O CASAQUINHO DE CASHMERE


          A Ciça merecia um presente que meu dinheiro não podia comprar. Não sei não, mas acho que se tivesse todo dinheiro do mundo ainda não me pareceria suficiente. Ela era assim, demais. Pelo menos para mim, que a endeusava, numa atitude emocional típica de começo de namoro de um jovem tímido como eu era. Ciça: meu troféu dourado de árdua batalha; a que tantas vezes me pareceu inatingível e que por fim sucumbiu à minha devoção, aos meus bilhetes, aos meus poemas melosos, ─ à minha lábia e ao meu charme, por que não? Foram meses de paquera, até que, uma semana atrás, entregou-me emocionada sua mão alva, de dedos longos e finos, para que eu segurasse, no meio da sessão de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Ai, a mão de Ciça, suavemente acariciando a minha, trêmula como meu descompassado coração. Quanta emoção naquele drope Dulcora de hortelã que serviu de veículo para que eu, ousada e desavergonhadamente, aproveitasse a chance e não soltasse mais aquela mão de princesa.
             Ciça merecia um presente que pudesse simbolizar a dimensão dessa semana paradisíaca que me fez viver. Impossível, bem sabia, mesmo que empenhasse todo meu salário. E lá estava eu, naquela loja de departamentos, vítima das promoções exaustivamente anunciadas na TV, à procura do inexistente presente. Olhava os cartazes com corações vermelhos e os de pombinhos brancos encimando as frases impressas em letras arredondadas anunciando o dia dos namorados. Sem dúvida era essa mais uma coincidência feliz dentre tantos acasos nesta vida que me aproximaram de Ciça. Só uma semana, e já podia manifestar meu afeto de namorado devoto aos seus encantos maravilhosos de mulher. Ela, Ciça, com seus cabelos negros e longos, sua franjinha certinha, seu sorriso de Regina Duarte, seu andar de gazela e seus lábios... Espera aí; dos lábios eu não sabia nada. Mal ousei beijar-lhe o rosto de pele macia e suas mãos de princesa.
          Ciça merecia um presente. Bem sabia que nada nesta loja, nem a loja toda, expressaria minha paixão. Mas encheria a lembrancinha de minhas intenções mais sinceras, escreveria um poema e olharia para ela com tanta ternura que o presente seria inesquecível. O que comprar? Pus os olhos num par de chinelos cor-de-rosa que vestiriam bem seus pezinhos com seu arminho fofo. “Mas que número ela calça? 37? 34? São pezinhos lindos, suponho”. Nunca os tinha visto descalços, sempre escondidos na sapatilha de fivelas douradas ou pelo menos estavam, na única vez em que prestei atenção nos seus pés. Inseguro, caminhei pela seção feminina em meio a alguns homens desnorteados como eu e muitas mulheres com olhares gulosos, que colocavam vestidos, calças, blusas e roupas íntimas em frente ao corpo, como se se mirassem num espelho ou desfilassem numa passarela. Admirei-lhes a soltura e a graça, e quis que Ciça fizesse a mesma coisa. Sem dúvida o presente seria uma roupa. Qual? Caminhei perdido por aquele labirinto de araras e cabides, sentindo na ponta dos dedos os tecidos de vestidos, blusas, peignoirs, camisolas e calças. No fundo, tinha uma tênue esperança de que o tato me desse a luz que meus olhos não viam.
          De fato. A mão solta, espalmada, entre delícias de seda e ásperos de tafetás, deslizando em rigidez de jeans e confortos de algodões, tocou o macio inesperado e definitivo da lã de cashmere. Ah... uma metáfora azul claro de Ciça! O recato do casaquinho, com seus botões de madrepérola; o delicado do casaquinho no aconchego do toque: era uma veste para Ciça apesar de ela sempre mostrar o começo de seus seios rijos, naquelas blusas que usava, sempre com o primeiro e o segundo botões despreocupadamente desabotoados; ou então aquela blusa vermelha de malha, maliciosamente colada ao corpo, com um decote beirando o indecoroso e indubitavelmente provocador.
