O PINGUIM


           Não sei por que Maria Elisa se interessou tanto por meu pinguim. Vá lá que eu tenha exagerado um pouco ao dizer que ele era até bonito e ao mostrar-lhe com as duas mãos espalmadas, assim, o seu tamanho. Vi que seus olhos castanhos escuros brilharam e que sua face ruborizou-se, num mal-disfarçado desejo de conhecer ao vivo meu pinguim.
            Mas confesso que fiquei um pouco vexado quando, após recobrar a cor normal da pele do rosto, ela me perguntou, com um sorriso maroto, se a penugem do meu pinguim era preta. Disse-lhe que sim e não, sabendo que a ambiguidade atiça a curiosidade, mas que sem dúvida era viçosa e brilhante. E evitei exagerar mais, antevendo a futura inevitabilidade de mostrar-lhe. Numa pergunta, desviei o centro de interesse do meu, em particular, para pinguins em geral:
            ─ Com que então você curte pinguins...?
            ─ Também não é tanto assim, Gílson. Digamos que eu gosto de um ou outro, não sou de me apaixonar muito fácil. Mas sou obrigada a confessar que o seu me interessou bastante...
             ─ É? Por quê?...
             ─ Sei lá... Acho que porque é seu... ou por causa do modo como você fala dele... Pareceu-me particularmente interessante.
    Tentei diminuir-lhe a expectativa, preparando-lhe o espírito para que não se decepcionasse com a visão dele.
               ─ Na verdade, você sabe, pinguins são todos meio parecidos... O meu me parece especial só porque é meu.
                ─ Pois é. Foi o que eu disse.
Senti que não havia outra coisa a lhe falar a não ser propor-lhe:
                ─ Você gostaria de ver o meu? E se você quiser, se sentir vontade, eu deixo você pegar nele...
Novamente ela ruborizou, sem perder o sorriso maroto. Respondeu-me com contida excitação:
                ─ Quem sabe... Se houver oportunidade... Acho que me daria grande prazer...
                ─ Só espero não decepcioná-la.
                ─ Acho que não. Afinal, como você disse, pinguins são todos meio parecidos...
                ─ É. Todos gelados. Menos o meu...
                Meu gracejo teve o poder de descontraí-la numa deliciosa gargalhada. E contou-me uma estranha história de um sobrinho seu, numas férias de inverno em Monte Verde, que ao ser chamado para ver um pinguim ─ (um pinguim em Monte Verde, pode?) ─ que finalmente decidiu parar de nadar num lago, veio em desastrada correria, não percebendo que o barranco terminava abruptamente no lago. Despencou com tudo na água, levantando-se depois, qual gélida e rediviva Ofélia, com um nenúfar na cabeça.
                ─ Vai ver que é daí ─ concluiu ─ que vem meu interesse por pinguins. É que não há gelo capaz de esfriar um bom pinguim.
                ─ Já o meu, você vai ver, prefere a coisa quente.
                ─ Então acho que eu e o seu pinguim vamos nos dar muito bem.
                Convidei-a para que viesse à minha casa vê-lo. Por seu olhar, percebi que o convite a perturbou um pouco e quis saber se não haveria problemas; ela sabia que eu era casado e... Contei-lhe que na verdade não era fácil manter o meu pinguim ativo do jeito que eu gostava. É que havia uma implicância da minha esposa com ele, e que ela cada vez mais se mostrava reticente quanto a usufruir dele. Senti que Maria Elisa se sensibilizava com essa situação, mas certamente não a entendia suficientemente, ao sugerir que, se eu preferisse, poderia mostrá-lo em sua casa.
                ─ Não! ─ respondi quase indignado ─ É importante que seja em minha casa.
                Ela veio no final da tarde do dia seguinte. E chegou com o rosto entre tímido e afogueado, sem disfarçar sua ansiedade. Conheço muito bem este ar de quem tem grande curiosidade ou desejo de ver ou possuir alguma coisa. Carinhoso, beijei-lhe a face quente e a convidei a entrar, dando um jeito de deixar claro que não havia ninguém em casa naquela hora, já pensando em não constranger suas possíveis emoções. Ela olhou os quadros da sala, percorreu fingidamente interessada, apontando com os dedos, as lombadas dos livros da estante, ameaçou puxar “Todos os Fogos o Fogo”, do Cortazar, mas virou-se bruscamente para mim e perguntou numa curiosidade incontida:
                ─ Cadê seu pinguim?!
