A BOLA DO JOGO


            A bola veio alta, sei lá de onde — talvez de um terreno baldio escondido atrás do muro —, quicou na calçada, no asfalto junto à sarjeta e foi baixando os pulos até imobilizar-se submissa na matada do Ribeiro. Tenso, o cortejo fúnebre parou. Pouco mais de vinte pares de olhos, inclusive os meus, fixaram-se no pé direito do Ribeiro, que também contemplava o próprio pé sobre a bola. Só a viúva continuava atenta ao caixão e resmungava umas frases choramingadas, em tudo parecida com as mesmas que vez ou outra rezingava no velório. A meia dúzia de homens que segurava as alças enxugou a testa suada com a mão livre, sem tirar os olhos enigmáticos da bola parada sob aquele pé. Ainda ecoava em meus ouvidos o som seco das batidas no asfalto, até parar na matada sem rebote. Depois, o silêncio, perturbado pelo fungar falso da viúva e pela fala ao meu lado:

            — Que falta de respeito! Onde já se viu! Não se respeita nem enterro... Acho que ele não merecia isso...
            — Sem essa, né, Marcílio. Um velhaco como o Nicanor não merece respeito nem morto.
            — Ô, Gílson, respeita ao menos a viúva!
            — A viúva, Marcílio? Você já respeita a viúva por todos nós.
            A bola continuava presa à sola do sapato do Ribeiro. Cúmplices, os olhares dos outros pareciam entabular surdamente uma conversa, como quando muitos seguram o riso. O Marcílio continuava a falar:
            — Mas se você não respeita o Nicanor, o que veio fazer no enterro dele?
            — Apreciar, Marcílio. Apreciar e conferir se vão mesmo enterrar esse pulha.
            — É, de fato; me dói ver aquela viuvinha tão triste...
            — Aquilo é fingimento. Ninguém normal pode chorar por ele. Nem a mãe dele apareceu no velório — se é que esse desgraçado teve mãe...
            Lentamente, os seis que seguravam o caixão pousaram-no no chão, dentre eles o Walfrido Cerdeira, que era o único que segurava a alça desde a saída do velório. Pagamento de promessa, confidenciou ao Décio, que me contou. Porque prometeu a São Jorge, que se Deus ou algum mortal fizesse a justiça de tirar a vida hedionda do Nicanor, ajudaria a carregar o caixão do princípio ao fim do enterro. Assim foi o último a largar a alça, mas, como os outros, não tirava os olhos da bola presa sob o pé do Ribeiro.
            Walfrido Cerdeira era dono da Móveis e Imóveis Cerdeira, uma loja de móveis, eletrodomésticos e ferragens em que ele acertava também negócios imobiliários. “Cerdeira: onde você compra do terreno até a cama” — era seu slogan de propaganda no O Liberal e nos panfletos que de tempos em tempos ele mandava distribuir pela cidade. Nicanor havia seguido o slogan ao pé da letra, comprando tudo, até a geladeira e a TV Invictus. Mas pagar, nada. Enrolou, de início, dizendo que começo de vida de casado era muito dispendiosa, que assim que fechasse uns negócios pagaria, ele que não se preocupasse. Como após cinco meses da compra não havia pagado nada, Cerdeira ameaçou com a polícia — ameaça feita em público em frente ao bar do Wlade, presenciada por muita gente.  Só que inexplicavelmente, dias depois, parou de cobrar, e todo mundo viu que apenas cumprimentou constrangido o Nicanor, sem falar nada da dívida. Soube-se então, quase com certeza, que o velhaco havia descoberto alguma coisa da vida do Cerdeira para chantagear. Para os amigos íntimos dizia apenas que queria ver o Nicanor morto. E assim como ele, todos que ali olhavam a esfera de couro sob o pé do mau caráter tinham uma razão qualquer para a mórbida satisfação de ver o agora defunto com seu corpo a sete palmos e a alma no fundo do inferno.
            — Puseram o Nicanor no chão...
            — Então vai lá e carrega você, Marcílio. Vai, agora é sua vez. Eu já carreguei dois quarteirões.
            — Mas como é que vou carregar sozinho?
            — Danem-se você e o Nicanor. Eu só quero saber se o Ribeiro vai passar essa bola.
            — O caixão com o Nicanor dentro, ali, debaixo deste solão, a viúva desconsolada com essa falta de respeito, e você só está interessado se o Ribeiro vai passar a bola?!
            Era só em que eu estava interessado, eu e todo o cortejo, que mantinha a bola de couro novinha sob marcação cerrada com olhares gulosos abaixo do pé do Ribeiro que a pisava vitorioso. Debruçada sobre o caixão, nádegas voltadas para a bola, a viúva dava estranhas pancadinhas na madeira, como se batesse à porta, e tentava informar o morto sobre a situação, continuando com seu choro que só podia ser fingido. Muito esquisita a relação dela com o marido. Era outra coisa que ninguém entendia muito bem. Jamais uma mulher bonita como aquela, uma leitoinha, como a chamávamos, — gostosa, cobiçada pela rapaziada, curso normal e aperfeiçoamento completo — poderia se interessar por um velhaco como o Nicanor.
            Velhaco... Aliás, eu não sabia o significado dessa palavra, até conhecer o Nicanor. Nessa época, Americana não tinha muitas alternativas de divertimento. Era uma cidade relativamente pequena, com seus vinte, trinta mil habitantes; e, diferente do que se apregoa sobre cidades pequenas, não se conhecia todo mundo. Claro que eu já tinha visto o Nicanor andando pela cidade. Sabia até da sua fama, mas nunca tinha conversado com ele, de modos que ele era só alguém que morava na cidade e que eu não conhecia.
            E foi numa tarde de janeiro, mês de férias, o bar do Dema quase vazio, que tive a infelicidade de conhecê-lo. Para passar o tempo, gostava de jogar sinuca, quase nunca jogando a dinheiro, quase sempre rachando o tempo. As mesas do bar do Dema eram as melhores da cidade e era lá que alguns da turma gostavam de jogar, como eu. Mas nenhum parceiro costumeiro, apenas o Nicanor batendo bola sozinho na mesa melhor. Convidou-me para jogar. Entre ressabiado por não conhecê-lo e satisfeito por arrumar um parceiro, topei. De cara sugeriu uma aposta de cinco cruzeiros por partida. Mixaria, mas recusei. Podia ser que ele fosse bom, e havia sua fama de velhaco.
