A FEIJOADA E O SONHO

Meu Deus!
Quem sonhou por mim
este sonho que eu não tive?

                Não me lembro do resto. Mas era um poema longo, cheio dessas perplexidades, porque perplexidade era o que não faltava em minha adolescência. Num canto da praça, à noite, costumávamos mostrar os poemas que escrevíamos, hábito iniciado por mim e pelo Marcílio, depois que ele foi obrigado a se transformar em poeta para conquistar Nícia Leitão. Aos poucos, outros “poetas” foram se agregando — o Zé Roberto, o Caligário, o Ortega, o Aírton, o Moron... Meus poemas, tempos depois, já em São Paulo, seriam classificados por um crítico literário de um jornal, de quem me tornei amigo, como “vômitos”. De fato eram isso mesmo, e não só os meus. Havíamos criado uma válvula de escape criativa para nossa sensibilidade adolescente, pretensamente literária, mas que cumpria a função de permitir que vomitássemos os nossos excessos sentimentalóides, nossos desejos reprimidos, nossos temores.
                Pouco restou dos poemas que escrevemos. O Rodolfo chegou a editar um livro com os dele, de que vendeu pouco mais da metade dos exemplares. Já o Marcílio guarda os poemas dele até hoje, mas revelou-me que fica muito envergonhado quando os relê. Eu, ante a primeira sensação de vergonha, já faz muitos anos, joguei meus “cadernos poéticos” no lixo, e só guardo uns raros versos, que insistem em não sumir da memória — como esses que citei.
                Curioso como me lembrei dos versos. A situação não era nada poética. Cansado das andanças por um shopping, à procura de um blaser azul que não conseguia encontrar, cedi a essa fome que costuma atacar nos fins de tarde e entrei num restaurante/lanchonete, quase vazio, para comer um sanduíche. Somente dois adolescentes, na mesa em frente, terminavam uma pizza, devorando os dois últimos pedaços.
                O garçom aproximou-se, entregando-me o cardápio de uns poucos sanduíches, omeletes e pizzas; pedi que esperasse e sem muita demora ditei o nome em inglês de um sanduíche de presunto cru com verdura. Aproveitando a presença do garçom, os dois jovens também pediram alguma coisa, provavelmente a conta.
                Meu sanduíche chegou rapidamente e comecei a comê-lo, para aplacar a fome. Mas o que chegou na mesa em frente não foi a conta, e sim outra pizza. Foi nesse momento que me lembrei dos versos.
                Como comíamos na adolescência!... Porque isso é fato: adolescente come. Invariavelmente, terminada a reunião poética, já beirando a madrugada, saíamos em busca de comida, normalmente o bauru do bar do Dema. Mas às vezes era muito tarde e o bar — último da cidade a encerrar o expediente — já estava fechado. Então íamos a uma padaria na rua Carioba bater à porta dos fundos para comprar os pães quentinhos que o padeiro preparava para a manhã que se avizinhava. Comíamos no mínimo um filão cada um — devorávamos, é mais correto dizer. E qual crianças, que após a mamada dormem, alimentadas, vinha o sono, e voltávamos cada um para sua casa para dormir umas poucas horas antes das atividades nada boêmias da manhã seguinte.
                Metade da segunda pizza da mesa em frente sobrou. Desperdício... No meu tempo isso não aconteceria jamais. O curioso é que não achávamos que comíamos demais. Devorar dois, três baurus, um ou dois filões de pão ou uma pizza inteira nos parecia normal. Mesmo porque, o referencial que tínhamos de comer muito era incomparável com nossa capacidade de deglutir. Nós não exagerávamos; quem comia muito era o Jorjão.
                Não que Jorjão fizesse parte do nosso grupo de poetas boêmios. Teve uma vez em que mostrei um dos meus poemas para ele. Nem quis ler. Devolveu-me e sentenciou:
                — Isso é coisa de veado. Não vou ler. Prefiro pensar que você não é veado.
