O CUPIDO INCIDENTAL


                Parece que eu tinha vocação, não sei bem por quê. O fato é que muita gente me elegia para conselheiro sentimental. Não raras vezes eu me via na situação constrangedora de um amigo, colega ou simples conhecido, cabeça deitada no meu ombro, molhando minha camisa com lágrimas doídas de paixão.
                — Ô, Arnaldo! Se controla, né. A gente está na praça! O que os outros vão pensar, vendo você deitado no meu ombro, chorando...
                    — Desculpe, Gilson. Mas o que é que eu faço?
                Assim como o Arnaldo, todos vinham sempre com a pergunta fatídica: “o que eu faço?” Era bobagem dizer “e eu que vou saber o que você faz...” ou qualquer resposta parecida. Só prolongava a choradeira. O melhor era dizer que atitude tomar, de preferência com cara de quem se sentia solidário com o sofrimento do infeliz.
                — Sabe o que você faz, Arnaldo. Sábado, você põe sua melhor roupa, passa uma colônia, engraxa os sapatos e vai ao encontro dela. Chega perto e finge que não a vê. Isto é importante, Arnaldo: você finge que não está nem aí pra ela. Então, inesperadamente, você tira a carta do bolso e dá pra ela.
                — Carta? Que carta?
                — A carta que você vai escrever, ora...
                — Mas eu escrevo mal...
                — Que é isso, Arnaldo. Nada de baixa estima. É só você dizer o que sente.
— Você não quer escrever para mim? Você escreve bem.
— Ah é? E você quer que eu namore por você também?
— Tá bom. Mas você acha que vai dar certo?
— Não tem erro, Arnaldo. Mulher adora carta de amor.
— Que perfume eu uso?
— Usa Lancaster. Lancaster vai bem com você, é o seu cheiro.
O azar era que com a maioria acabava dando certo. Eu falava a primeira bobagem que me vinha na cabeça e o sujeito saía todo cheio de esperança. Foi assim com o Arnaldo. Lembro-me daquele sábado, ele fedendo Lancaster, com uma carta no bolso interno do paletó, suor escorrendo na testa grande, fumando um cigarro atrás do outro. Senti-me culpado, sensação de que só prolongara e aumentara a decepção que ele iria ter. Quando me procurou para certificar-se de que tudo estava bem, tive vontade de dizer que parasse com aquela bobagem e fosse para casa tomar um banho, de preferência sem passar Lancaster depois — ganharia mais. Se estava interessado, fosse lá e falasse com ela, e corresse o risco de ser rejeitado, como acontece com todo mundo que se declara. Mas ele estava com tanta fé de que a carta e o perfume eram elementos mágicos infalíveis, que seria muito difícil que me ouvisse, se tentasse desfazer os ridículos estratagemas. A única coisa que o preocupava era seu próprio nervosismo.
A moça — era Marilei o nome dela — passeava pelo jardim de braços dados com as colegas, como era costume na época, alheia àquele apaixonado que passou por ela uma, duas, três vezes, empesteando o ar de Lancaster, sem coragem de lhe dar a carta. Eu observava de longe, dividido entre rir da situação que criei e sentir pena do coitado, que não conseguia enfiar a mão no bolso e sacar o esdrúxulo envelope. Na quarta vez, parou em sua frente e estendeu-lhe a carta que havia me mostrado há pouco, dentro de um envelope aéreo, também fedendo a Lancaster, esperando que ela se desvencilhasse dos braços das colegas, que riam risinhos contidos, frente àquela mão trêmula segurando a carta.
A agonia dos momentos seguintes foram terríveis. O Arnaldo, branco, seguindo à distância as três amigas que foram para um banco no centro da praça para ler a carta. Eu, ao lado dele, sofria também — de arrependimento, por ter inventado aquela história, e de enjôo, pelo cheiro insuportável da colônia argentina. Vimos a carta sendo aberta, o esforço da Marilei para ler, evitando o olhar bisbilhoteiro das colegas; depois o riso das três e o olhar procurando em volta o autor da missiva apaixonada.
E não é que a moça gostou da carta, gostou do Lancaster, do Arnaldo e tudo mais? Naquela noite mesmo ele foi acompanhá-la até em casa, início de um namoro que dura até hoje, os dois passados dos cinqüenta, com a filharada já crescida. Às vezes encontro o Arnaldo, gordo e feliz, e lembramos desse sábado. Eu sempre rio. Ele não. Emociona-se e me agradece. Hoje ele usa Hugo Boss — ligeiramente melhor que o Lancaster...
