DANCING IN THE DARK



               Lua cheia. Nada mais faltava, ou quase nada; melhor dizendo, faltava quase tudo, na verdade. Não o em torno do meu desejo: o baile, o terno bem passado, a gravata nova, os sapatos de bico fino de cromo alemão, bem lustrados, e até a lua que apareceu cheia para compor o quadro irretocável daquela noite. Só faltava a Sandra não resistir ao meu speech bem decorado e me responder simplesmente: “Por que não?...”. E depois de dançarmos muitas músicas, rostos colados, mistura de cheiros suaves de laquê e pinho italiano, excitação contida, eu a levaria para casa, mãos dadas, paixão crescente sob a lua cheia.
              Jamais chegar ao baile no começo. Era preciso alimentar o possível suspense que minha ausência causaria. “Será que ele não vem?” alguém deveria pensar. Essa era uma regra surda que eu e meus amigos conhecíamos muito bem. No tempo certo chegamos. Então, etapa seguinte do ritual, era olhar com estudado desinteresse a pista de dança e as mesas em torno, ajeitar sutilmente a gravata, jogar o cigarro no chão (sim, naquela época fumava-se livremente) e pisá-lo com a ponta do sapato, meneando o calcanhar quatro vezes.
               Bem que eu me lembro... A orquestra abria o sopro dos metais numa seleção de hits de Xavier Cougat, num cha-cha-cha lascado que fazia os casais, no salão lotado, trombarem-se animados. Na época Nélson de Tupã era a melhor banda do interior. Rivalizava com a Pedrinho de Guararapes e muitos sustentavam que era melhor do que a de Sílvio Mazzuca e mesmo do que a de Enrico Simonetti, as grandes da capital. Sem dúvida o clima do baile estava melhor do que eu esperava. Então, hora de nos prepararmos para dançar.
               Os machos de muitas espécies animais marcam seu território urinando em pontos estratégicos, como os gatos e os cachorros. Acho que era semelhante com os homens nos bailes. Reconhecido o território, após nossa chegada, nos dirigíamos invariavelmente ao banheiro, ainda que a necessidade de urinar não fosse premente. E lá, sempre usávamos a mesma cuba, provavelmente numa inconsciente adaptação do instinto de marcar o território. Pentear os cabelos, em seguida, com o pente Flamengo carregado no bolso traseiro junto com a carteira. E enquanto esse ritual acontecia igual para todos nós, as conversas adolescentes de sempre, um misto de piadas e de considerações machistas sobre as mulheres, que dali a pouco seriam conduzidas em nossos braços pelos invisíveis caminhos da dança no salão.
               Por fim o gesto necessário de ajeitar os pendurados órgãos da nossa masculinidade da esquerda para a direita da braguilha. Aí está uma coisa que nunca consegui entender. Por que sempre esses órgãos ficam do lado esquerdo da calça... Certa vez perguntei ao Vítor, meu alfaiate, se havia alguma razão técnica na confecção da calça que determinava isso. Só então ele se deu conta de que os apêndices dele também estavam à esquerda. Não soube me responder.
               Cabelo minuciosamente penteado, gravata carinhosamente ajeitada, armas colocadas no lado mais favorável à excitação das moças, só restava agora desembrulhar e colocar na boca um Dulcora de hortelã e cumprir nossa missão de jovens machos interioranos do começo da década de 60. Com certeza, em torno à pista de danças, muitas mulheres aguardavam ansiosas nossa discreta aproximação, sempre do mesmo modo: o sinal de cabeça à distância, o sorriso mínimo, o olhar ligeiramente sedutor, os gestos, enfim, que as tirariam da angustiante situação de estarem sentadas à espera de nossos passos perfeitamente encaixados no ritmo da música, de nossos braços direitos enlaçando suas cinturas, de nossas mãos esquerdas segurando as suas direitas no limite exato entre o delicado e o obsceno e que talvez, quem sabe, se aproximariam dos peitos e dos pescoços, iniciando um romance que duraria o baile ou mais. Embaixo, os pés não pisariam seus sapatos de verniz e mais acima discretamente as pélvis poderiam se roçar e talvez as faces se encostassem, fechando inevitavelmente os olhos apaixonados.
