que você quer saber da festa?
            — Bem... é que eu fui convidado...
            — Cadê o convite?
            — Que convite?
            — Cê disse que foi convidado. Cadê o convite?
            — Ela não me deu nenhum convite. Só o endereço.
            — Ela quem?
            — A Mônica. Foi ela quem me convidou.
            — Mônica? Cê conhece a Mônica?
            — Claro que conheço! Ela...
            — Péra aí. Palito, vem cá!
            O outro pousou o copinho de pinga no balcão e veio devagar, com cara de lutador de boxe que ouve a preleção do árbitro, sem tirar os olhos do adversário. De elegância discutível, trajava um terno creme, uma camisa bordô e uma gravata espalhafatosa florida. E a poucos passos de mim desabotoou o paletó, puxou a calça e antes de abotoar novamente abriu com as duas mãos ostensivamente o paletó, provavelmente para que eu visse o que me pareceu ser uma arma na cintura. O tal Palito estava mais para Mourão. Mais de um metro e oitenta de altura, uns vinte e cinco anos, pele clara, com umas entradas nos cabelos quase loiros anunciando a futura calvície. O bigodinho aparado lhe dava um ar de dançarino de tango misturado com um tipo coadjuvante de gangster de filme B. Olhando-me de cima, encarou-me e perguntou:
            — Qual é a bronca?
            — É que eu...
            — Cala a boca que eu não estou falando com você.
            — O cara disse que veio pra festa.
            — Cadê o convite?
            — Eu já disse...
            — Cala a boca!
            — Disse que a Mônica convidou.
            — Cê conhece a Mônica?
            — ...
            — Agora tô falando com você. Cê conhece a Mônica?
           — Claro. Se não, como eu viria até aqui? Se bem que não sei... Talvez seja melhor eu não ir... Se eu não sou bem vindo, tudo bem, depois eu falo com ela...
            — Melhor a gente ver isso. Vem.
            Em silêncio acompanhei o mulato, enquanto Palito seguia atrás de mim, mão enfiada dentro do paletó. Descemos a rampa da entrada lateral, um corredor de uns vinte metros que terminava numa porta marrom. De dentro vinha um som de samba de pagode e o alarido abafado de uma festa animada. O mulato bateu com os nós dos dedos três vezes, depois duas vezes mais lento e por fim três vezes rápido, como se fosse um código. Sem demora a porta se abriu e liberou todo o volume de um conjunto musical que cantava um samba, das risadas soltas e da barulheira toda que se escondia antes.
            Impressionantes as surpresas que a construção civil de São Paulo nos reserva, especialmente nos cortiços, nas favelas e nessas casas de bairro. Jamais poderia supor que atrás daquela casa visualmente soterrada se ocultava um salão daqueles. A porta se abria para uma entradinha em nível superior, cercada por corrimãos de ferro e meia dúzia de degraus à direita levavam para o salão que tinha ao fundo um palco improvisado, um tablado a um metro do chão, onde um conjunto de uns dez componentes executava afinado um samba-enredo, enquanto uma centena de pessoas dançava, conversava em rodinhas, observava ou circulava pelo salão.
            — Quem é esse aí?
            — Não sei. Disse que veio pra festa.
            — Cadê o convite?
            — Disse que não tem.
            Quem interrogava o mulato de camisa de seda vermelha era um negrão de quase dois metros de altura por outro tanto de largura, um “guarda-roupa”, como se costuma dizer. A cabeça raspada numa careca reluzente acentuava os traços fisionômicos, uma cara de poucos amigos, ou melhor, de absolutamente nenhum amigo, feita de beiços grossos e sólidos, um nariz achatado e uns olhos oblíquos com um olhar esmagador. Com um dedo Palito me cutucou por trás e eu entrei, me agarrando ao corrimão. Algumas pessoas embaixo, no salão, me viram e começaram a comentar com outras, vez ou outra me apontando com o indicador. E em intermináveis quinze ou vinte segundos o alarido das conversas cessou e alguns segundos depois o conjunto também parou de tocar. Um silêncio de morte — creio que a expressão é bem apropriada — inundou o salão onde uns cem pares de olhos gelavam meu sangue e me faziam suar.
            — Fica aí.
