LAÉRCIO — OU O DESTINO


            Laércio cantou na cozinha, com sua voz rouca e desafinada, como sempre fora de hora. Na mesa da sala eu olhava o papel em branco, buscando ideia para escrever uma crônica e aquele ruído, que o Laércio achava ser canto, fez-me pensar em destino. Sem dúvidas eu acredito em destino. E não é uma crença cega que assimilei por alguma influência mística. É uma certeza que se foi impondo em minha vida, cheia de provas concretas, como Laércio bem exemplifica, com seu jeito intruso e essa sua voz esganiçada e irritante. Certamente foi o destino que o colocou em minha vida, me avisando que eu tinha contas a pagar, há mais de vinte anos atrás — ou seriam mais de cinquenta?...
            Lembro-me bem daquela tarde de quinta feira. Prevenido, saí do apartamento duas horas antes do horário de partida do ônibus, pois sabia que com o início das férias as passagens se esgotavam rapidamente. Consegui um dos últimos lugares no ônibus das seis. Tudo bem, à noite estaria em Americana para um mês de vagabundagem compensatória de um ano de muito trabalho e estudo. Passagem no bolso, mala numa mão e um pacote de livros na outra, fui procurar um lugar para esperar a hora e vinte minutos que faltavam para a partida. A rodoviária estava cheia e eu cansado de carregar aquele peso todo. Em vão procurei um lugar para me sentar. Centenas de assentos e todos ocupados. Mas a rotatividade era grande e esperei. Vários lugares vagaram e sempre alguém mais rápido que eu os ocupava. Enfim, em meio a tantos assentos ocupados, vi um em que poderia me sentar. Estava chegando até ele e ninguém se aproximava mais que eu. Então apertei os passos.
            Nesse dia, há vinte e poucos anos atrás, Laércio não era nem sequer uma remota possibilidade. E eu não morava onde moro; minha vida era muito diferente. Pousei a mala no chão, preparando-me arfante para me sentar. Mas vi uma menina que corria para me roubar o lugar; “que se dane”, pensei; “criança tem energia demais, que fique em pé”, e se quisesse sentar-se, que procurasse o colo da mãe. Enquanto eu dirigia o corpo cansado para o assento, vi seu rosto estranhamente desesperado e ouvi seu grito: “não, moço!”. A sensação de vitória desfez-se assim que meu corpo parou. À minha frente uma menina horrorizada e em prantos; embaixo de minhas nádegas a sensação de ter esmagado alguma coisa macia e um inexplicável frio no estômago. Quase num salto, levantei-me rápido e vi aterrorizado e cheio de nojo um pintinho ensanguentado e morto, evidentemente.
            Já faz muito tempo, eu deveria ter quatro ou cinco anos de idade, não sei precisar. Meu pai havia comprado uns pintinhos, início de uma criação de galinhas Rod Island, tão bonitinhos, de um marrom avermelhado, anunciando na penugem as belas galinhas vermelhas em que se transformariam. Certa tarde, brincando com aqueles bichinhos mansinhos, que me seguiam como a uma galinha choca, inadvertidamente pisei em um deles, esmagando-o. Ele ainda se debateu um pouco, mas logo, para meu desespero de criança, ficou imóvel, com sangue escorrendo pelo bico. E lembro-me de que chorei inconsolável por horas, a ponto de irritar minha mãe, que não conseguia entender quanto era doloroso aquele primeiro contato com a morte, agravado pela imperdoável culpa que me invadia com tanta força, que eu mesmo não tinha controle do choro que me sufocava em soluços.
            Destino. Vinte e tantos anos mais tarde a situação se repete. Mal sabia que anos depois Laércio iria me redimir e só por isso eu suportava sua falta de limites, sua mania de beliscar o pão ou qualquer comida que visse sobre a mesa ou de irromper insolente pela sala, cantando desafinado, como sempre, como se a casa fosse dele, pouco se importando se eu estivesse concentrado na redação de um texto ou na leitura do jornal. Chato! Um cara insuportavelmente chato esse Laércio! Mas naquele momento não havia perdão. A menina via, nos seus seis ou sete anos, a morte em sua frente, que em vão tentava esconder com as mãos espalmadas no rosto molhado. Zelosa, a mãe acudiu, olhando-me com reprovação e creio que só não foi mais dura comigo, porque deve ter visto as lágrimas que brotavam incontroláveis de meus olhos. Ajoelhei-me na frente da menina e tentei consolá-la, dizendo que lhe daria outro, enquanto acariciava seus longos cabelos macios.
