BURACOS!

            Tem um buraco na minha rua. Hoje de manhã, como faço em todos os domingos, fui até a padaria, a pretexto de comprar cigarros. Passei por ele, olhar de quem faz que não vê, indo ao encontro daqueles quase amigos do ócio dominical, que já estavam lá, jogando conversa fora, do mesmo modo que eu pretendia. Provavelmente falaríamos de futebol; ou de carros, ou de um fato qualquer em evidência na semana — talvez da mulher da capa da Play Boy. Mas o assunto era o buraco.
            — Foi feito de noite. Pode ver, a terra ainda está meio úmida.
            — Claro que foi feito de noite. Ontem não estava lá, tenho certeza. Os caras não respeitam nem sábado à noite, botam os peões pra trabalhar.
            — Quem será que fez, hein?
            — Olha, pelo tipo de buraco, é Sabesp ou Congás...
            — Eu devia ter prestado a atenção... Meu prédio é quase em frente. Quando cheguei de madrugada, os caras ‘tavam lá trabalhando. Mas eu estava num puta fogo, que nem me liguei em olhar os uniformes...
            Nesse ponto, vi brecha para entrar na conversa e me agregar ao grupo.
            — Menos mal que os caras tamparam o buraco, né? Ao menos a gente não vai precisar pôr galho de árvore, essas coisas... Mané, me vê meia cerveja bem gelada.
            — É, eles tamparam. Quem sabe um dia desses eles asfaltam, na moita, que nem fizeram...
            Atrás de mim, mais pra perto do balcão de vidro das empadinhas e rissoles, uma mulher de meia idade acabava de ser atendida no seu pedido de duas cocas família. Percebi sua presença quando ela se meteu na conversa.
            — Os senhores não se preocupem. Já liguei para a Prefeitura mandando vir asfaltar o buraco.
            Os cinco homens, como se tivéssemos ensaiado, ficaram sérios, olharam indignados para a mulher, que recolheu meio assustada o sorriso. Mas foi o gordo ao meu lado que assumiu o papel de porta-voz do grupo.
            — A senhora está brincando, né? A prefeitura não trabalha de domingo...
            — Só sei dizer que atenderam e me disseram que iriam providenciar...
            — Não!... A senhora não fez isso!
            — Por que não? O buraco é bem em frente ao meu prédio.
            — A senhora não podia ter feito uma coisa dessas, minha senhora!
            — O senhor fala isso porque não é em frente a sua casa. Se fosse...
            — Não! Nem que fosse dentro da minha casa!
            — Mas por quê?
            Os cinco, ansiosos, falavam juntos, tentando convencer a mulher da besteira que tinha feito. Assustada, ela tentava acompanhar as falas, repetindo que não estava entendendo. O gordo reassumiu seu papel de porta-voz:
            — Calma, deixa que eu explico pra ela. Minha senhora, quem a senhora acha que vai pagar pra asfaltar esse buraco?
            — A prefeitura, ora.
            — Não, minha senhora, o prefeito vive dizendo, pra quem quiser ouvir, que a prefeitura não tem dinheiro. Então, como ele vai fazer? Ele vai criar um imposto, ou aumentar o que já cobra, ou pior, vai criar uma secretaria de buracos...
            — Ou uma empresa, tipo Sabesp, para administrar o buraco, acho que é mais correto — corrigiu o rapaz de óculos e bermudas, que havia chegado de fogo na noite anterior. — E logo vai surgir a Buraquesp, para administrar os buracos do Estado, e a Buracobrás, para os buracos de todo o país.
            — Isso. E depois, como esse negócio dá lucro, com certeza eles vão querer privatizar...
            Não resisti e entrei nas explicações:
            — ... e depois de um leilão fajuto, um testa de ferro brasileiro, por uma mixaria, vai arrematar a empresa para o capital multinacional.
            — Isso — reassumiu o gordo. — E nós vamos pagar pros gringos um buraco que não fomos nós que fizemos, para que a gente não tenha mais buraco! Só que, como o buraco dá lucro, eles vão fazer outros buracos, e nós vamos ter que trabalhar para tampar buracos, a senhora entende?
            — Mas o senhor tem certeza disso?
            — Claro! Pois não foi isso que aconteceu com as ruas?
            — Como assim?...
            — A rua foi feita com o nosso dinheiro. Mas eles decidiram cobrar para estacionar nosso carro na nossa rua. E agora eles querem dar a Zona Azul pros gringos. Quer dizer: cada vez que a senhora estacionar seu carro na sua rua, a senhora terá que pagar para uns caras que vão gastar o seu dinheiro nos Estados Unidos.
            — Ai, meu Deus, que burrada que eu fiz!... Me dá uma ficha que eu vou tentar consertar.
            Logo três fichas apareceram, uma delas dada por mim. A mulher largou as garrafas de coca-cola no balcão e foi ao orelhão em frente, o mais rápido que conseguiu. Num tenso silêncio, nós bebericamos nossas cervejas, cada um esperando que o outro puxasse um assunto. Mas ninguém falou nada. Dois longos minutos, e a mulher volta sorridente.
            — Olha, eu liguei de novo pra prefeitura e disse que era trote. Disse que meu marido tinha ficado muito bravo e exigido que eu ligasse de novo.
            — E eles acreditaram?
            — Acho que sim, porque me falaram para não fazer mais isso.
            — Tomara que sim, minha senhora, tomara que sim...
            — Os senhores me desculpem. Eu não fiz por mal, juro.
            — Tudo bem. Nenhum de nós tem culpa das coisas estarem como estão. Todos nós somos bem intencionados, mas...
            Ela se virou para pegar os frascos de refrigerante, segurou os gargalos uns segundos e pediu ao Mané:
            — Olha, eu não vou levar as coca-colas. Troca por guaraná. Pensando bem, guaraná é a mesma coisa. Não vou levar nada. Faço limonada em casa, é mais saudável. O dinheiro das cocas deixa aí, que eu vou descontando com os pães.
            Ao voltar para casa, olhei o buraco próximo à calçada, com aquele olhar de quem faz que não vê. Mas ele estava lá, indiferente a todos os passantes, como os buracos sempre são.