       Eu procurava inutilmente algum lugar onde pousar o olhar, qualquer coisa que me fizesse sentir segurança, ou alguém para que perguntasse, sem medo, onde ficava o banheiro. É que uma vontade quase incontrolável de urinar invadiu-me o corpo e a alma, enquanto aquele silêncio povoado de olhos continuava com sua surda interrogação. Então procurei Mônica ou algum outro aluno conhecido em meio à multidão silenciosa. Ninguém. Mônica. É isto: precisava desesperadamente da desgraçada que me meteu nesta arapuca. Virei-me para o Palito que agora, paletó aberto, exibia ostensivamente a coronha trabalhada de seu berro. Sem controle, tremi mais do que já tremia e trêmulo lhe pedi:
            — Chame a Mônica, por favor, ela vai me apresentar e esclarecer isso de vez.
            — Fica na sua, que o Maçaneta foi buscar ela.
             O chamado “Maçaneta” ia andando no meio das pessoas por um caminho harmônico que se abria à frente de seus passos, até sumir atrás do palco improvisado, onde deveria existir uma sala (ou seria outro salão?). Paralisado, eu acompanhava seus movimentos, pensando que poderia estar tranquilo num cinema ou tomando um chopinho com os amigos. Nem dois minutos foi o tempo que demorou para voltar acompanhado por uma mulata forte, mais pra gorda que pra magra. O Palito me cutucou.
            — Desce.
           Meu impulso foi o de ir embora e ameacei me virar. Mas novo cutucão me fez estático e um terceiro, mais forte, me convenceu a descer. As pessoas próximas da escada abriram uma clareira e me olhavam, algumas curiosas, outras indignadas, e outras, ainda, com expressões indecifráveis. Que eu distinguisse, não havia um padrão naquelas feições. Uns tinham rostos e roupas indicadores de gente bem cuidada, abastada; outros pareciam pessoas humildes, de poucas posses. E todos pareciam unidos num sentimento que me fazia sentir um extraterrestre. O “guarda-roupa” saiu do meio da multidão e atrás dele a mulata. Lentamente apontou o imenso dedo indicador de sua imensa mão esquerda para mim, falando com a moça:
            — É esse aí o cara. Cê conhece ele?
            — Eu não! Nunca vi esse cara antes.
            Maçaneta olhou para mim com aquela única expressão que parecia ter.
            — E aí?
            — Bem... Eu também não conheço esta senhorita...
            — Senhorita, não! Veja lá como fala! Eu sou “senhora” pra você, sacou?
            — Fica fria, Mônica; deixa o trouxa se explicar.
           — Eu já disse. A Mônica, que não é esta “senhora”, me convidou para uma festa de aniversário e me deu este endereço. Deve haver um engano, ou outra Mônica, sei lá... Por favor, chame a outra Mônica, a que me convidou, ela vai explicar...
            — Não tem outra Mônica aqui. E isto não é festa de aniversário.
            — Não?...
            — Não.
         — Então me desculpe. Trata-se de um equívoco, de um equívoco lamentável; puxa, me desculpe atrapalhar a festa. Eu já vou indo, então. Me desculpe...
            — Não vai não. Antes vai explicar o que veio fazer aqui.
            — Mas eu já expliquei!... A Mônica faz aniversário hoje...
            — Eu não faço não! Eu sou de Touro, olha aqui.
            E investiu sobre mim, feito uma vaca brava, brandindo um medalhão pendurado numa corrente de ouro no pescoço, sacolejando-o frenética, frente ao meu nariz. Senti seu perfume que deveria um Chanel sei lá que número e seu hálito de uísque que também não deveria ser barato, enquanto eu, vesgo, tentava discernir a imagem bovina naquele objeto balouçante rente ao meu nariz. Então repeti tudo que já havia falado, depois de explicar para Mônica que eu era de Libra e que por isso era equilibrado e de paz, tentando inutilmente comover o Maçaneta, que permanecia inalterado, fechado como uma porta fechada:
            — Essa história tá mal contada.
            — Não é uma história, seu Maçaneta. É a pura verdade.
            Inesperadamente, Mônica veio em meu socorro:
            — Pode ser. Se o cara é mesmo de Libra, não deve tá afim de bronca...
            O guarda-roupa vacilou pela primeira vez:
            — Não sei não. Passarinho que come pedra sabe o cu que tem. Esse cara tá de grupo pra cima da gente.