            No ônibus para Americana as cenas não me saiam da memória: dois animaizinhos assassinados e a esperança de que desta vez superaria o trauma. Trazia no bolso um guardanapo de papel com um endereço de Ribeirão Preto que a custo arranquei de Denise, a mãe da menina. Também a confiança das duas foi difícil de ser conquistada, e só quando lhes contei meu trauma de infância, ganhei da menina, primeiro, e da mãe, depois, um olhar piedoso. Então soube que Denise trouxe Lucinha para passear em São Paulo e a levou a uma feira de animais. O passeio era uma tentativa de compensação pela tristeza da recente separação do marido. Lá a menina encantou-se com um cãozinho, mas o preço e a dificuldade de levá-lo tinham aumentado o desconsolo dela, aliviado, em parte, pelo pintinho que ganhou na saída. Só que mais este trauma eu não carregaria comigo...
            Cheguei em Ribeirão Preto no dia seguinte, no fim da tarde, com um filhote de mini-poodle branco e um pintinho amarelinho, igual ao que matei na rodoviária. Antes tive que convencer minha mãe da urgência da tarefa, e que logo voltaria para comer os doces que tinha preparado especialmente para mim. Já de manhã estava em Campinas, pois em Americana não havia loja de animais. Fui parar num canil, na periferia da cidade, pagando um absurdo pelo cãozinho, mas levando de brinde o pintinho que um empregado foi buscar, a pedido da comovida dona do canil, numa granja próxima. Também me deu uma daquelas malinhas de transportar animais. Parece que meus traumas galináceos tinham esse dom de despertar piedade — desde que não se tratasse de preço de cachorro. Mas com certeza um analista me custaria muito mais, pensei, — um raciocínio parecido com o que faço ainda hoje, quando me pergunto o que justificaria essa minha amizade com Laércio.
            A antevisão de uma possível alegria da menina já me fazia até agradecer o incidente; e pensava em destino, em frases do tipo “Deus escreve direito por linhas tortas” — e não há dúvidas de que Laércio é uma linha torta — quando cheguei naquela casa simples e bonita, típica de classe média do interior. Ansioso, toquei a campainha, bati palmas e ninguém me atendeu. Dispensei o táxi e me sentei na mureta, encostado na grade de ferro, esperando que mãe e filha chegassem, torcendo para que não me tivessem dado endereço falso e não me deixassem ali angustiado com aquela sinfonia de pios e de ganidos.
            Meia hora depois elas chegaram. Já havia me certificado com uma vizinha, a quem também comovi, de que a casa era aquela mesma. Deu água para os bichinhos, que se acalmaram um pouco. De longe Lucinha me viu. Mostrei-lhe aquela bolinha amarela piante na mão espalmada e ela correu. Com ternura colocou o pintinho junto ao peito, feliz e apaixonada como só as crianças conseguem ser e correu para a mãe carregada de sacos de supermercado. Também Denise se mostrou feliz, mais ainda quando, já na sala, abri a valise e o cãozinho saiu tímido de dentro dela. A menina ficou paralisada por alguns segundos. Depois, pôs o pintinho sobre a cômoda e inesperadamente atirou-se em meu pescoço num abraço soluçante. E ficamos os dois um bom tempo chorando como crianças que éramos naquele momento. (Só gostaria de entender como Laércio pode estar relacionado com um momento tão bonito como aquele...).
            Quando a aula terminou fiquei satisfeito. Era a primeira de um curso rápido e eu teria que sistematizar e sintetizar o que sei sobre poema; e síntese não é uma capacidade de que eu possa me vangloriar. Já na primeira aula tinha conseguido dizer o essencial, como planejei, e, se continuasse assim, seria capaz de completar o curso sem aquela sensação de que faltou muita coisa para dizer, como comumente costuma acontecer comigo. Também os alunos e alunas estavam satisfeitos; todo professor sabe quando sua aula foi boa. Alguns vieram me cumprimentar ou agradecer e por último veio uma moça bonita e simpática, que me cumprimentou como se já me conhecesse, do mesmo modo como eu a senti. Não só me agradeceu; ao se despedir beijou-me o rosto, emocionada. Esta situação aconteceu há dois anos e é só uma dessas armadilhas do destino que me empurrava para o Laércio, que neste momento em que escrevo vem com sua falta de modos me dizer que merece minha atenção, irrompendo pela sala com seu corpanzil gordo e desengonçado.