            Então jogamos umas duas horas rachando o tempo, ele perdendo todas, lamentando-se da má sorte. Veio a fome, pedimos uns baurus de carne, guaranás, tudo meio a meio, e eu ganhando todas. E ele elogiava meu jogo, dizia que ganhava a próxima, mas perdia. No fim, quase sete e meia, eu quis ir embora, mesmo porque ele não dava páreo e o jogo já estava ficando chato, falei em pagarmos a conta. Ele propôs que jogássemos mais três partidas e quem ganhasse a melhor de três pagava tudo. Claro que recusei. Insistiu, disse que dinheiro não era problema para ele, que era só uma maneira de homenagear um novo amigo; elogiou, bajulou, encheu o saco, tanto, que acabei aceitando. Resultado: não vi a cor das bolas. Ganhou duas partidas em menos de dez minutos. E a segunda, fechou da três até a sete numa tacada só.
            — É... você é bom, mas tem muito que aprender, amigo.
            E foi embora, me deixando a arrumar as bolas para a terceira partida e a conta para pagar. Sorte eu ter amizade com o Dema. Tive que pendurar parte da conta, que incluía ainda dois maços de cigarros e mais o que ele havia comido e bebido antes de eu chegar. Velhaco!... Então é isso...
            — Passa essa bola, Ribeiro!
            Que merda! Tinha que ser o Virgílio Bos... mesmo. Ali só tinha um que podia dizer isso e ter chance de ser atendido, e esse um positivamente não era o Virgílio Bos... . Ribeiro olhou para ele, deu aquele seu sorriso de agente da GESTAPO, e continuou pisando firme na bola. Ora, eu conhecia muito bem aquele mau caráter. Não ia soltar a bola nem a pau, ainda mais agora... Não só eu, nós todos sabíamos como o Ribeiro era, e por isso ninguém tinha se manifestado. Há quase um minuto estávamos de olho no balão de couro, imaginando um jeito de chutá-la, encher o pé nela, driblar, suar por ela, marcar um gol... Um gol... era nisso que eu pensava quando o Virgílio Bos... gritou.
            A rua ali era boa para um rachão. Se todo mundo topasse, dava dois times completos. Era só arrumar uns tijolos para fazer o gol, tirar par ou ímpar, escolher os times... Até os goleiros tinha, pois o Vítor do trompete eu sabia que catava no gol e o Marcílio também, se parasse com a frescura de respeitar o morto. Dane-se o morto. E dane-se a gostosa da viúva dele do mesmo modo. Mas agora a gente teria que tirar a bola do Ribeiro, o único amigo do Nicanor — se é que aqueles dois pudessem ter algum sentimento mais decente por alguém... O fato é que o Virgílio Bos... tinha que ter se mancado. Se falasse: “’pera aí, Ribeiro; você não está pensando em chutar essa bola, né?...”, ou qualquer coisa assim, é possível que ele soltasse. Mas mandar que ele soltasse...
            O Virgílio Bos... era um panaca mesmo. Nem sei o que ele estava fazendo no enterro. Talvez fosse pela mesma razão dos demais: comemorar a morte daquele biltre. Virgílio Bos... fazia parte da turma dos Bos..., que tinha o Lívio Bos..., o Marcelo Bos..., o Lauro Bos..., o Ronaldo Bos..., o Nando Bos... e um monte de outros Bos... . Todos eram filhos dos caras remediados e bem de vida da cidade, industriais, profissionais liberais, gerentes, comerciantes. Nós batizamos a turma deles de turma dos Bos..., porque para bom entendedor, meia palavra bas... . Que eu soubesse, o pai do Lívio Bos... , dono de uma fábrica de tecidos, tinha perdido um Chevrolet para o Nicanor, em circunstâncias desconhecidas. Só se sabia que de um dia para o outro o Chevrolet estava sendo dirigido pelo velhaco. Deve ter sido de modo semelhante ao que perdi na sinuca, sei lá... Do Virgílio Bos... eu não sabia nada. Só se fosse que a turma dele o escalou para a tarefa de conferir o enterro.
            A viúva gemeu ajoelhada ao lado do caixão, quebrando a tensão provocada pela imobilidade do Ribeiro:
            — Ai, Nicanor... Seu enterro parou por causa de uma bola... Essa gente não tem respeito por você nem morto...
            Marcílio não resistiu e foi ajoelhar-se ao lado da leitoinha. Entre frases de consolo, foi logo abraçando a cintura dela e a mão boba subindo, sutilmente afastada por ela, que apoiava a cabeça no ombro dele. Marcílio era louco por ela. Quando adolescentes tinham namorado uns meses. Não durou. Com certeza ela se encheu dele, um chato insuportável. Ele dizia que uma sucessão de falas ditas de modo errado havia atrapalhado o relacionamento e que seu ciúme por ela o levou a cometer injustiças. Mas garantia que tinha amadurecido e não perderia nenhuma chance de provar seu verdadeiro amor por ela. O casamento dela com o Nicanor o deixou arrasado por uns três meses, mas logo voltou a assediá-la, dessa vez com sucesso. Sem dúvida era um chato, desses que quando chega num lugar vai cada um para um lado, dando uma desculpa para sair de perto. Inoportuno, sem graça, desinteressante. Só eu e o Zé Roberto éramos seus amigos, sei lá por quê. Acho que éramos masoquistas. Entretanto, ele tinha isto de bom. Tanto deu em cima da mulher do Nicanor, que acabou levando, e com isso vingando muita gente que naquele momento olhava a bola parada, inclusive eu. Todos sabiam do caso do Marcílio com a recém-viúva, porque em cidade de interior caso de corno todo mundo sabe, menos o próprio.