                Não adiantou argumentar que Castro Alves teve muitas amantes e que poesia não tinha nada a ver com preferência sexual; não quis ler e pronto. Mas às vezes ele se agregava ao grupo por identificação com a nossa boêmia. Nessas ocasiões, quase sempre voltando da casa da namorada, esperava quieto e paciente que declamássemos nossos melosos versos e saíssemos, saciada a fome da alma, para atender à fome concreta de nossos vorazes estômagos adolescentes.
                Na primeira vez em que isso aconteceu, fui eu que o convidei. Ele passava logo após a leitura dos poemas e o chamei para nossa habitual expedição gastronômica. Nem precisei insistir; topou, estava com fome como todos nós. Destino: bar do Dema. Querendo ser gentil, pedi para mim e para o Jorjão — como se fosse necessário deixá-lo à vontade e sentir-se aceito pelo grupo, já que dos outros ele não era muito íntimo.
                — Veja aí dois baurus, Dema.
                — Veja dois pra mim também.
                — Não, Jorjão; eu pedi um pra mim e outro pra você.
                — Um só? É pouco.
                — Tudo bem. Então veja três baurus, Dema.
                — Bom! Três pra mim também.
                Naquela noite, enquanto eu devorava o meu bauru e um guaraná, Jorjão comeu quatro e bebeu duas garrafas de tubaína. Só não comeu um quinto, porque o dinheiro acabou e não quis ficar devendo. O Caligário, que antes tinha a fama de glutão do grupo, pouco foi notado, a partir desse dia. É que o Jorjão comia de três a cinco filões de pão, de quatro a seis baurus e pelo menos duas pizzas. Frente a ele, nós nos achávamos obviamente muito comedidos em nossos hábitos alimentares.
                Mas o Jorjão também não achava que comia demais e indignou-se quando o Zé Roberto fez uma brincadeira nesse sentido, numa noite de sábado em que ele, após comer sozinho uma pizza, olhava guloso para um pedaço que tinha sobrado da segunda que eu, o Zé Roberto, o Aílton e o Caligário havíamos pedido.
                — Eu não sou guloso não. Eu como só o que preciso. Por isso que vocês são magricelas desse jeito: vocês não comem...
                — Pensando bem, o Jorjão tem razão. Pra manter um corpo desse aí, é preciso comer bastante — argumentei em defesa.
                — Mas eu já disse que não como muito — protestou. — Lá em casa eu sou o que come menos. Até o Varte come mais que eu.
                — Quem é o Varte?
                — O Varte é o meu irmão caçula, de doze anos.
                — Até sua mãe come mais que você? — A pergunta era do Aírton, assombrado.
                — A mãe? A mãe gosta de comer sim.
                — Ela deve ser meio gorda, não é Jorjão?
                — Eu não acho. Ela é forte, mas não é gorda.
                E a conversa rolou para a quantidade de comida necessária para alimentar aquela família de seis glutões, até despencar para elucubrações escatológicas sobre as conseqüências de tamanha comilança (que não é de bom tom que se narre). Meses depois dessa noite, eu seria convidado para almoçar na casa do Jorjão pela primeira vez, num sábado ensolarado e quente, pouco adequado para uma feijoada.
                Na mesa em frente, os rapazes pagam a conta e se levantam sorridentes e satisfeitos. Também pago a minha, mas não me sinto satisfeito. Parece-me que não comi o suficiente e não tenho vontade de me levantar. Quem sabe se eu pedisse novamente o cardápio e escolhesse um sanduíche diferente ou uma pizza pequena... Tenho a sensação de que andei sonegando alimento ao meu estômago, obrigando-o a diminuir de tamanho e a acostumar-se ao mínimo. Então tateio-me os braços que me parecem finos e me sinto magro. Que saudade das fomes adolescentes, despreocupadas de toxinas e colesterol...
                Jorjão, eu sei, não se preocupa nem um pouco com o colesterol — acho que ele nem sabe o que é isso. Pelo que me contou o Moron, que esteve em sua fazenda recentemente, ele anda comendo quase tanto quanto o pai, já falecido. Já está com uma barriga proeminente, mas culpa o péssimo hábito de dirigir a caminhonete e de não andar mais a cavalo por isso. Há muitos anos não o vejo. Provavelmente deve ter hoje o mesmo corpo de seu pai, naquele sábado da feijoada.