          Talvez Ciça merecesse um presente melhor, mas aquele não ofenderia sua beleza pura, e talvez ela me premiasse com um beijo, e quem sabe eu pudesse abraçá-la e sentir seus seios colados ao meu peito, seu coração palpitando...: o casaquinho de cashmere era um sonho digno de Ciça. Pedi a uma vendedora que me fizesse um pacote cheio de fitas.
     ─ Só faço a nota, moço. Depois de pagar no caixa, você retira o pacote. Vou pedir que ponham fitas, mas não garanto nada.
          A decepção daquela frieza comercial transformou-se em susto quando ela me apresentou a nota. Olhos fixos naquele número, pensei em voltar atrás na escolha, procurando mentalmente defeitos no casaquinho, mas a vendedora já encaminhava a peça de roupa caríssima para a seção de pacotes. Cogitei não pagar, relembrando opções de presente descartadas. “Quem sabe o LP dos Românticos de Cuba? E aquele enfeite tão delicado de flores de pano? Que tal se eu arriscasse o número do chinelo cor-de-rosa? Acho que 35 serve...” Acusei-me da imprevidência de não olhar o preço, mas invadiu-me um doído sentimento de culpa e decidi empenhar quase a metade do meu salário, pois Ciça merecia muito mais. Por certo passaria o mês meio duro; economizaria, pediria emprestado, sei lá. Orgulhoso da minha decisão, entrei na longa fila do caixa.
          A fila do pacote não existia. Mais se assemelhava a uma manifestação de protesto político, tão na moda naqueles tempos, um amontoado de mulheres e uns poucos homens, brandindo freneticamente suas notas fiscais devidamente carimbadas, como a minha, falando ao mesmo tempo para duas extenuadas empacotadoras de olhares anestesiados. Tentei esperar minha vez de ser atendido; mas em poucos minutos, impaciente como os demais, entrei na “briga”, conseguindo sair tempos depois daquele empurra-empurra com uma caixa cheia de fitas e fitinhas. Para isso tive que devolver a caixa e exigir os indispensáveis enfeites       por aquele preço eu merecia todas as fitas da loja e fiz valer os meus direitos. É certo que a gorjeta que dei para a empacotadora ajudou, mas por fim meu presente estava perfeito, com duas fitas, uma vermelha e outra rosa, envolvendo em varias voltas a caixa branca e cinco enfeitezinhos de fitinhas cor-de-rosa retorcidas, presos com coraçõezinhos vermelhos. Saí da loja, mergulhando no crepúsculo, já pensando na roupa que vestiria naquela noite certamente inesquecível. Com certeza seria uma roupa que combinasse com o casaquinho azul que carregava com cuidado numa sacolinha branca, dentro da caixa empetecada de fitas...   
          Depois do banho, da minha melhor colônia italiana de pinho e de me vestir, ton-sur-ton, com uma calça jeans, uma camisa azul claro e uma blusa de lã azul marinho (não me esqueci nem mesmo de combinar a cueca e as meias), liguei para Ciça, propondo-me a apanhá-la às nove horas. Sugeri que nos encontrássemos em frente ao prédio em que ela morava, preocupado com o presente, para que ela pudesse guardá-lo, se quisesse. Nunca tinha chegado tão perto de sua casa; namoro recente, nem sonhava com essas intimidades, porque Ciça pouco tinha falado de sua família, mas sabia que se dava bem com os pais e com o irmão mais velho que fazia residência em Medicina. No fim da conversa ao telefone, pediu-me que avisasse na portaria quando chegasse, que a chamariam pelo interfone.
           Ciça morava num desses prédios de classe média alta do Itaim, capaz de intimidar um professor-estudante meio pé-rapado como eu. Fingindo segurança, pedi ao porteiro na guarita de entrada que interfonasse o apartamento 82 e avisasse que eu estava lá. Esperei angustiados segundos; pelo visto não foi Ciça que atendeu. Além da angústia, sentia-me ridículo com a caixa na mão, que naquele momento me pareceu empetecada demais. E o presente empobreceu desencantado, definitivamente aquém do que Ciça merecia. O porteiro interrompeu-me o gesto de arrancar uma fitinha com o coraçãozinho vermelho, dizendo que eu podia subir.
     ─ Subir?