               Subíamos a escada que levava do banheiro ao salão e lá nos dispersávamos, cada um em busca de uma garota para dançar. Só nos encontraríamos entre meia-noite e uma hora no bar para tomarmos juntos um hi-fi ou um gim-tônica ou uma cuba-libre e comentarmos as fofocas da noite, rindo muito.
               Uma seleção de samba arrastava centenas de casais para a pista retangular de assoalho bem lustrado. Nessa época os salões de baile eram enormes. A pista de dança do Rio Branco E. C., a melhor de Americana, deveria ter uns 25 x 50 metros, insuficientes para conter todos os casais num baile como aquele, “Noite Tropical”, “abrilhantado pela orquestra Nélson de Tupã”, como dizia o cartaz de propaganda. Tão irresistível apelo trazia gente de Santa Bárbara do Oeste, de Nova Odessa, de Sumaré, de Limeira e até de Campinas e Piracicaba. Era baile aguardado por semanas com expectativa. Para essa noite as moças faziam vestidos próprios para bailes como aquele, de tecidos mais caros, decotes mais ousados. Muitas compravam sapatos novos n’A Calçadista, na Sapatinho de Cristal ou na Casa Pérola. E os comentários sobre o baile durariam muitos dias.
               Aquele poderia ser o baile da minha vida e, se tudo desse certo, para a Sandra também. Mas esperaria o momento preciso para dançar com ela, nunca uma seleção de sambas. Deveria ser uma música lenta, uma seleção de bolero ou de fox. Antes, procuraria marcar minha presença, tirando para dançar moças próximas de sua mesa, passando por ela e cumprimentando-a com afável discrição. E enquanto dançávamos, ela com outro e eu com outra, eu me aproximaria como que por acaso, para que se lembrasse de quanto eu dançava bem já tínhamos dançado muitas vezes e observasse meu terno bem passado, minha gravata nova, meu charme juvenil. Sem dúvida aquela seleção era ótima oportunidade. Era comentário geral na turma que eu dançava bem samba.
               Entre as garotas disponíveis escolhi a Lúcia Helena. Teria preferido a Silvinha, que dançava melhor; mas a Lúcia Helena servia para que eu exibisse minhas habilidades ao som d’Aquarela do Brasil que a orquestra executava com primor. Antes de descer os três degraus que levavam ao salão, olhei os casais dançando, até encontrar a Sandra, quase no meio, dançando com o Levy. Habilmente fui manobrando a Lúcia Helena até perto dela, e ali desfilei meu repertório de rodopios e gingados, fazendo a saia do vestido de minha parceira jogar pra lá e pra cá ao ritmo da bateria e do pandeiro. Sandra me viu e sorriu amistosa. Estrategicamente afastei-me um pouco e puxei conversa com a Lúcia Helena, exercitando o arsenal de observações fáticas e o meu senso de humor. O principal já tinha acontecido: mostrei que eu estava lá.
               Terminada a seleção, cumpria conduzir a dama para sua mesa, segurando discretamente seu cotovelo, pacientemente acompanhando os outros casais que se dirigiam para a escadinha. A Lúcia Helena continuava rindo de uma piada que eu havia contado e foi assim que passamos pela mesa da Sandra, que já havia sido trazida pelo Levy. Ponto para mim: eu tinha agradado minha parceira e ganhava outro sorriso da Sandra.
              Sandra era uma das garotas da turma, como a Lúcia Helena, a Marisa, a Maria Ernestina, a Silvinha, a Sônia, a Mara, a Elizete, a Andrea, a Ju, a Alani, a Luciana, a Neusa, a Tatiana e outras mais. Só não me lembro de como e quando me apaixonei por ela, mas me apaixonei pra valer. Não percebia nenhuma correspondência à minha paixão. Como todas as outras, parecia uma amiga e só. Eu curtia secretamente meus sentimentos e tinha decidido que naquela noite tentaria iniciar o namoro.
               Certamente ela ficaria muito surpresa com meu pedido, mas eu não lhe era antipático, isso também era certo. Não tinha um namorado e, até onde eu soubesse, não estava apaixonada por ninguém. Do que eu sabia, o Zé Roberto arriscou alguma coisa com ela, tempos atrás, mas deu em nada. Poderia ser que desse certo. Por que não tentar?