            Não entendi a lógica da afirmação filosófica bem adequada àquele brutamonte, mas a aproximação de dois outros amigos do meu juiz, igualmente grandes e mal encarados, me fez sentir que, além de tudo que estava acontecendo, eu tinha mais um problema: não bastasse a vontade de urinar, uma violenta cólica me avisou que ia ser muito difícil segurar a situação.
            — Maçaneta, o cara tá ficando branco... Tá amarelando...
            — Tá legal. Se manca aí que já vamos resolver. Carlão, vai chamar o Padrinho.
           Talvez aquela fosse uma festa de casamento e o padrinho deveria ser uma pessoa importante, pensei. Um largo corredor se abriu na multidão e um homem de uns cinquenta anos, baixinho, meio gordo, com uns óculos redondos, terno preto bem cortado, veio se aproximando de mim, acompanhado de dois guarda-costas em versão melhorada do Maçaneta. Reverente, cumprimentei-o com a solenidade que o momento exigia, notando o respeito que ele provocava naqueles brutamontes.
            — O que está acontecendo, Mônica?
            — O cara aí chegou dizendo que eu convidei ele.
        Ameacei me explicar, mas um olhar de censura do baixinho calou minha boca. Prendendo a respiração, controlei as cólicas e os tremores, aguardando a minha vez.
            — Ele tinha convite?
            — Não. Mas ele é de Libra.
            — De Libra? Interessante... Primeiro ou segundo decanato?
            — Isso eu não perguntei, Padrinho.
            — E o ascendente?
            — Também não sei. Mas deve ser de ar. Pela cara...
            — É. Deve ser... O que ele está fazendo aqui?
            — Ainda não sabemos.
            Olhou para mim, de cima abaixo, virou-se lentamente para o Maçaneta e perguntou:
            — Você revistou a bolsa dele?
            — Não, Padrinho, desculpa.
            Palito e mais três imediatamente sacaram suas armas e apontaram para mim. Inevitável. Não pude conter um pouco de urina que senti escorrer pela perna.
            — Não, por favor. Pode revistar!
            Instintivamente ergui os braços o mais alto que pude acima da cabeça. Um dos guarda-costas aproximou-se e tentava tirar a bolsa pendurada em meu ombro direito através do braço erguido. E eu não sabia o que fazer, se abaixava o braço, se tentava ganhar tempo falando, se me ajoelhava pedindo clemência, ou se continuava tentando controlar as imperiosas necessidades fisiológicas. O guarda-costas baixou meu braço e a bolsa caiu no chão. Enquanto ele esvaziava todo o conteúdo, outro veio apalpando meu corpo todo, à procura de uma possível arma escondida.
            — Ih, o cara se mijou, Padrinho.
       Uma gargalhada geral descontraiu o ambiente e eu, envergonhado, olhava meus pertences esparramados pelo chão.
            — Pode guardar tudo.
            Abaixei-me e fui guardando os documentos, as canetas, os papeizinhos, os talões de cheques. Então vi o endereço escrito e resolvi tomar a ofensiva.
            — Olha aqui, senhor. A Mônica, que não é esta senhora do signo de touro, convidou-me para a festa de aniversário dela e escreveu o endereço no talão de cheques. Eu não sei como ela soube desta festa e nem por que me pôs nesta fria. Eu só sei que...
            — Você é tira?
            — O quê? Eu? Tira? Não! Sou professor! E a Mônica é minha aluna.
            — Eu não sou aluna dele não. É grupo dele.
            — Não você, digo, a senhora. É a outra Mônica que é.
            — Prova.
            — Prova o quê?
            — Prova que é professor.
            — É fácil. É só olhar a carteira profissional que está na bolsa.
            — Deixa eu ver a carteira profissional dele.
            O guarda-costas esvaziou de novo a bolsa, desta vez sem a preocupação de abaixar-se; chutou os talões de cheques e as canetas, apanhou a profissional e a carteira de identidade e as entregou para o Padrinho. Enquanto ele vasculhava o documento e conferia o RG, eu engatinhava, ridículo, recolhendo novamente os meus pertences, pedindo licença para os muitos pés que escondiam alguns. Levantei-me, por fim, e vi a cara admirada do baixinho chefão.
            — Olha aqui, Mônica, o cara é do primeiro decanato!
            — Pega umas influências de Virgem, né, Padrinho?