            Por insistência de Denise, acabei ficando aquela noite em Ribeirão Preto. Argumentou, com razão, que eu não acharia ônibus de Campinas para Americana, de madrugada. E que eu jantaria e dormiria ali mesmo, pois não tinha cabimento ainda ter que pagar hotel depois dos gastos que tive. Aceitei suas ponderações, mesmo porque eu estava me sentindo muito bem ali, não me cansando de observar a alegria de Lucinha com os bichos. Aliás, eu estava gostando de tudo: do aconchego da casa, do jantar simples e gostoso, dos agrados da menina que me tratava com uma intimidade afetuosa como se nos conhecêssemos há anos; e de Denise, que a cada minuto ia ficando mais bonita. Seus olhos azuis, tímidos, procuravam os meus sempre que precisava de alguma aprovação, fosse da comida, da arrumação da casa ou simplesmente na muda interrogação de saber se eu estava me sentindo bem.
            Finalmente Laércio retirou-se, não sem antes eu dar sinais evidentes de que sua presença era totalmente inadequada para aquele momento. Fingiu desagrado e ressentimento, como se ameaçasse nunca mais voltar. Tomara fosse verdade! Mas sei que daqui a pouco virá me lembrar de que é hora de comer ou começará a cantar, novamente fora de hora, nessa sua maníaca necessidade de chamar minha atenção. Isso se não decidir irromper de novo pela sala e me agredir, como às vezes faz.
            Os olhos azuis de Denise me cativaram antes de seu sorriso. Depois notei os cabelos claros que emolduravam o rosto redondo. Não tinha uma beleza fácil, dessas que se evidenciam à primeira vista. É que Denise era dessas mulheres que a gente olha, acha bonitinha e aos poucos vai descobrindo os detalhes e gostando definitivamente de cada um. Os olhos de Denise... Os cabelos de Denise... Os seios de Denise, tão bem delineados na blusa de banlon azul. Mas tentei controlar o fascínio. No dia seguinte eu iria embora e não queria levar mágoas de paixão. Ela estava sendo gentil comigo, só isso.
            Na aula seguinte percebi o olhar atento dela o tempo todo. Havia sem dúvida uma grande empatia entre nós dois. Será que já nos conhecíamos? Enquanto os alunos redigiam, a partir do exercício que propus, aproximei-me dela e perguntei se nos conhecíamos. Minha falta de memória para nomes, números e fisionomias já é folclórica entre os que me conhecem. E com o tempo aprendi a conviver com os constantes vexames, como o de esquecer até mesmo o nome de ex-namoradas; se este fosse mais um, eu acharia um jeito de me desculpar. Ela fez suspense, dizendo que nos conhecíamos e que evidentemente eu não me lembrava. Mas o suspense acabou quando vi seu nome na folha da redação. E então a puxei da carteira em que estava sentada e abracei-a, para espanto dos outros alunos. Convidei-a para um café no bar da escola, enquanto colocávamos em dia o tempo que fazia que não nos víamos. Claro, fiz-lhe muitas perguntas e por último perguntei de Laércio e ela me contou que ainda vivia feliz com sua mãe.
            Naquela noite não consegui dormir. Denise me acomodou no quarto de Lucinha e eu fiquei horas rolando na cama, sem vontade de afastar Denise do pensamento. E ficava imaginando como seria estar com ela, como ela havia me olhado durante o jantar, como estaria vestida agora... Não imaginava o futuro; Denise era presente. Certamente estaria com uma camisola cor-de-rosa ou com um pijama azul claro ou amarelinho... Sem conseguir conciliar o sono, levantei-me, acendi um cigarro e fui silencioso para a sala. Denise estava lá, insone como eu, maravilhosa no baby doll branco, iluminada tão somente pela luz que vinha da rua e vazava da janela. Ali mesmo nos amamos, no tapete macio, até o amanhecer. Depois conversaríamos sobre o futuro. Antes havia muita carência a ser satisfeita.
            O curso desenvolveu-se como eu havia planejado. E foi uma semana de muita conversa e de consolidação de uma amizade que dura até hoje, através de correspondências, telefonemas e visitas eventuais. No último dia, ela saiu antes do fim da aula, prometendo manter contato. Despediu-se com um beijo e um abraço, o que agora não causava mais susto, pela intimidade que eu tinha não só com ela, mas com outros participantes do curso também. E antes de se despedir dos colegas, numa saudação sorridente, disse-me que tinha deixado um presente na secretaria. Logo fui até a secretaria, terminada a aula, curioso sobre o presente. Numa caixa de sapatos, forrada com serragem, o presente piava, enchendo de dó a moça da secretaria e de nostálgica emoção meu peito.
