A CARNE DA FRUTA


            Foi o Zé Roberto quem inventou a classificação, e nós a usávamos para qualquer coisa, pessoa ou situação. E era uma classificação simples, mas não estávamos nem um pouco interessados em filosofar sobre seu possível maniqueísmo; servia como mais um instrumento de exercício de humor e isso bastava. Para nós, tudo poderia ser enquadrado em duas categorias: frutos tropicais e produtos industriais. Assim: as mulatas que Zé Roberto costumava namorar eram frutos tropicais; as artistas de cinema eram produtos industriais. Cachaça era fruto tropical; uísque, produto industrial. Também eram frutos tropicais: feijoada, cerveja, a Aninha, o bar que frequentávamos, as noites de verão, jabuticaba, galinha ao molho pardo, Caetano, Gil e Chico, Drummond e João Cabral, a mulher do zelador, banana e abacaxi, violão surdo e pandeiro, futebol, algumas roupas e mais uma infinidade de coisas, pessoas e situações. E eram produtos industriais: strogonoff, leite, a Sônia, qualquer bar sofisticado, o inverno, maçã, hambúrguer e hot dog, Hollywood, Sidney Sheldon, o zelador, uvas italianas, rúgbi, algumas roupas, etc.

            A classificação não tinha uma lógica precisa. Comumente precisávamos discutir e argumentar para conseguir um consenso, normalmente ditado por nossas convicções políticas subjacentes ou por outros valores mais gerais. Mas algumas coisas poderiam variar na classificação, conforme seu contexto; o saxofone, por exemplo.
            Lembrei-me desses momentos divertidos daqueles tempos, ao olhar para a fruteira. E foi por causa dessa fome extemporânea, essa vontade indefinida de comer alguma coisa, que às vezes temos à tarde ou à noite, a que me levou até a cozinha. Vasculhei a geladeira e o armário, sem encontrar nada que me satisfizesse plenamente. Então olhei para a fruteira, e lá estava o prazer que minha fome buscava — linda, madura, amarelada, pouco passando do tom verde claro: a pera. A boca salivou ávida daquela fruta que os olhos devoravam num súbito prazer estético. Junto a laranjas e maçãs que lhe serviam de cenário, ela, a pera, encimando as frutas todas, como se fosse o que de fato era: a fruta principal daquele quadro de natureza morta, digno de ser pintado. E a fruteira rústica de barro cozido sobre a mesa coberta com uma toalha bordada de linho branco dava para a fruta a moldura exata. Contive o impulso de comê-la; aproveitei o silêncio e a solidão da casa naquele fim de tarde de sábado para contemplar a cena.
            Às vezes a casa nos reserva essas surpresas. Perdido no espaço cotidiano acostumado, podemos encontrar, num relance, um ato de pura arte que passou muito tempo sem ser notado: um vaso de flores, um arranjo de bibelô, a disposição de um abajur, uma réstia de alho pendurada, uma fruteira. Coisas que a empregada doméstica, inconsciente de sua genialidade artística, sem querer nos oferece para deleite estético. Sentado numa cadeira, eu observava a pera, num pensar sem pensar, absorto, já quase disposto a pegá-la, mordê-la e ir vasculhando a casa quieta, em busca de outras cenas, que não misturassem a fome do espírito e a fome do corpo.
            Foi neste momento que me veio à mente a classificação. Certa vez eu e o Zé Roberto tínhamos sustentado longa e divertida discussão sobre uma pera, cortada ao meio, metade para mim, metade para ele, na pia da cozinha da república de estudantes em que morávamos. Eu afirmava, convicto, que era um produto industrial e Zé Roberto discordava, argumentando sobre suas características de fruto tropical. E eu ressaltava o fato de ser fruta importada, produto de país frio, com um gosto meio ingrato, coisas assim. Mas ele relevava a forma, a cor, o suco, a textura, “a carne da pera”, como ele chamava. Sem acordo, comemos a pera — eu, fazendo fingidas caretas de nojo e desprezo; ele, expressões de deleite, acompanhadas de humms prazerosos. Claro que ele tinha razão.
            Saboreei as memórias, as saudades daqueles tempos em que, driblando as censuras e a ditadura, achávamos jeito para rir. Mas a pera estava ali, presente, no seu formato de pera, na sua carne de fruta madura. As fomes de alimento se manifestam quase sempre lógicas, após períodos sem comer. Ou materializam ansiedades e carências. Outras fomes não têm tanta coerência, como aquela que nos faz devorar um livro ou ficar horas em frente a um quadro, no fascínio que toda arte pode provocar. Ah, a pera e seu fascínio de fruta, seu existir cheio de memórias em minha boca, em meus olhos, em meus sentidos. A pera e suas peras.
            Com o indicador, toquei-a para sentir sua pele e sua frescura de fruta. E tateei sua textura lisa e seu formato de seio. É a pera feminina, e meu tato rememora seios-pera, aqueles que minhas mãos e minha boca acariciaram com prazer. E aqueles que desejei conhecer e não pude, frutos maduros no ponto para serem colhidos e saboreados. A carne da pera, da mulher fruto, das minhas tantas fomes insaciadas. No silêncio da casa, ouvi os sons das falas contidas na pera, os ecos passados que tocava no presente. Quis lembrar da primeira vez que comi uma pera, recordar o primeiro paladar, e só me lembrei — não sei se foi a primeira — de uma pera dura, apanhada numa árvore de galhos esguios. Também ouvi o estalido dos dentes na fruta e senti um odor suave que as peras verdes têm. E no tato a associação inevitável do primeiro seio sentido tímido e apertado num soutien. A surpresa excitada da ponta dos dedos no mamilo durinho... Depois, o perfume tênue, mistura de talco barato e suor, que mantive horas na mão, até a necessidade de lavá-la. E o gosto do beijo, do primeiro toque de línguas, a saliva dos lábios úmidos, a respiração acelerada, o coração pulando no peito, o toque dos cabelos no rosto...
             A fome extemporânea havia passado. Talvez eu precisasse de alguém naquele momento com quem pudesse dividir a pera, fosse numa discussão inútil e divertida, fosse em carícias e em desejos comuns. Mas há peras, como aquela, que são indivisíveis, a não ser que se encontre um modo de partilhar emoções que o tempo transforma em estritamente pessoais. Com certeza isso aconteceria com aquela pera. Então peguei a pera na mão, sentindo seu peso e sua energia. Fui até a escrivaninha à procura de papel e caneta.
            Mordo a pera.

3 comentários :

  1. Aguçou meu apetite... deu uma fome enorme de voltat a escrever...

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  2. A crônica é fruta... daquelas carnudas. Obrigado por compartilhar. Luis

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  3. Leitura mágica...convincente e criativo.

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