BIGODE DE RISCO

Adoro crianças ─ quando as vejo, bonitinhas, nas propagandas de TV, nas fotos de publicidade, ou nas embalagens de produtos infantis. Nessa distância segura são graciosas, fascinantes. Assim gosto delas, como símbolo de pureza, de esperteza, de ternura. Crianças são excelentes metáforas e alegorias, concretizações de nossos anseios e emoções mais profundos de uma vida de bem-aventurança. “Bem aventuradas as crianças...” Que seria do mundo e do nosso espírito, se não tivéssemos essa imagem tão pungente desses seres prenhes de futuro a nos indicar cotidianamente que este planeta tem salvação... Por isso eu as adoro ─ nas TVs, nas revistas, nas fotografias, ou seja, longe de mim.

Crianças há basicamente de dois tipos: as que nos pertencem e as que não nos pertencem. Respeitadas as características e limitações próprias de suas categorias, elas são perfeitamente suportáveis e até podem nos despertar sinceros sentimentos amorosos. É o caso dos filhos, por exemplo. Pertencem à categoria das que nos pertencem, e nos despertam os chamados amor materno e amor paterno, que são incríveis sentimentos capazes de nos fazer suportar desde as dores do parto até os assaltos mensais das mesadas, passando por toda sorte de problemas, constrangimentos e trabalhos ─ desnecessário discorrer sobre isso, porque todos nós nos enquadramos nas categorias de pais ou filhos, quando não nas duas. De um modo geral, gostamos das que nos pertencem e sempre temos enorme esperança no futuro delas (por mais que o presente e o passado nos desmintam). Vem daí a famosa frase “criança esperança”, uma das imagens prediletas de poetas principiantes e da Rede Globo.
Já o tipo das que não nos pertencem é de mais difícil aceitação. Essas têm um número muito grande de subtipos, tais como: criança bonitinha, criança crescidinha, criança saliente, menor abandonado, criança do vizinho, criança carente, criança problema, criança de propaganda de criança, trombadinha, criança superdotada, criança retardada, criança feliz, criança chata, sobrinho, criança de colo, criança irrequieta, criança quieta, criança traumatizada, criança gordinha, criança magrinha, aluno, criança de festinha de criança e etc., uma porção de outros subtipos desta vasta categoria das que não nos pertencem. Certamente são essas que são sempre mais interessantes de longe. As pessoas, só para exemplificar, ficaram muito condoídas e sensibilizadas quando viram aquelas crianças africanas desnutridas na TV; não sei o que sentiriam se carregassem uma delas no colo, principalmente se estivessem com umas moscas pousando em seus rostinhos, como já vi. Do mesmo modo nos enternecemos quando vemos ─ sempre na TV─ os menores carentes; mas ninguém traz um deles para casa.
As que nos pertencem são sempre engraçadinhas, especialmente quando bebês.
─ Não, isso não! Não mexe aí!
Desculpe-me, é a filha da empregada que decidiu me imitar e ia rabiscar meus papéis. Sobre essa característica de criança falo depois. Eu dizia que são engraçadinhas. Pois é. Vejamos o sorriso. Para nós, adultos, sorrir é uma coisa muito fácil e corriqueira. Sem muito esforço sorrimos, como você pode experimentar agora, se quiser. Mas nenhum sorriso é mais emocionado do que aquelas contrações de nossos risórios de Santorini provocadas pelas primeiras idem ibidem de nossos filhos! Que lindos aqueles sorrisinhos desdentados, devidamente acompanhados dos movimentos de mãos e pernas dos bebês! Acho que gostamos tanto, por serem uma compensação do que choram. Porque isso é fato: criança chora! E choro de criança é sempre fora de hora ─ não só aqueles de madrugada; todos os choros o são. Mas eu falava dos sorrisos desdentados de bebê. É que a relação é inevitável com o antitético choro, que, convenhamos, é marca registrada de criança, bem como aquelas outras secreções menos nobres e igualmente constantes que também as caracterizam. Acho que um sorrisinho compensa todos os aborrecimentos psico-orgânicos, e por ele os adultos se desdobram, fazendo micagens e se infantilizando com aquelas frases idiotas que dizemos melosos ─ só para ver aquelas gengivinhas rosadas.
─ Minha caneta não! E não adianta chorar, que eu não vou dar a minha caneta!
Essa menina podia me deixar em paz. Bem, mas ela só tem quatro anos... Aliás, este é um bom argumento que sempre podemos usar com criança: ela é só uma criança. Não deixa de ser um bom consolo... Já quanto ao choro de manha de criança, claramente identificável porque seus olhinhos não vertem lágrimas, o melhor é não consolar. Invariavelmente ela resolve, ante nosso desprezo, procurar outra pessoa que possa ser sua cúmplice. Foi o que fez agora a menininha impertinente.