            Não era descartada a hipótese de que soubesse e não fizesse nada. É que o Nicanor era tão abjeto que talvez soubesse e até gostasse. Essas conjeturas eram feitas, porque não se entendia como ele havia casado com aquela mulher. Só mais tarde é que viemos a saber das razões — aliás, exatamente naquela tarde do enterro, minutos depois do momento em que a bola parada sob o pé do Ribeiro provocava desejos contidos de que a chutássemos com a fúria e a determinação que toda boa pelada exige.
            — Cumé, Ribeiro. Vai soltar essa bola ou não vai?
            O vozeirão inconfundível do Jorjão radicalizou a situação. E aí o Ribeiro tinha que se definir. Jorjão era enorme! Sutil como um dinossauro cuspindo fogo, era desses que não choram nem no velório da mãe. Na cidade era famosa a história do dia em que, irritado com um cavalo, deu-lhe um murro que o pôs a nocaute. A gente costumava brincar dizendo que mãe, quando o filho não queria ficar quieto ou dormir, dizia como argumento definitivo: “você fique quietinho, se não eu chamo o Jorjão pra pegar você!” Não é que tivesse um corpo atlético. Ao contrário, era barrigudo, meio gordo, pernas e braços curtos e grossos. Mas como era forte! O pescoço continuava a cabeça pequena para aquele corpão, e seus movimentos eram precisos, cirúrgicos, eu diria, com inevitáveis hematomas, se fossem agressivos. Só pra se ter idéia, uma das suas brincadeiras prediletas era segurar o pára-choque do Fusca do Válter Justo, quando ele ia sair. Erguia a traseira do carro, que patinava e não saía do lugar. Um dia, disse-me:
            — Hoje vou bater no Nicanor só com a cabeça.
            Dito e feito. O Nicanor o esmurrava, tentava agarrar, e ele, com as mãos nas costas, só ia peitando o velhaco até espremê-lo numa parede e dar-lhe uma testada no meio da cara, que melecou de sangue a camisa branca do coitado. Como todas as outras, a briga terminou com o Nicanor correndo.
            Brigavam sempre. Na verdade, brigavam todas as vezes que se cruzavam, porque o Jorjão proibiu o Nicanor de passar em sua frente ou na rua em que estivesse. E teve o dia em que o degenerado decidiu enfrentar o Jorjão. Avisou todo mundo que ia à forra e mandou recado para que Jorjão o encontrasse às seis da tarde na praça, se fosse homem. Seis horas, estavam na praça umas cento e cinqüenta pessoas esperando mais um esperado massacre.
            Jorjão chegou seis e cinco, se desculpando com a platéia, porque, segundo suas palavras, “ontem comi demais e hoje, como um bom cristão, eu precisei dar uma boa cagada.”
            — De medo, Jorjão? — Perguntou o Zé Roberto.
            — É. De medo que sua mãe não queira mais mamar aqui, seu... — e xingou a mãe dele.
 Assim era Jorjão, gente fina, um machão autêntico. A resposta ao Zé Roberto era o máximo de poesia que se permitia. E tínhamos por ele o mesmo respeito que se tem por um revólver ou por um dobermann. Grande, violento, grosso, contraditoriamente era generoso e fidelíssimo às suas amizades. Nessa época ele tinha começado a namorar uma moça magrinha, miudinha, não mais de um metro cinqüenta e cinco de altura, com quem desfilava aos sábados pela cidade, tratando-a com uma delicadeza que só se vendo. Foi o casal mais esdrúxulo que já vi, e parece que para com ela tinha a atenção oposta dedicada ao Nicanor. Imagine... O Jorjão um gentleman... Inacreditável.
Eu e ele tínhamos uma estranha relação de amizade, vinda da infância ─ Jorjão era um ano e meio mais novo que eu. Numa tarde de verão, voltava da escola e o vi chutando um cachorro vira-latas sem motivo aparente. Fiquei indignado e dei-lhe uns cascudos, deixando o cachorro ir-se.
— Não se bate em ninguém sem motivo, nem num cachorro! — disse-lhe então. — Mas você me deu um bom motivo para bater.
— É que ele só ficava trepando com a minha perna. Minha perna não é cadela... — choramingou.
— Tá bom, desculpa, eu não sabia que o motivo era esse. Mas cachorro não sabe o que faz. Você sim.
Nessa época, Jorjão nem de longe anunciava o brutamontes em que foi se transformando. Mas elegeu-me seu amigo, para minha sorte, e me dizia que eu fui o único que bateu nele, além de seu pai e sua mãe. Meus amigos ficavam embasbacados com o respeito que tinha por mim. Já ele dizia que era por eu ser um cara muito justo e inteligente. Quando nocauteou o cavalo, veio a mim perguntar se tinha feito coisa errada.
— Claro que não, né Jorjão... O cavalo deu um coice na sua bunda. Ele mereceu.
Acho que a bronca com o Nicanor começou mais por minha causa do que por ele mesmo. É que o início dessas brigas foi motivado por aquelas partidas de sinuca que eu perdi. Eu comentava numa roda de amigos, matando o tempo em frente ao bar do Wlade, como fazíamos sempre, que tinha entrado de pato no jogo do Nicanor. Até exagerei a insistência dele em jogarmos as últimas partidas, para que parecesse mais velhaco do que já era. Jorjão ficou muito indignado; juntou essa com outras artimanhas do Nicanor e, investido de seu estranho senso de justiça, foi tirar satisfações.
Meia hora de conversa, observada à distância pela turma, e voltou com um gravador, vendido barato pelo canalha. Quanto à sinuca, disse que tinha mesmo me enganado, mas que fez isso para me dar uma lição, para que eu aprendesse a não confiar demais em estranhos. Jorjão voltou entusiasmado com a conversa do Nicanor. Realmente o calhorda tinha um bom papo. Mas o entusiasmo durou pouco: o gravador era roubado.
