O PÉ DE VALSA


     ─ Você gosta de dançar?
  Há certas perguntas que parecem ter respostas óbvias. E há as que merecem respostas monossilábicas, afirmativas, negativas, dúbias... Outras nos levam a longas digressões, ou a impasses, ou a constrangimentos... Certo é que, numa conversa, as perguntas são alimento do diálogo, provocam posicionamentos, revelam intenções e interesses. Sobre perguntas eu poderia falar horas, escrever um ensaio e até um livro. Sei muito sobre elas. No entanto sei também que nunca se sabe tudo, e pude muito bem comprovar isso naquela conversa.
   A pergunta apareceu no meio de um telefonema da Bia, aparentemente despretensioso. Já fazia tempo que ela não me ligava e mais ainda que eu não a via. Amigos de muitos anos, tínhamos muita coisa em comum, sobretudo as venturas e desventuras profissionais. O telefonema parecia ter apenas o intuito da cobrança inicial: que eu não telefonava para ela, não a procurava, essas coisas assim. Então dividi as responsabilidades e fomos atualizando a conversa de meses sem contato. Papo furado de velhos amigos ─ as mesmas decepções de trabalho de sempre, os filhos, a situação do país... Já estávamos na atualidade, quando fez a pergunta motivadora destas minhas tardias ponderações ─ nunca se sabe aonde uma pergunta pode nos levar.
Veio um pouco fora de contexto, apesar de se poder esperar qualquer coisa da Bia; ela é meio imprevisível. Mesmo assim usei cautela na resposta:
     ─ Já gostei muito, na adolescência. Hoje...
     ─ E você dançava muito?
    Foi nesta pergunta que eu me perdi. Todas as pessoas gostam de falar de si mesmas (ou, para ser honesto, eu gosto de falar de mim mesmo) e de contar vantagem sobre si (idem, idem). Disse que eu dançava todo fim de semana (o que era verdade), que não perdia um baile ou festa (idem), e que eu dançava muito bem (o que não é bem verdade), e que eu dançava qualquer música ou ritmo (idem). E a Bia alimentava minhas bravatas com comentários e exclamações admiradas. Empolguei-me a ponto de desencavar do fundo do meu repertório a expressão “pé-de-valsa”, epíteto definitivo com que me rotulei. E a Bia provocou-me ainda mais:
     ─ Você dançava até rock soltinho?
     Eu não dançava. Nunca consegui dançar “soltinho”, como se falava naqueles tempos. Faltavam-me pernas e cintura; faltava-me sobretudo o necessário toque de exibicionismo que essas danças suscitavam. Mas falando do passado, no clima auto- promotivo de um papo no telefone, quem haveria de provar o contrário, se eu mentisse um pouquinho mais?
     ─ Dançava! Dançava até twist e hully gully...! (sei lá como se escreve isso...)
   ─ Gozado... Já eu nunca tive coragem de dançar essas danças, Gílson. Me faltavam pernas, cintura, sei lá. Acho que me faltava coragem e um certo toque de exibicionismo, ‘cê entende? Não que eu ache você exibicionista, não é isso...
     ─ Tudo bem, Bia. Eu entendo muito bem...
     Na verdade, eu arrastava satisfatoriamente os pés em músicas lentas, como bolero, fox, samba-canção. Defendia-me razoavelmente num samba, numa rumba, num cha-cha-cha, num mambo, e até arriscava um tango, se tivesse umas duas cuba-libres na cabeça; mas nada que exigisse qualquer malabarismo ou que me obrigasse a soltar a mão da dama.
     ─ Então você ainda dança bem?
     ─ Que nada, Bia. Isso faz muito tempo. Hoje perdi o gosto.
     A resposta veio sincera e preventiva, porque pressenti que ela escondia algum secreto propósito com aquele interrogatório. Mas era tarde.
    ─ Ora, Gílson, não seja modesto. Dançar é que nem andar de bicicleta: aprendeu, não esquece mais.
     ─ Talvez, mas hoje eu não danço mais e nem ando de bicicleta.
     ─ Mas aposto que se dançasse saberia ainda!
     ─ Sei lá... Acho que não...
     ─ Ara, um pé-de-valsa como você?
     ─ É... talvez...
     ─ Aposto que dançaria até lambada.
     ─ Lambada?
     ─ Pra quem dançava mambo, lambada é moleza.
     ─ Mambo é mais fácil...
     ─ Mas se tivesse lambada na sua adolescência, você dançaria...
     ─ Provavelmente...