Com o Marcílio eu me superei na função de conselheiro. Era a época em que ele andava à beira do suicídio por causa do casamento de Nícia Leitão com o Nicanor e eu recém havia sido enganado pelo velhaco.
— Marcílio. O Nicanor sai todas as noites pra jogar no clube. Pela casa do Maneco Ferreira dá pra você pular o muro e chegar no quarto da Nícia. Você pula o muro e entra no quarto dela; a janela está sempre aberta. Faz isso amanhã às oito.
— Você ficou louco, Gílson?
— Vai por mim. Quando for oito horas, eu ligo pra Nícia e aviso que você está no quarto dela esperando pra conversar. Aí é com você.
— Você pirou completamente, amigo. Já pensou o que vai acontecer se os pais dela me pegam no quarto, ali, parado feito um trouxa?
— Você se esconde até ela chegar.
— Isso de se esconder dentro do guarda-roupa é coisa de piada. E normalmente o cara se esconde depois que já tem um caso com a mulher...
— Não precisa se esconder no guarda-roupa. Fica embaixo da cama...
— Embaixo da cama?! Pirou mesmo. Embaixo da cama... Mas também, o que eu tenho a perder? Se o Nicanor me pega no quarto dele e me mata, pelo menos acaba este sofrimento...
— Deixa de ser trágico! Vai dar tudo certo. Mulher adora uma surpresa.
E deu certo. Não foi fácil, mas deu certo. O Maneco Ferreira, que também não suportava o Nicanor, pôs até uma escada no muro para o Marcílio pular. O problema foi convencer a Nícia pelo telefone. Quando liguei, quem atendeu foi o Jácomo Leitão. Disfarcei a voz e disse que era engano. Liguei de novo, e a mesma coisa. Na terceira chamada, falei que era eu mesmo e mandei chamar a leitoinha. Não havia tempo a perder. O Marcílio já deveria ter entrado no quarto. Certifiquei-me de que não havia ninguém por perto ouvindo a conversa. Não havia; estavam assistindo televisão. Por fim, expliquei detalhadamente a armação.
— Você está louco, Gílson? Se isso for verdade, eu vou é chamar a polícia! Isso é invasão de domicílio!
— Isso, Nícia, faça isso. Além de destruir a vida do meu amigo se casando com esse velhaco com quem se casou, agora põe o coitado na prisão, no meio dos assassinos e dos marginais. Ou então, Nícia, faz melhor: vai lá e dá um tiro no coração do coitado, que só quer conversar com você, dizer que ama loucamente essa mulher perversa que é você, e está lá, coração disparado de ansiedade, escondido embaixo da sua cama como um cachorro sem dono. Se você quer destruir meu amigo, chama a polícia de uma vez. Ou faz pior, Nícia. Chama o Nicanor, aquele calhorda indecente.
— Eu não quero destruir ninguém. Você é que é maluco de mandar aquele outro maluco invadir meu quarto.
— Você não sabe o que é amar mesmo, não é Nícia? O verdadeiro amor é loucura, é um desespero insano, é pura ousadia e poesia, como a poesia que emana dos poemas de Castro Alves e do Marcílio, que fica noites em claro escrevendo poemas para você, sua musa desclassificada e cruel.
— Ele escreve poemas? Desde quando?
— Desde quando? Desde que ficou cego e se apaixonou por você.
— O Marcílio ficou cego?
— É modo de dizer, né Nícia. O amor é cego — nunca ouviu essa frase?
— Ah, sei...
— Então, Nícia. Faça esse favor a esse amante tão devotado; faça esse favor a mim, que não agüento mais ver meu amigo sofrer; faça esse favor a você, que com certeza não sabe o que é felicidade e amor, vivendo com aquele...
— Mas o Marcílio faz poemas?
Na verdade não fazia. Ainda bem que não me desmentiu, quando Nícia falou em ler os poemas — percebeu que eu havia jogado essa palha. Ainda bem, também, que ele sabia de cor uns trechos de um poema de Álvares de Azevedo, que recitou para ela como se fosse dele. Nas semanas seguintes, tive que escrever uns poemas para que ele justificasse a fama, até que decidiu escrever os dele. Até hoje Marcílio tem essa mania de poeta, apesar de ter mudado de musa.