                E foi na época em que receitei a ele xampu de camomila que recebi o convite. Jorjão insistiu, fez questão, porque achava que as míseras pizzas que me pagava nos sábados à noite não eram suficientes, nem os cafezinhos. No almoço, ele me apresentaria sua família, sua namorada e — principalmente — sua mãe. Não é que ele tivesse uma paixão especial pela mãe; é que, segundo ele, eu conheceria uma artista de verdade, a melhor da única arte que ele apreciava: a arte culinária. E feijoada era sua especialidade. Ela mesma salgava os pertences, orelhas, pés e rabos de porcos criados por seu próprio marido no sítio da família. E mais: feijão preto plantado e colhido por eles, bem como a couve e as farinhas de mandioca feitas pelo filho mais velho. Só o arroz era comprado em saca, vindo do Rio Grande do Sul, “o melhor arroz brasileiro”, segundo o pai do Jorjão. Confesso que fiquei entusiasmado. É que feijoada era meu prato predileto.
                — Mas Jorjão; não tem paio e lingüiça nessa feijoada?
                — Pra quê? Se você quer, peço pra mãe ponhar lingüiça na sua feijoada. Na nossa não.
                — Por quê?
                — Porque estraga.
                Aliás, foi nesse dia que perdi todos os preconceitos com comida. Adolescente normalmente é cheio de frescuras para comer, e eu não era diferente. Que nojo eu tinha de orelha e de rabo... O pé, então, só de pensar no porco pisando naquela lama fedorenta, me dava profundo asco. Por isso passei os dias que antecederam o almoço tentando superar o nojo para não decepcionar o amigo. Tentativa infrutífera: rabo continuava rabo e pé, pé. Lá, daria um jeito de disfarçar e comeria só o feijão.
                A casa do Jorjão era ampla e espaçosa como a família. Nenhum requinte, dos móveis à pintura das paredes. Diria, usando uma terminologia atual, que era de um modelo básico. Nada de quadros na parede, com exceção daquelas fotos mal retocadas em molduras ovais de um circunspecto bigodudo e de uma senhora de birote e olhos arregalados, na parede da sala (provavelmente avós do Jorjão), e da sagrada família, na parede oposta. É bem possível que nos quartos, vistos de relance, houvesse crucifixos sobre as cabeceiras; mas não me lembro se os vi. Para chegar ao alpendre na parte de trás da casa, logo após a porta da cozinha, em que a família e os convidados esgotavam os últimos goles da caipirinha, passava-se pela sala com velhos sofás revestidos de pano plástico imitando couro bordô, pelo corredor dos quartos e pela cozinha, onde fumegavam enormes caldeirões, panelas e caçarolas sobre o fogão de lenha de seis bocas. E a cozinha era grande, com guarda-comidas e uma mesa tosca em que dona Elvira cortava em tiras finíssimas um maço de couve colhida há pouco no quintal.
                Jorjão me esperava sentado na mureta da área, quando cheguei, meio-dia e dez, um pouco atrasado. Nem se preocupou em mostrar a casa, indo na minha frente, em direção à cozinha, como se eu fosse um visitante habitual. Dona Elvira limpou a mão salpicada de pedacinhos de couve e me estendeu em cumprimento, para que eu apertasse o braço.
                — Descurpa, tô aqui na lida. Prazer, Ervira. 
                — Muito prazer. A senhora fique à vontade.