            — Pode ser, pode ser. Depende do ascendente, Qual é o seu ascendente?
        — O senhor quer dizer minha origem, minha descendência? É italiana, como pode ver pelo sobrenome. Meus avôs eram...
            — Não, seu burro! Seu ascendente! Seu Signo ascendente!
            — Sinto muito, senhor. Isso eu nem sabia que existia...
            Arrependi-me de não ter inventado um signo qualquer. Por que não fiz isso... O homem ficou irado como se eu tivesse cometido uma séria heresia.
            — Como não sabe?! Todo mundo sabe isso! Como alguém pode continuar vivendo sem saber seu ascendente!? Quer ver? Quer ver? Maçaneta, qual é seu ascendente?
            — Escorpião, Padrinho.
            — Cordélio, qual é seu ascendente?
            — É Peixes, Padrinho.
            — Tá vendo? Tá vendo? Todo mundo aqui sabe!
            — Sinto muito, seu Padrinho. Assim que eu sair daqui eu vou procurar saber meu ascendente.
            — Isso se você sair daqui.
            — Mas por que, senhor? Só porque eu não sei meu ascendente?
            — Não. Vai depender disso aqui ser verdade. Se for, aí vou pensar o que fazemos com você.
            E brandiu a profissional em minha cara, que, acompanhando outras ameaças de secreções menos dignas, contraia-se tentando evitar as lágrimas que se formavam nos olhos. Senti-me perdido e humilhado. Mas olhei firme aquele homem de meia idade baixinho e sua estranha corte. Um profundo sentimento de indignação e revolta tomou-me o corpo todo com uma força maior que o desespero e o medo. Com raiva afastei a mão do homem de perto do meu rosto e deixei as palavras saírem sem censura:
            — Pois faça o que quiser! É fácil dispor da vida de um homem com esse ridículo bando de estúpidos leões-de-chácara protegendo. Eu não sei quem são e nem quero saber. Só quero que me devolva essa carteira profissional, que eu vou me mandar daqui e tentar esquecer que um dia meus olhos viram gente tão nojenta e pretensiosa. Vocês não têm direito de humilhar ninguém desse jeito. Vamos, coroa, me devolva a carteira! Ou então pede para um desses seus cães de guarda puxar logo o gatilho!
            O Padrinho ouviu meu discurso com cara de colecionador de vinhos raros que ouve a explanação de um expert sobre uma garrafa de safra especialíssima. Sem mudar a expressão, virou-se para Mônica e afirmou convicto:
            — Aposto que o ascendente dele é Sagitário.
            — E eu aposto que é Leão.
            — Vê se tem o registro de nascimento dele na bolsa, pra gente ver a hora em que ele nasceu.
            — Na minha bolsa não tem nenhum registro de nascimento. Chega de jogar minhas coisas no chão!
            — Você sabe a hora que nasceu?
            — Pra quê?
            — Sabe ou não sabe?
            Olhei em volta e vi na maioria dos rostos expressões de expectativa quase infantil para minha resposta. E também percebi que alguns tratavam apostas verdadeiras e um burburinho surdo percorria o salão. O Padrinho me encarava ansioso e repetiu a pergunta, impaciente. Confuso, busquei na memória uma conversa com minha mãe em que ela relatava meu parto. O fato era que pensar no meu nascimento me tranquilizava, espantando um pouco a iminência de minha morte que até a pouco me ameaçava. Lembrei-me da hora. Com certa dose de sadismo, decidi fazer suspense:
            — Olha, certa vez, numa conversa com minha mãe sobre isso, ela me disse que... Deixa ver... Se eu puxar pela memória... Eu me lembro de que relacionei o momento do meu nascimento com a hora em que a conversa acontecia... Será que é isso mesmo?... Acho que tem de ser a hora exata, não é?
            — É! É! Você se lembra?
            — Acho que sim...
            — Então fala!
            Nessas alturas a ansiedade era muito grande naquele bando insano, com pessoas se acotovelando para chegar mais perto de mim. Decidi falar.
            — Quinze pras nove da manhã.
            — 8:45! Ótimo. Em que cidade? Deixa eu ver na Identidade... Aqui está: Americana, estado de São Paulo. Você é do interior, é...? O dia é 2 de outubro de 43. Vai ver o que é, Mônica, rápido!
