O Analfabeto Funcional

        Eu me queixava, um dia desses, com a Luciana e meu filho Gil, de que eu tinha escrito muitos textos e ninguém lia. “Por que você não faz um blog?” “É, faz um blog, pai.” Só sorri. Não de satisfação, mas da profunda ignorância que eles revelavam sobre mim. “E eu sei lá o que é um blog...” ─ a resposta saiu imediata e sincera. Para mim, fazer um “blog” era tão absurdo como fazer um “dog”, ou, mais adequado, fazer um “frog”. É que sou ─ reconheço ─ um semianalfabeto virtual ou, melhor definindo, um analfabeto funcional em informática.  Não, não tenho nenhum orgulho disso e, nas poucas vezes em que tentei aprender um pouco, até aprendi, mas no dia seguinte tinha esquecido tudo.
            Ainda assim uso o computador para umas poucas coisas; passo a limpo meus textos e ouço CDs. Também jogo uns joguinhos enquanto ouço músicas, hábito adquirido quando me aconselharam, anos atrás, a jogar para começar a ter mais intimidade com a máquina e com o mouse. Ou seja, computador para mim é máquina de escrever, vitrola e baralho. Mas um “blog” está muito além da minha compreensão.
            “É fácil”, eles disseram. “É fácil”... Quase sempre essa frase precede as explicações dos iniciados em informática quando eventualmente peço auxílio. E para eles de fato é tudo muito fácil, menos entender a minha falta de identificação com o computador. Eu aprendi a escrever “a tinta” (como se falava na época) com caneta, daquelas que se molhava a pena no tinteiro e se punha um mata-borrão em cima das palavras úmidas para absorver o excesso de tinta. Depois ganhei do meu pai uma caneta tinteiro, uma Parker azul de tampa dourada, linda, e só tempos depois começaram a aparecer as esferográficas, não tão bonitas, mas mais práticas. Com a caneta, sim, eu me identifico! Até hoje escrevo com caneta, como agora. Mais tarde vou passar este texto a limpo no computador, como você pode ver neste outro agora em que me lê.
            Pois é. Sou do tempo em que se usava máquina de escrever, em que se fazia curso de datilografia, em que se usavam os dez dedos para datilografar, como faço até hoje no computador. Mas tenho que reconhecer que o computador é uma máquina de escrever mais eficiente. Para corrigir, basta apagar o erro (devo falar deletar?), sem necessidade de usar o branquinho ou apagar o erro com aquela borracha vermelha dura e redonda que se usava antes (aquela que tinha uma roda de metal no meio). Também tive uma máquina elétrica, muito moderna, que tinha uma fita de correção e dispensava o branquinho ou a borracha.
            E não é que eu não tenha tido oportunidade de me entender com o computador. Lembro-me da primeira vez que vi um. Logo que começaram a aparecer essas máquinas, me convidaram para criar um curso de redação à distância, para um centro de formação profissional. O convite me assustou e, prevenido, levei um pedaço de carne crua para jogar no computador, caso ele me atacasse. Mas ele era manso, com aquela sua ridícula telinha em que apareciam umas letrinhas verdes luminosas, ou seja, um trambolho muito diferente dos atuais note books, desk tops, tablets e afins. E essa foi a primeira vez em que me disseram “é fácil” e a primeira vez em que não entendi nada do que me falavam, situação que se repetiria muitas vezes, até essa última do blog. (Claro que não rolou o curso à distância...).
            A minha amiga Ausônia Donato comprou recentemente um computador, cedendo à pressão de amigos e colegas de trabalho. Como eu (ou pior que eu), ela não se identifica com a geringonça, mas está decidida a aprender a usá-la e pensou em procurar o rapaz da informática do Colégio Equipe para pedir orientações. Desaconselhei-a com veemência, experiente que sou, a fazer isso. “Não, não faça isso! Esses que sabem muito são os piores! Ele vai logo dizer pra você ‘é fácil’ e você vai se sentir burra e ficar mais resistente ainda. Melhor pedir ajuda a alguém que saiba só um pouquinho e entenda você.”
            Mas a Luciana me disse, depois de inutilmente me explicar o que era um blog, “eu faço um blog para você”. Isso sim eu entendi, quer dizer, eu só precisava datilografar os textos e ela postava. Aliás, sou do tempo em que se postavam cartas; essas postei muitas, para namoradas, para amigos e familiares. Bons tempos... E não contente em fazer um blog para mim, ela fez um facebook, o que eu também não faço a menor ideia do que seja, apesar das detalhadas explicações dela e do Gil. Sei um pouquinho de inglês e “face” é face, rosto, cara; “book” é livro. “Face do livro”? “Cara de livro?” “Livro de cara?” Por que é que tem que ser tudo em inglês?