Pois é. Lentamente a minha fama de conselheiro sentimental se espalhava e eu ganhava amigos e amigas agradecidos. Fui aperfeiçoando a técnica do aconselhamento, sugerindo atitudes cada vez mais surpreendentes e ousadas aos amantes, sempre com os detalhes fundamentais, como o perfume do Arnaldo  e os poemas do Marcílio. E a frase definitiva, acompanhada do detalhe: “mulher adora homem que usa cravo na lapela.” “Mulher adora homem que lhe dê um cachorro de presente.” “Mulher adora homem vestido de cowboy.” “Mulher adora homem que deixa crescer a barba.” E uma porção de outras sugestões que me vinham ao sabor do momento e da pizza. Pizza sim, porque comecei a marcar o momento dos conselhos nos fins de semana no Bar Caçula, e com isso comendo as pizzas pagas por meus agradecidos aconselhados.
O Zé Roberto achou que era injusto que só eu comesse pizza e tomasse café de graça. Concordei, mesmo porque a minha freguesia aumentava; passei a dividir com ele os que me procuravam.
— Olha, Virgílio. Hoje eu não posso, já marquei pra falar com o Sidney. Mas o Zé Roberto pode ajudar. Conversa com ele.
Dividir a diversão rendia redobradas gargalhadas, e nos sentíamos como deuses gregos a manobrar o destino das pessoas, aceitando de bom grado as oferendas de pizzas, cervejas e cafezinhos dos mortais agradecidos e ungidos por nossos infalíveis oráculos.
O que eu não esperava é que o Jorjão me procurasse. Já havia notado que ele andava pensativo, triste mesmo. Pouco ficava na roda de amigos, pouco entrava nos papos furados e mantinha sempre uma cara tensa e inquieta — isso já fazia uns três dias. Pensei que era por causa do sumiço do Nicanor; vai ver, ele gostava de bater no velhaco e agora andava sentindo saudades. Uma pergunta minha, feita ao acaso, desencadeou a surpreendente confidência. Eu chegava ao bar do Wlade para tomar um cafezinho e comprar cigarros; topo com ele encostado na parede junto ao balcão, cara de filósofo de botequim, olhar perdido, pensativo. Perguntei:
— E aí, Jorjão?
Quando alguém pergunta: “E aí, Fulano?” não está esperando uma resposta/diagnóstico do estado físico e/ou psicológico da pessoa — a não ser que a pessoa seja uma chata ou quem perguntou seja médico ou analista do questionado. Normalmente, espera-se um “Tudo bem” ou “ Vai se indo...” ou um outro “E aí?” com resposta. “E aí, Fulano” é como o “Alo” do telefone, mensagem fática, começo de conversa, coisa assim. A resposta do Jorjão me surpreendeu:
— E aí, por quê? O que você está querendo dizer com isso?
— Eu?
— É. Você falou “e aí?” Por quê?
— Ah, sei lá, Jorjão. É que nem falar “bom dia”, “boa tarde”, coisa assim. Eu não estava perguntando nada.
— Pois tome cuidado com suas palavras! O peixe morre pela boca...
— “O peixe morre pela boca”, Jorjão? E o que é que eu tenho a ver com o peixe? Eu só estava cumprimentando você. Mas se isso é ofensa, me desculpe, não está mais aqui quem falou.
— Tá certo, deixa pra lá. É que eu estou com os nervos. Eu pensei que... Deixa pra lá, tá tudo certo. Vamos esquecer esse negócio de peixe. Faz de conta que a gente não falou nada. E aí, Gílson?
— E aí o quê? Por que você está me perguntando isso?
— ‘Cê tá tirando sarro da minha cara?
— Claro que estou, né, Jorjão. Eu chego, falo “como vai” e você já vem com pedras na mão...
— Você não falou “como vai”; falou “e aí?”. E eu não taquei pedra em ninguém, que eu não sou de tacar pedra...
— Tá bom, Jorjão. Vamos cortar esse papo, que já foi longe demais. — Wlade, me dá um café e um Hollywood sem filtro.
Jorjão me observava tomando o café, novamente com olhos enigmáticos. Havia um toque de ansiedade naquele olhar.
— Que foi, Jorjão? Nunca viu ninguém tomando café?
— Toma seu café, que eu quero falar com você.
— Falar o quê?
— Toma o café primeiro, que eu não quero ninguém falando comigo com vontade de tomar café.
— Eu já tomei o café.
— Você quer outro? Eu pago...
— Não, não quero.
— Então eu pago esse.
— Ué... Desde quando você está pagando alguma coisa? Você não paga nem visita...
— Mas esse café aí eu pago.
— Deixa, eu preciso pagar o cigarro, pago o café também.
— Eu pago o cigarro. — Wlade, põe na minha conta o café e o cigarro dele.
— Você não está bem, não é, Jorjão?
— Por quê?
— Você não está bem. Vamos conversar, que alguma coisa não está funcionando bem em você.