    Nesse momento já era grande minha curiosidade em saber onde ela iria chegar. Resolvi precipitar:
     ─ Mas por que você está perguntando essas coisas?
     Pela primeira vez eu tomava a pergunta como arma. Era a vez de ela revelar seus propósitos:
     ─ É que eu estou precisando de um parceiro de dança e você é perfeito. Melhor impossível!
     ─ Eu?!
   ─ E não diga que não. Não me venha com esse papo de velho de que dançar é coisa de adolescentes...
    ─ Dançar onde?
    ─ Numa festa baile, da Associação dos Professores de Linguagem.
    ─ Desde quando a Associação virou clube de dança?
  ─ Não é isso. É uma festa para arrecadação de fundos. Vai ser no salão de danças do Bar     Avenida, com orquestra e tudo mais. Eu já comprei os convites, você não precisa nem se preocupar.
   ─ E por que você não vai com o seu marido.
   ─ O Odair?
   ─ Ele ainda é seu marido, não é?
   ─ Claro que é. Eu comprei os convites para dançar com ele, mas não teve jeito de convencê-lo a ir. Ele diz que não dança, nunca dançou, nem dançará. Ele não gosta mesmo, não é como você. Foi ele que me sugeriu convidar você.
     “Desgraçado”, pensei, já sentindo que daquela seria muito difícil me livrar. Tentei escapar de todas as maneiras, principalmente quando soube que no meio do baile haveria um concurso de lambada. Mas não havia desculpa que a Bia não resolvesse. Sem alternativas, fui grosseiro e disse que a verdade era que eu não estava a fim. Mais que decepção, senti mágoa do outro lado da linha. Diria que ela até chorava e a esse argumento não resisti, ainda mais quando me revelou tímida:
     ─ Eu até já mandei fazer a saínha pra dançar lambada...
     Acabei dizendo que iria pensar se aceitava ou não, procurando ganhar tempo para encontrar um jeito de responder com um não definitivo. Conformada, Bia recomendou-me que pensasse com carinho, que fizesse renascer aquele adolescente fogoso que eu fui (ela sabia mexer com meus brios...), porque iríamos nos divertir muito. Por fim disse que voltaria a me ligar, dando mais detalhes da festa. Mal coloquei o fone em repouso, já me pus a maquinar a desculpa infalível. A morte de um parente logo me pareceu obviamente inconvincente; um compromisso de última hora era inadequado para um sábado à noite; aceitar outro hipotético convite seria uma indelicadeza que a Bia não merecia. Até que me veio o motivo inquestionável; este ela aceitaria sem dúvidas: ciúme. Eu diria que minha mulher tinha ficado enciumada e não me deu carta branca. Só bastava que ela topasse a farsa e fizesse seu papel de esposa.
     Às vezes as mulheres dão-me a impressão de formar uma estranha confraria, um complô subterrâneo para que nós, homens, nos mantenhamos numa posição inferior, se possível de ridículo, como se quisessem dar mais argumentos para nosso incurável machismo. Não só não aceitou participar da farsa, como ameaçou me denunciar, se eu inventasse qualquer desculpa, e encerrou suas cruéis considerações com um sádico e incompreensível “bem feito!” Tentei comprá-la com promessas, com as mais diversas propostas, roupas novas, viagens, com um jantar no Bassi ou no restaurante que ela quisesse na hora do baile, mas nada lhe parecia mais interessante do que me imaginar dançando lambada com a Bia. Sim, imaginar, porque a proibi de ir me ver e ela aceitou, talvez por existir ainda um pouquinho de afeto naquele ser desalmado. Duas horas depois daquele primeiro telefonema, a Bia ligou novamente. Estava na costureira, e me contou que a saia tinha ficado linda. Nem me perguntou se eu aceitava, dando o fato como consumado. Pediu logo para falar com minha esposa e ficaram as duas fofocando no telefone, como costumam fazer as mulheres. Sem dúvida era um complô.
     Nos dias seguintes procurei de todas as formas aprender a dançar lambada. Comprei um disco com doze faixas de músicas horrorosas e tentava sozinho, segurando uma mulher imaginária, ensaiar uns passos daquela dança diabólica. Então apelei para minha filha, que na época tinha oito anos. “É fácil, pai”. E inutilmente meus olhos tentavam decifrar aqueles pezinhos ágeis. “Mexe a bunda, pai”. E eu mexia a bunda e não mexia os pés, ou vice-versa. “Ninguém dança isso, filha”. Mas ela dançava, com sua graça infantil, mexendo tudo ao mesmo tempo com desenvoltura. A aula terminou em lágrimas, quando, ao tentar dançar com ela, dei-lhe um violento pisão no pezinho. Agora estava só. Restava-me ainda encontrar uma escola de dança, mas não encontrei nenhuma que desse aulas de lambada.