Nicanor alegou em juízo, tendo o Ribeiro como testemunha, que achou o gravador num terreno baldio e “achado não é roubado”. E mais: disse que o gravador estava sujo e precisando de conserto, tudo sempre acompanhado de “não é Ribeiro?” e respondido com um aceno de cabeça concordante pelo mau caráter. O delegado ditava, o escrivão datilografava com incrível rapidez com seus dois ágeis dedos, todos sabendo muito bem que os dois estavam mentindo, mas fazer o quê...  Mas essa falsa paz da legalidade iria terminar quando ele se recusou a devolver o dinheiro para o Jorjão. Pra quê. A primeira surra que levou foi ali mesmo e durou todo o tempo que o delegado demorou, sem muito empenho, para ordenar ao escrivão que fosse chamar os guardas para segurar o Jorjão. Já eu estava presente como testemunha de que o Jorjão não tinha roubado e era incapaz de fazer mal a uma mosca, desde que a mosca não pousasse nele. Enquanto o Nicanor depunha, eu estava muito preocupado, porque o Jorjão se mantinha sério e quieto. Sabia que essa atitude era a calmaria que precede as tempestades. E a primeira trovoada veio quando o Nicanor argumentou:
— Eu não vou devolver dinheiro nenhum. Não tenho culpa se ele decidiu comprar um gravador roubado...
As costas da mão esquerda do Jorjão vieram diretas no nariz do Nicanor, que foi desequilibrado parar sentado na cadeira encostada na parede oposta à mesa do delegado. Solene, Doutor Onofre protestou:
— Ô, senhor De Paulo; aqui não! (O nome do Jorjão é Jorge Alberto De Paulo). E continuou:
— Bernardes... (Era o nome do escrivão). Vai chamar um guarda para apartar esta briga! Não, espera, Bernardes. Um, não. Acho que para segurar o senhor Jorge Alberto De Paulo são necessários dois guardas... — E olhando para mim: o senhor acha que dois são suficientes? Espera, Bernardes!...
— Não sei não, doutor. Depende do tamanho dos guardas. O Jorjão, digo, o Jorge Alberto está bravo, sentindo-se injustiçado. E quando ele se sente injustiçado, sabe como é... o senhor está vendo aí...
— É, precisam ser fortes... Bernardes, traz o Oliveira e... deixa ver... O Zeca Barradas, é, o Zeca Barradas. E Oliveira, traz o Parreira também para garantir. Parreira era o carcereiro, acostumado com gente como o Jorjão.
Enquanto não chegavam, Nicanor apanhava, só de mão aberta na cara. Assim era o Jorjão, sempre batia de um modo só no Nicanor, estilo inaugurado nesta primeira vez. Bateu nele, nos meses seguintes, de todas as maneiras: de soco, de cotovelo, de joelho, de calcanhar, de perna, de cabeça, de chute...
Por isso, estávamos todos curiosos, naquele fim de tarde de verão, em saber que artimanhas o Nicanor havia aprontado para desafiar o Jorjão. Já havia tentado várias: contratar dois guarda-costas (apanharam os três), processar por agressão (deu em nada, quando o Jorjão disse para o advogado dele que teria que mover dois processos, porque ele não admitia advogado injusto, e bater no Nicanor era um ato de justiça), devolver o dinheiro do gravador (o Jorjão aceitou e deu a surra de pontapés que ainda não havia dado), atropelá-lo (Jorjão safou-se, pulando para a calçada, e no dia seguinte arrancou os quatro paralamas do Chevrolet e os amassou)... Enfim, nenhuma deu certo.
Quando Jorjão chegou na praça, abriu-se um círculo de uns dez metros de diâmetro, o Nicanor no meio. Respondeu a pergunta do Zé Roberto e foi em direção ao desafeto, que surpreendentemente lhe estendeu a mão direita num cumprimento. Em resposta, Jorjão deu um tapa na mão dele, que recuou uns passos e gritou:
— Vocês viram que eu fui agredido! Então, vai ser legítima defesa. Vocês viram que eu estendi a mão em paz!...
E puxou da cintura, escondida sob a blusa, uma faca de caça, apontando-a ameaçadoramente para o tranqüilo oponente. A platéia, atônita, não sabia o que fazer. Mas Jorjão, sim. Incrível a agilidade que tinha com aquele corpão! Deu um chute na mão do covarde e a faca voou longe. Bem que o Nicanor tentou fugir, mas aí a platéia sabia o que fazer. De nada adiantou o “desculpa, foi uma brincadeira”. Jorjão achou que era justo quebrar o braço dele. Mas consultou-me a respeito, enquanto o segurava pendurado pelos cabelos.
— Quem sou eu para dizer o que você deve fazer, Jorjão. Faça o que considera justo... — respondi.
E para que ele não tivesse outra idéia besta, quebrou os dois.
Já o Ribeiro, que de besta não tinha nada, é claro que quando o Jorjão gritou para ele, teria que se decidir. Foi o que fez. Mas estranha decisão: abaixou-se, pegou a bola com as duas mãos e ficou segurando, encarando todos com o sorriso maquiavélico que sempre tinha, no meio daquela cara de rato. A viúva desvencilhou-se do abraço do Marcílio e implorou:
— Pelo amor de Deus! Vamos seguir com o enterro!
— É, pessoal, vamos logo enterrar esse morto — reforçou o Marcílio. — Sabe como é, morto, depois de um certo ponto, começa a feder... ainda mais o Nicanor...
— O morto que espere — decretou o Jorjão, com a aprovação geral, um “É!”, dito em coro com entusiasmo.
Ao meu lado, o Décio mandou ver seu discurso, logo após ao “É!” que se seguiu ao decreto do Jorjão.
— Olhem para esta bola! (E apontou para a bola nas mãos do Ribeiro, que a trouxe mais junto ao peito). Esta bola não está aqui por acaso. Nada acontece por acaso; nós não estamos aqui reunidos por acaso. Esta bola é uma bola, e como tal, veio até nós para ser chutada. Sim, porque é da essência da bola ser chutada. E veio do alto, como se viesse do céu; ou melhor, eu diria que ela veio de fato do céu e caiu entre nós para que comungássemos dela. A nós só nos resta cumprir esse desígnio. Que homenagem melhor a este morto (e apontou o caixão), que em vida, todos aqui estão cansados de saber, foi um desgraçado, que homenagem melhor, eu dizia, do que uma saudável pelada em comemoração à nossa vida e à alegria que esta morte provoca em todos nós?
— É! — Responderam todos em coro.
            — Esta é a bola perfeita (e apontou para a bola na mão do Ribeiro), é a bola que não pertence a ninguém, é a bola do jogo!...
