O Último Brigadeiro


     O último brigadeiro repousa insolente no meio da travessa redonda de porcelana. Sei lá quem inventou esta regra imbecil de que é falta de educação pegar a última guloseima de um prato. Também não me lembro quem foi que me enfiou na cabeça esse disparate repressivo. Quantas vezes me contive para não comer o último canapé, a última batatinha frita, a última rodela de calabresa, a última lichia, a última cereja, o último amendoim, o último pedaço de pão do fondue, o último pedaço de bolo e tantas outras maravilhosas últimas coisas que algum felizardo mal-educado acabava me roubando. E quantas vezes aquele último delicioso bocado sobrava hipocritamente desprezado, até ser levado por um garçom, por uma empregada, por uma mãe, ou irmã, ou tia... Ali estava aquele provocante e saboroso brigadeiro, estimulando minha gula, minha salivação e meus traumas.
      Bem que eu não queria levar minha filha naquele aniversário. Tinha um pressentimento de que iria me chatear, o que, aliás, sempre me acontece em festas de crianças. Mas desta vez minha desculpa foi muito inferior à de minha esposa; e não tive alternativa. Minha premonição me avisava de que desta vez seria grave o aborrecimento. E imaginei de tudo: vão me derrubar guaraná na calça, não vai ter cerveja na festa, vou encontrar um cara chato, minha filha não vai querer sair no horário combinado... Nada disso aconteceu até agora. Só isto: essas crianças tinham que deixar esse voluptuoso petisco abandonado no prato, carente de meu paladar maldosamente afogado em saliva. Por que ninguém me salva e come de uma vez este pecado, deixando-me acumular mais uma frustração? Por que ninguém vem conversar comigo ou me chama para ver alguma coisa lá fora? Por livre e espontânea vontade eu não arredo as nádegas deste sofá, e ficarei aqui, com um olho nas pessoas e outro neste insofismável brigadeiro, até que ele se vá, ou que eu, num ato desesperado, vença por fim mais essa repressiva imposição social e o surrupie ostensivamente e o coma, mastigando de boca aberta, lambendo os dedos e estalando a língua, para espanto do casal a meu lado e da mulher sentada na poltrona. Eles pararão de conversar e farão cara de nojo. Mas, no fundo, sei que sentirão uma inveja danada de mim.
     Minha filha vem me perguntar as horas e aviso que faltam quinze minutos para irmos embora (quinze minutos de suplício). E ela sai correndo agitada (sem notar o brigadeiro) para aproveitar seus últimos momentos de brincadeira. A mulher da poltrona aproveita a deixa para tentar me integrar na conversa fútil que rolava ao meu lado:
     ─ Sua filha?
     ─ É...
     ─ Uma gracinha...
     ─ É sim...
     Em seguida vem o speech decorado para a situação, uma série de perguntas previsíveis, até que se encontre alguma coisa capaz de sustentar um papo não menos furado: que idade ela tem, como se chama, onde estuda, se é filha única... Procuro ser formalmente simpático, não me recusando ao diálogo inócuo, sem perder de vista meu manjarzinho marrom com seus crespinhos de chocolate, que insiste em me esperar provocante. Mas que raios de crianças são estas que deixam um brigadeiro sobrar! No meu tempo isto jamais aconteceria! É certo que a festa apresentou um despropósito de comidinhas, sucos e refrigerantes. Só de brigadeiro creio que vi uma dúzia de travessas circulando pela sala, sem contar as pousadas em mesas e outros móveis. E mais os bom-bocados, os quindins, os olhos-de-sogra, os cajuzinhos de amendoim... E antes foram as coxinhas, as empadinhas, os cachorros-quentes, os quibezinhos fritos na hora, os espetinhos de picles... Gulosamente comi de tudo. A empadinha então estava demais! Eu e o homem ao meu lado comemos mais de dúzia cada um; e bebericamos não sei quantas cervejas. Depois vieram os docinhos, devorados à exaustão, especialmente os cajuzinhos e os olhos-de-sogra, de fantástica confecção, dos melhores que já experimentei.
