PICADINHO DE ALCATRA


         Marco Lopes. Que eu saiba não há nenhuma praça, nenhuma rua, sequer há uma viela ou beco que homenageie Marco Lopes. Injustamente a História fez dele um desconhecido, que nem se pode chamar ilustre. No entanto, Marco Lopes mereceria, por sua importância, uma estátua maior do que a do Borba Gato. Que utilidade tinham esses bandeirantes? Eram um bando de doidos que saía andando pelo meio do mato para caçar índios e vender como escravos e para procurar pedras preciosas que quase nunca achavam.
            Já Marco Lopes, até onde se saiba, nunca saiu de São Paulo e aqui, quase anônimo, escrevia sua página na História, que injustamente — como já disse — nunca foi publicada. Proponho aos historiadores que reparem em seus livros essa injustiça, bem como sugiro aos nossos edis que parem um pouco de se preocupar com seus próprios benefícios e nomeiem um logradouro público de destaque com o venerável nome de Marco Lopes.
            É certo que o estabelecimento de Marco Lopes não deveria ser nada sofisticado. Diria até que era muito simples, como, aliás, era tudo na São Paulo da época, uma vila que, sem contar os índios, não deveria ter mais de duzentos habitantes. Sabe-se que em 1585 eram cento e vinte. Em 1599, quando Marco Lopes pôs a funcionar seu estabelecimento, não deveriam ser muito mais. Provavelmente, calculo, uns duzentos. Marco Lopes atendeu à sugestão do governador geral, D. Francisco das Manhas, que considerou já ser necessária na vila uma loja para as compras dos moradores, dependentes dos mascates e mercadores que subiam a pé a serra, vindos do litoral com suas mulas. Então abriu-se espaço para quem quisesse estabelecer seu comércio. E o que o profético Marco Lopes decidiu abrir? Um restaurante!
            Bem, rigorosamente, é um exagero nomearmos aquilo “restaurante”. Era uma estalagem que vendia uma porção de coisas e servia alguma comida. Mas é lícito que consideremos o cigano Marco Lopes como o primeiro em São Paulo a preocupar-se com o estômago alheio como objeto de comércio.
            Restaurante mesmo só iria aparecer muito tempo depois. Em 1882, São Paulo tinha por volta de 14 mil habitantes e já existiam dois restaurantes, o de Charles de Junius e o de Frederico Fontaine. E aí começou a confusão em que me vejo metido agora e que fez com que me lembrasse com saudade do desconhecido Marco Lopes.
            Bons tempos os de Marco Lopes! Se alguém, por qualquer razão, decidisse comer num restaurante, seria muito simples; ia lá na estalagem e dizia: “quero comer”. E pronto, lá vinha o próprio Marco Lopes com a comida, não se dando o freguês sequer ao trabalho de escolher no cardápio — que não existia. Hoje, é uma tarefa extremamente complicada comer em São Paulo. Há restaurantes que oferecem quarenta, cinquenta pratos diferentes para escolher — isso, depois que se escolheu um entre os milhares de estabelecimentos que oferecem comida...
            Eis-me aqui neste impasse. A fome cresce e penso nesses milhares de possibilidades que tenho para comer: comida italiana, árabe, francesa, portuguesa, tailandesa, hindu, baiana, paraense, chinesa, americana, capixaba, uruguaia, nordestina, japonesa, goiana, mexicana, alemã, espanhola, etc., etc., etc. E se opto pela italiana, por exemplo, a escolha se “reduz” a centenas...
            Talvez seja melhor não sair de casa e fazer o restaurante vir até mim. Vá lá que não tenha o mesmo charme, mas fome é uma coisa meio sem charme mesmo. Opto pelo delivery. Pronto: novo impasse. O catálogo oferece-me centenas de opções, da pizza ao sushi. Tudo me apetece e não há como escolher um prato sem sentir aquela dor de cotovelo de ter abandonado os deliciosos demais. Marco Lopes, bons tempos... O que serviria ele em seu modesto estabelecimento? Uma boa carne de caça? Um dourado recém pescado no Tietê? E qual seria a guarnição do provável único prato servido? E o que serviria eu a mim mesmo, se fosse eu o saudoso Marco Lopes?
            Deixe-me ver. Na geladeira tenho um bom pedaço de alcatra... Alface, tomate... Um arrozinho caprichado... Meu fogão não é a lenha como o do Marco Lopes, mas me invisto desse passado em que comer era só comer. Com certeza vai ficar ótimo este picadinho com arroz e salada!

6 comentários :

  1. Adorei, um belo resgate da história de São Paulo, misturada com uma figura histórica desconhecida junto com a culinária numa narrativa que nos prende do começo ao fim! Abraços, professor!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Eu já sei fazer pão de queijo, massa de pizza ainda não consegui.

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