Voltando às que nos pertencem, não há nada mais gostoso neste mundo do que uma cabecinha de bebê em nosso pescoço! É certo que às vezes ela baba, mas é uma babinha boba ─ embora às vezes ela regurgite, o que é bem mais desconfortável. O nosso poder de perdão com as crianças é tão grande, que desejamos e ficamos felizes com o mesmo arroto que haveremos de reprimir quando crescerem. E um bebê mamando...! Existe cena mais excitante da nossa ternura? Gostamos tanto, que logo nos apressamos em enfiar-lhe uma chupeta na boca à menor manifestação de desagrado, mostrando-lhe que a vida pode ser, com um pouco de imaginação, um eterno seio ─ o que sabemos ser um engodo. Pela vida afora ela tentará, como nós, recuperar o seio perdido, com mamadeiras, refrigerantes, balas, chicletes, cigarros e outras compensações que o decoro recomenda que não se narre.
─ Não, Janaína! Não ponha essa chupeta molhada nos meus papéis! No meu colo também não! Tira essa chupeta daqui! Onde já se viu uma menina de quatro anos ainda chupando chupeta! Não! Minha caneta não é chupeta. Tira essa caneta da boca! Me dá aqui! Tá bom, tá bom. Eu empresto minha borracha. Mas não põe na boca...
As que não nos pertencem, quando se aproximam, costumam ser desagradáveis, conforme já disse. Especialmente se gostam de nós. Fica difícil afastarmos uma criança que só está sendo afetiva conosco, sem agredi-la. Sabe como é, criança é muito sincera, e as pequenas choram quando rejeitadas. E até há algumas que devolvem a agressão com agressão. É olho por dente e dente por pontapé. Outras há que...
─ Não, menina! O tio falou pra não pôr a borracha na boca. Por que não põe sua chupeta? Minha caneta de novo? Dá aqui a caneta. O tio está escrevendo, tá vendo? Deixa o tio escrever sossegado. Cadê sua bonequinha? Vai brincar com ela, vai. Ela deve estar se sentindo sozinha, coitadinha.
Outras há que... Não, não adianta. Perdi a continuidade da frase. O que eu estava dizendo? Escrever tem dessas coisas, é uma questão de espaço. Por exemplo o telefone. Não se pode ter um ao lado quando se está escrevendo. Já pensou, bem no meio daquela frase decisiva, toca o telefone e você tem que atender? Campainha também não pode ter, especialmente se onde você está costumam aparecer visitas, mendigos, vendedores ou, pior ainda, aquelas pessoas abnegadas que tentam convencê-lo a professar a religião delas, oferecendo, de graça, bíblia, livros, livretos e panfletos. Mas por que estou dizendo isso? Ah, crianças. Não se pode escrever com crianças ao lado. É que criança é ruído e só podem ser agradáveis se assumidas com essa característica própria de sua essência.
─ Tá bom, pega a caneta. Esta aqui não; estou usando.
Não é que eu não goste dela. Até gosto. Digo isto a cada minuto que ela fica ao meu lado, na minha frente, atrás de mim ou no meu pé, literalmente, agarrada à minha perna. Por suas atitudes, trata-me, acho, como se eu fosse seu pai, provavelmente me elegendo como o substituto do ex-namorado de sua mãe que se mandou ─ talvez numa premonição do grude que ela seria. Mas pai é o tipo da coisa que não se finge: ou se é ou não se é. E não me sinto pai dela. Sei da responsabilidade pelos meus próprios filhos e não tenho um coração assim tão grande.
─ Mas por que você está chorando? Já lhe dei minha borracha, minha caneta, meu papel, meu lápis... Não está feio não. Ficou lindo seu menino. Não é menino? Ah... sou eu... Puxa, parece mesmo... Só faltou o bigode... Ah... este risquinho é o bigode? Não, não! Eu gostei sim! Você dá o desenho pra mim?... Obrigado. O tio gostou muito. Não precisa chorar mais. Ah... já sei. Este choro eu conheço bem.
Criança é mesmo um distúrbio. Olhando aquela menininha dormindo, com cara de anjo, fiquei me perguntando onde é que se escondeu em minha mente toda aquela irritação que me provocou até a pouco. Agora, no quarto, seu rostinho suave e seu corpinho relaxado abandonam-se aos sonhos que nem ela conhecerá. E aqui, sobre a mesa, umas garatujas expressam-me, com meu bigode de risco e meus olhos de pontinhos acima da meia lua do sorriso que não lhe dei. Sem sarcasmos, penso que não há nada mais bonito que criança dormindo. Assim ela nos revela abertamente sua tocante fragilidade e nos incita a imaginar como a vida seria bem melhor se soubéssemos conviver com as crianças. Aí só haveria o tipo crianças das que nos pertencem, e nossos filhos jamais seriam estes maiores carentes que nós somos. 

2 comentários :

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Estou adorando poder ler seus escritos. Esta crônica é ótima.
    Bel

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