            Se estou entrando nesse desconhecido e misterioso mundo da informática, é só porque me deu vontade de que as pessoas lessem os textos que escrevi e escrevo. Não tenho grandes pretensões além disso. Bem sei, como professor de Redação que sou, que sempre se escreve para que alguém leia, não para que seus textos fiquem guardados em gavetas ou na memória de um computador, como acontece com os meus. Vislumbro num blog a oportunidade de publicá-los (ou seja, torná-los públicos) e permitir que eventuais leitores gostem ou não do que escrevi. Afinal, foi para isso que os redigi.
            Mas outro dia, num jantar, quando a Luciana contou para meu filho Fabiano que iria me fazer um blog, ele me aconselhou a não postar textos longos, porque as pessoas não leem. “Por quê?” ─ perguntei. “Porque são longos” ─ foi a resposta. Não sei se quero esses leitores que não gostam de ler... Que raios de leitores são esses? Será que não leem livros? Estou me lembrando de quantas vezes fiquei triste porque o livro que eu lia estava chegando ao fim, e que bom se tivesse mais páginas... Será esse mais um efeito pernicioso do computador? Talvez seja uma característica destes tempos, em que as coisas têm que ser consumidas rapidamente, esse fast food cultural em que muitos se alimentam mal. Não; me recuso a dar ao meu futuro blog um ritmo de clip da MTV. Quero colocar meus textos sem me preocupar se são longos ou curtos; e se a pessoa não tem paciência para ler, é melhor que não leia mesmo. Aliás, essas pessoas já devem ter parado de ler este texto aqui, ou nem começaram a ler quando viram que era longo...
            Pensei em postar crônicas. Por que crônicas? Sei lá, porque sim, ou por que não? São textos, parte deles, escritos há muito tempo, década de noventa. Já outros são mais atuais e apenas um deles (Picadinho de Alcatra) foi publicado na revista Gula. Talvez, se me animar e se aparecerem leitores, escreva outros só para serem postados aqui. Vamos ver... Mas primeiro quero mostrar os já escritos. Esses, quase todos, foram redigidos a partir de propostas de temas de crônica que eu sugeria para meus ex-alunos do colégio e é bem possível que eles os reconheçam, se me derem a satisfação de serem meus leitores. Também seria uma ótima oportunidade de se vingarem das minhas críticas a seus textos, me criticando e se aliviando de possíveis traumas...
            Já para quem não foi aluno(a) meu(minha), cabe um esclarecimento sobre por que considero estes textos como crônicas. Tem a ver com a metodologia de ensino de Redação que desenvolvi, mas não vou entrar em considerações sobre isso, porque teria de alongar muito. Se você quiser saber, vai fazer um curso comigo no Museu Lasar Segall que eu explico. Por ora fiquemos assim: são histórias em que me coloco como personagem e narro de dentro da história. (Talvez, no futuro, poste alguns contos, também). Aliás, essas histórias são todas inventadas, é bom que se diga, embora eu tenha me esforçado para parecer que de fato aconteceram. Tem lá alguma verdade, no sentido de lembrarem situações realmente vividas, mas no geral são situações produzidas por minha imaginação. Claro que sempre quero dizer alguma coisa por trás das historias ─ isso sim é verdadeiro (como é verdadeira a minha condição de analfabeto funcional em informática). Mas afinal o que é verdade e o que é mentira na ficção...
            Também cabe alguns esclarecimentos sobre as outras personagens que vão aparecer nas histórias. A maioria delas lembra pessoas que eu de fato conheci ou conheço. Mas só isto: “lembra”. Considero uma homenagem a elas, ainda quando as coloco em situações constrangedoras, obviamente inventadas. Por exemplo, há uma crônica em que eu danço lambada ─ coisa que jamais fiz e jamais farei ─ e coloco minha parceira de dança numa situação ridícula. Já outras personagens são invenções mesmo, como o Nicanor ou como o Maçaneta, que aparecem numas histórias. Sejam inventadas ou verdadeiras as personagens, se alguém se identificar com elas e se sentir insultado, respondo, parodiando Drummond: retire-se da minha história!
            E quanto a você, estimado(a) leitor(a), digo o que sempre costumo dizer às pessoas de meu convívio: se possível, divirta-se. 