               Aproximava-se o momento escolhido. Seguindo meu plano, esperaria a música e o clima apropriado. Exageraria nas paradinhas da música lenta, conversaria sobre assuntos mais sérios e inteligentes, falaria com calma, elogiaria seu vestido, seu sorriso, seu penteado e inesperadamente (para ela) lançaria a frase decisiva: “Sandra. Você está sem ninguém; eu estou sem ninguém. O que você acha de nós dois ficarmos juntos?”.
               Para cada resposta dela eu estava preparado, desde o “não, de jeito nenhum” até o “por que não?”. Há semanas eu alimentava noites de insônia aperfeiçoando e decorando os speeches certos.
               Por enquanto tudo seguia conforme meus planos. Havia dançado com várias garotas, mas ainda não com ela, que sabia que a tiraria para dançar, como fazia em todos os bailes. Mas antes havia o encontro com os amigos no bar, na hora marcada, onde fumaríamos e beberíamos durante uma seleção inteira de músicas, eu, como sempre, bebendo o meu hi-fi. Nessa pausa a orquestra tocou mambos, o que significava que a próxima seria de músicas lentas. Por isso, assim que terminou o último mambo, acabei meu hi-fi e procurei ficar na escada de ingresso na pista, perto da mesa da Sandra, para que aos primeiros acordes me aproximasse dela, sem riscos de que outro a tirasse para dançar antes de mim.
               Logo coloquei outro Dulcora na boca para que não estivesse muito grande dali a pouco, atrapalhando a fala. Até que o cigarro aceso ajudava a atenuar a ansiedade, mas o corpo estava trêmulo, eu sentia. Esperava me controlar durante a dança, o suficiente para dizer as frases com estudada naturalidade, conforme havia ensaiado durante a semana. À minha frente, olhava o salão vazio e a orquestra parada, com alguns músicos tomando guaraná e conversando animados. Já outros repassavam mentalmente partituras, manipulando em silêncio seus instrumentos. Em torno de mim o burburinho de pessoas conversando, risadas esparsas, agitação. E o coração batendo apressado no peito; e a sensação de que era tudo ou nada.
               Finalmente Nélson foi para a frente da orquestra, de costas para o salão. Os músicos apressaram-se em arrumar as partituras. Lentamente os braços do maestro se ergueram, pararam dois três segundos no ar e quando desceram a orquestra atacou de Moonlight Serenade, numa imitação perfeita de Glenn Miller. Não, não podia ser melhor. Era a música certa para o momento certo e para a minha talvez certa felicidade.
Na segunda frase melódica da música, virei-me para a mesa da Sandra e nossos olhares se encontraram; o meu, carregado de expectativa; o dela, como que esperando que lhe fizesse um sinal. Mas quando fui erguer a mão direita, indicador apontando para nada, no aviso de que queria dançar com ela, senti minha mão presa por outra mão que me puxava para o salão. Pareceu-me que havia surpresa no olhar de Sandra. No meu com certeza havia, quando me virei para ver quem me impedia de ser feliz.
             ─ Oi, Gílson. Você dança comigo?
               Apenas deixei-me arrastar para o salão sem dizer nada. Era a Sônia. Por mais que me desagradasse, não poderia ser grosseiro com ela. Afinal éramos amigos, o suficiente para que ela tomasse a liberdade de me tirar para dançar. Eu, que às vezes a achava meio chatinha, nesse momento a considerei a pessoa mais chata da face da terra. Só me restava me consolar, pensando que na próxima hora haveria outra seleção de música lenta e esforcei-me por responder com mais de um monossílabo as perguntas espaçadas e esperadas que aquela chata me fazia. Passou-me pela cabeça pisar-lhe o pé, como justificada vingança, mas me controlei. Por fim resignei-me e permiti que a conversa rolasse.
               Só então notei minha parceira, mais bonita do que de costume, com um vestido azul claro de mousseline e os lábios redondos, pintados num rosa quase vermelho, que sorriam para mim. Não tínhamos grandes intimidades, como eu tinha com outras amigas, mas a conversa fluía fácil nos assuntos amenos e fofocas da turma. Quando a orquestra retomou o início de Moonlight Serenade, Sônia ficou séria e tímida, com um leve rubor na face. Seu rosto veio próximo à minha face direita e julguei ter sentido uma pressão maior de sua mão direita na minha esquerda. E pareceu-me um pouco emocionada quando me disse próximo ao ouvido:
              ─ Vi quando você chegou, com o João, o Ângelo, o Zé Roberto e o Aírton. Já estava pensando: “será que ele não vem?” e aí você chegou...