— Quem é que disse?
— Ninguém disse nada. Melhor a gente conversar. Fala, Jorjão.
— Aqui não. Vamos pra outro lugar.
— Tão grave assim?
Jorjão não respondeu. Senti uma mãozona segurando firme meu braço direito e me arrastando para o jardim da praça em frente ao bar.
— Ô, Jorjão, larga meu braço, tá machucando. É só dizer onde quer ir, que eu vou...
— Desculpa eu. É que eu estou com os nervos.
O jardim da praça Comendador Muller em Americana ocupa um quarteirão. A fonte luminosa está bem no meio, ladeada de um círculo grande calçado com pedras portuguesas, com vários bancos longos, sem encosto, nos limites externos dessa circunferência. Depois, rodeando essa circunferência, vem a parte maior do jardim, gramada, com alguns canteiros de flores, árvores e arbustos esparsos. Um outro passeio, de uns três metros de largura, circunda — um círculo enorme — essa parte central do jardim, que continua, após o passeio circular, até as calçadas das ruas. Nessas partes, que ocupam os quatro cantos do jardim, há muitas árvores — pinheiros, flamboyants, sibipirunas e outras — que sombreiam os passeios de entrada do jardim que ligam as calçadas das ruas ao passeio circular. São oito entradas, nos ângulos do quarteirão quadrado em diagonal e nos centros, formando a cruz que dá acesso até a fonte. É um bonito jardim, em declive não muito acentuado, acompanhando a descida das ruas Washington Luís e Rui Barbosa, paralelas. O declive é suficiente para determinar quatro planos, perceptíveis pelas escadas que há, antes e depois do círculo central onde esta a fonte, e uma outra, na mesma direção, depois do passeio do círculo maior, as três no braço central da cruz que vai da Rua Fernando de Camargo, em baixo, à rua Vieira Bueno, acima. Após a terceira escada, abre-se um grande semicírculo em que está o monumento aos heróis americanenses da revolução de 32. Ladeando o semicírculo, uma mureta de meio metro de altura e meio metro de largura, usada também como banco por namorados, pessoas cansadas e preguiçosos.
Jorjão literalmente me arrastou para esta parte do jardim, depois de considerar que perto da fonte não era um bom lugar, e do mesmo modo os bancos que existem em todo o círculo grande.
— Diga aí, Jorjão. O que está deixando você com essa cara de cachorro do vizinho?
— Eu não sou cachorro não!
— Eu sei, eu sei. Cachorro do vizinho late, mas não morde; você morde.
Jorjão quase sorriu e perguntou preocupado:
— O Arnaldo falou com você?
— Falou o quê?
— Falou que eu iria falar com você...
— Não. Não falou que você falaria comigo.
— Não falou?
— Não falou.
— Mas ele falou que ia falar com você que eu queria falar com você! Desgraçado.
— É, mas não falou. Quando ele falou pra você que falaria comigo?
— Foi ontem que eu falei com ele e ele falou.
— Então é isso, Jorjão. Eu não encontrei o Arnaldo nem ontem nem hoje.
— Ah, então é isso!...
— É isso... Mas o que você falou pro Arnaldo e queria que ele falasse pra mim?
— O Arnaldo falou que você é bom nessas coisas.
— Que coisas?
— Ah... essas coisas...
— Problema com mulher.
— É! O Arnaldo me contou que você ajudou ele — o perfume, a carta, essas coisas. ‘Cê acha que eu preciso usar perfume?
— Eu não acho nada. Nem sei do que você está falando.
— Esse negócio de perfume fica bem pro Arnaldo. Pra mim não sei... Se bem que do jeito que eu ando...
— Você está enrolando, Jorjão. Se quer contar alguma coisa para mim, conta logo.
— ‘Cê tá com pressa? Se quiser, a gente deixa pra outro dia, daí o Arnaldo fala com você e fica mais fácil.
— Eu não estou com pressa. E é óbvio que não fica mais fácil o Arnaldo contar depois o que você pode me contar agora. Fala logo.
— É que o Arnaldo usa aquele perfume fedido...
— E daí? O que tem o perfume?
— Sei lá. Só sei que foi mais fácil falar pra ele.
— Você quer que eu ponha perfume?
— Não, não! Aquele perfume do Arnaldo é muito fedido.
— Pára de frescura, Jorjão, e fala logo!
— É isso! ‘Ce tá vendo? Eu tô ficando fresco!... Ai, meu Santo Onofre, por que isso tinha que acontecer comigo...
— Você, fresco?! Você quer dizer veado?... É isso, Jorjão?