                Era a própria imagem da matrona: gorda, sem exageros, sorridente, movendo-se como se a cozinha fosse seu único habitat. E vê-la trabalhar foi um dos privilégios que tive na vida: movimentos precisos, ritmo perfeito, compenetração e uma profunda alegria nos gestos, própria de quem faz o que gosta. Sempre tive muita admiração por quem faz bem feito seu trabalho, seja um borracheiro, um pedreiro, um artista, ou um professor. Creio que dona Elvira é responsável pela consciência que tenho hoje de observar o trabalho alheio e o meu, essas pessoas que à custa de repetir muitas vezes a mesma coisa, vão depurando sua ação e fazem com que pareça nova a coisa tantas vezes vista — como o ator ou a atriz que nos emociona na centésima apresentação da peça, ou o cantor que queremos ouvir cantando a música que interpreta há vinte anos do mesmo jeito. Mais tarde, postado na porta da cozinha, eu dividiria minha atenção entre seus afazeres e a conversa barulhenta que rolava no alpendre, animada por piadas, casos e outros efeitos da cachaça.
                E foi dona Elvira a responsável pela mudança dos meus hábitos alimentares, porque me pareceu impossível que aquela verdadeira artista — concordei plenamente com o Jorjão — pudesse fazer uma comida que não fosse boa. A cozinha era de uma limpeza impressionante. É que a cada resto ou respingo, dona Elvira limpava ou jogava num pequeno balde ao lado do fogão, que servia de lixeira. E eu observava sua dança de passos precisos entre a mesa, a pia e o fogão, mexendo o feijão, alimentando de lenha o fogo, lavando talheres, descascando e cortando alho para a couve. Ao ver-me a olhá-la, preocupou-se.
                — Tá com fome? Tem o torresminho lá fora, que eu pus pra acompanhar a caipirinha.
                — Não, não estou com fome não. Só estava olhando a senhora trabalhar. Não se preocupe.
         — Posso garantir pra você que essa feijoada saiu das boas. Está quase pronta. Só falta o caldo engrossar um tiquinho mais. ‘Cê quer ver a beleza que tá?
                Meteu uma escumadeira dentro de um caldeirão e a emergiu trazendo um pedaço cozido de porco.
                — Olha este rabo aqui que beleza! Aguenta aí que logo-logo você vai poder comer.
        Como não considerar aquele nojento rabo um acepipe apetitoso?... Senti grande vontade de experimentá-lo, e mais tarde, ao comer dois pedaços, imaginava que era exatamente aquele que magicamente surgiu fumegante do caldeirão.
                Sem dúvida iria comer mais alguma coisa e chamei o garçom. Que importância teria que a conta já havia sido paga... O garçom não se espantou:
                — O senhor ainda está com fome...
                — Mais ou menos...
                — Sei, aqui está o cardápio.
                Nada do que estava listado parecia me apetecer. O garçom voltou minutos depois e me encontrou ainda indeciso; percebeu que sua presença me pressionava:
                — O senhor não se preocupe comigo. É a comida, não é? 
                Nunca tinha reparado que há modos diferentes de se comer uma feijoada. Muito menos tinha atentado para os aspectos ritualísticos do seu preparo e da colocação da comida no prato. Eu, até aquele dia, comia feijoada como quem come arroz e feijão. Foi observando seu Anísio, pai de Jorjão, que me dei conta dessas maneiras diferentes — final perfeito para os rituais de preparo e cozimento, minuciosamente descritos por dona Elvira, enquanto terminava a comida. Quanto esmero e trabalho para que eu comesse aquela comida!... Começava pelo menos um mês antes, com a salga dos pertences — não qualquer sal — e continuava na véspera, com a tarefa de catar feijão, a lavagem e fervura dos pertences, o primeiro cozimento. No dia seguinte, a colheita da couve, escolher e preparar o arroz, que deveria estar pronto no ponto exato em que a feijoada fosse tirada do fogo alto do cozimento, para o braseiro de manutenção da temperatura. Só então preparar a couve, com toucinho bem picado, tempero com mais alho que cebola e banha de porco — só um pouquinho, para não grudar na frigideira grande.
                Antes desses preparativos, já deveriam estar prontos a farofa de farinha de mandioca com pedacinhos de toucinho defumado, os diversos tutus de feijão preto, desde o preparado com farinha fina até o preparado com farinha grossa, aproveitando o excesso de caldo de feijão, retirado para que a feijoada não ficasse muito aguada — mas não muito seca também. Dona Elvira descreveu cada passo dessas operações, em atenção à minha curiosidade, de tal forma que ao fim pareceu-me estar participando de uma cerimônia, de uma celebração fantástica, da qual eu era o principal componente — eu e todos os convivas que tínhamos a honra de deglutir aquele banquete.