     ─ É. O senhor atravessa o jardim até aquela entrada e pega o elevador da esquerda. O da direita é de serviço.
          O presente me pesava nas mãos trêmulas e mais ainda o buquê de flores do campo que eu tive a estúpida ideia de comprar na Doutor Arnaldo. E a lembrança de Ciça, que tão bem combinou com as florzinhas delicadas na banca de flores, agora se perdia na infinita distância de oito andares que me separava dela. Ali, parado, observando em agonia os números luminosos que se acendiam em ordem decrescente no pequeno painel acima da porta do elevador, me amaldiçoei por não ter jogado atrás de um arbusto do jardim aquele insustentável maço de flores perecíveis como meu entusiasmo. Entrei no elevador e completamente amargurado pensava que eu precisava ter os pés no chão: Ciça não era mulher para mim. Claro que deveria ter percebido isso antes e continuar com minha platônica paixão. Quem sabe um dia, depois de formado, rico, famoso, eu estivesse à altura dela. Apertei o botão do térreo, disposto a voltar atrás. Mas o elevador seguia sua marcha inexorável rumo ao meu constrangimento inevitável. Talvez Ciça me esperasse na porta do apartamento e nesse caso eu não teria como voltar. “Abro ou não abro a porta do elevador? Se eu não sair e ela estiver esperando, será uma tremenda falta de respeito.”
          A porta do elevador abriu-se para uma saleta parcamente iluminada. À direita, uma porta com o número 81; à esquerda, outra com o número 82; e em frente, um quadro de caça à raposa. Olhei para a esquerda mais uma vez e me certifiquei de que ninguém me esperava. Ainda tinha tempo de voltar atrás e foi o que tentei fazer. Na rua decidiria o que fazer com os presentes e inventaria uma desculpa convincente. Mas, atrapalhado com o pacote e o maço de flores, vi o elevador descer antes que conseguisse abrir a porta. Apertei nervosamente o botão para chamá-lo de volta, consciente da eternidade que teria de esperar. Só que o barulho de chave virando na fechadura da porta do apartamento 81 empurrou-me amedrontado para o lado oposto; e o olhar curioso de uma senhora de tailleur bordeaux levou minha mão esquerda e o maço de flores em direção à campainha. Cumprimentei-a com o único sorriso possível naquela situação, um esgar forçado, arrancado a fórceps do rosto tenso, e esperei, após seu aceno de cabeça, que ela parasse de me olhar de cima a baixo. Mas novo barulho de chave colocou meus olhos fixos no número 82; e um senhor de bigodes grisalhos bem aparados e óculos com aro dourado pediu que eu entrasse. Nem tive tempo de esfregar a ponta dos sapatos na parte posterior da perna, como pensei fazer, enquanto a mulher de tailleur bordeaux olhava meus pés.
          Entrei na imensa sala que deveria ter o dobro do tamanho da quitinete em que eu morava e aquela ostensiva imensidão acabou de me esmagar. E eu continuava com meu único sorriso possível no rosto, tentando inutilmente erguer meus olhos em direção aos óculos daquele homem impecavelmente vestido com um terno cinza de tweed e com gravata de listas transversais largas azuis e vermelhas. Meu olhar parou no bigode e na boca sorridente:
     ─ Você é o Gílson. Eu sou o pai da Maria Cecília...
     ─ Muito prazer...       
        Tentei levar a mão trêmula para cumprimentá-lo num gesto automático. Inevitavelmente o pacote cheio de fitas e fitinhas interpôs-se entre nós. Tentei passar o pacote para a mão esquerda. Inevitavelmente o maço de flores do campo desabou sobre o tapete que deveria ser persa. Perdido na dúvida entre apertar-lhe a mão estendida e pegar as flores caídas, fiquei paralisado, em desespero ante o ridículo. Mas o homem me salvou. Apanhou as flores do chão, apertou minha mão, devolveu-me as flores e sorriu, contendo o riso; deu-me uns tapinhas no ombro direito e disse:
     ─ Calma que eu não mordo. Maria Cecília sempre fala de você e eu tenho prazer em conhecê-lo. Sente-se um pouco e espere; ela está acabando de se arrumar. Mulher é demorada, você sabe como é. Por falar nisso, deixa eu apressar a minha. Você bebe alguma coisa?