17 comentários :

  1. Gilson,que prazer ler sua cronica. Continue postando, longas ou curtas, tanto faz, voce tem aqui uma leitora assidua. Saudade, Valderez.

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  2. Gosto de textos longos, filmes longos e conversas longas. Fui sua aluna de 72 a 74, primeira turma do Colégio Equipe. Você me ensinou que escrever era possível, ao alcance de quem quisesse. Foi importante. Também tenho um blog: pipocaglobal.com. Meio diário, um pouco opinativo, muito visual: é prá mim, mas pros outros também. Viciei em me mostrar pro mundo, mesmo sendo naturalmente um verdadeiro bicho-do-mato.

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  3. Gílson! É muito bom ver você por aqui. O mundo virtual pode parecer estranho mesmo, mas, aos poucos, vai se tornando tão natural, que as dificuldades e temores iniciais acabam por serem esquecidos e o hábito de utilizá-lo incorpora-se imperceptivelmente à rotina da vida. É claro que, se houver exagero, isso pode ser nocivo. Mas, tratando-se do Gílson Rampazzo que eu conheci, jamais vai acontecer com você. Então relaxe e desfrute das vantagens da Internet, como a possibilidade deste reencontro com seus ex-alunos e eternos admiradores, que, por certo, serão leitores fiéis de seus textos longos ou curtos. Bem-vindo à NET! Um grande abraço, com saudade do tempo em que eu frequentava suas aulas no Museu Lasar Segall. IZILDA BICHARA

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  4. Querido Gílson, tive o prazer de tê-lo como professor no Equipe no começo dos anos 90. Fico felicíssimo em ver que a insistência alheia rendeu esse bom fruto num meio que, se não ladra nem morde, é capaz de espantar leitores ávidos por conteúdo que tem a infelicidade de encontrar com mais frequência as frivolidades de 140 caracteres. Feliz então de quem esbarra em seus textos, pois tem o privilégio de encontrar nas palavras a assinatura de um mestre. No meu caso, a alegria é dupla, pois posso imaginá-lo ao lado do quadro, com as mãos nos bolsos de trás, pedindo gentilmente que acentuássemos a mesma frase de umas 40 formas diferentes... E como era divertido!
    Um grande abraço.
    Humberto Villela

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    1. Humberto, o exercício era de pontuação, ou seja, vocês deviam pontuar a mesma frase 20 vezes! Obrigado por me ler!
      Gílson

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  5. Gilson., que bom que começou a publicar. Seus textos são refrescantes, como o sorvete de creme e de limão que deleitaram os personagens da primeira crônica e os leitores de todas elas. Um prazer ler seus textos longos.
    Abraço, Sylvia Loeb

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  6. Adorei seu blog, adorei seus textos longos. Sou sua leitora a partir de agora. abs Fabiana Novello

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  7. Olá Gilson! Muito prazer!

    Sou amiga de seu filho Fabiano, cheguei até seu "blog" através do facebook, e fiquei de "cara" com seus textos!