            — Tô indo, Padrinho.
            — E você, Agenor, vem cá. Cadê o Agenor?
            Do meio da multidão que agora tratava animadamente apostas, saiu um homem magricela, com cara de contador. Aproximou-se do Padrinho que tirou do bolso um papelzinho onde escreveu o que deveria ser um número e lhe entregou junto com a carteira profissional, pedindo-lhe para que telefonasse e confirmasse se eu era mesmo professor do Equipe Vestibulares. Atento, ouvi a conversa e decidi intervir:
            — Mas hoje é sábado. Sábado à noite a escola está fechada!
         — Cala a boca. Se você é mesmo professor não tem que chiar. Ou será que você é um tira se fingindo de professor, hein?
            Decidi ficar quieto. Já havia coisa demais ali que eu não entendia. Padrinho aceitou apostas e parecia não se preocupar comigo. Por pouco tempo. Inesperadamente virou-se e me pediu a chave do carro. Hesitei e ele perguntou se eu preferia que arrombassem a porta. “Não!”, respondi entregando-lhe a chave. Deu-a para o Palito e recomendou que desse uma geral no carro.
            Dos três que tramavam meu destino, o primeiro a voltar foi Agenor, que cochichou no ouvido do Padrinho o que deveria ser a confirmação de meu emprego. Palito voltou minutos depois com o presente que eu havia comprado para Mônica, um livro. Como se fosse dele, Padrinho abriu o pacote e comentou simpático:
            — “La muerte de Artemio Cruz”! Bom livro. Gosto muito da Literatura mexicana. Já leu Salvador Elizondo? 
            Respondi que sim, mas ele não parecia interessado em discutir literatura; e mandou um de seus capangas perguntar por que Mônica estava demorando tanto. Nem dois minutos depois ela veio, trazendo na mão um papel com alguma coisa impressa, se desculpando por ter demorado a acessar o programa dos signos. Mas logo sentiu a ansiedade de todos e resolveu fazer suspense sobre a revelação que esperavam:
            — Atenção...! É um signo de... de... de fogo!
            Decepção de alguns, excitação de outros, inclusive o Padrinho.
            — Fala logo, Mônica, fala logo!
            — Tá bom, eu vou falar. Sabe o que é? Não sabe? É... é... é Sa-gi-tá-rio!
            Comemorações, comentários, abraços, lamentações, pagamentos de apostas, e eu ali, feito um idiota, ainda segurando minhas vontades, tentando maquinar um jeito de sumir. Livrando-se do abraço do Maçaneta, o Padrinho entregou-me os documentos e advertiu:
            — Aí está, seu ignorante! Eu sei mais de você do que você mesmo. Está vendo?
        — Isso é verdade e agora eu quero saber o que o futuro me reserva daqui por diante. Posso ir embora?
            — Depende...
            — Depende de quê?
            — Da sua capacidade de esquecer. Você tem que esquecer tudo que aconteceu aqui.
            De novo invadiu-me a revolta. Tive vontade de urinar no salão, de cuspir em todo mundo. Até contive esses excessos, mas não o suficiente para segurar as palavras.
            — Ah, isso não! Eu nunca vou me esquecer do que me aconteceu aqui!
            O homem ficou sério e o silêncio inundou o salão. Sem dúvida eu tinha desafiado o chefe e um calafrio percorreu-me as costas ao sentir o peso daqueles olhares sobre mim. Mas ele acabou sorrindo levemente, balançou a cabeça e disse:
            — Você não sabe mesmo onde está, não é?
            — Sei sim. Eu estou no meio de uma situação mais absurda do que minha mente jamais seria capaz de imaginar.
            Ele deu uma gargalhada e sentenciou:
            — Absurdo é o mundinho ridículo em que você vive. E eu que cheguei a pensar que você era agente do Serviço Secreto Transnacional...
            — O que é isso?
        Ele não respondeu. “Melhor mesmo que eu não saiba”, pensei. Um rapaz se aproximou e ele perguntou se tinham localizado. Mas, de costas para mim, não consegui ouvir a resposta. Olhando-me com benevolência, entregou-me o livro.
            — Toma o livro da “sua” Mônica.
            Virou-se para o lado e ordenou:
            — Palito, acompanha o moço. Você sabe o que fazer.