            Acordei por volta de meio-dia com o molhado de uma língua no meu rosto. E o que vi foi um focinho de cachorro e atrás dele uma menina sorridente. Vieram me acordar para almoçarmos no Pinguim, como havíamos combinado na madrugada. É que eu queria beber o famoso chope daquele bar e curtir sossegado aquelas súbitas paixões que o destino tinha posto em minha vida. Depois do almoço decidi tomar mais um chope, enquanto Lucinha acabava a segunda taça de sorvete. Mas não me sentia numa família; era apenas eu, minha namorada e sua filha muito simpática. Um rapaz alto nos olhava de longe, como se não tivesse coragem de se aproximar. Quando Denise o viu, engoliu o sorriso e calou-se. Mesmo assim ele, embora visivelmente vacilante, se aproximou:
            — Gílson, este é o meu ex-marido.
            — Prazer, Gílson.
            — Prazer, Laércio.
            Cheguei em casa com o pintinho, amarelinho como o que eu presenteei uns vinte anos atrás, que despertou imediato amor de minha filha, arrancou um sorriso de meu filho e provocou a inevitável pergunta de minha esposa:
            — Onde é que você vai pôr esse bicho?
            De fato nossa casa não era propícia para animais, como era a de Denise e Laércio. Mas eu daria um jeito, afinal era bichinho pequenininho. Ela aceitou sem problemas, quando lhe contei de quem era o presente, porque sabia de meus acidentes e comentou que agora deveria superá-los de vez — como todo mundo também ela se comoveu quando contei minhas tragédias galináceas. E como eu, ela também tinha seus traumas com animal, só que com gato. E assim ele ficou.
            Naquela tarde, em Ribeirão Preto, senti que era hora de partir quando os olhos de Laércio se encheram de lágrimas num choro a custo contido. O olhar emocionado de Denise, até então frio, deixou claro que, apesar das mágoas, ainda havia uma ligação muito forte entre eles. Com certeza ele percebeu o que tinha acontecido entre mim e ela, mas não se importou. A culpa e o arrependimento faziam do fato um justo castigo para ele. Então peguei Lucinha pela mão e fomos para a praça em frente. Uma hora depois vieram abraçados em direção ao banco em que eu estava. Lucinha corria pelo gramado. E eu, sem mágoas, levantei-me, abracei-os demoradamente em silêncio, dei um beijo em Lucinha e fui embora. Nunca mais os vi. Soube, por Lúcia, naquele curso, que tiveram mais dois filhos.
            Já o pintinho foi por umas semanas a alegria da casa. Logo no primeiro dia minha filha quis pôr-lhe um nome e meu filho achou que eu é que deveria batizá-lo.
            — Que tal Laércio?
            — Isso lá é nome de pinto, pai.
            — Não. É nome de galo. Os pintinhos crescem, sabia?
         E assim que se foi enchendo de penas e crescendo, Laércio foi se transformando nesse ser insuportável que é hoje. Minha esposa diz que o karma é meu e ela não tem nada com isso. Até minha filha o odeia, desde que ele resolveu bicar-lhe a perna toda vez que a vê perto dele. Meu filho se diverte em ameaçá-lo, só para vê-lo eriçar as penas do pescoço, preparado para a briga — ainda bem que o levei ao veterinário para arrancar as esporas. Outro dia me disseram que ele se tranquilizaria, se tivesse uma galinha, mas a perspectiva de uma “Laércia” nos apavora. A mim, estranhamente, ele respeita mais, e até tem comigo uma relação afetuosa. Acho que é porque sou eu que lhe dou milho todo dia. Só me agride porque é desengonçado, como quando decide, quase sempre eu estando de costas para ele, empoleirar-se no meu ombro. Quase morro de susto quando isso acontece.
            Claro que já pensamos em matá-lo. Nem minha filha se opôs a isso. Mas quem tem coragem... Assim ele vai ficando, andando pela casa como se fosse sua, infelizmente jamais se aventurando para a rua. Fica no quintal a maior parte do tempo, mas basta alguém abrir a porta da cozinha para que entre, grande, gordo como ele só, e venha cagar no tapete da sala ou no sofá. Entretanto devo a ele o fim de meu trauma de infância, pois me dá grande prazer, hoje, saber que assassinei dois ancestrais de Laércio. Um dia ele vai morrer de velho. Um amigo me disse que galinha vive uns quinze anos. Só faltam doze...

3 comentários :

  1. Oi, Gilson, muito interessante este modo de escrever. Foi um bom aprendizado.

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  2. Muito bom seu estilo. Já sobre o seu apego aos pintos...

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  3. Muito gostosa, fui acompanhando interessada todas as suas reminiscências...

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