     Quando o sábado chegou, me encontrou o mesmo pé-de-chumbo de dias atrás. Não tinha arranjado uma calça larga apropriada para a dança e menos ainda os passos e trejeitos necessários. Desesperado, vasculhei a televisão ─ era a época da febre da lambada ─ na esperança inútil de que um canal apresentasse uma aula para lambateiros iniciantes. O programa da Xuxa mostrou as mesmas crianças desinibidas que reproduziam minha filha rebolando solta na sala. Bem que tentei acompanhá-las, mas sucumbi vexado ante a gargalhada sincera de minha filha. “Pai, se tiver concurso de mais engraçado, você ganha”. Mas a minha salvação veio à tarde, na Hora do Bolinha.
     Didata inesperado, o diretor de TV resolveu escolher uns primeiros planos dos dançarinos que ilustravam a sofrível interpretação de um “famoso”, desconhecido por mim, cantor, apresentado como “o rei da lambada” pelo obeso apresentador. Então pude ver com clareza, nos replays em câmera lenta, os passos e os rebolados. Lépido e solerte, levantei-me da poltrona e me pus a imitar as imagens, enfiando minha coxa no meio das de uma mulher imaginária, rebolando com sensualidade malandra meu traseiro (ou pelo menos eu imaginava assim) e sassaricando os pés no ritmo. Por sorte o cantor apresentou três números de seu em tudo semelhante repertório e o diretor de TV entusiasmou-se com seu virtuosismo; pude ensaiar à exaustão os passos que me saiam cada vez mais fluentes. No fim da terceira música, ofegante, dei-me por satisfeito com minha performance, julgando-me devidamente preparado para o desafio noturno. Sentia um entusiasmo juvenil e considerava perfeitamente possível até mesmo abiscoitar o prêmio de melhor dançarino da noite. Agradecido ao santo Bolinha, desliguei a TV e fui procurar a calça mais larga que tivesse no guarda-roupa.
     A Bia não era nenhum modelo de sensualidade naquela sainha estampada, que mostrava discretas celulites e uns azuladinhos de varizes. Nada que parecesse chocante ou feio. Apenas anunciava, para quem quisesse ver, que nosso tempo havia passado e que se quiséssemos dançar era melhor que nos contentássemos com recatados boleros, ou, no máximo, com cha-cha-chas.
     O salão estava cheio de professoras passadas dos trinta ou quarenta e professores meio desengonçados, com suas indefectíveis barriguinhas e barbas grisalhas. Mais ou menos metade levava pendurados no nariz óculos com aros de tartaruga e a outra mais ou menos metade deveria trazê-los na bolsa ou no bolso. Então eu e Bia estávamos perfeitamente integrados no ambiente, sem contar que conhecíamos grande parte dos ressuscitados dançarinos. Ela estava animada e eu aparentemente tranquilo. Confiante, convidei-a para dançar quando a orquestra atacou com um mambo, um velho hit de Xavier Cougat, com os devidos “us”, gritados nos momentos certos. Eu dançava a música decorada desde a adolescência, dando ousadas paradinhas e espertos rodopios, que arrancavam entusiasmados elogios de minha parceira. E aos poucos minha tranquilidade foi deixando de ser apenas aparente e quase comecei a acreditar nas lorotas ditas ao telefone.
     Um rufar de caixa, finalizado pela baquetada no prato, executado pelo baterista da orquestra, precedeu o anúncio do concurso. Também meus joelhos rufaram um inexistente tambor e me invadiu uma emoção parecida com a que senti na primeira vez em que pedi uma garota em namoro. Instintivamente fugi. A Bia me segurou pelo braço.
     ─ Não vai fugir...
     ─ Vou!
     ─ Para com isso. Você está parecendo um adolescente que vai se declarar à primeira namorada!
     ─ Eu sou um adolescente! Ou melhor: eu estou um adolescente!
     ─ Ótimo! Então vamos ganhar o concurso.
     ─ Não vai ter nenhum concurso! No meu tempo não tinha lambada.
     ─ Nada disso! Eu vi como você dança mambo...
     ─ Mambo não é lambada. Mambo é mambo.
     ─ Mas é tudo latino-americano, tudo sensual...
   ─ Eu não sou sensual, não estou a fim de seduzir você e não vou entrar nesse bate-coxa desvairado!
     ─ Calma, Gílson, vamos tomar uma cerveja na mesa que você se acalma.