— Sei lá. ‘Cê acha que eu sou veado?
— Eu não.
— É, mas eu tô achando que eu sou.
— Que é isso, Jorjão. Não é por isso que você me procurou, é? Não vai me dizer que você está a fim de mim...
— Não, não! Você é meu amigo e o Arnaldo falou que você fala as coisas certas. É por isso que eu procurei você.
— Mas você anda interessado em algum homem?
— Não, em nenhum, por enquanto...
— Me responde: quando você vê o Nando Bos..., você fica com vontade de dar um beijo nele?
— O Nando Bos...? Eu fico é com vontade de mijar nele!
(O Nando Bos... era o sonho de metade das moças de Americana, que o achavam parecido com o Pat Boone, um cantor e ator de cinema americano, que fazia sucesso na época).
— É... mijar no Nando Bos... não é bem o que um homossexual faria... Jorjão: se você não se sente atraído nem pelo Nando Bos..., então definitivamente você não é veado. De onde você tirou essa idéia?
— É que eu... como vou dizer... eu não ando funcionando direito.
— Funcionando como, Jorjão? O que não funciona direito em você?
— Aquilo...
— Aquilo o quê? Por que você não me conta essa história direito?
— Tá bom. Mas você não conta pra ninguém! Se você contar eu capo você!
— Que é isso, Jorjão. Estou vendo que você está mal. Quem sabe eu possa ajudar você. Mas veja bem: eu não estou prometendo nada...
— É, eu acho que ninguém pode me ajudar; mas em todo caso é bom contar pra mais alguém.
— Vai lá, Jorjão, desembucha.
— É a Rosa...
— Que rosa?
— A minha Rosa.
— E desde quando você virou jardineiro?
— Que jardineiro nada. Tô falando da Rosa Maria.
— Quem é a Rosa Maria?
— A minha namorada.
— Mas é claro... ela só podia se chamar Rosa... Jorjão que bota um cavalo a nocaute e Rosa... Não pode dar certo mesmo...
— Por quê?
— Nada não... Mas o que há com a Rosa? Ela não é flor que se cheire?
— Olha lá! Vê como fala!
— Desculpe, é brincadeira. Vai, continua.
— Eu gosto da Rosa, a gente namora e eu gosto da Rosa. Eu gosto de ouvir ela falando, contando as coisas; gosto de segurar a mãozinha dela; gosto mesmo.
— Que bom, Jorjão. Mas ela não gosta de você, é isso?
— Não! Ela gosta de mim. Gosta de me ouvir contando as coisas; gosta de segurar minha mão; gosta mesmo.
— Então, você gosta de segurar a mãozinha dela e ela de segurar sua mãozona; ela gosta de ouvir você contando as coisas e você gosta de ouvi-la contando as coisas. E daí, qual o problema?
— É a Rosa. Não, acho que sou eu.
— Não estou entendendo.
— Sabe como é namorar?
— Sei.
— Então; a gente conversa, segura na mão, essas coisas. Depois, começa a beijar e assim vai. Um dia, eu fui na casa da Rosa e não tinha ninguém lá. E a Rosa começou a me beijar e beija pra cá e beija pra lá, e chegou uma hora que ela pegou minha mão e puxou pro peitinho dela e desabotoou um botão da blusinha dela pra que eu pegasse melhor.
— A Rosa?
— É, a Rosa é fogosa...
— Quem diria, pequenininha daquele jeito...
— Então, Gílson. Esse é o problema. Ela é pequenininha e eu sou grandão.
— É, você é bem grande. Mas e daí, você pôs a mão no peitinho dela...
— Aí, beija pra cá, beija pra lá, eu pegando com muito cuidado aquele redondinho dela, e ela pegou a outra mão que estava sem fazer nada e pôs na coxa dela e puxou a saia pra que eu alisasse a coxa dela.
— Grande Rosinha, fogosa mesmo! E você não gostou, Jorjão? É esse o problema?
— Não! Gostei sim! Ela toda lisinha, redondinha, gostosinha... E aí ela veio passando a mão no meu peito, no meu pescoço, na minha barriga, assim, por cima da roupa, e aquela mãozinha procurando, até pegar no meu...
— E aí você não gostou, foi isso?
— Não! Gostei! Aquela mãozinha, ela é muito jeitosa...
— Já sei. Vocês foram para a cama e ela engravidou.
— Não. A gente não foi pra cama. Podia chegar alguém, eu achei melhor não ir.
— Muito sensato, Jorjão.
— O que é sensato?
— Quer dizer que você pensou direito.
— Você acha? O Arnaldo acha que não.
