LINGUAGENS


        Lambi. Languidamente olhei nos olhos dela e ela lambeu. A língua lépida dela levou aos lábios e ao palato o líquido grosso e esbranquiçado. Mais lambeu, lambuzando a língua. Olhou-me e eu lambi, salivando-me lúbrico. Lentamente, sorvendo, pus os lábios naquela bola deliciosa e chupei com prazer o biquinho no cimo da bola. Olhos nela. E ela, semicerrados os olhos, lambeu; lambeu e, parecendo insaciada, enfiou aquela cúpula redonda nos lábios vermelhos e chupou, ávida, até sentir o líquido esbranquiçado escorrer pelos lados dos lábios. Os olhos em mim. Labioso, lancei a língua para fora e lambi as laterais da bola; calma na língua e nos lábios; tensão no corpo, prazer. Lambeu.
          Mas não estávamos sós. Entre nós pessoas passavam, se interpunham ─ cortes rápidos em nossos olhares fascinados. Lambíamos e chupávamos, ora frenéticos, ora lentos e loucos, lascivos; ela provavelmente de limão; eu de nata, de leite. De limão e de leite, gelado deleite, deixando escorrer, melecar, atiçar a língua, olhos nos olhos, desejo.
          Sem falas, as bocas ocupadas em prazeres indispensáveis, primitivos. Ela, eu sentia, louca de vontade de lamber o meu. E eu o dela. Ciúme e inveja do dela e dela. E ela de mim, do meu. Um desafio de línguas lambentes, lambidonentes, lúbricas. Assim, um de olho no do outro, lambendo-se à distância, no silêncio dos ruídos do lugar. Provocando a sua/minha excitação, ela mordeu, uma mordidinha sutil, mas firme, arrancou com os dentes alvos um pedaço, mastigou o líquido na boca, impiedosa. E eu mordi, desafiado, na súbita e prazerosa dor de macerar nos dentes o efêmero sólido do líquido gelado. Mas não só. Mais provoquei. Meti a língua na ferida da mordida e envolvi a bola com os lábios, ligeiramente moles, suficientemente firmes, e chupei. Com esta minha chupada, ela tremeu, senti.
          Ousadia e inveja: ela, inconformada com meu gesto intenso, abocanha a bola toda e a liberta depois, sem pressa, permitindo o escorrer de uma gota densa pelo lábio, até o queixo. Colhe-a com o indicador da outra mão e mete o dedo quase inteiro na boca, olhando-me satisfeita e vitoriosa. Mas não aceito a derrota. Encaro-a com desdém provocador, recolho a língua e cerro suavemente os lábios, fingindo um fim, uma fuga fácil. E num gesto estudadamente inesperado, passo meu dedo indicador da outra mão pela bola melecada de seu liquefazer-se e de minha saliva. Lambuzo o dedo num lento circundar esférico, e cuidando para que uma gota escorra e pingue em minha língua novamente exposta, chupo inteiro o indicador, sem misericórdia, certo de que a venci.
          Inútil presunção. Vi seu olhar devorando o meu como se fosse uma boca faminta, avisando-me de que não fugisse, que me identificasse com sua linda língua vermelha que cavava, tensa e frenética, uma depressão naquela agora já diminuída esfera fria. Sim, ela era determinada. Eu olhava, driblando os intrusos passantes que insistiam em interpor-se ao meu olhar. O que faria? Virou ─ vi ─ a massa esculpida por sua língua para mim. E nem se importava com o líquido viscoso que besuntava seus dedos. Vi o buraco, uma depressão minuciosamente cavada na base da bola, onde caberia confortável a ponta de sua língua. Sim, um buraco! Virou-se de perfil para mim e, insolente, meteu a ponta da língua no buraco que cavou e em movimentos nem lentos nem velozes, com uma habilidade de quem sabe o que faz, erguia e baixava a cabeça daquele conjunto do nosso prazer. Num suspiro incontido, o calor da tarde invadiu-me por inteiro. Com toda certeza era impossível vencê-la.
           Só fiz o que se podia fazer ali: meu olhar entregou-se submisso ao dela, quando novamente olhou para mim. Mas ela era insaciável em seu desejo de vencer-me, e decidiu humilhar-me definitivamente, acariciando com aquela bola gelada os lábios, o nariz, o queixo, até meter a bola na boca, segurando o seu recipiente e retirando-o vazio. Deixou que a bola derretesse, bochechas infladas, e a engoliu de uma só vez. Então comeu até o fim aquela casca restante.
          Profundamente satisfeito e agradecido, num sinal de que aceitava aquela maravilhosa derrota, atirei no lixo o que restava do meu sorvete e fui embora, me embrenhando no sol quente do verão. Suor e sol. Ela, lá. 

2 comentários :

  1. Olá Gilson, tudo bem? Genial a crônica! Fiquei sabendo do seu blog pelo facebook. Estou também escrevo, só que mal traçadas linhas. Caso se interesse segue o link abaixo:
    http://papo-petisco-pinga.blogspot.com.br/

    Abraço

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