                Não. Sem dúvida seria uma inominável heresia sustentar a frescura de não comer o pé, a orelha e o rabo do porco. Seria negar toda a cultura que a feijoada catalisava, no seu longo processo das origens, nas senzalas, até aquela mesa em que homens mulheres e crianças aguardavam o cerimonial pantagruélico de devorá-la.
                Eu imaginava, naquela tarde de sábado, as escravas, humildes, pedindo às sinhás os restos dos cachaços mortos, pés, orelhas, rabos, fígados, rins, e os verdadeiros banquetes que gerariam depois — feijoadas, sarapatéis... Para os senhores, a banha derretida e as carnes nobres — lombos, costelas, pernis... Até que um dia, um feitor, talvez, decidiu experimentar aquela comida que os negros comiam com tanta felicidade, feita do feijão preto — que também por preconceito era descartado pelos senhores. Experimentou e gostou, tanto, que pediu à negra que o chamasse toda vez que cozinhasse. Mas que não contasse a ninguém que ele, às escondidas, se permitia comer comida do gentio. E depois, comentasse, num dia em que estava bêbado, com o senhor sobre as excelências da comida, e o senhor, igualmente bêbado, decidisse também experimentar, só de farra. Assim, aos poucos, essa comida pobre foi-se imiscuindo sorrateira nas mesas nobres, sempre com seu caráter de festa e celebração.
                Jorjão fez questão de que eu me sentasse ao lado de seu pai. E ele, à minha frente na mesa, do lado esquerdo de seu Anísio, preocupava-se mais com sua pequena Rosa, que não se preocupava com nada, a não ser em comer como gente grande, perfeitamente adaptada à gulodice do futuro marido e sua família.
                — O Jorjinho me falou que você é um moço muito inteligente...
                — Que é isso, bondade do Jorjão, digo, do Jorge...
                Minha mente se recusava a admitir que alguém pudesse chamar o Jorjão de Jorjinho, embora seu Anísio até pudesse, já que era do tamanho dele, mas mais forte e mais roliço. Como o filho, tinha a cabeça puxada para trás, de modo, que parecia sempre olhar a gente de cima, o que lhe dava aquele ar de autoridade, herdado por Jorjão. Seu Anísio era imponente, sentado à cabeceira da mesa. Dali decretava o andamento do almoço e o rumo da conversa. Foi dele a ordem para que se servisse a feijoada, atendida pelo filho mais velho (de quem não me lembro o nome) que trouxe o caldeirão digno do aumentativo e o panelão de arroz. E esse irmão era mais forte que o Jorjão...
                — A gente aqui não é lá muito inteligente. Mas é todo mundo muito forte, como já deve ter percebido. Sabe por quê? A gente come! E o que você está esperando pra comer?
                De fato, quase todos já tinham seus pratos cheios. Correção: os pratos não eram “cheios”, eram transbordantes. Outra correção: os pratos não eram pratos, na verdade; eram umas travessas ovais de louça branco/amareladas, com umas espigas de trigo em alto-relevo nas bordas. Na casa do Jorjão eles comiam nessas travessas.
                — Eu vou comer. Só estava esperando os outros se servirem.
                — Tô vendo que você é bem magrinho. Precisa comer bastante...
                A espera me pôs a observar como as pessoas arranjam seus pratos de feijoada, e foi, que me lembrei, a primeira vez que pensei em como distribuir a comida no prato. Na minha casa, o hábito era, desde criança, minha mãe servir — e talvez por isso eu me sentia pouco à vontade ali, tendo eu mesmo que pegar a comida. Não era diferente, nas raras vezes em que minha mãe fazia feijoada: eu me sentava à mesa com os demais e esperava que ela viesse com o prato pronto. Pacientemente ela aprontava os pratos, um a um, sabedora dos gostos de cada um e da quantidade que estava habituado a comer. Então, para mim, era como estava acostumado: feijão embaixo, arroz em cima e a mistura do lado.