     ─ Não, não. Obrigado.
     ─ Se quiser, é só pegar.
          E apontou-me um bar discretamente iluminado por neon azul, repleto de variados copos de cristal pendurados e uma adega com não sei quantas marcas de whiskys importados e outras garrafas com bebidas coloridas, provavelmente licores. Como eu continuava parado no mesmo lugar, o homem insistiu para que eu ficasse à vontade, enquanto ele sumia por uma porta larga que deveria dar para outra sala. Abandonei meu corpo no primeiro sofá que encontrei. Então a inesperada maciez do couro marrom e o alívio de estar só permitiram-me um minuto de relaxamento. Percebi que tinha amassado a caixa com o pobre casaquinho de cashmere, e como se fosse uma desesperada saída para fazer alguma coisa, comecei com muito cuidado a desamassá-la para que recuperasse a compostura inicial. Com os dedos, refazia-lhe as fitinhas enroladas. E pousei-a sobre as pernas, ainda preocupado com uns amassadinhos irrecuperáveis. Sobre a caixa pus as flores para tentar recompor também o buquê.
         O homem reapareceu quando eu procurava um lugar para esconder uma margaridinha irremediavelmente comprometida. E vinha acompanhado de uma mulher belíssima no seu vestido verde-água de lã e na echarpe branca. A mulher abriu para mim um sorriso de simpatia e reconheci Ciça naquele rosto.
    ─ Oi, Gílson. Eu sou a mãe da Ciça. Muito prazer.  
    ─ Muito prazer, dona...
    ─ Maria do Carmo, Carminha...
    ─ Prazer, dono Carminha. Eu diria que a senhora é irmã da Ciça, digo, Maria Cecília...
        A mulher gostou da minha observação que saiu sincera. Também o homem pareceu ficar satisfeito. Os dois formavam um casal impecável e não pareciam ser pais de um rapaz em vias de terminar a faculdade de Medicina. Com o súbito sucesso de minha observação, enchi-me de coragem e ousei ir mais além nos elogios:
    ─ Vocês formam um casal muito bonito... muito bonito... Agora entendo melhor a beleza e a graça da Ciça...
        Sucesso total. O homem deu-me novos tapinhas no ombro e a mulher brindou-me com um sorriso satisfeito. Até tive vontade de dar uns tapinhas também nos ombros de ambos, mas contive o entusiasmo, limitando-me a encará-los sorridente. Afinal eu estava começando a enquadrar-me no ambiente. Já no momento em que o casal entrou na sala eu tinha me lembrado de colocar a caixa e as flores na mesinha em frente ao sofá, com estudada naturalidade. E depois me levantei com calma e dei dois passos em direção ao casal, postando-me de forma a que a mulher não prestasse atenção nos presentes. Por fim, estava resolvido a aceitar a simpatia com que me tratavam e a retribuir, fingindo que era tão habitual naquela sala como a mesa de mogno e as oito cadeiras do ambiente conjugado que eu divisava mais adiante.
    ─ É. Somos um casal feliz e eternos namorados. Por isso hoje vamos jantar fora. Hoje também é nosso dia.
        A informação da mãe de Ciça provocou-me a ansiedade peculiar de quem sente que finalmente se salvará. Talvez eles saíssem antes de Ciça acabar de se aprontar e assim me poupariam o constrangimento de entregar-lhe os presentes na frente deles.
    ─ Isso também é muito bonito... muito bonito...
    ─ Bem, nós já vamos. Você fique à vontade, a Maria Cecília não deve demorar. Sirva-se de alguma bebida enquanto espera.