                Confesso que ela me desarmou nesse momento e me senti culpado de pensar em pisar-lhe o pé. Só consegui responder:
            ─ É?...
             E instaurei novo silêncio ao som de Glenn Miller cover. Na paradinha esperta, de três compassos, que impus na dança, senti seus cabelos castanho-claros, sem laquê, cheirando suavemente alfazema, roçando meu rosto e acionando minha arma de conquista. Ela não recuou e sussurrou:
            Bonita...
            O quê...?
            Sua gravata. É nova, não é? Nunca vi você com ela.
            É, é nova. Seu vestido também é novo, acho. Pelo menos nunca vi você com ele. Azul claro, macio, bonito...
            Você gostou? Que bom que você gostou... Você estava muito bonito quando chegou, olhou o salão com aquele ar de desinteresse, apagou o cigarro... Eu estava olhando.  
            É?...
            E novamente o silêncio. Eu sentia o som do contrabaixo acústico vibrando. Em certas músicas o contrabaixo parece vibrar na alma. Encurtei os passos, dois pra lá um pra cá, parei, balançando levemente o corpo e escorreguei a mão uns centímetros a mais em sua cintura. À minha esquerda Sandra passou por mim dançando com não sei quem. Suspirei.
            Sabe, eu gosto deste seu terno.
            É?...
            É. Fica bem em você. O Vítor que fez?
            É...
            No silêncio que se seguiu, senti minha coxa direita entre as dela e prolonguei a paradinha, sem vontade de conter o que eu estava sentindo. Os cabelos dela agora roçavam definitivamente meu rosto, enquanto o clarinete solava bonito a música. Na entrada do naipe de metais ela falou:
            Sabe, Gílson. Eu tenho uma coisa pra falar com você...
            Pois não, fala.
            É que... Pausa na fala, nos passos, na música.
            Vai, fala. Pode falar.
            É que eu estou um pouco...
            Sua mão direita suava apertada à minha esquerda. Talvez estivesse um pouco trêmula e a voz não disfarçava a ansiedade. Insisti:
            Fala. Comigo você pode falar o que quiser. Todo mundo diz que sou bom ouvinte.
            Sabe o que é... Eu estive pensando... não sei o que você acha... mas... Você está sem ninguém; eu estou sem ninguém. O que você acha da gente ficar junto?...
            Parei. E não foi uma das minhas espertas paradinhas com a coxa no meio das coxas da dama. Afastei meu corpo do dela e fiquei olhando abobalhado aqueles olhos grandes esverdeados que me suplicavam uma resposta. Alguém trombou nas minhas costas e pediu desculpas. Era o cara que dançava com a Sandra. Automaticamente olhei para o lado sem dizer nada e Sandra me olhou de um jeito que pareceu convidar-me para dançar e para o desse e viesse. Voltei a olhar o rosto tenso de Sônia que agora mordia o lábio inferior como se estivesse arrependida de alguma coisa. Quando levei a segunda trombada, ela quebrou o silêncio preenchido pela orquestra Nélson de Tupã agora com todos os instrumentos tocando e preparando os acordes finais da música.
            Gílson. Você parou de dançar...
            E expressando todo meu estado de espírito e a profusão de sentimentos que se misturavam em mim, perguntei:
            É?...
            Voltei a dançar sem tirar os olhos daquela garota inacreditável, trêmula, fêmea e tímida, que agora baixava os olhos grandes prestes a me pedir desculpas, ante minha reação inesperada. E a orquestra executava as últimas notas de Moonlight Serenade, quando lhe disse, já pronto para ouvir o speech decorado, que foi em tudo parecido com o que havia preparado para a Sandra:
            Por que não?
            Nélson de Tupã emendou com Dancing in the Dark no momento em que nossas faces se tocaram e nossas mãos se enlaçaram junto ao peito, os dois iluminados e plenos daquela emoção que só se sente quando se é adolescente e se consegue de algum modo encontrar-se na paixão. Lá fora uma lua cheia e brilhante iluminava a Terra. E no salão, em meio a centenas de casais, um silêncio musical prenhe de falas carinhosas e carícias. Começavam ali os tempos mais felizes de nossas vidas.

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