                Mas ali as maneiras de se servir da feijoada variavam muito: feijão separado do arroz com os pertences do lado; idem, com os pertencem misturados; farinha por cima do feijão ou do lado do feijão, ou misturada com o feijão; tutu de farinha grossa e feijão por cima, com farinha fina e arroz do lado. Ou arroz embaixo do feijão com pertences — e mais uma porção de variações, das quais a mais esquisita foi a de um homem, talvez um convidado ou um cunhado, não me lembro bem. Ele colocou o arroz, o feijão, os pertences, a farinha e a couve, e pacientemente misturou tudo, numa maçaroca densa que devorava com prazer.
                Certamente o melhor, decidi, era seguir o modo de seu Anísio comer; primeiro, porque era parecido com o que eu estava acostumado; e segundo, porque, se havia alguém ali que entendia de comer feijoada, era ele. Pus o feijão, sobre o feijão a farinha de mandioca torrada (como quem polvilha o feijão), sobre a farinha, o molho preparado com caldo de feijão — um vinagrete com pouca pimenta. “Muita pimenta estraga a comida”, pontificou seu Anísio. Por fim, o arroz, que preferi em quantidade proporcional ao feijão, já elaborando meu próprio estilo de comer feijoada, pois neste ponto diferi de meu mestre, que, no meu entender de provável futuro expert, o colocava em excesso. Considero-me hoje um apreciador histórico da feijoada e tenho segurança em afirmar que essa ligeira discordância conceitual com seu Anísio é perfeitamente sustentável: muito arroz prejudica o melhor sabor do feijão — neutraliza, diria com mais propriedade, já que o arroz, nessa combinação, é quase neutro.
                Já os pertences, coloquei-os numa das pontas da travessa oval, separados do feijão que inundava o restante. Esses preparativos aconteceram quando seu Anísio já acabava de comer a primeira travessa. Mas ele me observava.
                — Você é magrinho, mas vejo que sabe comer. É assim mesmo o melhor jeito de comer feijoada. — Certamente não tinha percebido que eu o havia imitado.
                Enquanto seu Anísio se servia da segunda travessa, eu respirava fundo, tentando ganhar forças para a desagradável aventura de experimentar o pedaço de rabo que me esperava na borda da travessa. Não poderia ser muito ruim. Se o feijão era tão bom e foi cozido junto com aquele ridículo acessório do porco, por que haveria de ser ruim? “Afinal”, pensava para me auto-convencer, “em essência eu já comi isto aí, na medida em que comi o feijão. Sim, porque foram cozidos juntos, e da mesma forma como a essência do rabo está no feijão, a essência do feijão está no rabo. Vai ver, tem gosto de feijão...”
                Pensava bobagens como essas, enquanto separava com o garfo e a faca um pouco da carne cozida dos ossos do rabo e racionalizava: “preciso esquecer que isto se chama ‘rabo’; preciso esquecer que este rabo foi de um porco. A partir de agora isto se chama ‘carne’ e eu quero conhecer o gosto desta carne”. Foi também a primeira vez que me dei conta de que muitas vezes deixamos de comer uma comida por razões acessórias, não essenciais. Assim, não se come rabo porque é rabo; não se come quiabo porque tem baba; não se come língua porque temos nojo da boca do animal. Anos mais tarde eu leria o livrinho de Rubem Alves em que ele discute o peso ideológico das palavras em um dos seus ensaios. E exemplifica com a história de um rapaz que se fartou de uns bolinhos que acreditava ser couve-flor empanada. Mas correu para vomitar quando soube que era miolo. Foi mais ou menos essa a minha percepção naquela tarde, em que eu me recriminei por ter passado tantos anos sem comer aquele pertence delicioso da feijoada só porque era rabo — ou só porque se chama “rabo”. E enquanto eu comia guloso a comida, passavam-me pela cabeça ideias como estas, de que é semelhante o preconceito racial ou o preconceito de classe, que já me irritavam, mas que a partir desse dia passaram a me indignar visceralmente, assim como qualquer forma de discriminação.