       Despedimo-nos, não sem antes eu elogiar o bar, a sala, o bom gosto que tinham na escolha dos quadros (na verdade foi escolha do decorador) e, sobretudo, a filha. E eles me elogiaram a simplicidade, a sinceridade e a inteligência. Fiquei sozinho na sala, um pouco mais confortado, orgulhoso da confiança que depositavam em mim, mas sem me livrar do ridículo dos meus pobres presentes. Qualquer garrafa de uísque do bar deveria valer tanto ou mais que a pobre blusinha mal disfarçada na caixa cheia de fitas e fitinhas. Pensei que a Ciça me enganou com a simplicidade da roupa que costumava vestir. Mas ao pensamento negativo sobreveio outro, ditado pela paixão, de que isso era índice de sua humildade, de sua beleza interior, de sua capacidade de não ostentar a riqueza material. Sim, Ciça era divina e talvez tivesse a bondade de me amar. Com certeza leria no meu presente a intenção e gostaria, no íntimo, mais das flores do que do casaquinho, que usaria de vez em quando só para me agradar. E foi aí, só nesse momento, que pela primeira vez me ocorreu que Ciça talvez me desse um presente.
         Perturbado, caminhei compulsivamente ao bar, cedendo ao apelo subconsciente de fugir da situação que me acompanhava desde a entrada do prédio. Não conseguia imaginar qual o presente que receberia, mas certamente seria muito superior ao meu em todos os sentidos. E minha mão, antes que o fato se tornasse consciente, já pegava num baldinho duas pedras de gelo para colocar num copo que a outra segurava, enquanto os olhos miravam gulosos uma garrafa de White Horse. Sentei-me num banquinho, olhando absorto as pedras de gelo, bebericando devagar, querendo e não querendo que Ciça chegasse. Independente da minha vontade, ela chegou, surpreendente e maravilhosa no suéter preto e na calça preta justa de lã.
          Levantei-me do banquinho, abandonei o copo no balcão e fui em sua direção, sentindo uma admiração maior que o constrangimento, maior que a paixão, maior que o apartamento, maior que tudo. Certamente me ajoelharia e beijaria suas mãos, se ela não me estendesse sorridente um pacote comprido, embrulhado com papel vermelho.
     ─ Espero que goste.
     ─ Puxa, Ciça, claro... claro...
     ─ Abre...!
          Minhas mãos cederam um pouco ao receber o pacote. Mais pesado do que supunha ao vê-lo, mas minha mente se recusava a adivinhar o óbvio conteúdo. Até tentei desembrulhar com cuidado, mas a curiosidade me fez rasgar o papel vermelho e descobrir a caixa de Liebfraumilch inesperada.
    ─ Gostou?
    ─ Claro... Adoro vinho branco...
        Desconsertado, tentava assimilar o presente, sem saber o que fazer, enquanto Ciça me olhava curiosa e sorridente. O rosto bonito, o não saber o que fazer e a inspiração do uísque me fizeram beijá-la no rosto, bem perto dos lábios vermelhos. E ela me olhou satisfeita, com ares que eu diria de malícia, caso não fosse Ciça a me olhar. Então voltou-me o fascínio e fiquei parado, procurando inutilmente alguma coisa para lhe dizer. Já ela parecia divertir-se com minha timidez. Olhou para o bar, deve ter visto o copo sobre o balcãozinho e me trouxe de volta à realidade:
    ─ Você não quer continuar tomando sua bebida?
    ─ Bebida? O vinho?...
    ─ Parece uísque...
    ─ Ah... O uísque... Não, não, obrigado...
        E num relance, como num rápido flash back, minha memória voltou para o uísque, para as pedras de gelo, para os pais de Ciça, para o sofá, para os presentes... Os presentes! Claro que Ciça os tinha visto sobre a mesinha de centro. Sutil, deu-me a deixa para que olhasse para trás e completasse o ritual. Nesse momento não importava se os presentes eram ou não dignos dela. E, além disso, depois do vinho alemão, nenhum presente poderia ser surpreendente. Maravilhosa Ciça! Ela me mostrou que o conteúdo era absolutamente secundário. Que diferença faria se o meu presente tivesse sido um chaveiro, uma camisa, uma gravata? Sim! Ela gostaria do casaquinho de cashmere do mesmo modo como eu gostei do vinho.
Entreguei-lhe as flores primeiro, que lhe provocaram o lindo sorriso de princesa e a frase: “ ah, Gílson!... Você é tão romântico...!” E depois a caixa cheia de fitas e fitinhas.
    ─ Que exagero, Gílson, não precisava dois presentes...