    ─ Eu quero tomar cerveja num bar bem longe daqui, em outro bairro... Não; em outra cidade, em outro país, se possível não tropical, onde não se mambe e não se lambe!
     Bia foi me arrastando para a mesa, com frases tranquilizadoras, repetindo todos os elogios que já tinha feito. E pediu duas cervejas ao garçom, enquanto no palco uma professora dizia o regulamento do concurso, numa fala entremeada de piadinhas típicas de professor de segundo grau. No final disse que daria mais quinze minutos para novas inscrições e leu a lista dos casais já inscritos ─ eu e a Bia entre eles. Quis ir embora, mas a Bia insistiu que eu acabasse a cerveja, provavelmente com o intuito de me embriagar. Nem uma dúzia de cervejas apagaria a lucidez de minha decisão. Mantive-me firme, aceitando no máximo assistir ao concurso, até que a Bia levantou-se da cadeira com a feição alterada de quem tinha sofrido um imperdoável insulto. De pé na minha frente, pôs as mãos na cintura e me advertiu quase chorando:
     ─ Pô, Gílson! Então você me faz mandar fazer esta sainha (e mostrou-me a sainha), me faz vestir esta calcinha (e mostrou-me a calcinha) e na hora agá dá pra trás? Isso não se faz! E eu que sonhei a semana inteira com este momento...
  E continuou se lamentando até as lágrimas. Pronto, ela precisava chorar...? Senti-me envergonhado da minha covardia e culpado pela decepção que estava causando.
     ─ Tá bom, tá bom. Desculpe, não parece, mas eu sou muito inibido. No fundo, no fundo, sou tímido e me apavorei. Vamos dançar essa lambada e seja o que Deus quiser...
     É inacreditável essa capacidade teatral de algumas mulheres de passarem do choro ao riso, como se passa da cozinha para a copa pela porta aberta; e como alguns de nós, homens, nos deixamos seduzir pelas lágrimas, por mais firmes que sejam nossas convicções. Em segundos a Bia, toda faceira, me puxava pela mão, em direção ao meu cadafalso musical, e as lágrimas que me comoveram faziam parte de um passado tão remoto como um lundu ou uma canção de gesta. Os casais se ajeitavam tensos e excitados à espera dos primeiros acordes que não tardariam, enquanto a apresentadora acabava de enumerar os jurados, que iam desde artistas de segunda linha de canais de televisão com menos de dois por cento de Ibope, até vereadores, passando por passistas de escola de samba e velhas professoras. “Eis meus carrascos”, pensei, a ponto de mergulhar em tensa depressão. Já a Bia saracoteava sorridente, sem me largar a mão, qual uma potranca indócil esperando o início de um páreo.
     Um novo rufar executado pelo baterista anunciou a primeira música. Confiante, Bia olhou sorridente para mim e me agarrou firme. Correspondi, automático, e sussurrei novamente: “seja o que Deus quiser”. Então a orquestra entrou com tudo num naipe de metais, tocando uma das lambadas do disco que eu tinha comprado. Trêmulo, ensaiei uns primeiros passos e rebolei tímido. A Bia acompanhou. Agora um pouco menos tenso, arrisquei uns volteios. A Bia me seguiu sem problemas. Então ganhei confiança e rebolei mais solto; dei volteios e enfiei a perna direita entre as coxas semi-despidas dela. A Bia acompanhou os passos perfeitamente. Já estava mais calmo; olhei sorridente para ela. E ela idem para mim. Volteei para a esquerda, rebolante, malemolente e virando o rosto para a direita com altivez e malícia. Então manerei, fui pra frente, vim pra trás, rebolei e encoxei. Já não havia a menor dúvida: estava lambando! Abusado, fiz trejeitos malandros e dei sorrisos maliciosos. Sim, animei-me. Olhei para os lados, sorrateiro, e concluí que os casais que eu via não eram páreo para mim. “Mais fácil que mambo”, pensei. Fui dirigindo minha parceira para perto dos jurados; precisava me exibir. Lambada pra frente, trombada pra trás, cotoveladas pros lados, e encontrei meu espaço na frente dos atentos juízes da minha arte.