                A pergunta cortou-me uma frase qualquer em que eu falava sobre os estofados novos, numa objetividade natural em quem curte pinguim. Nem respondi. Segurei seu cotovelo direito e a conduzi até a cozinha, onde olhou ansiosa para o alto da geladeira em que havia apenas uma cesta de arame imitando uma galinha, um porta-ovos sem nenhum ovo. Aos poucos, enquanto ela tentava inutilmente reconhecer um pinguim naquela galinha, seu sorriso murchou decepcionado, e agora era eu que sentia o rosto afogueado e o olhar ansioso. Afastou-se da geladeira, andando de costas, em direção ao centro da cozinha, na esperança de que o inexistente pinguim se tornasse visível mais atrás, no alto do refrigerador. Mais ainda eu me fascinava com sua inocente decepção, segurando ao máximo meu desejo de mostrar-lhe meu pinguim, que estava agora tão perto dela, imponente e ereto, como devem se mostrar os verdadeiros pinguins. Intrigada e com certo temor na voz, ela repetiu a pergunta:
                ─ Cadê seu pinguim?...
                Dei um passo em sua direção, e sem dizer nada segurei-lhe o queixo macio. Lentamente fui girando seu rosto em direção ao fogão, para que ela visse, sobre o tampo transparente de acrílico cinza, meu tão estimado bichinho. Aí ela não se conteve:
                ─ Que lindo! De bico e pés vermelhos! É perfeito!... E sobre o fogão! Que maravilha! Nunca vi igual! Ai, Gílson, não sei o que dizer. Estou emocionada...
                Eu também estava emocionado. Finalmente alguém tinha conseguido me entender. Senti que tinha valido a pena manter meu solitário prazer de colecionar pinguins, todos eles acondicionados com carinho numa caixa de papelão guardada no escritório, embrulhados com cuidado em papéis de celofane coloridos, conforme a cor dos pés e do bico: vermelho, para os vermelhos, amarelo, para os dourados, rosa, para os vermelhos claros, azuis, para os azuis, e um único verde, adquirido a preço irrevelável de um antiquário.
                E Maria Elisa quis vê-los todos, admirando as sutilezas de defeitozinhos, de variação de tons, de tamanho, de formato dos pés ou da “penugem” preta ─ como ela insistia em chamar ─ que os diferenciava uns dos outros. Lembrei-me de meus temores de que ela achasse insuficiente aquele sobre o fogão. Mas achou-o perfeito, como de fato o era. Mostrou-se compreensiva com minha esposa, entendendo a dificuldade de ter que removê-lo a cada vez de usar o fogão, repreendendo-me e advertindo-me de que nem todos eram obrigados a gostar de pinguins de geladeira, quanto mais de fogão.
                ─ Eu sou mesmo uma pessoa complicada ─ concordei. Tenho dificuldades de que me aceitem com minhas idiossincrasias. Eu sou o pinguim no fogão...
                E ela me contou que também seu namorado não conseguia entender seus cinco pinguins sobre a Brastemp. Apenas os aceitava, friamente, sem o necessário respeito.
                Ela foi embora e me deixou pensando nessas estranhas confrarias de cultores desses hábitos solitários. E então me lembrei de um conhecido meu que tem a esdrúxula mania de colecionar galinhas, e de uma amiga que coleciona tartarugas; e dessas pessoas que se concentram solitárias em escrever crônicas, tentando recolher, de pequenas coisas do cotidiano, recortes da realidade, na esperança de que os outros as compreendam, comuniquem-se com elas, as humanizem. Buscar no gesto corriqueiro, que facilmente poderá resvalar para o brega, para o kitsch ou para o mau gosto, um incomunicável potencial humano, que se capta ou não se capta. Enfim ser como o menino, ansioso para ver um pinguim, mas que só o resgata para a memória dos outros por ridiculamente exibir-se enregelado com um nenúfar na cabeça.

4 comentários :

  1. Muito legal! Malicioso e divertido.

    ResponderExcluir
  2. Assim com o da panela verde, tem uma quebra de expectativa muito legal Gilson! Excelente.

    ResponderExcluir
  3. Cheguei a ficar bem assustado com o que a moça acharia do seu pinguim...
    Alcino

    ResponderExcluir
  4. divertida...gostei demais. Curiosamente, também coleciono pinguins, tenho-os espalhados pela minha cozinha e, a exemplo do seu, nenhum na geladeira, propositadamente...

    ResponderExcluir