            — É! — Confirmou em uníssono o coro.
            — Ninguém aqui é o dono da bola (e o Ribeiro agarrou a bola, como se quisesse escondê-la); ela é de ninguém e por isso de todos, não é?
            — É!! — Redargüiu o coro com redobrado entusiasmo.
            — Por isso, minha senhora; por isso, meus senhores; por isso eu me sinto na obrigação moral e cívica, na obrigação ética e filosófica, na obrigação — eu diria até — religiosa; e nesta obrigação me sinto, porque estou ungido de todas as razões humanas, porque me assumo como porta-voz de todos os presentes, porta-voz do próprio destino; eu me sinto na obrigação — eu dizia — na obrigação de dizer, como vou dizer agora em alto e bom som: passa a bola, Ribeiro!
            — É!!! — Decretou o coro com definitivo entusiasmo.
            O Décio era o nosso intelectual mor, porque fazia faculdade de Filosofia em Campinas e lia mais do que todos nós somados. Ligado à Igreja, católico convicto, tinha sérias razões para cometer com Nicanor o pecado da ira. Apenas uns poucos amigos sabiam de suas razões, porque a arapuca que o Nicanor armou para ele realmente é coisa que não se faz. Das muitas indignidades desse ser abjeto, não tenho dúvidas em classificar esta como a mais repulsiva. Sinceramente, quando eu soube, tive vontade de matar o Nicanor, assim como os amigos a quem o Décio contou. Não fazíamos idéia de que o próprio Nicanor se encarregaria de morrer meses depois, sem que fosse necessário que algum de nós sujasse as mãos para cometer esse ato de justiça. No velório, o Zé Roberto, que era “um ateu convicto”, como se dizia, comentou com o Décio: “É, parece que o seu Deus finalmente cometeu um ato de justiça...” Ao que o Décio retrucou: “Engana-se, amigo. Deus não tem nada com isso. Com certeza foi o diabo que o convocou para suas hostes.”
            Bem me lembro do dia em que o inferno do Décio começou. Ele veio entusiasmado nos dizer que definitivamente acreditava em milagres, porque, após a missa, viu o Nicanor procurar o padre Mariano e pedir para se confessar; e de fato deveria ter muitos pecados, porque meia hora depois ainda estava em frente ao confessionário, no que parecia um tête-à-tête animado com Deus.
            Mas nos dias seguintes, o que vimos foi um Décio cabisbaixo e amargurado, e a uma referência ao Nicanor, reagiu com um ódio nada cristão. O Décio era sério e sua reação nos preocupou. Entretanto custou muito fazer com que se abrisse para nós. E era mesmo coisa de se preocupar, tanto, que não ousei contar para o Jorjão, porque se soubesse disso, matava o Nicanor, com toda a certeza.
            Décio sempre foi ligado à Igreja, desde menino. De família católica, dessas que ofereciam e arrematavam prendas nos leilões das quermesses, foi coroinha, participava de todas as atividades, e adulto, continuava com essa participação em nada parecida com a carolice das Filhas de Maria e dos marianos. Mantinha com o vigário uma amizade profunda, baseada nas mesmas convicções, nas leituras e no gosto por Filosofia, o que o levava a freqüentar a casa paroquial, participando de jantares e tertúlias, que ambos cultivavam pelo menos uma vez por semana. 
            Pois não é que foi bem aí nessa amizade pia e desinteressada que o Nicanor viu um meio de tirar vantagem? Conforme me contou o Décio, o Nicanor se achava até generoso e nada ganancioso por cobrar apenas dez por cento das contribuições espontâneas dos fiéis durante a missa. Era o seu dízimo, como dizia, cobrado religiosamente após a última missa dos domingos. Mas que não se preocupasse o padre, dizia. Ele intuía que sua morte estava próxima; era tudo por uma causa nobre, porque não queria deixar sua futura viúva desamparada.
            Num primeiro momento, o vigário quis ir à polícia e denunciar a chantagem. Mas o Décio ponderou que havia dois problemas: o primeiro era que a chantagem tinha sido feita em confissão. E era verdade; o Nicanor confessou ao padre todas as chantagens que fazia, pedindo perdão também para a última que ainda iria fazer, ou seja, a do próprio padre. O segundo problema era que boato não tinha jeito de controlar, ainda mais em cidade de interior, e iria afetar com toda a certeza a boa relação com os fiéis.
            Até que o Décio tentou convencer Nicanor de todos os modos, inclusive convidando-o para jantar com o padre Mariano, para que visse que ambos eram apenas amigos cordiais. O Nicanor recusou o convite, dizendo que não tinha a menor dúvida disso, mas que mentira é isso mesmo, é mais verdadeira que a verdade, e o povo acabaria acreditando mesmo que os dois eram amantes. Então restou o que vimos, o Décio dando muitas aulas particulares para cobrir metade do “dízimo” de Nicanor; a outra metade era coberta pelo padre, não sei como.
            Isso foi uns cinco meses antes da estranha morte do Nicanor. Durante esse tempo ele levava seu dízimo todas as semanas, inclusive os dez por cento da quermesse de Santo Antônio, o padroeiro de Americana. E ainda argumentava ao padre, cada vez mais esmagado pela culpa, que era um bom cristão, cobrando barato por um fato tão escabroso.
            É, tenho que reconhecer. Esse nojento do Nicanor era um cara muito competente nas suas falcatruas. Mas até o dia do enterro não sabíamos de outra, que tínhamos certeza de que existia, porque ninguém na cidade conseguia atinar com quais teriam sido os arranjos que fez para conseguir casar-se com a filha do Jácomo Leitão. — Era por esse sobrenome que a chamávamos de “leitoinha”.
            Sem dúvida Nícia Leitão não escolheu o Nicanor para marido, mas não revelava nem ao Marcílio as razões. O máximo que admitia era que o odiava, mas isso só na intimidade da cama e só para o amante, porque para suas amigas e seus amigos sempre dizia que o Nicanor era o amor de sua vida. Naquele dia, desde o velório, me intrigava isto: por que ela fingia que chorava a morte daquele crápula? Agora o cara estava morto, não precisava mais seguir com a farsa. Que foi algum tipo de chantagem que os uniu, disso ninguém duvidava. Mas por que ela e os pais continuavam a mentir?