                Era verdade. Ali, em torno daquela mesa, éramos iguais, irmanados pelo prazer de comer a comida farta. Ali, éramos escravos reencarnados na mesma satisfação de mastigar o quanto quiséssemos, num momento em que comer vai além da necessidade de alimentar-se para sobreviver e se locupleta na transgressão da gula. Nunca mais em minha vida comi tanto quanto naquele dia; ao encher minha terceira travessa, desta vez também com pés e orelhas de porco, julguei estar vivendo um delírio igual ao que achávamos vendo Jorjão comer. Mas estava longe de me ombrear a ele no manejo do garfo.
                Não sei quanto comeram Jorjão e sua voraz Rosinha. Só sei que foi muito, como, aliás, todos ali. De vez em quando, os via em pé, concha ou escumadeira na mão, colocando mais comida na travessa. Mas fiquei atento ao seu Anísio, e para facilitar meu controle, contei quantas escumadeiras de arroz ele punha sobre a feijoada. Dívida com meus amigos da turma: incumbiram-me de relatar quanto comia aquele que Jorjão dizia ser mais glutão que ele. Dezenove. Foram dezenove escumadeiras de arroz, das mesmas que eu comi cinco. E não era dessas escumadeiras pequenas, que se usam na fritura de ovos. Era das “profissionais”, eu diria. Ali eram todos “profissionais” de comer, gente que levava muito a sério essa atividade — o que significa que se falou muito, riu-se muito, divertiu-se muito durante o almoço, iniciado por volta de meio-dia e meia e terminado lá pelas quatro, quando finalmente seu Anísio afastou a travessa em direção ao centro da mesa e declarou solene:
                — Estou satisfeito.
                À minha frente, o garçom esperava a resposta da pergunta que fez. Buscava intimidade. Concedi.
                — É. Na verdade nada neste cardápio me apetece...
                — Sei o que o senhor está sentindo. Essas comidinhas aí, pizza, sanduíche...
                — Você é do interior, não é?
                — Sou, sou de Minas. Um tutuzinho com torresmo ia bem, não ia?
                — Se ia!...
                — É, mas aqui não tem... Que tal um bife malpassado? Eu peço pro cozinheiro fazer dos grandes...
                — Não sei... talvez uns ovos...
                — Fritos ou mexidos?
                — Fritos e com a gema mole.
                — Certo! E um pãozinho pra chuchar na gema?
                — Sim.
                — Quer que corta em fatias?
                — Não, quero arrancar os pedaços.
                — Certo! O senhor sabe comer um ovo frito. Dois?
                — Não. Quero três.
                — Certo! Três ovos... Pena que aqui não tem de galinha caipira. Vai ter que ser de granja...
                — Tudo bem, fazer o quê... Ah, garçom...
                — Antônio. Pode me chamar assim.
           — Antônio, uma curiosidade... Como vocês chamam ovos fritos na sua terra: estrelados ou estalados?
                — Estrelado.
                — Na minha terra é estalado.
                — Pois então vou mandar fazer três ovos estalados pro senhor. No capricho!...
                Andando depois pelos corredores iluminados, olhando as vitrines com seus arranjos estudados para seduzir o consumidor, não encontrei o paletó que procurava. Na boca misturavam-se os gostos de ovo, de café e de decepção. Nem de longe me fascinava a ilusão dos ricos produtos expostos na vitrine. O shopping parecia um sonho colorido. Já se iam mais de trinta anos daquela tarde de sábado em que satisfação, sobrevivência, amizade, prazer de existir, poesia, filosofia e vida se encontraram como ingredientes de uma feijoada. No meio dos corredores do shopping, eu me sentia um intruso invadindo o sonho do consumo capitalista. Inevitável que os versos voltassem à memória:


Meu Deus!
Quem sonhou por mim
este sonho que eu não tive?



Um comentário :

  1. Muito gostoso de ler. A lembrança da comida, a ideia dos sabores deixou o texto delicioso.

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