    Fabiano tem onde puxar, é como minha saudosa mãe dizia: "Não é roubado, é herdado!"

    Parabéns! Estarei sempre por aqui!

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  8. Pai, um escritor preocupa-se, também, com seu leitor. Acho que você não discordaria disso. Há diferenças entre a leitura na Internet e a leitura em livros, jornais e revistas. A luz da tela cansa a vista; normalmente estamos em cadeiras duras e desconfortáveis; há a concorrência simultânea de instants messengers - além de outros sites e abas abertas. Enfim: é diferente. Nem melhor. Nem pior. E este cenário pede, sim, textos não tão longos, o que não desqualifica de forma alguma seus leitores. Pense nisso. Quem muda, melhora. Beijo.

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  9. Olá. Gilson! Fui sua aluna nos anos 90, da turma da Mariana. Tenho meu 'blog' também, talvez seja ousadia demais apresentá-lo pra você, mas caso você também goste de ler textos longos ou curtos, aqui está: http://muricidomato.wordpress.com
    A intenção de criá-lo era mais pra ter um "lugar" pra colocar meus textos, que eu pudesse compilá-los virtualmente, ler depois, e também mostrar pra família e amigos, mas aos poucos vou divulgando ao mundo ao meu redor.
    Abraços, Maíra

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  10. Ai que fofo isso, a velha discussão novos tempos X velhos tempos. Realmente, não precisava disso. A internet é feita com outra logistica, e não tenho nada contra textos longos, mas quando eu ligo meu computador, eu não estou ligando ele pra entrar em blogs e ler cronicas, mas para fazer uma serie de coisas diferentes ao mesmo tempo e de forma rapida. Mas claro, não fica ruim fugir um pouco do comum, mas criar algo mais curto as vezes nunca é um erro. Só posso dizer, parabens, dispobinilizar arte, não importa a forma que é feita, sempre é um grande favor a todos. Ainda mais de forma gratuita.

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  11. Olá, Gilson.
    Fico feliz que tenha sido convencido a construir o blog, pois seus textos são deliciosos. Encontrei o blog procurando por seu nome no Google em um momento de nostalgia dos tempos em que fiz seu curso no Museu Lasar Segall. Fiz duas vezes o primeiro módulo, mas infelizmente não pude fazer o segundo. Assim, não cheguei a escrever crônicas e contos.
    Trabalho com a formação de professores de ciências e, lamentavelmente, meus alunos têm muita dificuldade de escrever. Frequentemente recomendo que o procurem, o que causa estranhamento quando conto um pouco sobre seu trabalho: "mas se ele não ensina redação acadêmica por que eu deveria procurá-lo?"
    Realmente, estamos em um tempo de textos curtos, mensagens rápidas e muito poucas práticas de escrita, mesmo entre futuros professores. Lamentável e preocupante!
    Só estou fazendo este relato para agradecê-lo. Ter participado de seu curso e feito os exercícios de escrita de poemas contribuiu muito com meu trabalho de professora (e, é claro, com minha escrita). Além disso, você me devolveu algo que estava meio adormecido em mim: o prazer de brincar com as palavras.
    Lendo seus textos vou poder brincar com elas mais uma vez. Obrigada por isso. Abraço.

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  12. Ao mesmo tempo, professor, o computador e as redes sociais nos possibilitam esse contato, que talvez não se desse, caso eles não existissem... Dizem alguns que essa tecnologia nos foi repassada por ETs em troca de proteína de soja, com a qual se alimentam, daí a necessidade de destruirmos nossas florestas para plantar imensidades de soja. Rs!

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  13. Muito bom esse texto, mas convide o leitor para suas aulas no Equipe...

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  14. No meu caso, até adquiri certa familiaridade com a informática, fui obrigado: tendo uma letra que se aproxima bastante da garatuja, que nem eu mesmo consigo entender, fui capaz de escrever as minhas bobagens com mais facilidade com o cp e as suas competentes orientações.

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