            Confesso que cheguei a duvidar de que o Nicanor tivesse realmente morrido, do mesmo modo como duvidava daquelas lágrimas de crocodilo da leitoinha. Quando me disseram, não acreditei; devia ser gozação do Wlade. Mas o Marcílio veio falando em consolar a viúva e decidi conferir o velório, ainda sem acreditar. Tanto é que, na primeira oportunidade, chamei a Nícia de lado e pedi para ver o atestado de óbito.
            — Mas que diabo! Por que todo mundo quer ver esse maldito atestado de óbito! Não basta ver o corpo no caixão?
            — Sabe o que é, Nícia. É que o caixão está fechado...
            — Eu não quero ver o Nicanor morto. É muito triste... — e chorou.
            Mas, de vez em quando, ela ia até o caixão e abria a parte de cima. Era um caixão de primeira, desses que abrem duas partes e a gente fica se perguntando: “será que o defunto está de sapato?”; todo estofado com cetim branco como a cara do Nicanor, que até parecia maquiado. Nesses minutos em que ela abria a tampa e exibia metade do peito e a cara daquele desqualificado, todo mundo corria para ver, como se quiséssemos confirmar que ele continuava morto.
            Mesmo assim, eu — como quase todos ali — quis ver o atestado de óbito. Estava assinado pelo doutor Castro e a causa mortis era parada cardíaca provocada por enfarte do miocárdio. Então soubemos que o Nicanor andou se consultando com o doutor Castro e reclamando com o Ribeiro de dificuldades respiratórias. Cercados desses cuidados todos, para não sermos mais uma vez enganados, pudemos então beber com prazer a cachaça que rolou no velório do bastardo.
            Nícia Leitão quase não saía do lado do caixão, temerosa de que aprontassem alguma coisa com o agora ex-marido. Claro que ela sabia da fama que ele tinha e, no entender de todos nós, era uma excelente atriz, representando muito bem seu papel de viúva de primeiro dia. Foi difícil segurar o Zé Roberto, que a todo custo queria cumprimentá-la pelo desempenho dramático, numa das aberturas da tampa. Mas não conseguimos evitar que aplaudisse e gritasse “bravo!”, quando ela fechou a tampa e voltou para a cadeira. Parece crueldade, mas era incompreensível que ela pudesse estar sendo sincera.
            Segundo o Marcílio, o cara nem cumpria satisfatoriamente suas obrigações maritais e achava normal que ela tivesse outros homens. Aliás, chamava-a de “minha puta” e dizia que puta tem que dar pra todo mundo. Mas parecia não saber do caso dela com o Marcílio. Os dois eram muito cuidadosos. Só nós sabíamos, porque ele contava, mas nunca conseguimos flagrar um encontro, como tentamos, na esperança de poder chantagear o próprio Nicanor, trocando as fotos que tiraríamos pela suspensão do dízimo. Pensamos em envolver o Marcílio na armação, mas nem chegamos a falar com ele. Jamais permitiria, com toda a certeza.
            Silêncio. O discurso do Décio tinha mobilizado completamente a atenção e intenções da platéia. Agora era questão de segundos para que avançássemos sobre o Ribeiro e tirássemos a bola dele. Ele sentiu o clima. Num movimento lento, desfez o abraço à bola, segurou-a com a mão direita espalmada, e quando esperávamos que ele a ofertasse a nós, mais precisamente ao Luizinho Mão-de-vaca, que estava à sua frente, jogou-a uns cinqüenta centímetros para cima e encheu o pé, num chute poderoso, com toda sua força, como se catalisasse nossas vontades de fazer o mesmo. A bola saiu reta, na vertical, e subiu, subiu, subiu uns, sei lá, quarenta, cinqüenta metros, e foi ficando pequena, enquanto olhos ansiosos esperavam embaixo sua queda inevitável.
            Ao lado do caixão a viúva leitoinha lamentou-se:
            — Ai não!... Agora não tem jeito...
            Deu três pancadinhas na madeira, como quem bate para dar sorte, e sentou-se desanimada no caixão, cotovelos apoiados nas coxas, rosto entre as mãos. De relance eu vi essa cena, porque queria ver onde a bola iria cair. E ela descia, descia, descia e ninguém se movia para apanhá-la, ainda mais na direção de quem vinha.
            — Deixa comigo — ordenou o Jorjão, que a agarrou como um goleiro.
            Foi um grito só, aquele bando de homens como crianças de sete anos. Só o Marcílio não se entusiasmou e foi sentar-se ao lado da viúva, enquanto os demais, falando ao mesmo tempo, cercaram o Jorjão, que ria satisfeito. Achei que era hora de pôr ordem naquele enterro e gritei:
— Pera aí! Nada de zona aqui!
— Deixa o Gílson falar, ele sabe o que diz. Deixa ele falar, senão eu não solto a bola!
— ‘Brigado, Jorjão. Seguinte: o Décio e o Ribeiro escolhem os times.
— Mas por que eles? — perguntou o Virgílio Bos... .
— Eles vão sobrar na escolha, né. O Décio, porque é ruim de bola, e o Ribeiro, porque é o Ribeiro...
Nem me lembro direito qual seria o meu time naquela tarde. Mas me lembro de que fui escolhido pelo Décio e de que seria uma memorável peleja do nosso esporte bretão. Os preparativos foram rápidos. Sei lá vindos de onde, apareceram vários tijolos, amontoados três a três, demarcando os gols. Alguém marcou com umas linhas tortas, com um caco de tijolo, o que seriam as áreas e a linha de meio de campo. Os times se organizaram em suas posições, com discussões rápidas e logo resolvidas, de quem jogava no ataque e na defesa. Em dois minutos estava tudo pronto para que o jogo começasse. Alguém lamentou a ausência do sogro no enterro, porque ele poderia ser o juiz. Lembro-me das caras de ansiedade do time adversário e da minha própria expectativa, eu, ao lado do Marcos Kowalsky, esperando para receber o toque de saída, já que a saída era do meu time.
