AL DENTE


            Diante deste cardápio, chego a achar interessante o fast food. Tem só aquele tipo de comida e pronto. Mas que idiota que eu sou, não deveria ter recusado a entrada. É como ir ao supermercado com fome; acaba comprando aquele monte de bagulho enlatado ou empacotado. Melhor me concentrar num tipo só de comida. Massas. Isso, massas. Digere bem, o prato é bem servido... Deixa ver... Um spaghetti vai bem... Molho branco ou vermelho?... Mas este caneloni... e o cappelletti? — Ai meu Deus o cappelletti... —. Não deveria ter recusado a entrada; com a fome medianamente saciada, fica-se mais exigente, mais sutil. Concentre-se, vamos, concentre-se. Você está em dúvida entre cappelletti e... Peixe. Ai, não há como recusar: eu vi. Na página ao lado está escrito PEIXES. Nem pensar em olhar. Nada de peixe. Não pense em peixe, pense em massa.
            — Não, ainda não escolhi.
            — O senhor já viu os peixes? Estamos numa promoção de trutas esta semana...
            — É?...
            Garçom desgraçado! Tinha que me fazer olhar os peixes! Salmão. Aquele salmãozinho grelhado com cor de salmão... Truta. Será que aqui eles limpam bem a truta? Aquele filezinho branquinho, sem nenhuma espinha, e eu jogando a manteiga derretida e as alcaparras... Alcaparra ou amêndoa?
            — As massas também são muito boas, senhor. São feitas aqui mesmo e o cozinheiro prepara al dente, se o senhor quiser.
            — É?...
            — É. O ravioli de carne foi feito hoje à tarde mesmo. Mas se preferir o de ricota, também é fresco, feito de manhã...
            — É?...
            Sem dúvida é uma massa. Ravioli! Grande pedida. Esqueça os peixes. Adeus salmão cor de salmão. Adeus alvos filés de truta. Adeus caneloni. Adeus caneloni?
            — E o caneloni, está bom?
            — Ah, muito bom! Carne ou ricota?
            — Os dois são bons?
            — Muito bons!
            — É?...
            — Temos também um excelente supremo de frango, que é a especialidade do cozinheiro.
            — É?...
            Supremo de frango! Como não pensei nisto antes? Um prato como o próprio nome diz: supremo! Se bem que é difícil descartar as massas. Aquele ravioli fresquinho, preparado al dente... A truta definitivamente fica para outro dia. Fica? Acho que fica sim. Com amêndoas ou alcaparras?...
            — Olha, eu ainda estou indeciso; melhor você servir a moça da mesa ao lado, enquanto eu escolho. Tudo bem?
            — Fique à vontade. Quando escolher, é só me chamar.
            E esse garçom me pressionando... Acho que era por isso que eu não conseguia escolher... Onde é que eu estava? Ah, no supremo. Será que tem molho? Molho... Molho bom é aquele que não briga com o alimento base... Mas o que é isso? A moça já escolheu! Tão rápido? Vai ver nem está com fome. Essas mulheres não pensam em comer; só pensam em não engordar. Agora está fechando o cardápio com aquela cara satisfeita de quem pediu certo. Vou também fechar o cardápio e ouvir aquele som de cardápio fechando. Assim!
            — Pois não, escolheu?
            — Escolhi.
            — O que vai ser?
            — Spaghetti.
            — E o molho?
            — O molho?
            — É, o molho. Branco ou vermelho?
            — Digamos... branco.
            — Qual?
            — Como “qual”?
            — Romanesca, tripplo burro, quatro queijos, funghi...
            — Digamos... digamos... tripplo burro.
            — Muito bem. Um spaghetti ao tripplo burro.
            Ótimo! Acho que pedi exatamente o que queria. Até que foi boa esta estratégia de abandonar-me à intuição. É certo que poderia ser molho vermelho. Talvez. Talvez mais apropriado para o spaghetti...
            — Garçom!
            — Pois não...
            — Molho vermelho.
            — Qual?
            — Qual?
            — É. Sugo, bolonhesa, matriciana...
            — Digamos... digamos... puttanesca.
            — Certo. Um spaghetti a puttanesca. Bom pedido. O cozinheiro prepara muito bem este molho. Um vinho para acompanhar?
            — Vinho?...

                                                                 2

            O garçom está trazendo um prato. Será o meu ou o da moça? Outro garçom trazendo outro prato. Um deles é o meu, com certeza. O que será que ela pediu? Meu Deus, que visão maravilhosa! É um filé ao molho madeira! Como me permiti fazer isso comigo!? Como pude desprezar as carnes do cardápio!... Está mal passado — vejo o sanguinho despontando em rubras pintinhas no marron do molho. Perfeito!
            — Seu spaghetti, senhor. Al dente como deve ser.
            — É?...
            Parece que ela não gostou. Deixa eu apurar o ouvido para entender o que está falando.
            — ... entendo, talvez seja o certo, mas eu odeio carne mal passada.
            Ela pirou, só pode ser! Valha-me Zeus, ela vai mandar esturricar esse manjar dos deuses! Vai fazer o cozinheiro maldizer a profissão, odiar servir os outros! O que é que ela tem na cabeça?
            — Bem, se a senhora prefere assim, vou pedir ao cozinheiro que passe mais a carne. Mas...
            Não, não posso permitir! Eu aqui tendo que me contentar com este ridículo spaghetti e ela estuprando o bom senso culinário!
             — Moça, com licença... Espere, garçom, por favor. Moça, desculpe a minha intromissão, mas deixe-me tentar convencê-la a não alterar o prato. Está perfeito como está.
            — Não gosto de sangue...
            — Sim, até entendo, mas talvez se experimentasse, se sentisse a perfeita combinação do suco da carne com o molho madeira e...
            — Pedi errado. Devia era ter pedido um spaghetti como o senhor. Esse vermelho aí sim eu gosto.
            — É?...
            — É...
            — Eu não experimentei ainda, mas deve estar ótimo. Veja o molho na consistência certa, na quantidade exata, nem demais nem de menos. O garçom disse que massa é a especialidade da casa. O molho é puttanesca. Gosta?
            — Adoro!
            — Engraçado... Quando vi o seu filé, preparado assim no ponto, pensei que errei no pedido...
            — É?...
            — É.
            — Pois é, né...
            — Pois é...
            — E se...?
            — Bom, se...
            — Por mim...
            — Então...
            — Posso levar o filé para passar, senhor?
            — Não!! Nem pese nisso!
            — Pode deixar como está. Eu me convenci de que assim é melhor. Obrigada.
            — Às suas ordens, madame.
            — O senhor não prefere mudar de mesa?...
            — Se me permite... E por favor, não me chame de senhor. — Garçom, sirva o spaghetti para a moça. Vou comer este filé. — Aceita do meu vinho?

3 comentários :

  1. Deu até fome, mas acho que eu ficava com a massa...rs
    Bel

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  2. Então quem come sozinho está bem acompanhado de suas inquietações? É?...

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