— Mas eu ainda não entendo o problema, Jorjão.
— É que até aí não tem problema. O problema veio depois.
— O que foi; ela se arrependeu?
— Antes fosse... Depois disso, bastava agente ficar sozinho em qualquer lugar, na rua, no cinema, na casa dela, que lá vinha ela com a mãozinha...
— Fogosa mesmo essa Rosa...
— A coisa foi ficando de um jeito, que ela queria a todo custo que a gente fosse pra cama; ela falava que não agüentava mais, que me amava, que eu era o homem da vida dela. E que eu precisava dar um jeito, que ela não comia mais direito, não dormia direito, ficava sonhando comigo... E comigo acontecia a mesma coisa.
— O jeito era vocês irem logo pra cama, né Jorjão?
— E a gente foi.
— Então, qual é o problema?
— Esse é o problema. Você sabe, a gente tem um rancho lá na represa, perto da Praia dos Namorados. Uma tarde, eu peguei ela e fomos pra lá. Ela estava feliz que só vendo. Chegou lá, foi logo tirando a roupa, ficou só de calcinha. E eu só olhando...
— E não gostou do que viu. Foi isso?
— Não! Gostei sim! Aquele corpinho certinho, redondinho, gostosinho... Mas quando tirei a roupa e fui pra cama com ela, cadê...
— Cadê o quê?
— Cadê o meu!
— O seu?
— É, o meu. O meu não funcionou.
— Nada?
— Nada.
— Nada, nada?
— Nada, nada.
— Que chato...
— É...
— E...?
— Então, ‘cê acha que eu sou veado?
— Só por causa disso?
— Como “só por causa disso”? Que coisa pior pode acontecer para um homem?!
— Sei lá, pode passar uma jamanta na cabeça dele...
— Antes tivesse passado uma jamanta na minha cabeça... Mas me diz. ‘Cê acha que meu negócio não é mulher?
— Eu não posso responder isso. Só você é que pode. O que eu acho ou não acho não vem ao caso. Acaba de me contar. O que aconteceu depois?
— Depois ela achou que eu não gostava dela e chorou. Eu fiz minha Rosinha chorar...
— Chorou com razão, né Jorjão. Você leva a menina pra casa da praia, ela fica peladinha pra você e você nada!...
— O pior não é isso...
— Tem mais?
— Tem mais...
— Tem mais o quê?
— Isso é duro de contar.
— Vai, já chegou até aqui, conta.
— Você não conta pra ninguém?
— Claro que não, Jorjão.
— Se contar, além de capar você, eu corto o seu pescoço.
— É ainda pior que não funcionar?
— Muito pior!
— O que foi?
— Olha lá! Não vai contar!...
— Não.
— Tá bom, eu vou contar. Eu também chorei...
— Você?!
— Você ainda acha que eu não sou veado depois disso?
— Ô, Jorjão... Não tem nada de errado em chorar. A situação ali bem que pedia uma choradinha. Não esquenta por isso, chorar todo mundo chora.
— Sabe o que é? Me deu um aperto no peito, vendo aquela mulherzinha que eu amo, ali, peladinha, chorando, e o meu nada...
— É, Jorjão, é de chorar... Mas você não tentou de novo? Às vezes o cara fica ansioso e daí não funciona mesmo. Comigo aconteceu na primeira vez. Depois a mulher me acalmou e a coisa foi.
— Ah, sei lá... Depois ela vestiu a roupa, eu vesti a roupa e só tinha vontade de sumir. Isso nunca tinha acontecido comigo. A Gente foi embora. Nenhum dos dois conseguiu falar nada. A gente estava com muita vergonha...
— Quando foi isso, Jorjão?
— Faz cinco dias. Cinco dias que eu não durmo...
— E você não procurou mais ela?
— Não. Ela vive me procurando. Telefona lá pra casa e eu mando falar que não estou. Eu não sei o que falar. Tô morrendo de vergonha...
— Você está com medo.
— Eu com medo? Eu não tenho medo de nada!
— Você está com medo dela.
— Eu com medo; só faltava essa...
— Você está se cagando de medo da baixinha.
— Tá bom, tô com medo, e daí?
— Você tem certeza de que não funciona mesmo? Porque, se for isso, precisa de um médico.
— É só com ela que não funciona.
— Só com ela? Você tentou com outra?
— Tentei não; eu comi.
— Comeu o quê?
— A Bela e a Neusona.
— Você transou com duas mulheres depois disso?
— Mais ou menos...
— Mais ou menos? Ninguém transa mais ou menos. Ou transa ou não transa.