Mesmo que essas cenas ainda estejam muito claras em minha memória e que me lembre bem dos fatos que se sucederam em seguida, ainda me parece incrível que aquela partida de futebol não tenha acontecido. O jogo começou a desandar quando o Marcílio se recusou a catar no gol, em solidário respeito à viúva. Nem as ameaças do Jorjão, que prometia dar a ele o mesmo tratamento dispensado ao Nicanor, conseguiram demovê-lo; e todos nós sabíamos de sua teimosia quando decidia alguma coisa. Irritado, Jorjão quis seguir o jogo sem o Marcílio mesmo, mas o Ribeiro se recusou a jogar com um jogador a menos, ainda mais o goleiro. Impasse, discussões acaloradas, ofertas de trocar um jogador bom por dois ruins, novas investidas sobre o Marcílio e até oferta de dinheiro. Em meio à balbúrdia, o berro do Jorjão proclamando a solução, com aquele seu jeito de quem baixa um decreto definitivo:
— Tá bom. Então vamos pôr o Nicanor no gol!
Estupefação. Todos os jogadores paralisados, uns, talvez, pensando que isso significasse um desafio; vai ver, ele considerava o time dele tão bom que nem necessitava de goleiro. Talvez alguns intuíssem o sentido da morte e da vida presente naquele gesto de colocar um cadáver no gol, uma espécie de ressurreição, de um Nicanor redivivo, enfim integrado à turma, no mesmo time do Jorjão, jogando junto, como nunca fez. Outros intuiriam a própria razão de ser do goleiro, o que joga contra o prazer do jogo, o que impede o gol, aquele que é tão desgraçado que nem grama nasce no lugar em que fica.
— O Nicanor não! — protestou a viúva.
— O Nicanor por que não? — questionou surpreendentemente o Ribeiro, provavelmente já imaginando que ele seria goleiro do time adversário.
— O Nicanor, Jorjão? — perguntei incrédulo.
— É, o Nicanor! — respondeu com segurança o Jorjão.
— O Nicanor, de jeito nenhum! — discordou o Marcílio, fechando com a viúva.
— O Nicanor, só se o nosso gol for menor — negociou o Zé Roberto.
— O Nicanor, pensem bem... Violar cadáver é crime — ponderou o Décio.
— Ninguém vai violentar o Nicanor. Ninguém aqui é norcéfilo...
— Necrófilo, você quer dizer.
— É, é isso aí. A gente só vai pôr ele no gol — contrargumentou Jorjão.
— Mas espera aí, gente. O Nicanor está morto. Será que ninguém aqui tem o mínimo respeito por ele? Que tipo de gente vocês são?! — desesperou-se a viúva.
Revolta da leitoinha e do Marcílio. E Nícia dirigia impropérios a todos nós, palavrões que não ficavam nada bem naquela boca de lábios sensuais. Já que argumentos sensatos não funcionaram, baixou o nível pra valer. Nova estupefação dos demais, outra vez paralisados; menos do Jorjão, que, sabíamos, falava sério, tanto é que nem esperou outros argumentos mais racionais, que de certo viriam por parte do Décio: deu um chega-pra-lá na viúva e no Marcílio, abriu a tampa menor do caixão e agarrou o Nicanor por baixo dos braços com mãos cruzadas sobre o peito. Mas, em vez de levá-lo em direção ao gol, como esperávamos, ficou parado com ele de pernas penduradas e cabeça caída, olhando meio espantado para nós. Foram longos segundos, antes que dissesse admirado:
            — Gente! O Nicanor tá quente!
            — Claro, né, Jorjão. Com este calor, ele aí parado no sol, você queria o quê...
            — Mas ele tá suando!... Morto, que eu sei, peida, mas suar, não...
            — Põe ele de volta, Jorjão — ponderou o Décio. — Vamos enterrar o desgraçado e depois a gente joga. Vamos ao menos dar-lhe na morte a dignidade que ele não teve em vida. Vai, a brincadeira acabou.
            Jorjão nem prestou atenção ao Décio. E continuava com sua cara de surpresa intrigada, olhando o esquife vazio, como que querendo atinar com o sentido da situação. O que disse deixou a nós intrigado:
            — Tem queijo no caixão dele! Olha lá!
            O Zé Roberto foi olhar, abrindo em seguida a outra tampa que permanecia fechada.
            — É! Tem queijo, pão e garrafa térmica! Tem até um saco plástico com resto de comida... deixa eu ver... casca de maçã...
            — O Nicanor gostava de queijo, eu pus aí para que descansasse em paz — argumentou pateticamente a viúva.
            — Gostava de garrafa térmica e de lixo também?
            Mas um grito impressionante voltou a deixar todo mundo estático, num misto de susto, medo e incredulidade. Era o Nicanor. Aproveitando o pasmo do cortejo, Nicanor saiu correndo. Jorjão foi o primeiro a recobrar a naturalidade e correr atrás dele, gritando insultos e ameaças, logo seguido por metade do cortejo, enquanto a outra metade, inclusive eu, cercou a ex-viúva exigindo uma explicação.
            Histérica, Nícia Leitão jogou-se no chão esperneando, mostrando as grossas coxas morenas, berrando frases desconexas em meio ao pranto convulsivo e ao descontrole do corpo, amparada por frases carinhosas do Marcílio, que procurava inutilmente baixar sua saia para que não víssemos a calcinha cor-de-rosa. Tivemos que esperar o fim da crise histérica da leitoinha, para entender. Difícil foi controlar o Marcílio, que ameaçava brigar com todo mundo se não a deixássemos em paz. Foi só quando alguém o acusou de participar da tramóia, colocando-o na defensiva, que ele se deu conta de que também precisava de explicações. Então se concentrou nos consolos e deixou que ela falasse.
            Do Nicanor, durante muitos anos ninguém soube mais, e quem sabia não falava. Recentemente foi visto entrando numa mansão em Miami, num carro conversível, acompanhado por uma loira e pelo Ribeiro. As poucas informações que temos, foram dadas pelo Ribeiro, sempre muito reticente ao falar do amigo. Parece ser pessoa proeminente na cidade e é conhecido pelo nome de Nick Americano. Certamente o Nicanor achou seu lugar nos Estados Unidos.
