PANELA VERDE


            Quando vi, achei caro. Cento e quarenta e sete reais por uma panela é muito dinheiro. Italiana, está certo; mas duvido que na Itália custe tudo isso. Além do mais — ponderei — não há nada de errado com o meu bom e velho caldeirão de alumínio, com umas amassadinhas em que já se acumulam uns pontos pretos. Dá trabalho para lavar, não é como a panela italiana, antiaderente; mas nunca deu mancada na sua função. Por fim acabei concluindo que aquela panela era como uma espécie de enfeite, coisa que você vê, admira, mas não compra — que nem joia da H. Stern ou relógio da Drizun.
            Claro que tem gente que compra a panela e nem acha muito caro; tem gente que compra um Jaguar, um BMW, um Ferrari e não acha caro. Mas não eu, que tenho um Corsa comprado a duras penas em vinte e quatro prestações. Cento e quarenta e sete reais não é uma quantia que se despreze...
            Agora, vamos e venhamos: é muito desagradável cozinhar macarrão neste caldeirão miserável, depois que você viu aquela panela esmaltada verde-escuro, com interior antiaderente, decorada com o logotipo da massa italiana Delverde... Ainda bem que estou cozinhando este pobre macarrão Adria; afinal, até combina com o pobre caldeirão. Seria insustentável, se fosse um Barilla ou um Delverde. Mas o molho há de compensar a precariedade da massa: usei tomates bem maduros e suculentos, acertei o sal e adicionei um pouco de caldo de carne de uns pedaços de coxão duro.
            As pessoas que esperam o jantar nem vão perceber que cozinhei o macarrão no velho caldeirão e para elas, sei, tanto faz se a massa é italiana ou brasileira. Sem dúvida serei elogiado, porque não fica bem falar mal da comida que se come de graça. Mas o molho, modéstia a parte, está de primeira, isso ninguém pode reclamar. Tenho meu senso crítico, e embora eu não seja nenhum grand chef de cuisine, sem falsa modéstia, admito que está digno do mais refinado gourmet.
            Pois é. O molho. Bem que este molho merecia uma massa de primeira. Deveria ser macarrão importado ou então uma dessas massas de rotisseries finas. E veja como são as coisas: foi feito com tomates de fim de feira, que, por estarem bem maduros, foram recusados pelas mulheres que empurram seus carrinhos. Mas meus comensais não precisam saber disso, mesmo porque vão se fartar de comer o macarrão, que pretendo servir quentinho, acompanhado de um bom copo de vinho — nenhum Bolla ou Beaujolais, mas um honesto vinho nacional. Tenho consciência de que o molho que preparei para eles merecia vinho melhor, macarrão melhor e aquela linda panela verde italiana. Pensando bem, acho que eles mereciam o melhor. Mas o que se há de fazer? Faço o que eu posso. Bem sei que é pouco, mas é o que eu posso.
            Melhor me apressar, que o macarrão já está no ponto e eles estão com fome. Deixa eu ver pela janela da sala se eles estão esperando. Sim, estão. Abanaram a mão para mim num cumprimento faminto. Quem são eles? Permita-me apresentar. Nem sei seus nomes, mas dormem sob a marquise do prédio em frente ao meu. Antes eu os via com raiva e nojo; mas quando assisti a reportagem na TV daqueles nordestinos, sem ter o que comer por causa da seca, passei a vê-los de modo diferente, sei lá por quê. Foi aí que resolvi ir para a cozinha e treinar meus dotes culinários. Para amanhã será costela de porco assada, que um deles me pediu que fizesse de novo. Vai ser horrível não poder assá-la na assadeira francesa de inox que vi esta manhã no shopping...

6 comentários :

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  2. Você tinha lido em sala e eu gostei muito, mas gostei mais ainda agora que pude ler.
    Estou adorando isso de poder ler teus escritos
    Bel

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  3. Fiquei até com vontade de provar esta massa!

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  4. Excelente descrição ! Também fiquei com vontade de provar a massa !

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  5. Adorei, claro com este final surpreendente. Também quero saborear, quem sabe ficarei aí em baixo aguardando.

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