— Não são duas mulheres.
— Uma é travesti?
— Não. Uma é uma égua.
— Uma égua?!
— O quê... Vai me dizer que você nunca barranqueou uma égua?...
— Não. Mas isso não importa.
— Já sei, você está achando esquisito que eu não fui com a Rosa e comi uma égua. É que eu estava desesperado, queria provar pra mim mesmo que eu funcionava. Eu estava lá no sítio, a Bela estava dando sopa...
— Tá bom, Jorjão, não estou recriminando você. E com a Bela funcionou?
— Funcionou. E naquela noite mesmo eu fui na zona e dei mais três com a Neusona.
— Pô, Jorjão! Pra quem não funciona, uma égua de tarde e três à noite, não está nada mau...
— Mas e a Rosa?
— Jorjão, eu quero que você abra seu coração pra mim...
— Que história é essa de abrir meu coração pra você! Não vem com viadagem pra cima de mim não!
— É jeito de falar. Se você quer que eu ajude, preciso saber o que você estava sentindo de verdade quando foi pra cama com a Rosa. Não é o que estava pensando; é o que estava sentindo, entende a diferença? Tenta lembrar da situação e me conta o que você estava sentindo.
— Não sei, era confuso.
— Sentimentos misturados.
— É. Eu gosto dela, mas na hora, não sei, eu queria que fosse o máximo e ao mesmo tempo...
— O quê?
— Eu estava com medo.
— De não funcionar?
— Não. Medo de machucar.
— Machucar? O quê?
— Ela.
— Não estou entendendo, Jorjão. Você estava com vontade de bater nela?
— Não! Você é louco? Imagina que eu vou bater numa mulher, ainda mais minha Rosinha!
— De deitar em cima dela? Ficasse você por baixo, então...
— Não, seu burro! Ela é pequenininha e eu sou grandão!
— E daí?
— Você é burro mesmo! O meu é grande!
— Então é isso?
— Pára de rir de mim, seu lazarento, que eu parto sua cara no meio!
— Desculpa, Jorjão, mas só rindo mesmo.
— Então me conta qual é a graça, porque eu não acho graça nenhuma.
— Sabe o que é? Você precisa tratar a Rosa como tratou a Neusona...
— ‘Cê tá querendo que eu trate minha mulher que nem uma puta? ‘Cê tá chamando minha mulher de puta? Eu arrebento você!
— Sua mulher? Que sua mulher... Até agora você só fez ela passar vontade. A Neusona você tratou como mulher; a Rosa, sei lá como você tratou...
— Eu trato ela com muito carinho, fique você sabendo!
— E a Neusona? Você bate nela?
— Eu não! Já disse que não sou de bater em mulher. Mas, que me interessa a Neusona. Não sei por que você insiste na Neusona. Meu problema é com a Rosinha.
— A Neusona é mulher, a Rosa é mulher...
— Mas é diferente!
— Eu sei que é diferente. A Rosa é sua namorada e a Neusona é a Neusona. Por que você trata melhor a Neusona do que a Rosa? Pra dizer a verdade, você trata até melhor a Bela do que a Rosa...
— Mas você não entendeu, seu porra! Eu não posso machucar ela! Ela é muito delicada!
— Tá bom, Jorjão. Mas larga meu pescoço. Você está me sufocando!
— Me desculpa.
— Ô mão pesada que você tem! O coitado do Nicanor deve ter sofrido um bocado...
— Aquele porcaria não servia nem pra morrer.
— Vamos falar sério, Jorjão. Mete uma coisa na sua cabeça: a Rosa também é mulher.
— Mas é pequenininha.
— Mas agüenta.
— Não agüenta. O meu é grande.
— Me responde uma pergunta: a mãe dela é alta?
— Não. A mãe dela é baixinha que nem ela. É até dois centímetros mais baixa que ela.
— E você acha que a Rosa também podia ter um filho?
— Ela quer ter pelo menos três, que nem a mãe dela.
— Mas você acha que ela poderia ter?
— Parece que se depender de mim vai ser difícil...
— Poderia ou não poderia?
— Poderia...
— E por onde você acha que vai sair a criança?
— Ah, sei lá...
— Vai sair pelo mesmo lugar onde o seu vai entrar, seu burro. E você acha que o seu é maior do que um bebê, mesmo que seja um nenezinho bem pequeno?
— Bom, nenê mesmo magrinho...
— Pois então, Jorjão. Vai lá com cuidado, com carinho, porque é a primeira vez, e faz o que sua Rosa está querendo que você faça.
— E se acontecer de novo?