     A conversa já corre mais solta, com o meu parceiro de comilança abandonando seu fastio e recuperando o ânimo para suas divertidas observações. Mas o inexplicável brigadeiro resiste. Lá fora, no abrigo de carros em frente à casa e no amplo espaço da vila onde está situada, há uma algazarra de crianças e um  alarido mais discreto de adultos, pontuado vez ou outra por uma gargalhada mais escandalosa. Certamente estão todos sentados em volta das mesinhas de metal que o pai do menino aniversariante instalou para que a festa e a bagunça acontecessem fora da casa. Vejo que aqui dentro estamos somente eu, o homem que comeu uns trinta quibezinhos fritos, sua gorda esposa que se fartou de tudo que passou em sua frente, a mulher sociável que está de regime e o excitante brigadeiro que continua a questionar meus valores morais, meus instintos, minhas convicções, meus desejos, minha formação, como se fosse uma alegórica materialização de um pecado capital. Ah! como seria bom se estivéssemos só eu e este diabólico acepipe nesta sala!... E por que não?
     Esperançoso, sinto meu rosto iluminar-se e passo a maquinar uma maneira de expulsar os três inconvenientes que me separam de minha satisfação. Penso em arrotar e peidar, mas minha compostura social jamais me permitiria. E duvido que o homem que comeu bem uns quinze bom-bocados se impressione. Parece-me mais adequado estimulá-los a sair, usando tato:
     ─ Está animado lá fora. Também, com uma tarde quente como esta, só ficando ao ar livre mesmo...
     ─ É. Mas aqui está melhor, mais sossegado.
     As duas mulheres concordam com o homem. Saco, voltei à estaca zero. Tento novamente:
     ─ Parece que ouvi uma criança chorando. Não será um dos nossos filhos?
     ─ O meu não é. Se há uma coisa que conheço muito bem é o choro dele.
     ─ A minha também não.
      Arrisco então o que será a minha última (e espero que decisiva) cartada:
     ─ São nove horas. O convitinho dizia que a festa ia das seis às nove. Não será melhor procurarmos os donos da casa e nos despedirmos?
     ─ Olha... acho que vou ficar mais um pouco. A festa ainda está animada e meu filho vai armar um escândalo se eu tirá-lo da brincadeira... Você já vai?
     Desespero-me. Bem sei que minha filha, sempre muito fiel às suas promessas, a qualquer momento entrará por aquela porta, pronta para ir embora. O brigadeiro brada para que eu me decida ou covardemente engula mais uma humilhação de minha abulia social. Então, da zona sombria da minha memória, como um gêiser, jorra o líquido negro das frustrações recalcadas. E afloram-me pensamentos irreprimíveis: penso no prefeito que não elegi, nas maracutaias políticas do governador, naquele presidente que os militares me impuseram. E lembro-me da prisão injusta que sofri, da tortura, do pau-de-arara, dos choques elétricos nas orelhas e no pênis. Mais: assaltam-me as inseguranças no emprego, os salários aviltantes, os milhões de famintos, os sem-terra, os sem-teto, a exploração dos índios. E sinto toda a revolta contida, todas as castrações de minhas buscas, dos meus sonhos de uma vida mais solidária, de poder viver minha criatividade. Num átimo, vêm-me à mente professores, pais e tios, militares, policiais, bandidos de toda espécie, políticos, patrões ─ e rápido, com o peito cheio de uma emoção absolutamente indefinível, me levanto, olho para os três espantados interlocutores, e apanho, num gesto ao mesmo tempo firme e delicado, o brigadeiro. E lentamente, sorridente, vitorioso, encarando os olhos assustados deles, o ponho na boca e o mastigo com suavidade e prazer.
     ─ Seu desgraçado!, diz o homem.
     ─ Guloso!, diz sua gorda mulher.
     ─ Você não presta!, diz a outra.
     Viro-lhes as costas, chamo minha filha e vou embora.


2 comentários :

  1. Muito, muito bom! Nem um único instante sequer de tédio e um ótimo enredo. Ah! esse brigadeiro... Confesso que, para mim, não daria uma crônica, pois já o teria devorado antes de poder pensar na hipótese de não fazê-lo!

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