            Obs: esta crônica foi escrita na época em que o ex-prefeito Celso Pita pretendia ceder a zona azul para uma empresa de parking norte-americana. Mas, convenhamos, não é muito diferente da privatização das estradas, da telefonia...

7 comentários :

  1. Olá, Gilson, que grata surpresa te ler no blog! Vejo que ninguém escapa desta nova caneta-tinteiro que é a única forma de se comunicar hoje em dia... Também cometo minhas escritas num blog há 6 anos, alguns leem de vez em quando, mas fica ali, gritando sua existência fora da nossa imaginação. As suas crônicas são deliciosas e, sobretudo, uma verdadeira aula sobre escrever. Obrigada por se decidir e obrigada à Luciana por te convencer. Meu blog está no http://olhardasemana.zip.net Abraços. Marcia Chagas Kondratiuk

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    1. Tentei entrar no seu blog e não consegui. Mas gostei muito de ter você como leitora. Bjs.

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  2. Até que enfim apareceu um boteco novo pra tomar um café de melhor quaidade!
    Delícia!
    Obrigada, Sr. Barista!
    Já virei freguesa!

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  3. Gilson, mais um freguês neste Café!
    E os buracos devem está rendendo uma dinheirama, mais que multas e afins.
    Abraço!

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  4. Gilson, sem falar na técnica indiscutível do mestre, quero dizer que foi uma leitura leve e prazerosa. Gostei bastante! Esses buracos fazem a gente pensar, não é mesmo? Quem não tem um desses pelo caminho...

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  5. Adorei esse buraco no meio do caminho. Crônica gostosa, alegre, de leitura prazerosa. Obrigada por compartilhar.

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