— Não vai acontecer.
— Como é que você sabe?
— É aqui que eu entro pra te ajudar.
— Nada disso! Eu não quero você junto!
— Eu não vou estar junto. Eu tenho o remédio, Jorjão.
— Remédio?
— É, um remédio que não vai permitir que isso aconteça de novo. Se você tivesse usado da outra vez, não teria acontecido com certeza.
— ‘Cê tá brincando...
— E eu lá ia brincar com uma coisa dessas!
— Então me dá esse remédio!
— Só se você me prometer guardar segredo.
— Eu prometo. Qual é o remédio?
— Xampu de camomila.
— O quê?!
— É. Mas só o xampu não adianta. Você tem de andar com três folhinhas de guanxuma no bolso esquerdo.
— Guanxuma?!
— É. Você já viu mato mais forte que guanxuma?
— É, a guanxuma é forte...
— Antes do encontro, você toma um bom banho, com bucha e sabonete, e lava os cabelos com xampu de camomila.
— Mas o que tem xampu de camomila a ver com isso?
— A camomila tem poderes incríveis. Ao mesmo tempo que acalma, é um afrodisíaco poderoso, se associada à energia guanxuma. Você não falou que estava nervoso?
— É, eu ando com uns nervos... Mas o que é isso que você falou?
— Isso o quê?
— Afro... afro não sei o quê.
— Afrodisíaco. Significa que dá tesão.
— Ah, então é bom.
— E para reforçar... Não, assim também é demais. Melhor não...
— O quê? Fala! Pode reforçar que é bom!
— Aí a Rosa é capaz de não agüentar. Você, normal, dá três. Com isso então...
— Eu quero, fala! Eu quero compensar as que eu não dei.
— Mas será que a Rosinha agüenta?
— A Rosa? Mas você não falou que ela agüenta?
— É, acho que agüenta sim. Então, além de lavar a cabeça com xampu de camomila, você também toma chá de camomila com um pedacinho de folha de guanxuma. Olha, isso é dose pra elefante!
— Isso dá certo mesmo? Não é melhor usar perfume também?
— Perfume é pro Arnaldo. Pra você é camomila.
— Mas você garante que não vai falhar...
— Garanto.
— É, acho que não vai mesmo. Só de pensar em camomila já me dá tesão...
— Imagina quando você tomar o chá. É só pensar na Rosinha...
— É isso aí! Jorjão forte que nem raiz de guanxuma! A raiz não é melhor?...
— Você está louco, Jorjão! Se só pensar na camomila já deixa você excitado, se puser raiz de guanxuma no chá, nem a Rosinha, a Neusona e todas as éguas do pasto vão dar conta de você!...
— É. É bom não abusar, né?
— É bom sim.
— Então está bom. Deixa eu ir indo. Mas antes eu quero dar um abraço em você.
— Calma, Jorjão, você está me esmagando...
— Obrigado, amigo, obrigado mesmo! Não sei como agradecer...
— É fácil. Sábado à noite você me paga uma pizza no caçula.
— Feito! E aí eu conto o que aconteceu. Rosa Maria, se prepara!...
— Aí, Jorjão. Assim que se fala.
— Deixa eu ir, então. Preciso comprar xampu de camomila. Que marca é melhor?
— A marca não importa. O que interessa é o cheiro. Compra o que tiver mais cheiro de camomila.
— Mais uma vez obrigado, amigão. E olha lá; não conta nada dessa história pra ninguém!
— Não conto não. E você também. Não conta pra ninguém. Guarda esse segredo da camomila com você, tá bem?
— Tá, tchau então... Tem só mais um problema... Como é o cheiro de camomila?
— Não se preocupe, você vai saber. A camomila é mágica; ela revela seu cheiro para quem precisa dela.
Jorjão pagou pizza para mim um mês inteiro. A Rosa adorou o cheiro de camomila nos cabelos de Jorjão e passou a usar também, convencida dos poderes milagrosos da erva. A guanxuma, sugeri que dispensasse, depois que os dois passaram a freqüentar a casa da praia todos os dias. Casaram-se às pressas, meses depois, seis meses antes do nascimento do primeiro dos cinco filhos que tiveram, o último nascido no Pantanal, onde Jorjão é hoje um rico criador de gado.
Mas a minha fama de conselheiro sentimental não durou tanto. No ano seguinte, vim para São Paulo estudar e nessa época o relacionamento amoroso andava em baixa. Eu e o Zé Roberto tínhamos uma ditadura para derrubar, tarefa em que não conseguimos nem de longe o sucesso que tivemos como cupidos incidentais.

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