       Disse-me isso sem tirar os olhos da caixa, procurando arrancar as fitas e ver logo o conteúdo. Com certeza nem percebeu que a caixa esteve amassada. Eu acompanhava cada gesto e cada expressão de seu rosto. Sim, estava curiosa e queria ver logo o conteúdo. Por um instante desejei que fosse um colar de diamantes ou um livro raríssimo. Enfim a caixa estava livre das fitas que se esparramavam sobre o tapete. Curtindo a própria curiosidade, Ciça parou antes de abrir a caixa; olhou-me nos olhos com um sorriso maroto e agora era eu que estava curioso para que abrisse logo a caixa e visse o casaquinho. Queria beber cada contração de músculo de sua face e mentalmente decodificava um catálogo de expressões faciais que denunciariam desde sua decepção até um incontido entusiasmo. Secretamente alimentava a esperança de que ela me beijasse no rosto ou, quem sabe, nos lábios.
          Ciça abriu devagar a caixa levantando apenas um lado da tampa. Mas seu sorriso curioso e quase infantil foi murchando até a seriedade. Também o meu, e senti o corpo lívido. Aos poucos os cantos de seus lábios foram se estendendo e o sorriso e o olhar que eu via naquele instante não constavam do meu catálogo de expressões. E olhou-me com uma feição quase indubitável de malícia. Quis arrancar-lhe a caixa da mão, porque não era possível que um casaquinho azul de lã de cashmere provocasse aquele olhar e aquele sorriso. Parecendo ler em meu rosto a desesperada curiosidade, disse-me aquele enigma:

     ─ Gílson... E eu que pensei que você era tímido...!
          Em seguida, meteu a mão direita dentro da caixa e trouxe pendurados pelo indicador e polegar um sumaríssimo soutien vermelho de renda e uma não menos minúscula calcinha formando o conjunto. Fiquei petrificado na mesma expressão de antes. Até quis falar alguma coisa, me desculpar, mas cadê a voz? Pela minha cabeça só passava a confusão da seção de pacotes e eu tentava burramente encontrar a causa e o momento do equívoco em vez de me explicar logo para Ciça. Pensava em processar a loja, ao mesmo tempo em que me preocupava com a empacotadeira, coitada, que certamente seria despedida e talvez tivesse família e não tinha culpa que todo mundo quisesse o pacote ao mesmo tempo e além do mais eu tinha gasto quase todo meu dinheiro no casaquinho e não poderia pagar o advogado e teria ainda que procurar um advogado que cuidasse dessas causas e... E Ciça me olhando com aquele olhar incompreensível, vindo em minha direção; e agora? Que faço?
          Atônito, vi seus lábios recolhendo lentamente o sorriso e quase imperceptivelmente se separando até encontrar os meus abobalhados. Senti o gosto do batom, sua mão em minha nuca e sua língua úmida e quente procurando a minha. Mas afastou-se antes que eu a abraçasse e fingiu experimentar o soutien, segurando com as duas mãos sobre os seios.
    ─ Fica bom?
        Não respondi. Nada de pensamentos na minha cabeça com todos os neurônios trabalhando para meus olhos, que se fixavam no vermelho do soutien e no preto da blusa, tentando adivinhar o conteúdo daquele pacote diabolicamente colorido em preto e vermelho, numa tentativa estúpida de imaginar como seriam seus seios e como ficaria o soutien neles. E antes que dissesse alguma coisa ou me movesse, ela mesma se respondeu a pergunta:
    ─ Vamos ver como é que fica.
        Sumiu para dentro do apartamento e voltou minutos depois, encontrando-me parado no mesmo lugar com a mesma expressão idiota e a cabeça dividida entre identificar o sabor do batom e a tentativa de articular uma desculpa plausível. Só vestia a sumária roupinha vermelha que lhe servia perfeitamente, como se tivesse sido feita para ela. Trazia no rosto a mesma expressão, agora claramente decodificada, e veio em minha direção, satisfeita com meu olhar que rapidamente se adaptava à inesperada situação. Ainda fiquei uns instantes imóvel; mas foi a última vez que fiquei parado na frente de Ciça.

3 comentários :

  1. Puxa vida, que texto delicioso!E divertido!Obrigada,vc escreve muito bem!

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  2. Uma delicadeza este seu texto...

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