     Bia percebeu meus propósitos e se esmerava nos balanços de quadris e nos remelexos de ombros. Nas voltas da dança, olhava para os lados e via a plateia parada nos observando (os homens de olho nas coxas das mulheres) e percebi que um casal, como eu e a Bia, também tinha aberto espaço e se exibia para os juízes. Eram bons, talvez melhores que nós. Ah, mas isso não podia ficar assim! Acendeu-se meu espírito competitivo e dei uma cotovelada no cara, na primeira oportunidade. Mas que calhorda: ele respondeu com um passo ousado e sorriu superior para mim. Imitei-lhe o passo com um grau maior de dificuldade e sorri desafiador para ele, acrescentando uns rebolados debochados. Mas ele não se deu por vencido e rebolando na minha frente jogou o tronco da parceira para trás, puxando-a em seguida num rodopio até abraçá-la por trás. “Agora dancei”, pensei. Isso eu não sabia fazer. Só que minha raivosa competitividade falou mais alto e achei que poderia tentar; por que não?
     Por que não? Há certas perguntas que nunca deveriam ser respondidas. Outras há que são testes de nossos limites. E há as que são um desafio à nossa capacidade. Antes que a racionalidade se interpusesse, antes mesmo de qualquer pensamento, eu já tinha decidido que mostraria ao rival quem era este dançarino de mambo redivivo.
     Então soltei o corpo da Bia que rodopiou em equilíbrio precário por volta e meia. Pretendia puxá-la de volta, jogar seu corpo para trás, fazê-la dar novamente volta e meia e abraçá-la pelas costas: seria mais do que aquele que ousou competir comigo. E vi a Bia vindo, se esforçando para readquirir o equilíbrio. Naquele décimo de segundo avaliei que conseguiria ficar ereta e lancei insolente e sensual meu quadril rebolante para frente. Só que a Bia, na retomada final do equilíbrio, ergueu a perna direita flexionada e o choque foi inevitável. Senti aquele impacto violento do joelho dela contra minha masculinidade, meu orgulho, meu espírito competitivo e tudo o mais que em seguida foi literalmente por terra. E não pude conter um sentido e expressivo “uuu” que não era de mambo. Minhas pernas dobraram e caí nocauteado no chão. Tanta era a dor, que não ouvia mais a música e por trás dos olhos fechados eu só via uma constelação de estrelas vermelhas que não eram as da blusinha da Bia. Segundos depois, quando abri os olhos, vi em minha volta um círculo de rostos os mais variados, desde os que me olhavam preocupados até o de um sorriso irônico e superior do meu ex-oponente. A Bia, ajoelhada ao meu lado, pedia desculpas, preocupada, enquanto pateticamente abanava com a mão direita a parte seriamente danificada do meu corpo.
     Ridiculamente saí carregado por dois homens do salão, pois, por mais que tentasse, não conseguia desdobrar as pernas. Abandonaram-me em nossa mesa, com a Bia ainda se desculpando e se lamentando.
     ─ Esquece, Bia, a culpa não foi sua. Mas você tá vendo? Por isso que eu não queria dançar...
     ─ Por quê? Isso acontecia sempre com você?
     ─ Não. É que eu nunca tinha dançado lambada.
     ─ Também, você me soltou... Eu avisei que não sabia dançar soltinho...
     ─ Eu também não, Bia. Esta foi a primeira e última vez.
   Ela concordou que fôssemos ao restaurante contiguo ao salão de baile comer alguma coisa e beber um chope, programa, aliás, que deveríamos ter feito desde o início. Lá a dor foi sumindo e nossa aventura dançante foi virando piada, num papo solto de bar, no qual tenho as habilidades que me faltam como dançarino. Mais tarde uma amiga veio nos dizer que tínhamos ficado em quarto lugar no concurso e deu para a Bia um trofeuzinho de bronze. A Bia se animou incontrolavelmente e disse que eu me preparasse, porque no mês que vem a diretoria estava pensando em promover outro baile. Mas desta vez dei a resposta certa:
     ─ Eu não gosto, não sei e não quero dançar! 

8 comentários :

  1. Excelente,muito divertido, dei muitas gargalhadas.Parabens!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. excelente, Gílson! incrível como o texto é fluente. em poucos minutos, já estava no fim. aliás, que fim! você diz que o cronista é aquele que escorrega na banana e conta isso para o leitor. de fato! tomar uma joelhada no saco na frente do juri, dançando lambada, é uma cena digna de crônica. abs! carlos.

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  4. Muito bom Gilson. Acompanhei todo o texto com interesse crescente ate o final que foi ótimo. Alcino

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  5. Adorei a crônica. Gostosa de ler, engraçada, sem medo do ridículo.
    Bel

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  6. Muito bom mesmo! A situação é divertida e o texto muito gostoso de ler! Parabéns.

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  7. Adorei esta, professor! Até então não conseguiria imaginá-lo dançando lambada...

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