            Comentava outro dia com o Décio — hoje um intelectual respeitado muito além das “fronteiras” de Americana — que o Nicanor tinha em si a essência do capitalista. Tudo para ele, sem excluir as pessoas, era objeto de possíveis vantagens e lucros. Ele era absolutamente fiel a esse princípio desprovido de qualquer princípio. Sem dúvida um amoral absoluto, íntegro em seu profundo e doentio individualismo. Predestinou-se a ser rico e se dar bem na vida, não importava como, o que parece ter enfim conseguido nos Estados Unidos — sabe-se lá de que jeito...
            Mas seu enterro foi a última artimanha que aprontou em Americana, e teria dado certo, não fosse aquela bola, vinda não sei de onde, cair no meio do cortejo. Já havia preparado tudo. O coveiro o colocaria numa gaveta do túmulo da família Leitão, sem fechar totalmente, para que pudesse respirar. À noite, abriria, levaria sua generosa parte e Nicanor sumiria do mapa. Seria seu grande golpe. E o atestado de óbito? Nícia Leitão não soube explicar como se deu exatamente a transação. Um dia ele apareceu com o atestado, devidamente assinado pelo doutor, e pronto. A visita do doutor no dia de sua “morte” foi um encontro amigável celebrado com whisky. Com certeza o doutor Castro receberia também sua parte no trambique. Claro que o médico não saiu ileso. Perdeu credibilidade e mudou-se para São Paulo. Certamente deve ter levado algum prejuízo, porque misteriosamente foi arquivado o processo no Conselho Regional de Medicina. Na polícia, a mesma coisa. Pouco sei dele, atualmente; mas dizem que tem uma clínica e está rico — é um Nicanor da Medicina, como tantos por aí.
            Nícia Leitão nos contou em detalhes os arranjos, após o término da crise histérica, com a devida paparicação do Marcílio. Mesmo o seu casamento fazia parte do plano. Nicanor não só ameaçou decretar a falência de seu pai, dono de uma pequena indústria de tecidos, como também dizia que iria matar a família Leitão inteira, se o Jácomo se suicidasse. É que ao ver tudo perdido, Jácomo Leitão falou em se matar. Em contrapartida, se desse a leitoinha para sua esposa, ele zeraria as dívidas e o casamento duraria no máximo dois anos, quando ele morreria. E ele teria, no fim, a filha de volta, a fábrica e mais um lucro do casamento. Para salvar o pai, a família e a si mesma, Nícia topou. Ninguém, além dela, do pai e do Nicanor, sabia disso. Nem o Marcílio, que ouvia tudo com lágrimas nos olhos, dividido entre se sentir enganado e ter pena da quase viúva.
            O lucro desse trambique? O seguro. Ou melhor, os seguros. Sua morte renderia milhões, tendo Nícia Leitão como beneficiária. E um dos seguros seria dela. Os outros, os maiores, ela depositaria numa conta de um banco dos Estados Unidos, para onde ele iria após a sua “morte”. Ao que parece, a falta desse capital inicial não foi empecilho para o Nicanor. Se ele tem mesmo a mansão e os carrões em Miami, deve ter achado um modo eficiente de realizar seus objetivos. Melhor assim; o velhaco foi cultivar suas patifarias longe de nós.
            Quem sabe bem dele é o Ribeiro, que o visita todos os anos e passa as férias lá. Engraçado esse Ribeiro... Lida hoje com negócios imobiliários e é surpreendentemente honesto. Outro dia cruzei com ele e lhe falei dessa surpresa. Respondeu-me que a transação imobiliária já era em si suficientemente desonesta, que ele nem precisava acrescentar mais uma dose. Sobre o Nicanor, é sempre reticente; não revela a ninguém de onde vem sua fortuna — o que atiça o imaginário das pessoas que o conheceram. Mas quando alguém pergunta, responde toda vez do mesmo jeito: “ele está bem, muito bem.” E só.
            Já a Nícia Leitão casou-se com Marcílio tempos depois. Viveram uns quinze anos juntos e depois foram ser felizes em outros casamentos. De vez em quando, volto a Americana e reencontro as mesmas pessoas do enterro que não houve e do jogo que não aconteceu. Então fico sabendo dos outros que se mudaram e seguem suas vidas, como o Jorjão, que cria gado em Mato Grosso. Outros continuam por lá, geralmente mais gordos, uns carecas...
            Naquela tarde, aos poucos os acompanhantes que não correram atrás do Nicanor, depois das explicações da leitoinha, foram embora, de volta à vida normal. Eu fui o último, parado ao lado de um ataúde vazio, com uma bola na mão e um sorriso que nem eu defino no rosto. Nem lembro muito bem o que eu pensava, se é que pensava alguma coisa. Uma fala de garoto tirou-me do olhar perdido em nada:
            — Moço...
            — Que é, moleque.
            — Dá essa bola pra mim?
            Olhei quatro meninos que tinham os olhos gulosos presos à bola que não chutei. Mas a minha primeira reação foi a de segurar a bola, não dar a eles de jeito nenhum. Lembrei-me do Ribeiro e entendi o que ele deve ter sentido. Então passou-me pela cabeça que aquele jogo poderia ainda acontecer em outro lugar, talvez num campo de futebol mesmo. Com certeza todos aceitariam de bom grado a convocação e desta vez o Marcílio jogaria no gol. À minha frente, os meninos me olhavam com ares interrogativos, cheios de expectativa por minha resposta. Olhei fundo nos olhos do que havia falado comigo e sorri.
            — Toma aí...
            E os quatro saíram felizes, tocando a bola de primeira, com certeza em busca do resto da turma para uma boa pelada que toda bola merece.

3 comentários :

  1. essa crônica é muito boa. li pela primeira vez na época em que era seu aluno, no Equipe. com certeza é uma das que eu mais gosto, pela situação - totalmente inusitada - e pelo inescrupuloso do nicanor; um velhaco!

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  2. Que chique. Gostei muito do site. Parabéns. Seus texto são ótimos. Se tiver tempo será bem vindo ao meu portal www.ranchodascronicas1.wordpress.com Abrs

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    1. Que bom que gostou! Agradeço aos comentários. Gílson

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