            Palito estalou os dedos e o mulato de camisa vermelha e mais um moreno grandalhão me seguraram, cada um em um braço, e foram me arrastando para fora. Atrás de mim um burburinho e logo um som de samba anunciando a continuação da festa. Perguntei onde estavam me levando, o que queriam de mim e outras tantas perguntas nervosas, todas respondidas com “cala a boca”. E puseram-me no banco de trás de um carro preto estacionado em frente à casa número 225, acompanhado do moreno de terno, enquanto o mulato sentou-se ao volante. Mais à frente, vi Palito entrar no meu carro e sair cantando os pneus. A mesma coisa aconteceu com o que eu estava. Logo parei com minhas perguntas com o último e convincente “cala a boca”, devidamente acompanhado de um revólver apontado para meu nariz. Voltei a sentir fortemente necessidades fisiológicas e pedi ao meu acompanhante que parasse o carro, porque eu não aguentava mais.
            — Se você sujar o carro do Padrinho, eu te apago aqui mesmo!
           Os carros seguiam em tresloucada corrida pelas ruas da Zona Norte, até desembocarem na Marginal do Tietê. Para onde estariam me levando? Em vão eu tentava recuperar a insana coragem que tinha mostrado no salão. Pensei em rezar, mas nunca fui de fé e a velocidade que davam aos carros fazia somar mais um pavor a todos os que eu já sentia. Já eles se divertiam com o “racha”, rindo como crianças em parque de diversões. Repentinamente pararam, numa freada brusca, pouco além da Ponte do Limão. Só Palito desceu do meu carro, enquanto os outros dois ficavam estáticos. Chegou até a minha porta, abriu-a e ordenou:
            — Desce.
            “É agora”, pensei. Um ou outro carro e uns raros caminhões transitavam pela Marginal àquela hora. E mais por resignação do que por coragem obedeci; decidi que não iria implorar nem tentar correr. Olhei com cara de cachorro sem dono para o Palito, disposto a pedir que acabasse logo com aquilo. Mas ele entregou-me a chave do carro e disse:
            — Vai embora.
           Não fui. Ali fiquei, parado, enquanto o carro preto deles sumia na escuridão. Por fim deixei, aliviado, que toda minha angústia se esvaísse pernas abaixo. E a caminho de casa só conseguia pensar num banho que me purificasse o corpo e a alma.
            Na segunda-feira encontrei Mônica disposto a recitar para ela todos os mais cabeludos palavrões que recolhi de meus subterrâneos no domingo. Mas antes que dissesse qualquer coisa ela me cobrou a ausência na festa, relatando que tinha sido ótima e que só faltou a minha aguardada presença. E no relato disse que um rapaz estranho tinha aparecido lá me procurando. Ocorreu-me a óbvia pergunta:
            — Em que rua você mora.
            — Ora, você sabe, eu lhe dei o endereço! Rua Bento Nogueira.
            — Bento?
            — É, Nogueira. Por quê?
            — Nada não. Só por curiosidade: e o número?
            — 425. Por que, você perdeu o endereço?
            — É... digamos assim...
            Achei melhor não comentar nada com ela nem com ninguém. É que uma paranoica suspeita me aconselhava a esquecer daquela maldita noite. Dei uma desculpa qualquer juntamente com o livro desembrulhado, que já havia decidido doar à biblioteca da escola; e segui dando as minhas aulas. No fim delas fui chamado pela secretaria para pegar um envelope que haviam deixado para mim. Dentro havia um mapa astral impresso e um longo texto que mostrava minha personalidade, minhas preferências, relacionamentos bem e mal sucedidos, como eram meus pais, meus irmãos e meu futuro, prevendo acontecimentos que de fato vieram a se confirmar. Junto a isso um bilhetinho, preso com clipe, escrito: “Procure conhecer-se”. Lembrei-me do Padrinho dizendo que me conhecia melhor que eu e senti uma desagradável sensação, que definiria como perda do anonimato. É... São Paulo — e talvez o mundo —, além de seus indecifráveis labirintos, tinha ainda mil secretos olhos que estão constantemente observando tudo que fazemos...

5 comentários :

  1. Boa Gilson, e pensar que em cada esquina e beco de São Paulo isso pode acontecer realmente.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Muito boa, Gilson. Não há como não me lembrar dos primeiros passos perdidos nessa cidade louca...

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